CAPÍTULO 19

Terminar a função foi à forma exata de tortura que estava dizendo a si mesma que seria. Sesshoumaru voltava a estar sentado atrás de Inuyasha, embora a ela um dos Taisho lhe parecesse uma combinação de dor, pânico e luxúria e o outro somente a olhava com ódio. E o que ia matar não expressava nada com seus olhos avermelhados, igual à sempre.

A função continuava, inclusive sem sua participação. Melhor assim porque se esqueceu de sua frase e os moços simplesmente atuaram como se nada ocorresse. Não fez nada mais que estar sentada em sua posição, olhar ao público e ver como tudo se rabiscava com a umidade que não cessava de lhe empanar os olhos.

O ato final foi o pior, já que Sesshoumaru se transladou junto a sua amada e deve te-la posto em dia do ocorrido porque as lágrimas silenciosas no rosto de Lady Rin refletiam mais que a luz. Refletiam cada pedacinho de coração quebrado contra Agom, que não podia evitar assumi-lo e acrescentá-lo a seu próprio manto silencioso de agonia. Assim que tudo terminasse, o que importava a quantos fazia dano ou quanto dano a recebia? O clã Higurashi seria vingado. Isso era o que importava. Isso era quão único podia importar.

Agom não se lembrava de sua frase, mas disse «se acabou», quando acreditou que os outros esperavam algo dela. Deve ser o que tinha que dizer ou parecido, porque a função continuou. Depois, o pano de fundo baixou para o momento final. Agom não se moveu até que alguém a obrigou a inclinar-se, e então recebeu aplausos, assobios e insinuações de quão bonito estava como moça. Odiava a atenção. Odiava o vestido de cor borgonha. Odiava seu corpo. Odiava a si mesma.

Sesshoumaru, o muito mentiroso, não lhe devolveu a roupa, nem as adagas, nem a dignidade. Quando voltou para o hall onde a tinha deixado, não havia nada. Agom se sentou atrás do biombo e utilizou a prega do vestido borgonha para retirar a maquiagem e a sujeira. Depois pegou a faca do dragão e cortou uma boa porção da parte dianteira da saia para confeccionar uma espécie de véu. Sabia que deixava nuas as pernas desde a metade da coxa, mais que com o próprio kilt, mas não tinha alternativa.

Isso era o que sempre recebia de qualquer Taisho: nenhuma alternativa. Não tinha alternativa e tinha que servi-los, não tinha alternativa com seu vestuário, não tinha alternativa com seu próprio destino.

Agom se deslizou junto às paredes até o quarto de Inuyasha, mantendo-se sempre que podia na escuridão. Teve a sorte de que o conde procurou um histrião, e este havia trazido sua lira e estava montando seu próprio espetáculo. O cantor tinha boa voz e suas palavras eram bastante cativantes para manter ao público sentado, embora a exibição do escudeiro dos Taisho já se estava narrando quando ela saiu. Não só se cantava sobre sua destreza com as armas, mas também sobre a beleza cativante do campeão Taisho vestido de mulher.

O rosto de Agom estava ardendo antes de chegar ao quarto de Inuyasha. Saudou Eagan, o valentão, na soleira, embora ele se levantou e lhe abriu a porta como se fosse uma rameira solicitada para a noite. Agom entrou correndo para colocar sua roupa original. Já procuraria Sesshoumaru quando estivesse vestida como é devido. Conseguiria recuperar o traje e as adagas, ou descobriria por que não.

Tinha-o tudo em seu lugar, até a trança e a bandagem do peito, e estava sentada junto ao fogo contemplando seus segredos quando entrou Inuyasha. Ela viu agitar o fogo com o ar repentino, mas não se voltou. Não se moveu. Não respirou.

—Agom! — sussurrou — Não sei o que dizer.

Então respirou. Tragou a emoção e a soltou. «Logo, Inuyasha», pensou. «Logo estará livre de mim e livre de voltar para sua vida sem estrutura, brincadeiras e jogos. Logo.»

Levantou uma pinça sobre a chama e atiçou o tronco, fazendo-o rodar e soltar faíscas por toda a lareira. Inuyasha não se moveu, ou se o fez ela não o notou.

—Meu irmão me diz que confie em meus sentidos. Que confie na ilusão.

Agom olhou o fogo com os olhos muito abertos. «Maldito Sesshoumaru!», pensou.

—Seus irmãos... mentem —sussurrou — Ambos.

—Ambos?

—Sim, ambos. Sesshoumaru mente para confundir e Naraku... ele tem... ele é... —Lhe fechou a garganta.

—Sim?

Ela sacudiu a cabeça. Não podia dizê-lo.

—Naraku e eu nunca fomos íntimos, Agom. É muito mais velho que eu e muito mais sério. Quase tanto como você.

—Naraku é um Taisho. Você é um Taisho — sussurrou.

—Isso é certo. É um grande homem. Um grande clã. Você foi adotado por ele. A roupa te assenta bem. Quase tanto como seu vestido borgonha.

—Inuyasha...

—Sesshoumaru diz que te obrigue a pôr isso. Que force a ilusão em realidade. Isso é o que aconteceria, Agom?

—Sesshoumaru tem suas razões para dizer isso, Inuyasha.

—Ah, sim? Quais?

—É seu segredo, não o meu — respondeu ela.

—E que segredos me esconde meu irmão mais velho?

—Está apaixonado.

—Por você? Matarei-lhe!

—Inuyasha — disse Agom, afastando-se da lareira para olhá-lo — Nenhum homem pode estar apaixonado por mim. Pergunta-me se existe uma ilusão e eu te digo que sim, há. O amor é uma ilusão.

—O amor não é uma ilusão, Agom. É muito real. Acredito que se alargasse a mão, poderia tocá-lo. Está ao seu alcance agora. Em mim.

