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Vampira ergueu os olhos para o céu novamente, desta vez estremecendo com o arrepio mórbido que lhe percorreu o corpo.
Ela passara as últimas horas sentada no mais baixo degrau da varanda, com os pés afundados na areia. Observou o céu que parecia estar sendo engolido pelo breu da noite e as nuvens que foram se juntando e enegrecendo. Não era uma visão que ela poderia dizer que estava gostando de presenciar. Tempestades sempre a deixavam desconfortável e impaciente.
Ela observou as mãos nuas caídas sobre seu colo durante alguns instantes. Tentou durante a tarde toda evitar qualquer pensamento que incluísse Gambit, mas falhou várias vezes. E quando conseguia afastar os pensamentos dele, parecia ser pior, pois tudo em que conseguia pensar então era nos X-Men em Bayville, a perda inesperada de seus poderes e a estada de incerta duração na casa onde agora só parecia se encontrar em corpo. E agora, mais uma vez, seus pensamentos se voltavam para ele.
Como que pressentindo isso, Gambit chegou por trás, sempre tão silencioso, e deitou uma manta fina nos ombros de Vampira. Ela, mais uma vez, o encarou surpresa. Quando você vai parar de me surpreender, Remy LeBeau? pensou, incapaz de dizer qualquer coisa em voz alta. Puxou a manta mais apertada, sentindo-se estranhamente aconchegada enquanto ele se sentava ao seu lado. Ele parecia olhar para o céu, mas tinha os olhos tão perdido quanto os dela.
Vampira o observou por alguns instantes, até que, com medo que ele se virasse de repente, afastou o rosto. Não conseguia deixar de pensar que Gambit devia estar cansado de ficar ali esperando com ela. Ela duvidava que ele fosse do tipo de cara que sossegava e se fixava em algum lugar por muito tempo; tinha certeza disso.
Mas então por que ele não foi embora quando teve a chance? Ela definitivamente não queria pensar nisso, mas ele estando tão perto... Ela respirou fundo, aliviada, quando ele voltou a falar.
"Estranho, não é?" ele disse de repente, não para puxar conversa sobre o assunto mais óbvio, mas porque também sentia a estranheza daquele céu escuro. "Esfriar assim... mais uma tempestade a caminho."
Ela meneou a cabeça afirmativamente. "Eu não achei que pudesse fazer frio aqui" ela disse, respirando fundo e puxando a pequena manta mais apertada, que lhe cobria apenas as costas e braços. Ela fechou os olhos por um instante, juntou de leve as sobrancelhas como se lutando internamente.
Ele a lançou um olhar compassivo, o qual ela pareceu sentir, pois quase no mesmo instante abriu os olhos e voltou o rosto branco para ele apenas por um instante. Fugiu dos olhos dele quando achou ter encontrado pena dentro deles.
"Pensando nos X-Men?" ele perguntou, percebendo o semblante tristonho da garota, e sem desviar seus olhos escuros.
Já era fim de tarde, e depois de mais um dia fugindo um do outro, Remy achou que chegara a hora de parar e se enfrentar. Sentiu a necessidade de compartilhar algo com ela. Perceptivo, notou facilmente que ela estava triste. Primeiro achou que por esse motivo esta seria a ocasião menos adequada para tentar uma aproximação, mas pensando um pouco mais a respeito, viu que era a mais apropriada.
Vampira estava evidentemente vulnerável, e ele poderia se aproveitar disso. Não para confundi-la mais ou algo do gênero; mas para honestamente dar um passo à frente na estranha relação que eles estavam vivendo.
Ela levou alguns instantes para responder. Tentou escolher as palavras certas, mas mesmo quando abriu a boca para falar, as palavras que surgiram não pareceram as certas. "Não. Não apenas isso..."
"Seus poderes?"
