Capítulo X

"I Love Your Peppermint Eyes"

O corpo doía-lhe mais do que quando passava um dia inteiro a brincar com as criancinhas – era como se tivesse sido sovada por todos os lados. As suas pálpebras, por mais que tentasse, não descolavam. A cabeça estava povoada por névoa e por vagos zumbidos. O seu braço direito estava em chama. Ela tentava tocá-lo com a outra mão, mas esta parecia ter ganho uma inércia superior à sua vontade e recusava-se a mover.

Era como se alguém a tivesse prendido à cama, através de cordas invisíveis. Sentia-se pesada, embora incrivelmente magra… Tinha fome, mas só o pensar em comida a fazia sentir o vómito ao cimo da boca.

A garganta estava seca e arranhada. O seu próprio corpo parecia envolto por uma película húmida e áspera. Ao roçar ligeiramente os dedos no tecido, apercebeu-se que era apenas o lençol, ao qual estava completamente colada, através do suor frio que a cobria. Sentindo arrepios de frio pela espinha, tentou puxar o lençol (de repente pesado) para cobrir os seus ombros. O braço esquerdo doía-lhe horrivelmente e, mal tocou o lençol, algo ardente o percorreu, queimando-a por dentro.

"Droga… "

Onde estaria ela naquele momento? Alguém a deitara numa cama, mas aonde…?

Como se de repente tivessem ligado um televisor na sua cabeça, Sakura viu pequenos slides de imagens a sobrevoarem. Touya e Yukito a discutirem na cozinha. Ela a fugir pelas escadas. A chuva pequena que caía sobre os telhados. O olhar meigo de Syaoran. O abraço. E o olhar amarelado e aguçado de um lobo que corria sem parar.

O coração começou a bater mais rápido, enquanto lágrimas de alívio e medo deslizavam pela sua cara.

Syaoran… O que lhe teria acontecido?

Torcendo o rosto num esgar, Sakura abriu os olhos à força, mas nada mais viu que uma completa escuridão. Contudo, uma pálida luz parecia vir de um sítio fora do quarto onde estava. Conseguia distinguir o contorno da porta e alguns baús abertos próximos dela.

Uma dor de cabeça acentuava-se, obrigando-a a fechar os olhos novamente. Estavam pegajosos, como se algo os tivesse colado durante muito tempo.

Curiosamente, ela sentia que algo tinha sido arrancado dela. Movia cada milímetro do seu corpo para comprovar a sua integridade e comprovou que nada lhe faltava.

Sakura… O que é que te fizeram?

A voz irritante e permanente na sua cabeça voltara. Era engraçado – ela nunca falara a ninguém daquela voz, que tantas vezes lhe havia feito companhia, desde pequenina.

Não faço ideia… Sinto-me a morrer.

E, de facto, sentia-se. A própria respiração tornava-se cada vez mais pesada e arquejante.

Onde está ele?

Já pensar se tornava difícil. A sua mente tornara-se enublada de novo.

Que importa isso Sakura? Tu estás viva.

O seu coração bateu de maneira dolorosa.

E se ele estiver…

Morto?

Sakura recusava-se a pensar nisso. Pensar em perder a primeira pessoa com a qual se sentia completamente segura, por não a conhecer bem demais, era como sobreviver à morte para morrer logo a seguir…

As lágrimas ácidas escorreram pela sua face fria.

Syaoran…

Tinha medo e frio. Onii-chan devia estar preocupadíssimo com ela e Otou-san também. No entanto, ela não se conseguia mover, com tantas dores. Não sabia onde estava, lembrava-se apenas de uma dor lancinante quando…

Ele te mordeu.

O coração de Sakura quase parou com a súbita lembrança de Syaoran a acordar e a transfigurar-se em algo medonho e grotesco.

Ele… Não era ele!

Sakura… Era ele. Tu viste-o deitado no chão, depois de se ter transformado em lobo. Quando acordou, aquele traste simplesmente te lançou…

Pára!

Aquilo era demais para ela. Transformações de homens em lobos faziam parte dos contos de fadas. Provavelmente, o pobre animal tinha-se escapado de alguma reserva e tinha apanhado Syaoran no meio daquela confusão… No fim, fora ela quem alucinara.

Sakura… Sabes que não foi isso que aconteceu.

A garota deixou-se cair no turbilhão negro de pensamentos. Ele podia estar morto ou vivo – afinal era apenas um estranho. Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Ele tinha sido um estranho amável desde a primeira vez em que se tinham conhecido, mas não passava disso – um estranho. Um estranho que aparentemente a tinha mordido…

Sentiu os olhos a picar. Perdida na dor, Sakura deixou-se adormecer.

***

O acto de picar cebolas exige um triplo esforço. Primeiro, há que ter o cuidado de não derramar lágrimas sobre a cebola. Se as derramarmos, não podemos sequer esfregar os olhos, porque aí a torrente não pára. E, é claro, assim que a primeira lágrima cai, a visão turva e corremos o risco de nos cortarmos com a faca.

