Sopro do inverno
Aquela era a quinta e última manhã dela no Castelo Granger. Harry Potter desejava ter partido no dia anterior, mas na ocasião as carroças estavam longe de estar carregadas. Naquela manhã, porém, antes do sol nascer tudo estava pronto para a viagem. Fênix logo iria encontrar seu senhor para retomar o caminho para o leste e para o Exército Alvo. Antes Gina Weasley tinha um assunto a resolver.
Ela tomou cuidado para não ser vista ao seguir para a parte do castelo onde ficava o quarto do irmão e da cunhada. Aquela podia ser a última vez que via Rony e Hermione, que certamente sabiam disso. Provavelmente o casal havia pedido para que Gina os visitasse antes de partir para se despedir.
Tinha tido poucos encontros com os dois desde a antevéspera, quando acordou no aposento deles, afinal precisavam ser discretos. Ninguém sabia quem era ela realmente, e o que o escudeiro de Harry Potter faria na companhia de Rony e Hermione Weasley? Seria estranho se alguém os visse juntos. A garota já tinha problemas suficientes fugindo dos olhares inquisidores de Sirius Black.
Ele havia parado de implicar com ela. Não estava chegando perto de Gina, sequer falando com ela, mas não parava de encará-la sempre que estavam no mesmo cômodo. A garota sabia que o comportamento de Black era resultado de uma conversa com Rony. Seu irmão havia dito a ele e a quem perguntasse que acreditava na versão de Fênix para a história de como o menino havia conseguido a espada dos Weasley, assim como havia pedido para que o escudeiro fosse deixado em paz. Desde então Black manteve distância, mas ela se perguntava se ele continuaria longe quando Rony não estivesse mais por perto.
Harry não tinha gostado da forma como seu padrinho havia agido. Gina não viu nem ouviu, mas soube que Harry e Black discutiram por causa disso. Hermione — que parecia saber tudo que acontecia no castelo — contou à garota que Harry tinha ficado aborrecido pelo padrinho ter falado com Rony sobre a espada em sua ausência e por ter batido em seu escudeiro — mesmo que, na verdade, Kalton é quem tivesse batido. Aparentemente, Harry e Black tinham combinado de conversar com Rony e Fênix juntos.
Na primeira vez que apareceu na frente de Harry depois da noite do Dia dos Deuses, ele parecia já saber o que havia acontecido: que Black tinha contado sobre a espada a Rony e que os dois resolveram questionar Fênix, que fugiu e acabou conversando com Rony a sós. O que nem Harry nem ninguém sabia — a não ser Gina, Rony e Hermione, é claro — era que a conversa não tinha terminado naquela noite, nem que a garota havia passado quase todo o dia seguinte com o irmão e a cunhada. Harry não comentou nada sobre o episódio, apenas perguntou como ela estava depois de encará-la longamente.
- Kalton quebrou seu nariz?
- Não, senhor. Ele está doendo, mas inteiro.
Contudo, alguma parte de Gina não estava inteira. Ele fitava Harry e tudo que conseguia era lembrar dele e da copeira juntos, fodendo como animais. A mão de gelo que parecia ter tocado seu peito quando os flagrou voltava e ela sentia raiva. Raiva de Harry por escolher a copeira e raiva dela por ser tomada por aquelas emoções.
Gina descobriu o nome da copeira quando foi entregar um recado. A pedido de Harry, na noite seguinte à do Dia do Deuses, foi até a adega do castelo para falar com uma criada chamada Esten. Soube quem era a tal Esten assim que pisou ali: reconheceu os cabelos castanhos e cacheados, os olhos verdes e o rosto arredondado. A cena que ela viu na sala das tapeçarias voltou mais uma vez à sua mente, e Gina saiu correndo da adega assim que entregou a mensagem:
- Harry Potter pediu que levasse o vinho para ele agora.
Esten se tornou alvo do ódio e da inveja de Gina depois disso, assim como era alvo do ódio e da inveja de Gemma. A prostituta sabia que a copeira era amante de Harry, mas a garota não fazia ideia de como ela tinha descoberto.
Uma das vantagens de ir embora do castelo era deixar Esten para trás. Gina esperava que o frio em seu peito e a raiva que sentia ficassem para trás também, porém esperava principalmente esquecer a inveja que tinha da copeira. Era o que mais a perturbava.