Ela fez um silencioso sim. E começou com a voz fraca: "É tão estranho, quer dizer, eu... por tanto tempo eu quis me livrar dos meus poderes. Eu sempre achei que eles fossem um fardo que eu teria que carregar por toda a minha vida" fez uma breve pausa. Ela odiava, evitava falar sobre os seus poderes com quem quer que fosse; mas naquele momento sentia que precisava desabafar. O mais estranho era que Remy parecia sim ser a pessoa mais adequada para se abrir; ela sentia que ele a entenderia por algum motivo; então não hesitou mais.
"Uma maldição..." ela continuou, enfatizando essa última palavra. "mas agora que estou sem é como se uma parte de mim tivesse morrido. Eles eram parte de quem eu era... sou; eu gostando ou não" ela fez mais uma pausa. Quis olhar para ele, mas de repente não conseguiu. "Às vezes eu fico imaginando se quando eu voltar... quando eu voltar para o Instituto, se ainda haverá um lugar para mim" deu de ombros e uma risadinha sem graça. "Se meus poderes não voltarem, não serei mais uma X-Man."
"Está enganada" ele respondeu, enfático, mal ela terminara de falar. Ela lhe lançou um olhar confuso; não era a resposta que achou que ouviria. Aliás, não achou que obteria uma. "Pelo pouco que eu vi de vocês, Vampira, eu duvido que eles te rejeitariam da maneira que fosse. Só um cego pra não perceber que vocês são uma família... uma bem estranha" ele completou com um tom quase cômico. Vampira sorriu. "mas ainda assim uma família."
E pela primeira vez, o silêncio que se instaurou em torno deles não foi constrangedor; mas sim um que significava que duas pessoas estavam de acordo mesmo que não expressassem isso verbalmente.
Vampira acordou no meio da noite, assustada, e com a sensação desamparada de estar caindo. Sentiu o coração disparado, a respiração acelerada e o corpo suado, sem saber se era devido ao calor ou se tivera um pesadelo.
Nos primeiros instantes que abriu os olhos, que sentiu estar acordada, não soube onde estava. Chovia tão forte que beirava o assustador. Achou ter ouvido um barulho próximo, mas com a tempestade era difícil dizer se não passava de imaginação.
Um raio, que pareceu cair a poucos metros dali, iluminou o quarto. Vampira virou o rosto no mesmo instante e viu que Gambit se levantava. Mais um clarão, e ela o viu se voltar em sua direção e, com o indicador sobre os lábios, pedir silêncio. Seu coração gelou. Então não imaginara coisas. Devia haver algo lá fora.
Relâmpagos intermitentes continuavam a iluminar o lugar por segundos, que eram sucedidos por outros escuros.
"Volta pra cama" ele sussurrou ao vê-la fazer menção de se levantar. Como num passe de mágica, surgiram cartas de baralho em suas mãos. "Eu falei pra você voltar pra cama" ele disse, agora quase irritado ao perceber que ela estava no seu pé.
"Não!" ela respondeu no mesmo tom, incisiva.
"Isso não é uma discussão, Vampira. Eu vou lá fora ver o que é e você fica aqui quietinha."
"Não me trate como se eu fosse uma mocinha indefensa. Você sabe que não é o caso."
"Você está sem poderes" ele murmurou, cada vez mais irritadiço.
"Eu não preciso deles" ela afirmou com mais confiança do que realmente sentia.
Gambit suspirou derrotado, mas não disse mais nada, o que indicava uma concordância relutante.
Eles seguiram a passos lentos e silenciosos até à porta dos fundos. Vampira tentava caminhar ao lado de Gambit, mas ele propositalmente se colocava de modo que ela ficasse sempre atrás. Logo, se encontraram no espaço entre a cozinha e o sofá, a poucos metros da porta.
"Vampira?"
Ela se aproximou, quase encostando nas costas dele. "Sim?"
"Vai na cozinha e arranja algo que eu possa usar, oui?"
"Tipo talheres?" ela perguntou num sussurro e com a voz trêmula.
"Oui. Tipo talhares."
