Disclamer: Saint Seiya não me pertence, nem seus personagens.

Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens.

EXTRA: Hyoga I

Hyoga POV

Uma imensa lua cheia boiava no céu escuro acima dos altos muros da faculdade iluminando o caminho como faria qualquer poste de iluminação.

Não que não houvesse, é claro, postes de iluminação. Havia. Mas o brilho da redonda lua branca tornava quase completamente supérflua a bruxuleante claridade amarelada dos postes. Mesmo que todas as luzes de Boston tivessem se apagado, as pessoas com negócios a resolver tarde da noite ainda conseguiriam andar pelas ruas com relativa facilidade, iluminados por aquela lua extraordinária.

Ou, talvez, eu só estivesse bêbado demais. Sim, era isso. Provavelmente aquela lua não era absolutamente diferente de nenhuma outra que eu já tivesse visto, e eu que ainda estava excessivamente intoxicado por toda a vodka que bebera durante a noite. E a razão de eu ter sido capaz de encontrar meu caminho tão facilmente na madrugada escura nada tinha a ver com a luz da lua, mas com o fato de já ter percorrido aquele mesmo caminho inúmeras vezes.

Eu nem mesmo tivera que olhar, de fato, para onde estava indo. Meus pés me levavam no rumo certo. E enquanto caminhava, conseguia me concentrar em outras coisas - até onde eu era capaz de me concentrar em algo no estado em que estava, obviamente. Como por exemplo, em por que diabos eu havia inventado de beber tanto?

Mas eu sabia o porquê. Sabia perfeitamente o porquê.

Eu podia usar a desculpa de que havia discutido novamente com Freya, é claro, mas o motivo que me levara a me embebedar daquele jeito naquela noite não era Freya. Não era Freya que ocupava todos os meus pensamentos, a ponto de impedir que eu me concentrasse adequadamente em qualquer outra coisa. Não era ao lado de Freya que eu ansiava indignamente estar o tempo todo. E não era, absolutamente, a imagem de Freya que me mantinha tantas vezes acordado, rolando na cama, durante a noite.

Meu Deus, aquilo era tão errado!

Eu estava confuso. Muito confuso. Tanto que me deixara arrastar pra aquela boate decadente.

Um inferninho escuro, abafado e cheio de gente esquisita. O que era estranho, considerando que Seiya estava convencido de que o lugar era ótimo. E Seiya conhecia as melhores baladas na cidade.

Radamanthys, eu descobrira, era o nome do homem de olhos dourados que parecia dar as ordens por lá, e Zelos era o sujeito mau encarado que gerenciava alguns jogos clandestinos em uma saleta úmida no andar de cima. Talvez eu pudesse culpar a bebida de má qualidade também por ter aceitado tomar parte naquilo.

Eu suspirei.

Sinceramente, jogo clandestino?! Em que raios eu estava pensando?

Minha mente voltou minúscula sala enfumaçada. Eles estavam trapaceando, é claro. As cartas obviamente tinham sido marcadas. Mas quando eu disse que o jogo fora preparado, em vez de rir da acusação como qualquer pessoa normal, o tal Zelos simplesmente me apontou uma arma. Uma arma de verdade! Eu já tinha visto coisas assim em filmes, mas não esperava que pudessem acontecer comigo.

Graças a Deus que Seiya estava lá. Graças a Deus, pois foi ele que acalmou o cara e garantiu que eu não quisera dizer aquilo, embora não fosse verdade.

Mais tarde, quando estávamos sozinhos, Seiya explicou que naquele tipo de meio não era seguro acusar alguém de trapacear se eu não pudesse provar o que dizia. E as únicas provas que tinha - o desenho no verso das cartas que parecia meio esquisito e o fato de nunca ter perdido daquele jeito - não eram convincentes o bastante.

Mas se eu estivesse raciocinando o suficiente pra ter consciência disso, não teria me metido naquela roubada em primeiro lugar.

Nós acabamos expulsos da boate, no entanto tínhamos sorte de ter escapado com vida. Aparentemente meter uma bala na cabeça de alguém era coisa que o tal de Zelos fazia todo dia.

E pensar que o Seiya acreditou que ele e Radamanthys fossem confiáveis.

De qualquer forma, levar um tiro na cara talvez fosse preferível ao que meu irmão iria dizer quando descobrisse sobre minha pequena aventura por Boston.

Não que ele precisasse saber, é claro. O problema é que eu não gostava de mentir para o Camus. Omitir, ainda vá lá, mas mentir... era algo totalmente diferente. Mentir ofendia todos os meus princípios morais. Eu simplesmente não me dava bem com mentiras.

E, no entanto, mentir era exatamente o que eu vinha fazendo para a Freya nos últimos meses, não era? Minha consciência acusou.

Sentia-me tão culpado. Eu não estava sendo honesto com ela. Ela estava certa em estar desconfiada. Por isso eu sequer fora capaz de negar quando ela me acusara de traição na nossa última briga. Não que eu a tivesse traído de verdade, é claro. Pelo menos, não concretamente. Na minha mente, no entanto, eu a traía o tempo todo.

E eu sabia, sabia que já havia passado da hora de dar um fim aquilo, mas meu compromisso com Freya vinha sendo como uma tábua de salvação pra mim, entendem. Funcionando como uma amarra, uma espécie de freio. E eu precisava de todos os freios de que pudesse dispor pra controlar os impulsos nada castos que andava sentindo pelo meu mais novo amigo.