A garota pensava nisso quando chegou ao aposento ao qual se dirigia. Mal bateu e a porta se abriu revelando Hermione.
- Gina! Entre rápido. Rápido!
Ela deslizou para dentro do quarto, onde seu irmão quebrava o jejum. Enquanto trocavam cumprimentos, a cunhada a arrastou até a mesa, fazendo-a sentar.
- Não posso demorar. Harry me espera.
- Não vamos demorar mais do que alguns instantes – seu irmão falou, colocando-se de pé. – Coma algo.
Gina tinha passado na cozinha e feito o desjejum, mas deu uma mordida em uma maça.
- Ainda há tempo – Hermione disse a ela. – Você pode desistir dessa farsa.
- Que farsa?
- Sabe muito bem do que falo.
A garota sabia, afinal já tinham tido aquela conversa. Apesar de Hermione garantir que ela e Rony respeitariam sua vontade, toda vez que via Gina tentava fazer com que mudasse de ideia.
- Vou seguir com o Exército Alvo, Hermione, está decidido.
Sua cunhada se calou, deixando Gina em paz para devorar sua maça e observar Rony. Ele mexia em um baú, que revirou até encontrar a espada, que depositou na frente da irmã.
- O que é isso? – a garota perguntou.
- A espada da nossa família.
- Eu sei – o que ela queria saber ela o porquê dele estar lhe dando a arma.
- É sua.
- O quê? - devia estar com os ouvidos cheios de cera. Não podia ter escutado direito.
- É sua, Gina.
Ela olhou do irmão para a espada, então para Rony de novo. Ele falava sério!
Sempre pensou que a lâmina terminaria com Gui, o mais velho de seus irmãos. Depois da morte dele e de seus outros irmãos, soube que a arma seria de Rony. Quando Rony parou de mandar corujas e sua família começou a pensar que ele pudesse estar morto também, às vezes Gina imaginava como derrubaria inimigos, lutaria batalhas, venceria torneios e viveria aventuras com aquela espada. Mesmo quando pensava essas coisas, não acreditava realmente que teria a espada. Sempre se imaginou como uma guardiã daquela arma; a guardava para Rony.
- Por quê?
- O pai deu para você, então é com você que ela tem que ficar.
- Ele deu para mim porque não havia mais nenhum filho para quem ele pudesse dar. Todos vocês tinham ido embora.
- Exato, Gina. Você foi a única quem ficou. Eu não mereço essa espada.
Gina queria a lâmina, uma parte dela sempre quis. Rony também a queria. Ele a queria desde criança, muito mais do que Gina jamais a quis. E ele abrir mão da arma significava muito.
Ela sabia o que fazer com a espada.
Gina se levantou e abraçou o irmão, que estava parado ao lado dela. Ela o amava muito.
- Obrigada, Rony – ele cheirava a Hermione. - Senti saudades e vou continuar sentindo.
- Eu também – ele acariciou os seus cabelos dela – Tome cuidado!
A garota sempre havia se sentido pequena nos braços dos irmãos, que, diferente dela, sempre foram grandes para a idade. Ainda se sentia uma menina nos braços de Rony.
- Tomarei.
Ela abraçou e agradeceu Hermione, que fechou os braços ao redor de Gina com tanto entusiasmo quanto na primeira vez em que a havia visto.
- Obrigada por convencer Rony e pelas vestes – Gina ia embora com um baú de roupas adequadas para seu tamanho e para não passar frio no inverno. – Obrigada por tudo.
- Não morra – Hermione chorava.
- Não morrerei, não se preocupe.
Ela olhou bem para o irmão e a cunhada, pois queria lembrar de todos os detalhes de seus rostos quando se fosse. E não poderia demorar a partir ou acompanharia Hermione nas lágrimas.
- Gina – Rony a alcançou na porta, a espada dos Weasley's nas mãos -, está esquecendo a espada.
A garota sorriu.
- Não estou esquecendo de nada, irmão. Adeus.
Gina Weasley fechou a porta.
Fênix foi ao encontro de Harry.
xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx
Tinha escurecido há muito quando pararam em uma estalagem para passar a noite — uma estalagem de verdade daquela vez. Estiveram cavalgando desde o nascer do sol e continuariam assim que o sol apontasse mais uma vez no horizonte. Harry tinha pressa em alcançar seu exército porque estava preocupado com seus homens. Havia recebido uma coruja que informava que a gripe de inverno tinha chegado ao acampamento.