No escuro, ela foi caminhando lentamente, apalpando o ar. Ainda não sabia onde estavam os móveis e acabou tropeçando.
Os trovões iluminaram o lugar todo por mais alguns instantes; pareciam estar cada vez mais frequentes, o que possibilitou que ela conseguisse encontrar a gaveta dos talheres e apanhar alguns deles.
Ela amaldiçoou em silêncio por não conseguir trazê-los tão silenciosamente quanto pretendia. "Aqui, Gambit" ela manteve uma faca grande consigo. Segurou-a firmemente no punho direito, perto ao peito.
Gambit apanhou os talheres movendo apenas a mão direita de maneira quase imperceptível. Graças à natureza de seus poderes, tudo que caía em suas mãos poderia virar arma – em certos casos, até mesmo uma letal.
Ele posicionou os objetos em seus dedos ágeis enquanto olhava fixamente para a porta. Mais um trovão explodiu e seus olhos brilharam intensamente, pareceram assustadoramente demoníacos, capazes de fazer o inimigo sentir medo congelante. Mas a verdade era que Gambit não fazia ideia de contra quem ou que estava se posicionando.
Com a mão que tinha livre, ele empurrou Vampira para trás de si mais uma vez. "Fica atrás de mim, chère" disse num murmúrio quando percebeu que a teimosia dela a colocaria do seu lado de novo.
"Você viu isso?" ela perguntou, aflita.
Uma sombra parecia ter passado pelo lado de fora da porta de vidro; mas como estava escuro a maior parte do tempo, era difícil distinguir o que fosse. Então, num estrondo, alguma coisa pareceu ser arremessada contra ela. Por pouco eles não deram um pulo para trás.
Por alguns segundos os raios pareceram se acalmar. Usando a luz de uma carta energizada, Gambit se aproximou da porta, mais calmo, pois agora compreendia do que se tratava. Todo o tempo não passou de uma árvore batendo contra a casa. A intensidade da tempestade a derrubou.
Eles puderam finalmente respirar.
"Tá tudo bem, chère. Foi apenas a árvore."
Vampira passou a mão pelo cabelo. A passos tortos, foi até a cozinha, acendeu as luzes e deixou a faca que segurava em cima da bancada. Apanhou um copo d'água com as mãos trementes. Tornou os olhos assustados na direção de Gambit. "Você também achou que fosse ele?"
"Não" ele respondeu calmamente enquanto se livrava das armas, que agora voltaram a serem apenas talheres.
Vampira se aproximou um pouco. "Você deve estar perdendo o jeito, cajun, porque eu tenho certeza de que você está mentindo."
"É claro que passou pela minha cabeça" ele respondeu, sem em nenhum momento mostrar hesitação. "Mas se eu tivesse que apostar, colocaria todas as minhas cartas contra. Ele não sabe onde estamos, Vampira. Ninguém sabe. Nós estamos protegidos aqui. Nos restam apenas duas opções: viver com medo, paranoicos; ou simplesmente acreditar que nós dois estamos seguros e aproveitar."
Ela ia perguntar o que ele queria dizer com 'aproveitar', mas era justamente a única coisa no discurso dele que não importava. Vampira fechou os olhos apertados após trovejar mais uma vez.
"Eu odeio tempestades" ela disse. "Eu sempre tinha pesadelos com raios, com trovões quando era criança" Gambit deu alguns passos à frente; ela nem percebeu. "Eu me lembro de... de uma noite quando eu era pequena. Antes da Mística me adotar" ela ignorou o amargo daquele nome o mais rápido que pôde. "Eu ouvi gritos. Eram as vozes dos meus pais. Eles estavam alterados" ela engoliu em seco. "Chovia muito forte naquela noite. A partir daí parecia que toda vez que chovia eu podia ouvir os gritos deles nos raios. E... até hoje eu não consigo dormir bem quando chove forte. Ainda ouço as vozes dentro da minha cabeça" inconscientemente levou a mão à cabeça. "Eu sinto que aquela situação não era frequente... eu sinto que, que eles estavam lá comigo, eu sinto isso, mas ironicamente essa é a única lembrança vívida que tenho deles" então ela riu amargamente.