Infelizmente também sabia que não poderia sustentar aquela situação por muito mais tempo.

Ou ao menos foi o que eu pensei ao chegar até o portão da faculdade.

Ainda sem ter plena consciência do que estava fazendo não me surpreendi ao constatar que ele estava fechado. Tinha que estar assim, é claro, desde as duas horas da manhã. Eram as regras. E agora já passava bastante das três.

Meus pés começaram a se deslocar novamente, dessa vez me levando para além do portão e ao longo do alto muro de pedra que cercava os alojamentos. Eu continuava imerso em pensamentos, sem refletir no que estava fazendo, porque aquilo se tornara um tanto habitual pra mim desde o segundo ano. Era evidente que tínhamos que pular o muro todas as vezes que voltávamos tarde demais das nossas digníssimas noitadas. Assim, quando cheguei ao ponto onde sabia haver uma reentrância na pedra, enfiei o pé nela.

Talvez não estivesse sendo justo com Shun também, eu pensei enquanto alçava o corpo com facilidade até o topo. Afinal, não podia ser certo deixá-lo no escuro desse jeito. E tampouco era certo comigo mesmo. Com o que eu sentia.

Mas, fala sério, Shun entraria com um pedido de liminar pra me manter a uma distância mínima obrigatória de 30 metros dele se imaginasse o tipo de fantasia que andava tendo com ele.

...Ou talvez não.

Tudo bem, eu estava sendo dramático. E isso nem combinava comigo.

Estava prestes a pular o muro, quando ouvi um barulho, como um sutil deslizar de passos, em algum lugar abaixo de mim.

Eu virei a cabeça e murmurei um palavrão. Realmente, tudo que não precisava agora era que o vigia fosse alertado para o fato de que Hyoga Chevalier estava escalando o muro da faculdade como um ladrão. Mas, quando passeei com os olhos pelo pátio enluarado, havia apenas o vazio e o silêncio outra vez.

Sem pensar muito, saltei do alto, aterrissando com os dois pés no gramado do outro lado. Mal havia dado três passos, no entanto, quando ouvi o mesmo barulho outra vez. Seguido por um estalo - um estampido baixo, como o espocar de uma rolha de champanhe. Então o impacto forte de alguma coisa em um ponto acima das minhas costelas - uma pontada rascante e ardente -, e eu estava caindo.

Uma espécie de líquido quente e viscoso se espalhava agora pela minha pele fria, encharcando minha camisa. Aquele cheiro ferroso e enjoativo... Sangue, eu pensei em algum lugar do meu cérebro. Eu estava sangrando. E então, de repente, eu entendi tudo. Eu havia levado um tiro.

Meu Deus, eu fora baleado!

Sentia meu corpo perdendo calor a cada segundo. A morte não era nada romântica como algumas pessoas diziam. Eu não tive uma experiência metafísica, nem vi minha vida passar diante dos meus olhos, ou me arrependi de coisas que eu não tinha feito. Meus olhos embaçados fitavam apenas o céu escuro, e tudo em que eu era capaz de pensar era que não queria morrer. Eu não queria morrer agora.

Então senti passos se aproximando de mim na escuridão. Mãos enluvadas checaram meus sinais vitais. Eu tentei falar, mas tudo que saiu pela minha garganta foi um esgar com gosto de sangue.

Rezava internamente pra que fosse o vigia ali. Para que por milagre ele tivesse escutado meu barulho dessa vez. Era muito melhor receber uma detenção por ter pulado o muro do colégio tarde da noite do que ficar ali pra morrer de hemorragia. Ou pior, a mercê de quem quer que fosse que estivesse me apalpando naquele momento.

Mas eu nunca era surpreendido pela segurança. Meus amigos costumavam dizer que eu era quase um amuleto da sorte quando se tratava dessas coisas. E, como não poderia deixar de ser, os olhos que fitaram os meus apenas um segundo depois não eram os do vigia.

Eram olhos ferozes e dourados, adornados por um sorriso cruel.

– Diga boa noite, garoto. - Disse a voz grossa do meu assassino.

Eu senti uma pancada na cabeça, e imediatamente a brilhante luz da lua desapareceu, levando com ela todos os meus problemas.


Olá a todos,

Bem, ch curtinho dessa vez, mas espero que gostem. Na verdade nem é um ch, mas um extra com um pouco do ponto de vista do Oga. O ch mesmo, no formato que vcs estão acostumadas, tb já está pronto e será postado em breve.

Fiquei super em dúvida se deveria ou não fazer esse extra, mas acabei decidindo que poderia ser interessante, então aqui está ele. E haverão outros no decorrer da história, muitos que, inclusive, são parte da outra fic (uma forma que pensei de entrelaçar mais as tramas) então espero que gostem ˆˆ.

E aqui, finalmente entendemos um pouco melhor os dramas do Hyoga (inclusive o porque ele não termina logo com a Freya), e o que se passou na tal noite do acidente.

E aí, o que acharam? Não sejam tímidos, comentem XD

Enfim, muito obrigada mais uma vez a todos que acompanham e um obrigada super mega especial pelo carinho aos que me incentivam com seus comentários e favoritações: Axly, YokoNick-chan e Dark. ookami.

Bjos