Gina cuidou dos cavalos; não havia estábulo ali, por isso amarrou-os para que não fugissem. Prendeu-os tão perto quanto possível dos homens que ficariam na vigília. Nunca a mandavam tomar conta da carga e dos animais porque seu senhor precisava dela, e agradeceu por isso. Os vigias passavam parte de noite acordado, e ela estava tão exausta que poderia dormir até muito depois do sol nascer.
A estalagem era menor do que aquela em que pararam quando seguiam para o Castelo Granger e estava mais vazia. Gina tratou de descobrir onde dormiria, subiu as escadas e entrou no quarto. Era grande e tinha quatro colchões de palha, cada um com tamanho suficiente para cinco pessoas. Gina sabia que se tinham espaço para cinco, teriam de acomodar pelo menos dez.
Ela ficou só de túnica e roupa de baixo e se enfiou sob as mantas do colchão menos sujo. Se tivesse mais alguém ali ficaria receosa em se despir, porém estava sozinha. Os homens jantavam e ainda não pensavam em dormir. Gina estava com a barriga cheia porque havia comido os bolos que tinha ganhado de Naya, a mulher baixa, gorducha e risonha que trabalhava na cozinha dos Granger. A garota havia saído de lá com mais pães, queijos, presuntos, noz, carnes e vinho do que qualquer outro escudeiro. Desconfiou que Hermione estivesse por trás daquela carga de provisões, assim como estava por trás de suas vestes novas. Tinha ganhado roupas de baixo, meias, calções, túnicas, camisas, luvas, uma capa e um manto, além de ter recuperado suas botas, cinto e o manto que Harry havia lhe dado. As peças eram usadas, mas estavam limpas e aqueciam; elas estavam guardadas em um baú, outro presente de Hermione. Era nele que Gina levava tudo o que possuía: as vestes, o livro que ganhara de Harry e folhas de laço.
A princípio temeu que as roupas novas levantassem suspeitas, mas outros brancos também ganharam vestes na passagem pelos Granger. Na verdade, o exército de Harry conseguiu muito mais do que isso: ouro, suprimentos, animais, armas, homens...
Gina não entendia por que os novos brancos não podiam ajudar a formar o exército de Rony em vez de entrar no de Harry. Chegou a perguntar isso ao irmão, porém ele se recusou a responder. Disse que esse era um assunto do rei, para ser discutido em conselho, não em família. Falou isso mais de uma vez à garota, que viu frustrada todas as suas tentativas de descobrir mais sobre a questão.
Apesar de não ter conseguido arrancar nada de útil de Rony, sabia que ele iria para o sul em busca de aliados — Hermione tinha falado qualquer coisa sobre isso. Gina esperava que ele tivesse sorte, pois, se conseguisse montar um exército, seria o segundo Weasley a estar à frente de um grupo de brancos. Gui liderava um Exército Alvo quanto caiu na emboscada do Forte dos Murmúrios, que resultou na morte dele, de Carlinhos, Percy, Fred e Jorge.
Ela não queria recordar aquela história, porque temia que tivesse pesadelos. Voltara a sonhar com a família naqueles últimos dias; às vezes os sonhos eram bons, em outras, desagradáveis. Sabia que esses sonhos a deixariam, afinal eles sempre a deixavam, porém até lá corria o risco de falar algo que não deveria durante o sono. Gina Weasley tinha uma família com a qual sonhar, não Fênix.
Rezou para que, quando o Deus do Sono a abraçasse, não tivesse sonhos nem pesadelos. Se teve, não se recordou, porque quando acordou no meio da noite para urinar só lembrava de ter fechado os olhos e dormido.
O quarto estava silencioso e cheio, com homens espalhados sob cada superfície dos colchões de palha. O homem ao lado dela respirava pesado; quando seus olhos se acostumaram à escuridão, Gina percebeu que aquela figura era Harry. Ela o observou por um instante antes de se levantar e colocar sua capa. O quarto era precariamente iluminado por archotes, um dos quais ela pegou antes de deixar o cômodo. A latrina ficava do lado de fora da estalagem, por isso teve que enfrentar o frio da noite para urinar. Foi e voltou rapidamente, colocando novamente o archote no lugar e se enfiando sob a manta quente.