"Você devia se sentir com sorte por pelo menos ter alguma lembrança dos seus pais" ele disse, amarguradamente.
Durante toda a sua fala, ela sentiu o coração apertado, mas foi apenas quando tornou o rosto na direção do dele que doeu; ela sentiu os olhos encherem de lágrimas. "Eu... eu sinto muito."
Os lábios dele se curvaram num sorriso reconfortante. "Não sinta" disse, dando as costas.
Vampira se apressou para alcançá-lo, tocando o braço dele quase em uma carícia. "Você não conheceu os seus pais?" ela perguntou com a voz fraca, triste.
Ele fez que não. "Nem sei quem eles são."
A mão que o tocava escorregou pelo braço dele e se afastou quando ela percebeu que ainda o tocava. Mas o embaraço que ela teria sentido em outra ocasião passou despercebido, de tão pequeno que era.
Ele voltou a falar. Depois de ela ter confessado memórias tão pungentes, fazer o mesmo não parecia tão ruim. Talvez lhe trouxesse alguma espécie de alívio. "Acho que dar à luz a uma criança com esses olhos não deve ter sido a melhor experiência."
"Você acha que foi por isso?"
Ele deu de ombros. "Quem sabe? É o que parece fazer mais sentido."
"E o seu nome?" ela perguntou, tentando não parecer hesitante. Ansiou saber mais sobre ele; aproveitou a chance de ele estar falando.
"Eu fui adotado aos dez anos por um homem chamado Jean-Luc LeBeau."
Ela sorriu como se tivesse compreendido. Ele viu nos olhos dela que Vampira queria saber mais. Ele tocou o queixo dela, o elevando de leve. "Ele cuidou bem de mim, Anna, mesmo tendo feito bom uso dos meus poderes, por assim dizer."
Naquele instante, Vampira se lembrou da noite no hotel na cidade quando ele disse que a compreendia. Somente agora ela acreditava.
"Bem que poderíamos escrever um livro, você e eu" ele deu um sorrisinho, falou em tom leve, quase de deboche. O rosto dela, entretanto, se tornou grave. No fundo ele falara a sério. Eles compartilhavam experiências semelhantes.
Sem dizer mais nada, Gambit virou nos calcanhares e seguiu para a cama. Vampira demorou mais tempo. Quando finalmente se aproximou, Gambit estava sentado na cama, brincando com um maço de cartas. Ela não negaria que gostou de ver que ele ainda estava acordado.
Ela se sentou, cobriu as pernas com o lençol e tomou coragem para voltar a falar. "Não sei se vou conseguir dormir mais."
Gambit passava uma carta – ela não conseguiu ver qual – entres os dedos; ela deslizava por cima e por baixo de dedos ágeis, um de cada vez. "A tempestade está mais fraca. Logo passa."
"Não é só isso."
"O que é então?" ele perguntou, finalmente voltando o rosto para ela.
"Eu não sei."
"Vai ver que dormir na cama com o inimigo ainda a perturbe" e toda a suavidade que houvera na voz dele de repente se dissipou.
"Não" ela disse o mais rápido que pôde. Chacoalhou a cabeça, quase desesperada para que ele acreditasse. Ele fizera de novo. Estragara um momento sincero com comentários desnecessários. Desta vez ela quase sentiu raiva dele por isso. "Você não é..." mas sua voz morreu.
"Termine a frase" ele disse ao aproximar o rosto do dela. Suas cartas mais uma vez desapareceram. "O que eu sou?" ele indagou, exigiu. No momento (e mais adiante quando pensaria nisso) ele não sabia se estava agindo daquela forma apenas pelo simples prazer de pressioná-la, de deixá-la desequilibrada ou se no fundo tinha esperanças de obter uma resposta verdadeira, sendo ela qual fosse.