—Não, Inuyasha — começou a dizer e se levantou, porque ele tinha dado um passo e toda ela estava alerta.

—Estou apaixonado por você, Agom.

—Sei — respondeu.

—E você também está por mim.

—Não — sussurrou Agom, mas não pôde olhá-lo ao dizê-lo.

—Não? — estalou a língua — Sei quem é o mentiroso agora, Agom, e não são meus irmãos. É você.

—Não minto. Nunca menti!

—Ama-me. Vê-se em todas as olhadas e todas as palavras que me diz, e na forma como faz ambas as coisas. Vê-se na ilusão que criou para mim esta noite. Vê-se na imagem que não posso separar de minha cabeça. Saca a faca, Agom.

Deu outro passo para ela. E logo outro. Agom tirou a faca.

—Para, Inuyasha — disse ela.

—Parar? Quando tudo o que desejo me mostrou não faz nem uma hora? Parar, quando tudo o que meu sangue deseja e lhe foi negado acaba de desdobrar-se ante mim? Parar, quando vi à mulher que desejo que seja diante de mim? Parar, quando não pude estar com outra mulher desde que fui amaldiçoado por você e acabo de ver curvas benditas pela fantasia? Parar? Aponta com a faca, Agom!

—Inuyasha, deve parar. Deve fazê-lo! — Estava de pé junto ao fogo e de costas a ele, de modo que lhe queimava as pantorrilhas.

—Parar? Quando seus grandes olhos e seu corpo esbelto poderiam esconder algo? Parar? Quando minhas mãos morrem por provar sua inocência, reclamam-lhe e querem te fazer meu! Lança a faca, Agom! Lança já, maldito seja!

«Malditas sejam as lágrimas femininas!» Agom o ouviu com tanta claridade como se o houvesse dito em voz alta, depois sua vista se nublou e com ela toda a estadia a seu redor. Sabia que a faca tremia em sua mão à medida que ele se aproximava, mas suas botas apenas se ouviam sobre a pedra coberta de tapetes.

—Já!

Apontou e lançou. A faca se cravou à perfeição em uma fenda da pedra, ao outro lado do quarto, e Inuyasha se deteve e fechou os olhos. Através de seus instintos, viu com claridade a dor e o pânico naqueles traços perfeitos.

—Maldito seja, Agom, moço — disse, abrindo seus olhos âmbares e cravando-os, nos dela — Maldito seja.

—Terá que fazê-lo, Inuyasha. Eu não posso. —As lágrimas apagavam tudo e lhe observou colocar-se detrás dela, com todo o corpo tremente, os punhos fechados aos lados — Você terá que matar. Faz-o rapidamente, entretanto. Faz-o com rapidez. Não me faça sofrer. Só te suplico isto.

As lágrimas deslizavam por suas bochechas e a cegavam, e então ouviu seu rugido. A porta da câmara se abriu de repente e o fogo queimou as pantorrilhas de Agom, mas nem sequer o sentiu.

Inuyasha estava chamando Sesshoumaru a gritos. Estava usando toda sua voz de orador e estava cheia de ódio contra si mesmo. Sesshoumaru respondeu por fim, com uma voz igualmente forte e raivosa, e depois ambas as vozes se desvaneceram corredor abaixo. A seguir Eagan estava diante dela, ajudando-a a afastar-se da lareira e sacudindo as cinzas acesas que brilhavam em suas meias.

—Queimou-se, moço — disse.

—Aonde foram?

—Seu amo foi brigar com Sesshoumaru. Disseram-me que isto aconteceria embora o amo Sesshoumaru riu disso.

—O que acontecerá?

—O amo Inuyasha procura alívio aos demônios que tem na cabeça.

—Que demônios? —sussurrou.

—Não sei. Só sei o que ouvi. Sesshoumaru saberá.

Agom temia que ela também.

—Como vai aliviar-se o amo Inuyasha? —perguntou.

—Brigarão. O esgotamento físico é o que o jovem amo procura. É o alívio que espera. Usarão espadas escocesas e escudos. Vi-o outras vezes. Não se vê crescer a seis homens Taisho sem ser testemunha de batalhas como esta. Vêm. Ajudarei-te com isto. Se necessitar uma cataplasma para a dor, diga ao Eagan. Farei que tragam.

—Dor? —repetiu ela. «O que saberá este homem do clã de rosto amável da dor?», pensou transtornada.

—Poderia ter se queimado, moço.

—Queimado?

Ele franziu o cenho.

—Te icomoda uma queimadura? Não o teria acreditado nunca pelo que sei de você.

—Aonde foram agora? —perguntou.

—Os Taisho? Já lhe disse. A brigar. O amo pediu a Sesshoumaru que lhe ajudasse a exorcizar os demônios. Ouvi-o. Não acreditava que fosse passar, mas é que eu não entendo a esses dois. Mas você não se preocupe. Estão ao mesmo nível. Demorarão muito em acabar.

—Brigar? —Começava a fazer uma ideia, e o olhou — Sesshoumaru briga com Inuyasha?

—Sim. Com espadas e escudos.

—Espadas escocesas? —ofegou ao dizê-lo, porque essa espada grande e pesada podia cortar o braço a um homem — Devemos detê-los!

—Não pode deter um Taisho quando quer combater, moço. São obstinados com estas coisas. O amo Inuyasha foi claro. Não voltarão até que um dos dois vença ou não fiquem forças. Ouvi-o.

—Se afaste do meu caminho então!

Agom correu pelo corredor, saltando por cima de formas e corpos dormidos para chegar ao pátio do torneio. O trovador seguia cantando suas baladas sobre força e amor não correspondido e outras calamidades, e estava perdendo o drama que ocorria frente a seu nariz. Agom cruzou a porta, saltou os quatro grandes degraus até o chão de terra, levantou-se e recuperou a compostura.