Syaoran nunca derramara uma lágrima sobre a cebola. Cortava-a em pedaços ínfimos, mas rigorosamente intactos, mantendo os seus olhos secos. O que realmente ardia eram as suas feridas, ainda em chaga, que a magia não tinha conseguido curar.

As suas mãos mexiam-se automaticamente, enquanto misturava o azeite com a cebola picada. Num tacho ao lado estava uma outra mistura amarelada e um pratinho com salsa. A bancada mantinha-se impecavelmente limpa, onde tudo reluzia num branco transparente espantoso. As facas, cuidadosamente afiadas, eram guardadas numa tábua avermelhada com ranhuras feitas para cada uma delas. Do lado direito, duas taças vermelhas com caracteres chineses aguardavam, pacientemente.

O garoto mexia cuidadosamente o preparado amarelado com a cebola picada e o azeite, com gestos lentos e circulares, que envolviam toda a massa de uma só vez. A substância amarela formava bolhas e elevações, polvilhadas com a salsa.

Syaoran olhava fixamente para a massa, tentando concentrar-se no verde dos pedaços da salsa… Mas de novo surgiu na sua mente o olhar aterrorizado da garota que dormia agora na sua cama. Aqueles olhos verdes líquidos, abertos em puro terror… Por ele ser um autêntico monstro. Literalmente.

Pousou o tacho suavemente na bancada, enquanto esfregava a sua mão direita. As unhas ainda tinham aquela coloração mais negra e eram ainda bicudas. Suspirou, enquanto sentia o habitual aperto no seu peito. Teria sido tão melhor se o tivessem morto…

Pegou na massa e começou a fazer bolinhas perfeitas com ela, usando ambas as mãos. Tremia um pouco e teve de usar também uma colher para alisar a massa.

Pela janela entravam os primeiros raios de Sol de uma manhã nublada. Ele passara a noite toda, desde que chegara a casa, entre o quarto, tratando das feridas de Sakura, e a cozinha, onde cozinhava desalmadamente. O corpo tremera-lhe a noite toda e partira já dois pratos à conta disso. Os cacos espalhavam-se pela cozinha e cortavam-lhe ainda os pés. Que importava, a sua pele regenerava-se…

Para ti, meu rapaz, o castigo será pior que a morte. Vais desejar morrer das maneiras mais hediondas possíveis, até que te consumas por completo…

Ele recordava-se da cara do mago que lhe dissera aquilo. Era alto e pálido, de cabelos completamente brancos. O sorriso era uma fenda no rosto enrugado, o que o assemelhava a uma cobra. Sorrira de forma maquiavélica quando pronunciara a sentença do pequeno Xiao Lang, ouvindo os gritos da poderosa feiticeira Li.

Segundos mais tarde, a feiticeira era morta. Por piedade.

Syaoran cerrou os olhos, deixando cair as lágrimas provocadas pelo aroma da cebola. Pouco depois do seu oitavo aniversário, o seu pai falecera repentinamente, sem se saber bem como ou porquê. Mais tarde, todo a família Li recebera um ultimato – entregar os livros de magia de Clow Reed ou submeterem-se ao poder de um novo Clã, recentemente formado. Chamavam-se a si próprios Sieh. Não passavam de um grupo de magos mais ou menos poderosos que consideravam que Clow Reed tinha menosprezado o poder que adquirira. Não o usara nem para o bem nem para o mal e recusara-se sempre a ensinar determinadas pessoas. Isso merecia castigo, aos olhos deles. E, uma vez que Clow Reed já falecera, deixando apenas um reles bastardo sem poderes, a vingança recairia sobre a família que possuía ainda ligações de sangue com o traidor. Todos eles, sem excepção, tinham poderes fenomenais. E, todos eles, sem excepção, seriam mortos.

Assim, a vingança foi-se dando devagar, lentamente, carcomendo todos os membros da família até chegar ao núcleo principal, como uma aranha subindo até ao centro da teia. As primeiras a morrer tinham sido as irmãs. Às vezes, à noite, Syaoran ainda sonhava com as cabeças delas, espalhadas pela sala de estar, e o sangue a escorrer nas paredes. A mãe tinha sido morta à sua frente, já na fortaleza dos Sieh. E ele… Recebera um destino pior que a própria morte, como tinham vaticinado.

Syaoran dispôs as bolinhas de massa dentro da frigideira, já com o óleo a estalar com o calor. Assim que a massa atingiu o óleo ouviu-se a sonora gargalhada do líquido, que efervescia e dourava as bolinhas. À medida que uma tonalidade mais dourada abrangia os pequenos esféricos, Syaoran pensava. A maldição não tinha abrangido Sakura, felizmente. Podia tê-la morto, se tivesse demorado mais tempo a curar as suas próprias feridas para usar a magia e sarar as delas. Mesmo assim, tivera de se socorrer de todas as poções e cataplasmas que tinha.