- Não vai tirar a capa? – a voz ao lado dela era quase um sussurro.
Gina se deparou com Harry a encarando. Ele tinha acabado de acordar ou nunca esteve dormindo? Será que ela havia despertado-o com sua movimentação?
- Está frio, senhor. A capa ajuda a aquecer – aquele era o outono mais gelado que ela já havia conhecido. – Acordei o senhor? Me desculpe.
Ela deu as costas a Harry Potter e fechou os olhos, torcendo para o sono atingi-la tão rápido quanto antes. Não queria conversar com ou pensar sobre Harry. Seus sentimentos em relação a ele ainda a confundiam: o admirava e prezava por ele, mas também o desprezava. O odiava por se deitar com a copeira.
O que está acontecendo comigo?
Ora Gina queria dar um soco em Harry, o que era claro que não faria, ora queria deixar a história de copeira para trás e retomar sua amizade, uma vez que sentia falta de suas conversas. Queria distância, porém também desejava continuar perto de Harry. Como resultado desse dilema, passou todo o dia incomodada com a presença dele, dirigindo-o apenas as palavras essenciais, e continuava incomodada.
O melhor que faço é dormir.
- Ainda está acordado? – Harry sussurrou atrás dela.
Gina pensou em fingir estar dormindo, mas antes que pudesse decidir sobre isso se ouviu responder, como se sua boca tivesse vida própria:
- Sim, senhor.
- Também não consegue dormir?
- Consigo. Acordei porque minha bexiga estava cheia, senhor.
- Fênix – Harry continuou após um momento de silêncio -, há algo acontecendo?
- Acontecendo, senhor?
- Há algo errado? Você não tem sido você mesmo desde nossa passagem pelos Granger.
A conversa entre eles não passava de sussurros no quarto, mas mesmo assim Gina conseguia ouvir Harry perfeitamente. Não apenas ouviu como entendeu o que ele perguntava. Fênix estava mesmo agindo de forma estranha, ficando calado por horas e dando respostas tão curtas quanto a situação permitia. O escudeiro não tinha razões para agir assim. Contudo, Gina Weasley tinha.
- Não há nada errado, senhor. O frio incomoda, nada mais.
Atrás dela, Harry bufou.
- Me pergunto se o que meu padrinho disse não é verdade – havia um tom de impaciência na voz do homem.
O coração dela pareceu falhar quando escutou aquilo. Mesmo que Sirius Black não a importunasse, não conseguia deixar de pensar que ele era a maior ameaça a seu disfarce. Desde sua primeira conversa com Hermione, a informação passada pela cunhada a perturbava: Black sabia que Fênix não era exatamente quem dizia ser.
Preciso ser mais cautelosa do que nunca.
- O que Lorde Black disse, senhor? – ela queria se virar e encarar Harry, porém achou melhor não demonstrar interesse demais no que ele tinha a dizer.
- Que Rony sabe mais sobre você do que nos disse. Que há mais mistérios envolvendo você do que meu padrinho pensava. Que você está mentindo não apenas sobre como conseguiu a espada, mas também sobre quem é. Essa é a verdade, Fênix?
Não pela primeira vez, ela desejou contar tudo a ele. Raramente Harry questionava seu escudeiro sobre seu passado, mas daquela vez o questionamento dele tinha ares de acusação. Ela não queria que ele desconfiasse dela ou de sua lealdade, porém isso ainda era melhor do que a verdade. Harry certamente iria expulsá-la do Exército Alvo se soubesse quem realmente era.
- Seu padrinho não gosta de mim, senhor. Desculpe a ousadia, mas sinto que ele diria qualquer coisa para me prejudicar frente ao senhor.
Parte dela desejava que Harry acreditasse em suas palavras, e parte desejava que ele notasse sua mentira. Seria doloroso, porém também um alívio revelar a verdade.
Devo ter perdido a razão para pensar tal coisa!
Gina foi pega de surpresa quando sentiu a mão de Harry em seu ombro. Foi um toque rápido, como um aperto amigável, mas o suficiente para que ela desejasse segurar a mão dele entre as suas e nunca mais deixá-lo se afastar. Ela ignorou o impulso e se virou para encará-lo. Os olhos verdes dele pareciam iluminar seu rosto.