Ele não admitia parecer fraco. Devia estar fora de si quando disse aquelas coisas. "O que eu sou para você, Vampira?"
"Eu não sei" ela disse, finalmente, em tom de derrota como num sussurro. "Mas você não é mais o inimigo" ela sentiu os olhos molharem enquanto os dele viajaram pelo seu rosto. Não como na primeira vez, nem como em nenhuma outra. Ela virou o rosto.
"Quer que eu saia daqui?" ele perguntou após silêncio. Olhando-a de soslaio e com certa melancolia.
"Não" ela respondeu ao se virar. "Fica."
Aos ouvidos dela, ele não parecia ter perguntado por provocação. Apenas ele sabia que tinha sido por egoísmo, por covardia. Seria um bom pretexto para se afastar dela. Brincadeiras à parte, na mesma cama ficava difícil pensar.
Exatamente como na manhã do dia anterior, quando Vampira acordou, Gambit não estava mais deitado ao seu lado.
Ela permaneceu na cama mesmo após estar completamente desperta. Fora mais uma noite difícil para cair no sono. Tinha sido o mesmo para Gambit, ela sabia; ele não conseguiu parar quieto. Virava de um lado para o outro, mudava de posição, mas parecia incapaz de adormecer. Vampira não saberia dizer se ele dormira em algum momento, pois depois de muito esforço, conseguiu cair no sono, derrotada pelo cansaço.
Ela então se pôs em pé. E, após um banho demorado, foi preparar algo para comer.
Os minutos iam passando tão lentamente que ia ficando cada vez mais insuportável permanecer naquela casa vazia.
Tomando uma atitude, Vampira resolveu explorar melhor a praia. Devia haver muitos lugares bonitos para se ver e relaxar. Gambit devia estar em um deles naquele mesmo instante. Quem sabe ela não encontraria com ele pelo caminho. Só porque ela não tinha certeza de que era bem isso que desejava, não queria dizer que não passara pela sua cabeça.
Seguindo para os fundos, Vampira pulou por sobre a árvore caída na noite passada, e saiu caminhando sem rumo. Seguiu por uma trilha estreita por entre árvores até ver algo que lhe encheu os olhos. Ela se deparou com uma pequena queda d'água. A água que caía parecia se fundir a um riacho de água verde.
Ela sorriu em deleite. Desconfiara do que ia encontrar pelo som da água caindo, mas não imaginara que encontraria um lugar tão bonito.
Ela não pensou duas vezes, tirou os shorts (resistindo para não se livrar também da regara, e só não o fez porque não usava mais nada por baixo) e mergulhou na água de cabeça.
O sol já não batia ali, encoberto pelas árvores mais altas, mas a água ainda estava quente. Era tão límpida que dava para enxergar as pedras ao fundo, que eram em maioria grandes e não pareciam machucar se por acaso Vampira as tocasse com os pés.
A garota nadou livre como não fazia há muito, muito tempo. Não nadava em um lugar assim desde que saíra de sua cidade natal e fora para Bayville. E, mesmo antes disso, momentos assim já não eram tão frequentes como quando era criança.
Antes que pudesse perceber, se viu novamente sendo a moleca que fugia para nadar no rio. Quando ainda não havia poderes de absorção, quando tudo era mais fácil, quando a verdade não doía, quando não havia responsabilidades e o peso dos erros não tornava seus passos tão lentos.
Do outro lado da praia, Gambit voltava para a casa após uma longa caminhada. Saíra tão logo o sol raiara. Não conseguira dormir quase nada, e precisava espairecer.
O tempo estava absolutamente lindo; era como se depois de uma noite tempestuosa de trevas, o sol nascera imponente. Quando este começou a ficar forte demais, Gambit percebera que talvez tivesse caminhado por mais tempo que pretendera. Seu estômago reclamando era mais um indício.