Levantou-se, sentindo o calor do forno a aquecer-lhe as pernas geladas. A noite tinha sido fruto da sua irresponsabilidade… Como é que ele tinha sido parvo ao ponto de deixar uma garotinha inocente aproximar-se dele, sabendo que ao mínimo toque, à mínima carícia, ele se transformaria num monstro sanguinário?

O seu punho embateu na parede com força. Sentiu o sangue a voltar a brotar da mão, mas não importava. Ele tinha mordido Sakura… Devia ter tido autocontrolo suficiente para aquele momento. Não devia ter deixado que a sua guarda baixasse desta forma. Entregara-se a ela como nunca o tinha feito a ninguém.

Apaixonara-se por ela e ali estava o resultado. A garota meia morta deitada na sua cama.

Ela iria querer saber o porquê de tudo aquilo. Tinha esse direito, aliás. E, no momento em que o fizesse, com o coração meigo que tinha, desejaria ficar ao lado dele, para o apoiar. Essa era a última coisa que Syaoran queria que acontecesse.

Em cima da mesa estava uma bandeja com um copo e pequenos chocolates. Os chocolates, de tantas formas, eram apenas analgésicos. Com um pequeno sorriso a querer escapar-se-lhe dos lábios, Syaoran lembrou-se que "as crianças não gostam de medicamentos".

Virou-se para os fritos da frigideira, já dourados e retirou-os agilmente para um prato forrado com papel absorvente. Pelo cheiro, pressentiu que devessem estar no ponto.

Pegou na bandeja e dirigiu-se para o quarto. Assim que chegou à porta, conseguiu ver a garota, de braços estendidos ao longo da cama, cujo peito se elevava e baixava rapidamente, ao som de uma respiração ofegante. Ela gemia de vez em quando e movia a sua cabeça.

A medo, Syaoran pousou o tabuleiro na mesa-de-cabeceira e fitou-a por momentos. O rosto dela, à pálida luz proveniente da cozinha, parecia feito de mármore. Os lábios dela eram vermelhos como duas cerejas e pediam um beijo. Sem se poder controlar, Syaoran acariciou a testa de Sakura com a ponta dos dedos. Um mero toque, sem pressão. O suficiente para sentir a maciez da pele dela, agora húmida do medo e da dor. Como tinha sido possível que aquela garota tivesse permanecido junto dele, enquanto ele não era mais que um monte de carne e vísceras.

Afastou-lhe os cabelos da cara. Sakura suspirou outra vez, revelando no seu rosto perfeito uma expressão de dor. Syaoran tinha vontade de a manter nos seus braços e de lhe sussurrar ao seu ouvido palavras doces, apenas para a acalmar.

"Li-kun…"

O suspiro saiu da boca de Sakura como uma melodia de morte. Syaoran pegou num dos chocolates e levou à boca de Sakura, roçando suavemente os lábios. Como um autómato, Sakura abriu ligeiramente a boca, mastigando devagar o chocolate.

Syaoran tapou o corpo da garota com mais uma manta. A marca da sua mordedura continuava lá: quatro perfurações bem definidas, onde riscos violetas e negros começavam a aparecer, formando símbolos. Sakura não tinha nódoas negras nem outros arranhões. Aquela era a única ferida que faltava sarar.

Syaoran franziu o sobrolho. Quando estava em Hong Kong tinha mordido dezenas de pessoas. A maior parte delas morria imediatamente, assim que o veneno entrava nas veias. A outra sofria transformações horrorosas antes de sucumbir ao suicídio.

Durante toda a noite, Syaoran rezara para que Sakura morresse imediatamente. Não contava sequer que ela sobrevivesse até aos primeiros raios da madrugada. E, mais estranho ainda era o facto de ela estar a rejeitar a maldição.

Syaoran não pressentira nunca qualquer tipo de poder mágico na garota. Como podia ela então rejeitar uma maldição milenar? Contrariamente ao que o coração lhe dizia, a sua cabeça continuava a gritar-lhe que o facto de ela rejeitar a maldição poderia ser atribuído às mais diversas causas. Uma delas, que ela era protegida por alguém que sabia o que ele era. Durante anos tinham estudado diversas formas de antídoto nele próprio e nenhuma que ele conhecesse tinha sido bem conseguida. Nos mais de cem homens-lobos que se encontravam dentro da fortaleza, ele tinha sido o único que durara mais de três anos.

A outra opção era bem mais desagradável. Sakura aproximara-se teimosamente dele e ele dela. Era quase como se alguém tivesse previsto e os andasse a controlar.

Pegou na mão da garota, sentindo o frio a entrar-lhe pelo corpo. Ela não podia ser mais uma escrava dos Sieh. Não podia simplesmente…

De repente, os olhos de Sakura tremeram e abriram. Syaoran manteve o contacto visual de forma terna, tentando acalmá-la.

"Estás bem…?" – Perguntou.

Após três segundos fitando o rosto do chinês, Sakura encolheu-se na cama, tentando afastar-se dele. O horror estampado na cara dela foi como uma faca no coração de Syaoran. Levantou-se abruptamente.