- Somos amigos, não somos, Fênix?
- Sim, senhor. O considero um amigo e um mestre, senhor.
- Pois saiba, como meu amigo, que confio em você mesmo que não fale tudo o que sabe. Sei que não é totalmente sincero desde que se juntou ao meu exército, e daquele dia até este continuo esperando a verdade. Não sou um homem paciente, porém a confiança, ou alguma razão que só os deuses podem explicar, me torna paciente. Contudo, mesmo o mais paciente dos homens se cansa de esperar. Entende, Fênix?
Ela acenou, porque entendia muito bem. Ele estava desconfiado, não importava o que dissesse. As palavras de Black haviam atingido-o.
- Por que me diz isso agora, senhor?
- Porque acho que é o momento de você ouvir. Boa noite.
- Boa noite.
Harry se deitou de costas e fechou os olhos. A respiração pesada dele era tão audível quanto seu perfil era visível a Gina. Ela continuou encarando-o, repassando as palavras que ele havia acabado de lhe dizer, até seus olhos se fecharem e o Deus do Sono o alcançar. Antes disso acontecer, porém, dois pensamentos a atingiram:
Harry se importa comigo.
Harry se importa com Fênix.
xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx xxxxx
No quinto dia de cavalgada, o grupo de Harry Potter alcançou o Exército Alvo. Era manhã, porém o céu estava escuro como se fosse noite e o vento frio como se o gelo já tivesse chegado. O sopro do inverno congelava a beleza do outono e os corpos dos homens.
Estavam todos exaustos. Os brancos que passaram pela Ala dos Granger tinham cavalgado quase sem parar nos últimos dias para alcançar o restante do exército, que por sua vez estava cansado de sofrer com as baixas temperaturas, a restrição de comida e a gripe de inverno. Com sorte, eles poderiam se restabelecer com o estoque recém-reforçado de provisões.
Harry estava preocupado com seus homens, mais do que ele havia deixado transparecer durante sua jornada. Quando estavam na estrada, depois daquela conversa na estalagem, Gina tentou tratá-lo tão bem quanto antes, mesmo que ainda se lembrasse da copeira.
Homens são estúpidos, dizia para si mesma nesses momentos. E eu também.
Não conseguia abandonar a sensação que estava agindo de forma estúpida por causa do incidente. A copeira não era boa o suficiente para Harry, mas se ele a queria não era de sua conta. Homens eram estúpidos e Harry não era uma exceção. Não em todos os sentidos.
Assim, a viagem continuou. Como ela, Harry não estava em seu melhor momento, porém era claro à garota que ele se esforçava para parecer forte. Ele conversava com todos, sobre assuntos sérios e trivialidades, mas parecia ter um peso invisível sobre seus ombros. Algo o perturbava. Gina se perguntou se era o que Sirius Black havia dito sobre ela, porém bastou alcançar o Exército Alvo para descobrir a razão da perturbação de seu senhor: muitos brancos estavam doentes.
Logo no dia em que regressou, Harry organizou uma reunião do Conselho de Guerra. Nenhum escudeiro participou; todos ficaram reunidos em volta de uma fogueira tentando adivinhar o que seus senhores discutiam. Ela estava sentada entre Horatio Godwin e Henry Kalton, a quem já havia perdoado por lhe socar no Dia dos Deuses. Ele estava cumprindo ordens de Black, afinal. Que culpa tinha se servia um homem idiota e cruel?
Ela deixou os escudeiros especulando sobre quando eles se tornariam cavaleiros e saiu com a desculpa de checar K e Sem Nome. Os cavalos estavam exaustos depois de tantos dias de viagem e provavelmente K teria de ser sacrificado, porque estava com uma das patas machucadas, mas não queria ir vê-los. Tinha feito isso mais cedo. Naquele momento, queria aproveitar que acamparam não muito longe de uma rara e pequena floresta para procurar laço. Logo o inverno chegaria e seria impossível achar a planta, por isso precisava fazer um estoque de folhas para a próxima estação.