Ouviu o clac do aço contra o aço antes que visse os irmãos. A noite estava cheia de chuva e barro, de luxúria e dor. Notava-o, sentia-o, quase o absorvia. Cruzou o mesmo terreno sobre o que tinha feito sua reverência vitoriosa aquela tarde e se aproximou das tochas acesas onde se animava aos opositores. Abriu caminho até o fronte do grupo e se ajoelhou para ver como combatiam os Taisho.

Sabia o que sentiam. Também sabia que não ia dirigido contra o outro, a não ser contra ela. Sabia e não sentiu absolutamente nada por isso, exceto um completo e profundo terror. As espadas não cessavam de atacar, cobertas de barro e erva, e mais de uma vez um grunhido de dor emergia de um deles. Os escudos, que tinham começado sem um só racho, estavam agora repletos deles e o vapor emanava dos corpos dos opositores.

O trovador devia ter perdido seu público em favor do pátio do torneio, porque a multidão ao redor de Inuyasha e Sesshoumaru foram crescendo. Agom teve que ficar de pé para seguir vendo. Não queria olhar, mas não podia afastar os olhos da batalha, nem sequer piscar. A chuva escorregou de seus cabelos até seus olhos, sua boca, suas orelhas, e ela a ignorou. Cada vez que um dos dois cambaleava, continha o fôlego em uma reza silenciosa e depois agradecia quando o Taisho caído se levantava e continuava.

Então tudo acabou tão abruptamente como tinha começado. Viu que Sesshoumaru caía de joelhos muito frequentemente e ao final baixava a cabeça derrotado. Isso não deteve Inuyasha. Atacou com sua espada um dos alvos da exibição de Agom até que a madeira se estilhaçou e saiu de seu suporte. Depois se voltou e uivou com sua grande voz de orador a todo mundo.

Agom teve que detê-lo. Era a única que podia fazê-lo. Sabia. Aproximou-se por sua direita, mas ele se voltou para ela.

—Se afaste de mim! —ordenou, lhe apontando com a espada ao estômago — Não volte a se aproximar de mim! Nunca mais!

—Sim — respondeu — Não o farei. Acabou, Inuyasha.

Ele lançou a espada ao chão e embora estivesse molhado, todos exclamaram ao ver que a cravava até o punho.

—Não! —voltou-se de costas para ela, afastando as mechas de cabelo empapados da testa — Isto não terminou ainda. Agora o acabarei! Vá ver meu irmão. Não merece o que lhe fiz. Já sabe quem o merece.

Agom lhe observou enquanto voltava para o castelo, empurrando a qualquer o suficientemente valente para meter-se em seu caminho, e esperou até que desapareceu atrás da porta. A chuva havia tornado o chão escorregadio e o ar resultava difícil de respirar. Também fez voltar todos os fracos observadores ingleses ao calor e a secura do castelo.

Agom se aproximou do vulto coberto de barro que era Sesshoumaru. Ainda não tinha se levantado e agarrava a espada com mãos trementes.

—Está bem? —perguntou quando o viu ali sentado, recuperando o fôlego.

—Criou um monstro, Agom.

—Eu não fiz nada — respondeu ela.

—Já imaginava que diria isso. É impossível de vencer quando está furioso. É por isso que tínhamos a faca do dragão. Pode vencer a todos se lhe tirarmos do sério. Venceu-me porque estava motivado para fazê-lo e eu não. Ele estava furioso.

—Não te venceu porque estava furioso — disse ela.

—Diz-me isso para que me sinta mais ofendido?

—Não, só para que te tranquilize.

—Tem a força de dez quando está zangado, e ainda o está. Não lhe cansei o bastante. Talvez se Ari estivesse aqui poderíamos tê-lo cansado. Mas eu sozinho... Não tenho nenhuma possibilidade.

—Teria te vencido sem raiva, Sesshoumaru Taisho, e não o digo levianamente —respondeu Agom.

—Agora me ofendeu. Para te castigar, condeno-te a voltar para essa câmara dos horrores que criou com ele e enfrentar a essa ira que diz que não possui.

—Não disse que não estivesse zangado. Disse que te venceu sem a ira, e sigo dizendo-o. Usava sua mão esquerda. —Disse-o com respeito. Tinha visto quão bom era com ela. Perguntava-se se Inuyasha era consciente de tê-la utilizado.

—À esquerda? Maldito seja! Enganou-me!

—Não, só usou a que tem mais força. Eu o disse faz dias. Acreditava que não tinha me escutado.

—Vai com ele, Agom — disse Sesshoumaru, tentando levantar-se cravando a ponta da espada no chão e apoiando-se nela. Voltou a cair.

Agom o olhou sem acritude durante um momento.

—Onde está meu traje, Sesshoumaru Taisho, e minhas adagas?

—Trata-se disso? De tartán e facas? —perguntou.

—Não, não só isso. É mais que isso.

—Tentou tomá-la e usou a faca do dragão? Foi isso?

—Não usei a faca do dragão — respondeu em um sussurro.

—Então o que é o que lhe fez se zangar tanto?

—Que não a tenha usado — respondeu ela.

O vulto lamacento suspirou.

—Vá com ele, Agom. Mostre-lhe quem é. Deixa que te tome. Cure-lhe.

—Nenhum homem pode me tomar! Jamais! E menos um Taisho!

Ele sacudiu a cabeça.

—Ainda não o entende, verdade?

—Entender o que? —perguntou.

—Quanto quer? —perguntou Sesshoumaru, sobressaltando-a.

—Não entendo o que quer dizer — disse ela.

—Quanto quer para me devolver meu irmão pequeno?