"Sakura… Eu… " – O que iria ele dizer? Que não lhe faria mal, se ela não o tocasse? Gaguejou novamente. – "Está tudo bem agora…"

Dos olhos verdes de Sakura brotaram lágrimas.

"O que és tu…?" – Soluçou. Syaoran compreendia o medo dela. A quantidade enorme de poções que ele usara para a curar tirara-lhe as forças que ela ainda tinha. O seu estômago dava voltas desconfortáveis, enquanto via o horror da garota a crescer. Naquela altura, ela deveria lembrar-se de todos os detalhes sórdidos da noite anterior.

Engoliu em seco e prosseguiu num tom de voz baixo e seguro:

"Sakura… Tem calma. Não te farei mal." – Suspirou, ao ver a garota a encolher-se sobre si mesma. – "Preciso que acredites que o que aconteceu ontem não voltará a acontecer…"

Sentiu os olhos a picarem. Ainda nem tinha pronunciado a sua sentença e já sentia a dor de não poder voltar a sentir a pele macia de Sakura.

A medo, tentou tocar-lhe na mão. Assustada, ela recolheu-a para dentro dos lençóis, magoando-se com o gesto brusco. Reteve um grito de dor.

Syaoran sentou-se novamente no bordo da cama.

"Deixa-me ver o teu braço…" – Sussurrou ele, estendendo a mão para ela. Como um animalzinho assustado, ela olhou a mão com medo. Syaoran manteve o contacto visual e repetiu:

"Não te vou magoar…"

Hesitante, Sakura estendeu a mão. Céus, como estava pálida. As olheiras profundas marcavam-lhe o rosto, fazendo-a parecer um espírito.

"O que és…?" – Repetiu ela, estendo a mão para tocar na dele. No momento em que os seus dedos delicados atingiram a palma da mão dele, Syaoran sentiu uma corrente eléctrica a atravessar-lhe o corpo.

"Um humano pecador." – Suspirou.

Deixou que os seus dedos preenchessem o espaço entre os dela por breves instantes, sentindo o arrepio a percorrer o braço dela. Apercebendo-se da tensão entre os dois, pousou o braço dela e colocou em seu redor várias tiras de ligaduras.

"Dentro de algum tempo já não terás mais dores…" – Tentou sorrir, mas saiu-se mal na tarefa.

Sakura olhava, absorta, para o infinito. As lágrimas continuavam a brotar-lhe dos olhos. Sem se o poder evitar, limpou-lhas com o pano que trazia.

"Não chores mais… Por favor."

Com um soluço, ela agarrou-lhe a mão e, a tremer, perguntou:

"De certeza que és humano…?"

Receando que o calor frio da pequena mão dela se apossasse do seu coração, Syaoran retirou a mão de dentro da dela e replicou:

"Claro que sou…"

"Então o que foste… Que horas são?" – Perguntou ela, olhando em volta.

"São oito da manhã…" – Inspirou bem fundo, preparando-se para a breve explicação que tinha ensaiado na sua cabeça. – "Estás bem Sakura…?"

Ela encolheu-se um pouco e olhou para o lado.

"Dói-me o corpo…"

"Sakura… Eu…"

Raios, seu estúpido, fala decentemente com ela!

Ela parecia um anjo. A muito custo, endireitara-se, encostada à almofada, com os seus braços descaídos e pousados no colo. Uma perfeita boneca de porcelana, com uma manga da camisola rasgada.

"Acreditas em magia?"

A pergunta clássica. Sakura encolheu os ombros, franzindo ligeiramente as sobrancelhas, desconfiada.

Em resposta à pergunta dela, Syaoran colocou o dedo indicador e médio à frente da sua boca e murmurou duas palavras. Uma chama emergiu no cimo dos seus dedos.

"E agora, acreditas?"

Sakura abriu muito os olhos, meia assustada meia encantada. A sua mão fez menção de avançar para a chama, mas manteve-se mergulhada nos lençóis brancos.

Syaoran apagou a chama com um leve sopro.

"Aquilo que viste ontem à noite é… Uma maldição."

Sakura deixou a sua cabeça pender um pouco para a direita, enquanto semicerrava os olhos.

"Uma maldição…?" – Repetiu ela.

Ele anuiu com a cabeça.

"Sim, uma maldição que me lançaram em pequeno. A minha família provém de uma longa linhagem de feiticeiros e, há alguns anos… " – Fez uma pausa, sentindo a voz a quebrar. – "Há alguns anos fomos atacados por um clã rival que dizimou a família e me colocou sobre esta maldição."

"Porquê?" – Perguntou Sakura, com voz meiga. Syaoran arrepiou-se. Não havia explicação para o que aqueles sujeitos lhe haviam feito.

"Eu era pequeno e eles acharam engraçado fazerem experiências em mim."

Sakura abriu a boca, em puro horror. Sem se lembrar das dores, lançou os braços ao pescoço de Syaoran, tentando chegar o seu corpo contra o dele.