Estava escuro e deixar o exército sem chamar atenção não foi difícil. Havia homens de vigília, porém eles não se importaram com ela. Gina andou um bocado até alcançar as árvores, a maioria sem folhas e doentes de frio. Ainda não havia neve, e mesmo que o ar gelado tivesse queimado as folhas e ervas que cresciam no solo, ela conseguiu reconhecer o laço. Perdeu muito tempo na busca, mas achou o que procurava: a folha que amarrava as entranhas e não deixava o sangue da vida brotar. Teria o suficiente para o inverno se juntasse que o estava apanhando com o que tinha em seu...
Ela parou, a mão suspensa sobre a bolsa de couro onde colocava as folhas.
Há alguém aqui.
Ela não viu ou ouviu nada, mas sentiu o movimento atrás de si. Virou-se e olhou, procurando ouvir. Nada. O único som que escutava era o do vento e do fogo crepitando no galho que tinha pegado na fogueira para iluminar seu caminho. Mesmo assim, tinha certeza. Havia alguém aqui.
Gina terminou de colher o laço com urgência, pegou o galho que havia deixado sobre um tronco morto e deu a volta para sair dali. Havia algo naquela floresta e não era nada bom.
Talvez seja um animal.
Ela mesma, contudo, não acreditava nisso. Uma vez, quando colhia laço, havia cruzado com Carice. Seria a bruxa novamente quem a cercava? Pouco provável, pois Carice liderava os curandeiros do Exército Alvo e, como tal, estava participando da reunião do Conselho de Guerra. Naquele momento a bruxa estava mais preocupada em curar os doentes da gripe do que em seguir os passos de Gina.
- Pelos deuses! – ela praguejou depois de algum tempo. As árvores pareciam todas iguais naquele ponto. Na pressa de sair dali, tinha deixado a trilha.
Sabia que o acampamento estava a noroeste; se seguisse essa direção, reencontraria o caminho. O céu estava sem estrelas e era impossível lê-lo, porém estava cercada de árvores. Troncos eram mais claros na parte norte porque recebiam mais sol. Gina levou o galho iluminado até a árvore mais próxima.
- Se esse é o norte, noroeste é...
- Perdido, garoto?
O susto fez com que o galho que ela carregava caísse entre as folhas. Conseguiu recuperá-lo antes que o fogo se apagasse. O sorriso que viu no rosto de Campbell Brockwar não era amigável. Era voraz.
Ela nunca tinha falado com Brockwar, um dos muitos seguidores de Sirius Black que parecia realmente perigoso. Além da área dos vassalos de Black não ser o lugar mais atrativo para ela, Harry tinha recomendado distância. Ele havia executado Thompson, o irmão de Campbell, pouco depois de Gina se juntar ao Exército Alvo. Os irmãos pareciam gostar de estuprar e matar crianças e mulheres jovens.
Felizmente Fênix não é nenhum dos dois.
- Não, estou no caminho certo. Boa noite, senhor – a garota deu a volta ao redor de uma árvore para passar o mais longe possível de Brockwar, mas ele a segurou pelo ombro.
- Aonde vai com tanta pressa, escudeiro?
- Meu senhor me espera. Com licença.
- Seu senhor está em reunião com o conselho. Ninguém sabe que você está aqui a não ser eu.
Gina era inteligente o suficiente para reconhecer ameaça quando ouvia uma, assim como era inteligente o suficiente para saber que poderia ser mais rápida do que Brockwar, porém nunca seria mais forte. Correr era sua melhor chance, e foi isso que fez.
Deu 15 passos, talvez 20, antes do homem alcançá-la. Ela não tinha uma lâmina, mas tinha um galho em chamas, que pressionou contra o rosto dele enquanto tentava afastá-lo. Por um momento se viu livre de Brockwar e pensou que conseguiria sair dali, então ele tomou o galho dela e atirou-o para longe. Gina viu sua única arma cair na terra seca, longe demais para que pudesse alcançá-la.
- Maldito! – ele a segurou pelos cabelos quando a garota tentou correr novamente – Acha que conseguiria escapar tão fácil, menino? Esse fogo não fez nada além de cócegas. Olhe!
O homem agarrou o maxilar da garota com uma mão pesada e a obrigou a encará-lo. Estava escuro, porém a lua iluminava o suficiente para ela ver a vermelhidão no rosto.
- Espero que sua pele apodreça e caia – Gina disse.
Campbell Brockwar soltou uma gargalhada.