—Quer que volte, depois da surra que te deu? Não pode nem levantar a espada!

—Não referia a isso — cuspiu e saiu sangue. Apalpou a mandíbula com uma mão — Quero dizer: quanto quer? Quanto necessita?

Ela se voltou como se a tivessem picado.

—Não serei a rameira de nenhum homem! Nem sequer por Inuyasha Taisho.

Sesshoumaru meneou a cabeça fatigosamente.

—Não queria dizer isso. Queria dizer: quanto mais crê que vai suportar? Quanta angústia mais necessita para estar satisfeita? Quanto mais de tudo isto, quando está em suas mãos arrumá-lo?

—Não tenho esse poder. Sou um pobre escudeiro sem nome e sem clã. Não tenho poder.

Sesshoumaru esticou o braço e fez um gesto.

—Olhe a seu redor, Agom, o que vê?

Ela olhou. Havia grupos de homens acurrucados em alpendres, alguns falando, outros assinalando. Havia barro, um alvo estilhaçado, grandes muros de pedra cinza, chuva torrencial. Ela enumerou tudo enquanto observava.

Ele agitou a cabeça.

—Sabe o que eu vejo?

—Vê mais que isso?

—Sim. Vejo moços que estão atirando de forma diferente com a atiradeira porque um escudeiro chamado Agom lhes ensinou como fazê-lo. Vejo facas lançadas de forma diferente e com grande precisão devido a um escudeiro chamado Agom. Vejo escoceses transbordantes de orgulho e dando-se cotoveladas cada vez que um Sassenach era expulso do campo, com a dignidade feita migalhas, tudo por um moço chamado Agom. Vejo jovens do clã brigando pela possibilidade de serem escudeiros, para poder ser como um moço chamado Agom. Vejo um guerreiro como meu irmão, de vinte e oito anos, endurecido pelo exercício e impecável na batalha, trocando seu braço de ataque, tudo devido a um moço chamado Agom. Vê algo disso?

Agom entreabriu os olhos contra a chuva e o olhou. Sentia as pernas um pouco frouxas e não era culpa da chuva. Era pelo que lhe estava dizendo.

—Eu fiz isto? — perguntou.

Sesshoumaru sorriu, com os dentes muito brancos no rosto sujo de barro, embora a chuva começasse a limpá-lo.

—Isso e mais, Agom. Existe uma parte escura nesse poder que tem. Isso é o que acredito. Penso que Inuyasha não é o único que sofre.

—Eu também sofro — respondeu Agom — E nenhum de vocês conhece minhas razões!

—Já não me importam suas razões!

—Não ficarei escutando outra... — Agom lhe deu as costas, mas ele a interrompeu.

—Sabe onde está Sango?

Agom se deteve.

—Não tenho nada a ver com Sango.

—OH, nisso te equivoca. Resulta que eu sei onde está a moça, e não será o que te espera.

Agom voltou a cabeça.

—Onde está? —perguntou.

—Em minha cama.

Agom ficou atônita.

—Mas eu acreditava que amava Rin — protestou.

—O amor e a luxúria são duas coisas diferentes, Agom. Você as confundiu. Meu irmão também está confundido. Acredita que pode saciar sua luxúria com a mulher que amo e guardar seu amor para a mulher que começo a detestar.

—Espera. Não tive nada a ver com...

—Não deseja saber por que está Sango em minha cama?

—Dirá-me isso, embora não deseje ouvi-lo. Adiante, Sesshoumaru, me conte.

—Está aprendendo a ser uma rameira.

—O que? — Os joelhos de Agom estavam definitivamente frouxos. Balançou-se — Mas, por quê? Não há nenhuma necessidade de levar essa vida. Tem meu amparo! Sabem todos.

—Isso é verdade, moço. Tem o amparo do grande campeão escocês, escudeiro Agom, mas ele não a quer. OH, não. Ele quer saciar sua luxúria com uma rameira gorda e velha chamada Kirara Matshui que tem a língua muito longa e profere incessantes palavras atormentadoras sobre isso.

—Não sei — vaiou Agom.

—De modo que se seu protetor quer uma rameira gorda e usada, Sango fará o que possa porque quer o que tem Kirara Matshui.

— Kirara Matshui não tem nada de nada!

—Diga a eles — disse Sesshoumaru.

—Não sei. Diz que é minha culpa, então me ajude! Como posso mudá-lo? Como? Não sabia o que estava ocorrendo. Não queria que isto acontecesse. Não queria que acontecesse nada disto.

—Está piorando — disse Sesshoumaru brandamente.

—Ah... sim? — Sua voz mal era audível, mas ele a ouviu.

—Sim — respondeu ele.

Os joelhos de Agom cederam e caiu sobre a erva molhada ao lado dele.

—Como? —sussurrou.

—Quer a Sango? —perguntou, olhando de soslaio para ela — Quer levá-la a sua cama?

—Isto é asqueroso! —explodiu ela — E você sabe!

—Ah, sim? —perguntou ele.

—Eu não quero isso!

—Não sabe o que se sente quando se brinca com um seio com os dentes, não? Não sabe como se endurecem ao chupá-los?

—Para! —gritou Agom, colocando uma mão na boca para controlar o asco.

—E da umidade feminina? Deseja sentir isso perto de você? Pensaste-o? Sua umidade contra a tua? O que?

—Para! Para! Para! —gritou Agom até que sua voz se quebrou e os soluços encheram o vazio. Apertou as mãos contra as orelhas e mesmo assim parecia que lhe ouvia, via as imagens, sentia a bílis agitando-se perigosamente — Para! Não posso suportá-lo! Não posso escutar! Não posso esperar! Odeio as imagens que me sugere! Para! Suplico que pare!

Ele não disse nada enquanto Agom agarrava o estômago, abraçava-se e se balançava com uma sensação de repugnância.