Syaoran retesou o corpo, tentando deixar de sentir o calor de Sakura ou a maciez do rosto dela no seu pescoço. Afastou-a com brusquidão. Não podia correr o risco de se transformar de novo.

Sakura ficou a olhar para ele, assustada, enquanto ele a agarrava pelos braços. Notando o medo, Syaoran deixou cair os seus.

"Assim que as tuas feridas estiverem completamente saradas podes voltar para casa."

Virou a cara para o canto oposto do quarto. Aquela garota tinha deitado a perder anos de controlo mental… Ele podia ter sido apanhado. E ela podia ter morrido.

"Nani…?"

"Kinomoto-san… Não posso arriscar a pôr-te em perigo novamente."

Usara o apelido dela propositadamente. Pelo canto do olho pôde ver os olhos verdes dela a brilharem na escuridão. A mão dela esticou-se até ao braço dele. Sakura reprimiu um gemido de dor.

"Como me podes pedir para me afastar de ti, agora que sei que sofres…"

Syaoran suspirou. Humanos – tão previsíveis… O seu coração parecia ter parado devido às palavras da garota.

"Kinomoto-san… Não se trata de me veres sofrer. Eu não seria mais do que um estúpido se te deixasse andar junto a mim."

A mão de Sakura apertou-se em volta do braço de Syaoran. Ele recusou-se a olhá-la de novo, mas conseguia ver claramente na sua mente os mesmos olhos assustados que o tinham encantado no meio de uma tempestade.

"Demo… Como conseguiste viver estes anos todos sozinho?"

A mão dela estava gelada. Na escuridão, Syaoran olhou a mão branca, iluminada pela luz da cozinha.

"Quem achas que quereria um monstro como amigo?"

"Não és um monstro." – Replicou Sakura, numa voz fraca.

Ele levantou o olhar para se encontrar com o mar verde dos olhos dela.

"Não tenhas pena de mim, Sakura."

Ela baixou o olhar, mantendo a mesma firmeza no aperto.

"Não é pena Li-san…"

"É pena Kinomoto. Sentes pena porque me foi infligida esta maldição quando não passava de uma criança inocente. Mas não sabes que essa mesma criança inocente matou dezenas de outras…"

Syaoran sentiu o sangue a gelar quando Sakura mordeu os lábios e arquejou, soltando um grito abafado de medo.

"Tu… Mataste crianças…?"

Ele limitou-se a deixar que o sangue gelasse. Ela não lhe era nada nem nunca o poderia ser. Tinha sido um erro do destino que os seus caminhos se tivessem cruzado. Por isso, a única coisa que lhe restava ser era…

"Sim, matei-as. Uma a uma, sem entender o que elas eram."

… Um autêntico ser desprovido de sentimentos.

Ignorou o seu coração, que doía por assustar aquele ser angélico. Não, ele tinha de parar com aquilo… Se ele fosse completamente insensível para com ela talvez ela fugisse…

"Não acredito." – O suspirou ecoou pelo quarto como o som de uma flauta.

Ele endureceu o seu olhar e levantou-se da cama.

"Acredita. Há registos criminais disso mesmo. Um misterioso ataque de um lobo a uma pequena aldeia."

"Isso não faz de ti um assassino!"

Dois brilhos a escorrerem pela cara de Sakura, como duas gotas de luar, fizeram com que Syaoran se apercebesse que ela chorava.

"Kinomoto… Eu sinto-me um assassino. Não querias estar comigo."

Ela reprimiu um soluço, enquanto o largava devagar.

"Não acredito nisso…"

Pobre garota. A solidão que ela sentia, naqueles longos dias em casa, sem pai nem irmão com quem discutir, era-lhe familiar. Voltou a fixar os olhos luminosos de Sakura, que ainda o puxava pela mão.

"Kinomoto-san… Nem sequer me conheces."

Curiosamente, ela sorriu. Mesmo a chorar, um sorriso maravilhoso desabrochou na sua face.

"Se bem te lembras tinhas-me prometido uma história… Para que não fosses mais «um simpático desconhecido» "

A mão dela caiu nos lençóis, como morta. Syaoran esticou a sua para o ombro dela, sentindo a sua pele fria até à ferida aberta. Ela continuava a olhar para ele como uma criança maltratada.

"Tens muitas dores?" – Perguntou Syaoran em voz baixa.

Sakura encolheu um pouco os ombros, tentando não transparecer o mal-estar.

"Algumas… O braço dói-me bastante…"

Ele apanhou outra bolinha de chocolate. O cheiro a cacau invadiu-lhe o espírito e fê-lo recordar da primeira vez em que fizera algo tão extraordinariamente belo como uma flor.

Uma Sakura.

Deixou a bolinha escorregar até à ponta dos seus dedos e aproximou a sua mão da boca quente de Sakura.

"Come isto…"

Ela afastou um pouco a cara dela, franzindo o nariz.

"Se és assim tão mau, como sei que não envenenaste isso?"