Chegou a casa, apanhou uma fruta da cesta que montara dois dias atrás, e, por fim, percebeu que Vampira não estava ali. Ela não saíra da casa antes. Gambit sentiu uma pontada de preocupação. Disse a si mesmo que não havia problemas, entretanto, se lembrou do estado da garota na noite anterior. Tão assustada, abalada.
Ele a chamou em voz alta, mas não houve resposta. E se ela tivesse se afastado demais da casa? Se...
"Ela está bem" ele murmurou para si mesmo, tentando debochar daquele sentimento ridículo. Abocanhou a fruta, mas mastigou-a sem sentir o gosto. "Ela sabe se cuidar."
Só que mais de uma hora mais tarde, Vampira não aparecera. Gambit saiu, olhou em torno da casa. Indo para os fundos, com esforço, retirou a árvore caída e que fora a causadora de tantas preocupações horas antes. Ele então percebeu, sem dificuldades, pegadas de pés descalços. Seguiu pelo caminho que ela seguira, não demorando a encontrar o riacho que também desconhecia.
Viu através da água clara o corpo de Vampira lentamente emergir. Ela passou uns instantes flutuando com o rosto voltado para a água sem se mover. Para ele pareceu haver algo de errado. Sem dizer palavra, se jogou na água como estava, sem ponderar por um instante. Contudo, antes que pudesse tocá-la, Vampira se virou, alarmada pelo barulho de algo pesado caindo na água.
Seus olhos assustados deram com os dele. Ela fitou, com fios de cabelo sobre os olhos, aquele rosto com fisionomia esquisita sem entender o que se passava. Os olhos dele também indicavam tremenda confusão. Gambit fechou o rosto e, sem dizer absolutamente nada, saiu da água, dando as costas para Vampira.
Ela foi logo atrás. Vestiu rapidamente os shorts por cima da calcinha molhada e correu para tentar alcançá-lo. "Gambit, espera! Gambit!"
Ele fingiu não ouvir e continuou caminhando a passos largos sem dar brechas para que ela lhe alcançasse até que chegassem a casa.
Assim que entraram, Vampira o puxou pelo braço, forçando-o a se virar. "Será que você pode me explicar o que foi aquela cena, cajun?" a esta altura sua paciência estava por um fio.
Gambit a encarou por vários instantes. "Eu achei que... que você tivesse sumido" ela franziu o cenho ainda mais fundo, ele fechou mais o rosto. Sua voz que saíra quase como um murmúrio, de repente se tornou grave. "Nunca mais faça isso, está me ouvindo?"
"Eu ainda não entendo por que você ficou assim" ela elevou a voz sem perceber. O tom mandão na voz dele a irritou imensamente. "Foi você quem desapareceu a manhã inteira."
"Por isso mesmo" ele disse, então sua voz voltou a ser um murmúrio doloroso enquanto se aproximava dela perigosamente. "Eu achei que tivesse perdido você."
Vampira deu um passo para trás quando o percebeu vindo em sua direção. Suas costas encontraram a porta, e Gambit prensou seu corpo molhado contra o dela, deitando seus lábios sobre os seus intensamente.
Tamanha a surpresa, ela não soube o que fazer com as mãos nos primeiros instantes, mas não demorou para que, instintivamente, as repousasse entre o peitoral e os ombros dele. Remy a puxou para perto envolvendo um dos braços na sua cintura e o outro na nuca.
Nenhum dos dois saberia dizer quanto tempo durou, mas foi o suficiente para fazê-los perder a noção de realidade. Só quando não puderam mais respirar que afastaram suas bocas. Seus peitos subiam e desciam rapidamente, seus lábios semiabertos – ainda tão próximos – pulsavam, e seus olhos, confusos, não viam nada.
Tão inesperadamente quanto se aproximara, Gambit se afastou dela com dois passos para trás. Num piscar de olhos, havia desaparecido pela outra porta.
Continua…
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