—Por que me faz isto? Por quê? Por que, Sesshoumaru, por quê? Não quero saber. Não quero ouvir. Antes morreria que pensar nisso. Ouve-me? Preferiria morrer! Por que o faz? — Levantou a cabeça e o olhou, e tudo o que pôde ver foi o horror que ele havia descrito.

—Então verá o que tem feito a meu irmão — disse ele por fim.

Os olhos de Agom se abriram igual a sua boca.

—OH, Meu Deus — gemeu, e saiu correndo por onde se foi Inuyasha.

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CAPÍTULO 20

Agom ficou diante da porta do quarto de Inuyasha, apoiou a testa na porta e tentou convencer a si mesma de não interferir. Tinha deslocado como uma louca para chegar ali e se deu conta de que Sesshoumaru a estava empurrando a fazer o que ele queria, não o juramento dos Higurashi. Estava-lhe fazendo esquecer que tudo o que tinham prometido os Higurashi estava ao alcance de sua mão, ali e agora. Só podia consumar uma vingança sangrenta contra o clã Taisho lhes arrebatando a um deles, mas de fato o estava fazendo sem ter que verter nenhuma gota de sangue.

Todos os Higurashi que tinham morrido seguiam com ela, seu sangue corria por suas veias com seu próprio sangue, sua dor se acrescentava ao dela, até que seu coração era um grande pesar. Obrigou-se a esperar. Só precisava esperar, conter-se e não interferir, e aconteceria. Se detivesse Inuyasha, estaria admitindo o que não se atrevia a acreditar.

Teria que reconhecer que havia amor no mundo e era mais forte que os juramentos, mais forte que a morte. Se abrisse essa porta, não haveria volta atrás. Sabia. Sabia que Sesshoumaru o esperava dela. Esperava que ela fosse à rameira de Inuyasha, que lhe desse o que queria o que Inuyasha queria... o que ela queria.

Agom suspirou e se separou da porta. Não seria a rameira de ninguém, mas tampouco podia negar seu coração. O amor era muito forte. Teria que deter Inuyasha de algum jeito, e só lhe ocorria uma... lhe contando a verdade.

Abriu a porta.

Inuyasha estava jogado na cama, com a faca do dragão entre os dedos, e a girava a um lado e ao outro, olhando-a. Agom fechou a porta com suavidade e baixou o fecho novo e recém instalado.

—Veio se despedir? — perguntou.

—Não — disse ela — Vim procurar minha faca.

—Por quê?

—Me dê à faca, Inuyasha. Falaremos.

Inuyasha a olhou. Não tinha tirado nem um pouco de barro antes de deitar-se na cama. Agom sabia que era porque lhe dava igual. Sabia o que tinha planejado. Quão mesmo faria ela em seu lugar.

—Tirará-me a faca de minha mão morta, Agom, e não antes. Compreende?

Levantou-a. Agom abriu a boca e começou a falar.

—Não sou Agom, sem nome e sem clã, Inuyasha. Procedo de uma família de quatro filhos e duas filhas. Meu pai era o senhor. Não era um grande clã, nem era um clã rico. Tinha tios, primos... todos mais velhos. Não tínhamos um castelo como este, nem éramos pobres camponeses. Tínhamos uma casa de pedra, muito sólida, com um desvão. Conheci o amor, também. Estava rodeada de amor. Recordo-o perfeitamente, embora o perdesse quando era muito pequeno.

Nada. A faca seguia planando sobre o peito de Inuyasha. Agom se engasgou e seguiu falando precipitadamente.

—Minha irmã mais velha se chama Kikyou. É vinte e um anos mais velha que eu. Era como eu antes. Os mesmos cabelos largos, os mesmos olhos, o mesmo rosto. Parecíamo-nos com nossa mãe. Minha irmã tinha um filho, um menino, e outro a caminho. Tive isso, Inuyasha. Conheci o amor. Conheci a vida. Logo me arrebataram isso. Eu tinha quatro anos.

A folha cintilou. Agom não sabia o que significava. Não se atreveu a deixar de falar para perguntar-lhe.

—Os saqueadores chegaram de madrugada. Todos os homens estavam fora. Só minha irmã, minha mãe e o menino estavam em casa comigo. Ainda lembro as cores que luziam. Não os esqueci nunca. Nunca o esquecerei. —Olhou aquelas cores idênticas e estremeceu antes de dominar-se.

—Primeiro mataram minha mãe, e não sei o que fizeram com ela uma e outra vez enquanto gritava e sangrava sobre a mesa. Eu olhei do desvão e depois Kikyou estava comigo. Explicou-me seu plano. Deixaria-me cair do desvão. Era um grande salto, Inuyasha, sobre tudo para um pirralho de quatro anos e de madrugada.

«Lembro que Kikyou me chamou, para assegurar-se de que estava bem. Depois me disse que pegasse o menino. Chamava-se Samuel. Era um menino muito inteligente, embora só tivesse um ano. Era são. Era precioso. Era perfeito. Levantei os braços.

A faca já não pairava, mas Agom não a viu de todos os modos. Voltava a ver aquela madrugada.

—A casa começava a incendiar-se, mas eu não sabia. Estava concentrado. Estava preparado. Plantei bem os pés para recolhê-lo e a explosão me fez cair de repente. Não sabia que as casas podiam fazer essas coisas. Ainda não consigo explicar isso. Só sei que não estava para recolher meu sobrinho por culpa disso. Já estava no chão. Olhou-me com seus grandes olhos cheios de confiança e depois ficou quieto. Tentava despertá-lo quando Kikyou caiu a meu lado, agarrando o estômago inchado e me gritando por minha estupidez. Seus gritos atraíram aos saqueadores.