Doeu-lhe que ela pensasse aquilo dele. Doeu-lhe de tal forma que levou o chocolate à sua boca e comeu metade. A sensação do chocolate quente e aveludado preencheu-lhe a boca de uma maneira agradável, ao mesmo tempo que sentia o vago travo a caramelo e a uma poção doce. Estendeu novamente a metade da bolinha para os lábios de Sakura.

Como se eu te pudesse fazer algo por minha vontade própria…

Ela abriu a sua delicada boca e comeu o chocolate devagar, como tinha feito até ali. Syaoran sabia que ela estava ainda demasiado fraca para puderem ter grandes conversas e agradeceu aos seus conhecimentos em poções por isso. Talvez ele a pudesse deixar em casa antes que ela se apercebesse…

"Li-kun?" – A voz de Sakura surgiu novamente, novamente formal e cuidadosa.

"Hum?"

"O meu pai e o meu irmão devem andar à minha procura…" – Ela estava visivelmente preocupada com esse facto e Syaoran não pôde deixar de se sentir novamente culpado.

"Podes ligar-lhes do meu telemóvel se quiseres…"

Ela acenou, cansada. Syaoran fitava as tábuas do chão. Tinha vontade de lhe perguntar o que andava ela a fazer àquelas horas no Templo. Queria sentar-se junto dela e…

Afastou os pensamentos românticos, culpando-se pela sua fraqueza.

"Eu vou ver como estão as coisas na cozinha…"

Antes que pudesse afastar-se, ela voltou a agarrá-lo pelo pulso.

"Não vás…"

Ele pegou na mão dela, com a intenção de a retirar de volta do seu pulso. Contudo, deixou-se permanecer naquela posição durante alguns segundos.

"Não tens medo que eu te morda?" – Sussurrou ele baixinho, mantendo a voz fria e ligeiramente sarcástica. Não tenhas pena de mim.

Ela retraiu-se um pouco, como que se realmente ponderasse essa hipótese. No entanto, tentou novamente puxá-lo para mais próximo de si.

"Já que mordeste, agora tens de tomar conta de mim…" – De novo a tentar fazê-lo rir.

"Não tenho cara de cão de guarda Kinomoto."

"Mas tens cara de lobo…"

Sakura deixou-se cair para trás, exausta da conversa. Um pequeno suspiro escapou-lhe da boca, dando a entender que desistia. Syaoran tapou-a novamente e saiu do quarto, deixando o pequeno anjo a dormir novamente.

Assim que chegou à cozinha, Syaoran esfregou a cara com ambas as mãos. Abriu a torneira e colocou a sua cabeça debaixo da água corrente, sentindo o frio a toldar-lhe os sentidos.

Através da limpidez da água fria, pôde ver as facas cortantes e bem afiadas. Retirou a cabeça da água, meio entorpecido e avançou para as facas. Retirou suavemente uma do suporte de madeira e acariciou a lâmina com o dedo. Os seus cabelos pingavam água, que escorria pela sua cara.

Num gesto rápido, Syaoran desferiu um corte no seu próprio pulso. A ferida aberta não lhe causou o mínimo de dor, apenas o habitual espanto. Depois de uma transformação, eram poucas as coisas que o faziam sentir alguma coisa para além do remorso.

O sangue começou a brotar da ferida como uma torrente, tingindo a camisa. Contudo, a linha fina que abrira na pele começou a fechar, como se um fantasma a tivesse cosido. A sangria parou imediatamente.

Syaoran deixou-se escorregar para o chão.

"Droga…"

Lembrava-se da primeira vez em que se tentara matar. Estava encarcerado numa cela e tinha dizimado uma família inteira. Batera com a cabeça na parede até esta não ser mais que sangue pisado. Contudo, um dos magos que o guardavam aproximara-se dele e empurrara-o para a enxerga de palha que era a sua cama.

Não vale a pena fedelho… Foste castigado com um destino pior que a morte. Sofrerás a morte dos outros e a tua própria, até que te consumas por completo.

O mago rira e o seu riso ecoou pelas masmorras da fortaleza. Durante noites, Syaoran chamou pela mãe acordado e nada mais fazia sem ser arrastar-se na cela a gritar por piedade.

Por favor, matem-me!

Já não comia há dias quando Rouge apareceu pela primeira vez. Syaoran, que tomara a prima como morta, considerou aquela bênção como divina.

A cabeça pesou-lhe, ao lembrar-se da sua vida na pequena, húmida e fedorenta cela. A cozinha cheirava ainda a salsa e cebola picada, misturada com um salpico de pimenta. O cheiro a chocolate ainda persistia, forte e amargo. Estava longe daquele lugar. Nunca mais lá voltaria.

Segurou a sua cabeça com a mão que tentara ferir. Estava condenado a assistir à morte de entes queridos, às suas mãos. Não sabia sequer o que havia acontecido à prima… De facto, só o pensar naqueles cabelos negros lhe fazia gelar o coração. Ela traíra toda a família, apenas para se salvar.

Céus, o que ele dava para ter morrido com a mãe…

Sentindo um cheiro particular, Syaoran levantou-se e dirigiu-se ao forno. O bolo estava já grande e fofo, parecendo uma pequena almofada dourada. Parou o relógio e, agarrando nas suas luvas, retirou o bolo do forno. A razão pela qual se virara para a culinária prendia-se pela sua incrível capacidade olfactiva, que lhe possibilitava saber quando é que os bolos atingiam determinado ponto. Tinha treinado essa capacidade na fortaleza, quando precisava de saber com quem iria "treinar"…

Efectivamente, o bolo saíra perfeito, tal como das outras vezes. Deixou-o num prato decorado e voltou a sentar-se numa cadeira.

A luz do Sol era filtrada pelas nuvens e entrava suavemente por entre as suas cortinas. O dia estava a amanhecer.

Sim, Sakura devia ter razão… Mesmo que o melhor fosse afastar-se dela, tinha de cuidar dela até ela poder sair de casa.

No momento em que ela saísse… Seriam desconhecidos um ao outro novamente.

***

"Um dia… Consegui esgueirar-me do pavilhão onde me prendiam. A minha prima distrai-os, creio eu e eu fugi dali. Não tive tempo sequer para me despedir dela… A minha família tinha ainda amigos e conhecidos fora de Hong Kong. Apanhei boleia de camponeses e mercadores e viajei até Beijing. Aí trabalhei como pescador durante alguns meses e depois embarquei até Tokyo… Fui trabalhando em tudo o que me aparecia e…" – Syaoran suspirou um pouco, ganhando fôlego para acabar a história. – "Um dia cheguei a Tomoeda. Não podia parar num só local, porque tinha medo de ser apanhado. Tudo aquilo que ganhava era para comprar certas ervas e não o podia fazer sempre no mesmo local. Contudo, Tomoeda era… Um sítio calmo."

Sakura mantinha os olhos fechados e respirava lentamente. A sua fragrância misturava ainda o sabor da chuva com o cheiro a cidreira. Mesmo sentado num banco a um palmo de distância da cama, Syaoran conseguia sentir cada odor que vinha dela. O dos cabelos… Pescoço… Embora ainda persistisse um teimoso cheiro férreo a sangue quente.

A mão de Sakura, ainda fria, mexeu-se nos lençóis brancos. Syaoran tinha trazido uma pequena vela para o quarto. A face de Sakura ganhava sombras estranhas.

"Continua…" – Sussurrou ela, sem abrir os olhos. Syaoran quis sorrir mas não consegui esboçar mais do que um esgar. Afastou-lhe os cabelos do rosto e prosseguiu:

"Vivi em prédios abandonados até arranjar dinheiro suficiente para alugar este apartamento… E encontrei emprego como pasteleiro, depois de ter sido um simples empregado. E depois conheci-te."

Ele tinha estado a contar a sua história desde há já duas horas. Sakura havia enviado uma mensagem ao pai, dizendo que estava bem e que se tinha abrigado em casa de uma tal Naoko. Dissera também que passaria o dia com ela, embora Naoko estivesse naquele momento em Hokkaido.

"De certeza que eles não irão desconfiar?"

"De certeza Li-kun… Nem Onii-chan nem Otou-san seria capazes de ir perguntar a Naoko se estou realmente com ela. E ela entraria no jogo…"

Na mesa-de-cabeceira havia agora as bolinhas fritas. Sakura, apesar de ter insistido que não tinha fome, comia cada uma delas avidamente.

"O que é isto…?"

"Come."

"Primeiro quero saber o que é –" – Sem lhe dar tempo para perguntas, Syaoran empurrava delicadamente a bolinha frita para dentro da boca dela, tal como havia feito com o chocolate.

"É um pastel." – Resmungou, indignada. Sakura engoliu-o devagar, franzindo o nariz.

"Os lobos só deviam saber cozinhar carne. O pastel é de peixe."

"Não brinques."

Syaoran dava-lhe pastel a pastel à boca. Não entendia como é que aquela garota, assim que ele chegara mantivera aquela calma e lhe pedira para que ele lhe contasse uma história.

"Agora tens de beber isto." – O chinês pegou num termo vermelho colocado ao lado do prato dos pastéis, cheio de um líquido esverdeado e límpido.

"Nem penses. Isso parece-me água de pântano…"

"Isto é água de pântano Kinomoto."

Syaoran detestava ser assim. Sarcástico. Cínico. Quando era criança, conseguia sê-lo e era até divertido, mas naquela situação tratava-se apenas de uma maneira para afastar aquele anjo de cabelos curtos.

Sakura engoliu a beberagem amarga. Tratava-se apenas de uma infusão que supostamente deveria protegê-la de maus espíritos.

Syaoran mantinha os olhos postos em Sakura. O facto de ela ser apenas uma garota podia fazer com que ela não se apercebesse da gravidade da situação.

"Kinomoto-san…?"

"Nani?"

"Esta tarde ainda, vais para casa."