—O que fez então? —perguntou Inuyasha em voz baixa.

—Escondi-me. Não sabia o que mais fazer. A casa se queimava, havia fumaça por toda parte e Kikyou gritava e gritava. Mas então não sabia por que.

—Sabe quem eram? —perguntou.

Agom desfez um enorme nó na garganta para poder responder.

—Sei agora — respondeu com a voz rouca — Então só conhecia o clã. O disse a meu pai quando voltou. Ele, meus irmãos, meus tios e primos e o marido de Kikyou, embora não recordo sequer seu nome. Acreditava que Kikyou morria. Estava cheia de sangue e gritava que eu tinha matado seu filho, e então pariu um menino morto sobre a erva.

—OH, Meu deus. — A voz de Inuyasha demonstrava o mesmo horror que ela via. Agom fechou os olhos.

—Kikyou se voltou louca. Ainda está, acredito. Eu a chamo bruxa quando a chamo de algo. Ela ainda me chama assassino de bebês. Sempre me chamará assim.

—Mas se tinha quatro anos!

Ela abriu os olhos e o olhou.

—Quatro anos não é ser muito jovem para aprender sobre a vida e a morte, Inuyasha. Eu sou testemunha disso. Devo tê-lo aprendido bem. Você mesmo o comenta às vezes.

—Não sabia.

—Não sabe ninguém. Mas já não importa. É passado e não pode mudar-se.

—Seu clã jurou vingança?

—Sim. E passei seis anos tentando consegui-lo. Passei esses anos aprendendo. Aprendendo a matar. Vendo matar. Enterrando a nossos mortos. Da renda dos mortos dos outros. Converti-me na sombra de meu pai. Estivesse onde estivesse eu estava na sombra. Se alguém se aproximava do clã sem lar em que nos tínhamos convertido teria visto um menino desamparado na sombra atrás deles. Meu pai era um grande entendido em armas, embora não tão rápido nem tão preciso como eu. Primeiro aprendi a lançar adagas. Isso já terá imaginado.

—Segue — disse ele.

Agom umedeceu a secura da garganta.

—Cada estação perdíamos a alguém do clã, mas lhes fazíamos pagar por isso. Meu clã tinha jurado consumar uma vingança sangrenta. A matança seguiu. Não podíamos parar até que terminássemos. Então chegou o final.

—O final?

Agom não via nada mais que a noite. Tampouco ouviu a pergunta de Inuyasha. Só ouvia os gritos, depois os gemidos e o silêncio.

—Então tinha dez anos e não me permitia participar da batalha, assim que ficava atrás olhando. Observei enquanto eliminavam a todo meu clã. A todos. Mataram a trinta e sete homens aquela noite, e muitos deles eram de minha família. Tudo o que tinha. Todos meus primos, meus tios, todos.

—O que fez, então?

—O que crê que fiz? Enterrei-os. Demorei oito dias e tive que me esconder quando vieram recolher seus mortos. Não tinha muita prática escavando e a quem ia pedir ajuda, à bruxa? Não podia suportar me ver. Ninguém podia. Peguei os pertences dos corpos menores para mim e quando estive muito fraco por falta de comida voltei. Recolhi todas as armas que pude de suas tumbas. Ainda estarão percorrendo a terra procurando seu traje e suas adagas. Sei. Às vezes o noto.

—Eles não fariam isso, Agom. Compreenderiam-no. É o que teriam querido — disse ele amavelmente.

—O que saberá você? — disse ela com raiva — São e salvo em seu clã e rodeado de seus irmãos, e com toda sua família. O que? Você não sabe o que é não ter a ninguém mais que a você mesmo. Você não sabe o que é ver como violam e queimam a sua mãe. Não compreende a tortura de saber que matou o filho de sua irmã. Não compreende o que é ter antepassados vagando pela terra porque você saqueou suas tumbas! Não sabe nada disso, Inuyasha, nada.

—Tem razão, Agom. Não sei. Mas começo a entendê-lo um pouco.

—Jurei que o acabaria. Não me dava medo morrer quando o tivesse completado. Esperava-o. Necessitava-o. Vingaria-me e depois morreria. Assim talvez os cadáveres de meu clã descansassem em paz e me deixariam.

—Seus sonhos? —sussurrou Inuyasha.

Agom assentiu e voltou a olhá-lo. Agora só tinha a faca suspensa pelo punho com dois dedos, mas ainda a tinha.

—Então te conheci, Inuyasha Taisho. Ou mas bem me sequestrou. Existe um destino pior para mim? Sequestrado por um Taisho? Um dos Taisho das terras altas mais arrogantes e ricos, amantes dos Sassenach. Pior ainda, me levou o Taisho mais jovem, brincalhão, forte e viril. Não sabe o esforço que tenho feito para te odiar.

—Imagino — disse.

—Você te propôs me ensinar e eu não desejava aprender! Eu sabia qual era o propósito de minha vida. Vingar-me e morrer. Era minha única finalidade. É a razão que está atrás de tudo. Faço tudo o que tenho feito e você vai e me obriga a me converter em seu escudeiro.

—E isso aonde te conduz? Vai me dizer que encontrou uma nova alegria de viver, uma razão para amar? O que, Agom? Diga algo que dê sentido há este dia tão tenebroso.

—Já não posso negar que existe algo chamado amor. Já não recordava que existia, mas me fez vê-lo. Sim, ainda existe amor no mundo. Ainda existe alegria. Ainda existe uma razão para tudo. Ainda existe um Deus que se preocupa. Sempre haverá bebês que nasçem e cressem para serem homens e mulheres. Seguirá havendo morte. Seguirá havendo brutalidade. Também haverá vida. Ainda há amor no mundo.

Ele suspirou.