A frase caiu em seco. Sakura desviou o olhar para os lençóis e mordeu os lábios.

"Tudo bem…"

"E é melhor manteres-te afastada da pastelaria por uns tempos."

O olhar espantado dela surpreendeu-o.

"Por que é que eu havia de me afastar da pastelaria?"

"Para não te encontrares comigo, obviamente." – Replicou Syaoran, dirigindo-se para os vários papéis espalhados pelo chão.

Ela emitiu um ruído de descrença.

"Se bem me lembro nos últimos tempos tens sido tu a esbarrar comigo."

Ele não respondeu. Limitou-se a apanhar a papelada e a juntá-la toda num caixote.

"Nem sequer me explicaste ao certo como é que essa maldição idiota se activa! Como é que eu sei que isso é verdade?" – Sakura fez menção de sair da cama de Syaoran. Ao ouvir o estalar da madeira, Syaoran precipitou-se para ela novamente.

"Não podes sair ainda da cama!"

Sakura olhava-o, furiosa. Syaoran entendia perfeitamente a raiva que ela sentia naquele momento. Ela podia ter sido contaminada e ele nem uma justificação decente lhe tinha dado.

Com um passo mal apoiado, Sakura deixou-se cair para cima do chinês, que a tentou pôr novamente na cama, empurrando-a. Contudo, ela manteve-se de pé, pouco firme, olhando-o de frente.

"Sabes uma coisa? Estou cansada que me digam para estar calada e quieta, sem saber o que raios se passa…"

O seu olhar verde adquiriu contornos metálicos quando ela pronunciou aquelas palavras.

"Kinomoto-san… Acalma-te." – Syaoran dava graças aos céus pela zanga. Talvez assim ela o odiasse de vez…

Perdoa-me…

"E o que é que uma garotelha mimada como tu poderia compreender sobre uma maldição?"

As palavras saíram-lhe duras e baixas, fazendo com que ela recuasse e reprimisse um soluço. Mesmo com o rosto pálido e cabelos despenteados, continuava a ser linda…

"Talvez se tu te deixasses de armar em vítima de uma vez por todas em conseguisse compreender!" – Gritou ela, entre soluços.

A palavra "vítima" incendiou o coração de Syaoran.

"Vítima…?"

"Sim, vítima! Mataste pessoas e daí? Não altera em nada o facto de estares arrependido!"

Syaoran não acreditava no que ela estava a dizer.

"Tu não fazes ideia do que dizes Kinomoto… Não passas de uma criança."

Sakura piscou os olhos duas vezes antes de a sua cara ficar completamente branca. Syaoran sentiu a pontada habitual de remorso, antes de apanhar nos seus braços e de a pousar na cama. A discussão fora demasiado para ela.

Mas talvez assim ela se afaste…

As lágrimas continuavam a brotar-lhe dos olhos, como pequenas gotas de orvalho sobre neve. Os lábios dela lembravam-lhe a cor dos morangos que ele usava para fazer os seus bolos.

Suaves.

Meigos.

Doces.

O coração de Syaoran batia ainda depressa. A verdade é que tudo o que Sakura dissera, embora o tivesse surpreendido, não alteravam minimamente a sua maneira de estar. Eram frases verdadeiras, mas desprovidas de sentido para ele.

Criança boba…

Ela abriu os lábios, num arquejo soluçado. O garoto sentiu a sua pulsação a acelerar mais. Ela era linda, um perfeito anjo…

Sakura não iria notar. Ela estava de novo a dormir, portanto não podia "retribuir" o sentimento…

Syaoran inclinou-se lentamente para Sakura até que os seus lábios gélidos tocaram os dela, quentes e macios, sem pressão.

Por escassos momentos, Syaoran esqueceu tudo. Naqueles singelos instantes, tudo era macio e doce e tinha cheiro a chocolate, caramelo e morango. Deixou que a sua mão pairasse sobre os cabelos dela apenas para sentir a maciez dos fios.

Quando separou os seus lábios dos dela, sentiu frio. Um frio gélido, como se todo o quarto tivesse caído num lago frio e viscoso.

Afastou-se rapidamente do corpo inerte de Sakura. Antes de encostar novamente a porta, olhou-a uma última vez.

Como te amo anjo…


N.A.: Hello minna-san! Desta vez consegui pôr o capítulo X mais depressa do que estava à espera. Contornei os trabalhos de Biologia e de Matemática e tirei o Syaoran e a Sakura da gaveta! Meu arigatou para Dianxuka, à minha Rakkie, a Vivx (não pôde ficar sem palavras não), a patilion, a Jéssica, a Rahime22, Yume no Yoru, aos meus dois inseparáveis companheiros de viagem (AlainKnight e BlueEyes) e a Loverr por todo o apoio que me têm dado. Cada review vossa é um sorriso a mais na minha cara ^^. Espero que tenham gostado deste capítulo. O Syaoran ficou um pouco "ruim", mas por agora não é muito... Nos próximos capítulos ainda estará pior, coitado.

Ja ne e boa semana!