—Agora o entendo, Agom. Sinto muito. Não tem que me contar isto, mas o compreendo. Que Deus me ajude, de todos os modos, compreendo o que diz e compreendo o por que. Com toda a morte que há nesta terra, por que ia acrescentar-lhe mais? Isso é o que está dizendo não?

—Não seria capaz de cavar sua tumba, Inuyasha. Dói-me muitíssimo saber que tenho que fazê-lo. Deve me devolver minha faca agora.

—Promete-me não falhar a próxima vez que eu arrisque nossa esperança de paraíso tentando te reclamar?

—Não espero nenhum paraíso, Inuyasha. É que não me escutou?

—Tudo o que me contou aconteceu quando era um menino! Mal era um pirralho! Nenhum Deus seria tão pouco misericordioso.

—Acabo de começar a acreditar em Deus outra vez, Inuyasha Taisho. Suplico-te que não tome muito a sério minha fé. Sabia o que fazia. Sabia o por que. Devo terminar este juramento e devo morrer. Sei que meu clã descansará quando tiver satisfeito ambas as coisas e não antes. Não o entende?

—Entendo a vingança, Agom, mas ninguém deve morrer exceto o diabo! Deve morrer. Diga-me o nome do clã e te ajudarei. Merecem tudo o que possa lhes fazer.

Agom se sentiu como se a tivessem jogado por uma cascata até o mais profundo dos lagos e estivesse saindo à superfície para tomar ar. Agarrou ar e lhe queimou.

—Não posso te ajudar, Inuyasha. É minha maldição e meu juramento. Agora falo porque tenho outro juramento. Isto é o que queria que soubesse e para isso necessito sua ajuda.

—Do que se trata?

—Vou emendar as coisas más que tenho feito. Embora fossem sem intenção, fiz-as. Não poderei descansar em minha tumba se não as emendar. Necessito-te vivo para fazê-lo. Quando tiver terminado, pode procurar a morte se o desejar. Reunirei-me contigo. Dê-me a faca, Inuyasha.

—Não deve voltar a falhar.

—Não falhei antes. Fiz o que me havia dito. Apontava a uma greta da parede. Acertei.

Ele se sentou e lhe lançou a faca. Agom estava tão atônita como ele quando se moveu nessa direção e a pegou ao voo. Levantou-a para a luz e observou o rubi à luz da fogueira.

—Crê na magia, Inuyasha? —perguntou.

—Acredito na ilusão — respondeu ele, com um vislumbre de sorriso.

Ela se encolheu de ombros.

—Pensarei nisso, então. Agora dorme. Necessitará-o. Voltarei para este quarto antes que se ponha o sol amanhã.

—Aonde vai? Se for procurar a essa rameira, Kirara...

Agom colocou as mãos nos quadris, arqueou as sobrancelhas e o olhou com uma de suas expressões de «me está decepcionando».

—Inuyasha Taisho, acabo de te contar mais do que contei a nenhuma outra pessoa na terra. Agora não me envenene.

—Não correrá perigo?

—Sou a campeã de armas dos Taisho. Perigo? Que parvo tentaria algo contra mim?

—Onde estará? Como te encontrarei?

—Não deixarei o castelo. Tem minha palavra. Descansa. Toma um banho. Peça a Sesshoumaru se necessitar ajuda. Encontra um feile-breacan adequado para o mais formoso dos Taishho e te atreva a sonhar, Inuyasha. Prometo-te magia. Não ilusão. Magia. Até amanhã.

Abriu a porta e saiu. Depois foi procurar Sango e lady Rin para fazer uma mulher dela.

O banho que tinham enchido para ela foi uma experiência agradável quando superou que três mulheres a ajudassem. Kirara Matshui não ia deixar se separar da criação da Agome, a misteriosa.

Lady Riin se sentiu surpreendida e agradada ante o pedido de Agom e Sango ficou atônita, e riu sem parar pelo que tinha feito Agom e pelos moços que tinha vencido. Sango já não queria ser uma rameira gorda e preguiçosa. Queria estar ao serviço de Agome, fosse onde fosse.

Exclamaram desesperadas ao ver a quantidade de músculo no abdômen de Agom, em suas costas e em seus ombros. Por não falar dos grossos tendões da parte traseira das coxas e as nádegas. Enquanto lady Rin mostrava desaprovação pelos músculos que nenhuma mulher deveria ter, descobriu que as pernas de Agom não eram mais largas que as suas e que sua cintura era mais estreita.

Esse último foi uma surpresa para lady Rin, que sustentava um pesado tecido de cetim negro com a que estavam costurando um vestido para ela. Ainda não lhe tinham costurado a prega e se decidiu que era justo o que Agom deveria usar para seduzir Inuyasha Taisho. Depois lubrificaram os cabelos e a pele de Agom e lhe fizeram beber uma poção de ervas e especiarias para que se acalmasse e dormisse toda a tarde.

Quando despertaram, ela amarrou a faca do dragão e o retalho de kilt, apesar dos protestos das demais, colocou uma camisa leve quase transparente, meias que lhe escorregavam para baixo nas pernas e a vestiram com o cetim negro. Puseram-lhe as mangas. Ataram-lhe um cordão negro ao redor das costelas e a esbeltez de seu estômago e lhe puseram laços nos cabelos. Então decidiram que estava pronta e a acompanharam com um véu muito grosso até o quarto.

Foi então quando o valor começou a lhe falhar. As damas devem ter notado porque simplesmente lhe afastaram o véu, abriram a porta e a empurraram dentro, sem deixar de rir todo o momento. Depois houve um silêncio total e absoluto.

Inuyasah saltou da cadeira, cruzou o quarto e se colocou frente a ela antes que Agom pudesse respirar. O que soou quando o viu diante dela foi mais bem um ofego. Aqueles olhos ambares eram grandes e estavam estupefatos e muito, muito agradados. Notava-se.

—OH... Meu Deus — disse, ajoelhando-se diante dela. Viu que agarrava a prega e a sustentava em sua mão. Viu que lhe tremia a mão. Depois os ombros — Me diga que não estou sonhando. Por favor, Meu Deus!

Agom posou a mão na cabeça dele e o acariciou com os dedos até que teve mechas de cabelos onde normalmente tinha adagas.

—Não está sonhando, senhor Taisho. Meu pai tinha duas filhas: Kikyou, de quem já te falei... e Agome — sussurrou.

—OH, Agom, vagabundo. É um vagabundo. Quando penso nas noites, nas imagens que tive, as...

—Vai perder o tempo falando com chão das frustrações passadas, senhor?

—OH, Agom, não posso acreditar que seja real.

Agom afastou os dedos de seus cabelos e sustentou as palmas das mãos em alto.

—Inuyasha, se não te levantar irei procurar Sesshoumaru e lhe perguntarei que mais se supõe que devo fazer para que me creia! Sou uma mulher como outra qualquer. Sempre fui.

Ele se levantou, tomou ar e olhou com muito cuidado do cocuruto dela até a ligeira sombra que podia vislumbrar entre os seios, as pontas dos pés embainhados em meias, já que no armário de lady Rin não havia sapatos de sua medida, e depois a observou de baixo a cima. Estava suficientemente perto para tocá-la, mas se dominou. Não importava. Fez-lhe o mesmo efeito.

—Não se afastará tanto de mim. Não irá procurar Sesshoumaru nem a nenhum outro homem. Jamais. Não quero a nenhuma outra pessoa neste quarto. Esta noite não. — Passou por trás dela para correr o fecho e voltou — Pode ser que nem sequer amanhã.

—Amanhã se casa Inuyasha.

Ele franziu o cenho e a olhou.

—Só se você for à noiva — disse por fim.

—Não pode romper uma promessa, Inuyasha.

—Vem ao meu quarto, prometendo tudo o que tive medo de imaginar e me diz que me case com outra? Por Deus, Agom, a ver se te decide! Não a tomarei a menos que me prometa que será minha esposa. Juro-o.

Os olhos de Agom se encheram de lágrimas. Pedia-lhe o impossível, mas ele não sabia. Só ela sabia.

—Além disso, Sesshoumaru me contou a verdade sobre eles. Ama lady Rin, e ela a ele. Ocupará meu lugar. Disse-me que não me arrependeria. Tinha razão. Não sei. Pode ser que perca suas bodas. OH, Agom, comeu?

Seguia sem tocá-la e Agom manteve a mesma distância que ele parecia desejar quando se voltou para lhe mostrar a mesa. Havia uvas, queijos, vinho e pudim de sangue na mesa. Também havia lençóis limpos na cama e eram de cor vermelha escura. Agom abriu muito os olhos. Ele viu onde olhava e sorriu.

—Sesshoumaru estava a par de sua surpresa. Ele decorou meu quarto. Pode ser que haja músicos mais tarde para nos dar uma serenata. Você gostaria?

—Não o entendo, Inuyasha.

Viu-o aproximar-se da mesa, pegar uma taça e enchê-la para ela. A deu. Tinha lágrimas nos olhos, mas não queria chorar. Inuyasha Taisho levava o kilt da família, um gibão negro e uma blusa de mangas largas. Estava assombroso, mas se comportava de uma forma diferente a que ela esperava. Tinha todo o direito a tocá-la, mas não o fazia.

Passou-lhe a taça. Agom a pegou e ele evitou todo contato com seus dedos, e se ruborizou curiosamente ao ver que o observava. Tremia tão forte que teve que sustentá-la com as duas mãos.

—O que é o que não entende céu?

—Não me «toca» — respondeu, e então foi ela que se ruborizou quando ele a olhou.

—Não me atrevo — disse ele finalmente.

—Sigo sendo Agom, o escudeiro — sussurrou.

—Sim, e seria como uma besta desatada se te tocasse. Negou a Agome muito tempo. Conheço-me. Não te toco por uma razão. Uma razão muito boa. Bebe seu vinho e deixa de me olhar com esses olhos cinzas e grandes, enquanto eu me dou chutes por não ter visto o que tinha diante do nariz.

Agom se engasgou com o primeiro sorvo de vinho e ele riu, deixando que cuspisse. Agom cruzou o quarto, fazendo oscilar a saia ao caminhar como as damas lhe tinham ensinado. A reação de Inuyasha foi como um bálsamo ao baixar a cabeça e abrir seus atônitos olhos ambares, cativado. Agom decidiu que havia coisas de ser mulher que podia chegar a gostar.

—Acredito que eu gostaria de provar um pouco de pudim — disse quando chegou à mesa.

Ele já o estava servindo em um prato antes que estivesse sentada, e depois observou como cortava um pedacinho com os dedos e o levava a boca. Depois, entreabriu os olhos e lambeu os dedos antes de mastigar. Inuyasha fechou os olhos e tragou saliva. Agom quase se pôs a rir.

—Você não come? —perguntou quando ele voltou a abrir os olhos.

—Não acredito que seja capaz de engolir — respondeu ele. Depois demonstrou que isso era falso tragando uma taça de vinho antes de deixá-la sobre a mesa — Por Deus, Agome, é a mulher mais encantadora que vi em minha vida. Não posso acreditar que te tenha tido a meu lado dia e noite durante quase cinco semanas e não tê-lo adivinhado. Não posso acreditar que tenha sido tão cego. Não posso pensar! Só posso fechar os olhos e estremecer. Meu Deus! — Acabou seu incoerente discurso e Agome pegou outro pedacinho de pudim.

—Abre a boca, Inuyasha — sussurrou.