- Esse é o melhor que pode fazer? Que decepção. Esperava uma luta mais difícil – ele soltou seus cabelos e deslizou um dedo pelo rosto dela. – Pelo visto não é só sua aparência que é suave como a de uma menina. Sua coragem também.
- Me larga!
Ela tentou chutar e socar, escapar, mas só se viu mais presa naquela armadilha. Caiu no chão com ele sobre ela e quanto mais tentava afastar o homem, mais se movimentava inutilmente e o divertia.
- Gosto quando as presas lutam. É mais divertido fodê-las assim.
- Vou te matar! – não era uma ameaça vã; era uma promessa.
Gina precisava de uma arma. O galho havia apagado, então mesmo que o alcançasse não haveria fogo para queimar Brockwar. Ele tinha uma espada e pelo menos duas adagas, uma escondida na bota e outra no cinto. Se conseguisse alcançar ao menos...
- Não! – ela gritou quando sentiu as mãos dele em seus calções. Por um momento não soube o que temia mais: ele tomá-la e matá-la naquela floresta ou Harry achar seu corpo e descobrir que ela havia mentido sobre quem era.
Se Brockwar me despir, viva ou morta estou perdida.
- Me larga!
- Isso, escudeiro, tente escapar. Gosto mais desse jogo!
Gina conseguiu virar de bruços e tentou se arrastar para longe, porém o homem a puxou pelos pés e prendeu o corpo dela com o seu. A garota ficou com o rosto pregado no chão, totalmente imobilizada.
- Consegue sentir, escudeiro? – ele se remexia sobre ela - Você me deixou de pau duro. Vou te foder até te cortar ao meio. Faz tanto tempo que não tenho uma coisinha suave assim. Aposto que esse rabo nunca viu um pau, deve ser apertado como...
- Vou te matar, eu juro! Vou arrancar seu pau e fazer você comê-lo! Vou te fazer sangr...
Um objeto pesado bateu com força na cabeça dela, calando-a e confundindo-a. Sentiu a dor atingir o fundo de sua mente e se espalhar.
- Eu vou te fazer sangrar – Brockwar levou uma adaga à garganta dela. - Você não vai escapar, pode gritar e chorar à vontade. É assim mesmo que eu gosto!
- Quem disse... Que as coisas vão ser como você gosta? – tudo girava, mas Gina estava lúcida o bastante para sentir o frio que a atingiu quando suas pernas foram desnudadas.
Não. Não.
- Não! – gritou, tentando erguer o calção de volta e afastar as mãos estranhas.
- Pelos deuses, estou tentando ajudar! Se está bom o suficiente para lutar, pode vestir as calças por si só!
Ela reconheceu a voz, mas só encarou o homem quando terminou de subir o calção e amarrá-lo. Sirius Black estava atrás da garota, e Campbell Brockwar mais além, com o nariz sangrando e um olhar raivoso.
Sua cabeça ainda doía, o que não a impediu de entender uma coisa: Black havia acabado de salvá-la.
Nota da autora
Ato dois começando!
Ah, como é bom terminar mais um capítulo, ainda mais quando ele marca o início de uma nova fase nessa história! A partir de agora as coisas vão se complicar um pouco para os nossos personagens mais queridos, principalmente para a nossa protagonista. Ela terá muita coisa com o que lidar, acreditem em mim!
Peço desculpas por demorar um mês para postar o capítulo, mas tive alguns probleminhas nesse meio tempo. Além do ritmo de trabalho estar puxado, eu machuquei o pulso e precisei imobilizá-lo, o que me deixou sem escrever por duas semanas. Quase inteira novamente, cá estou eu! E ansiosíssima para saber o que vocês acharam deste capítulo. Se você chegou até aqui e leu, por favor, deixe review! É ótimo saber que você está aí e o que pensa da fic.
Espero voltar em breve. Até lá!
Abraços,
Lanni =)
Resposta as reviews
ooo monica. cecilia. 52: Oh, sim! Hermione é um doce, desde que não pisem no calo dela, e Rony... Bem, como todo mundo, ele perde a razão às vezes. Nada mais humano, não é? Infelizmente os dois vão dar uma sumida da história, mas teremos Harry e Gina em breve... Ou não, rsrs. Continue lendo pra descobrir. Beijo!
ooo Debora-lunnyy: Espero que ainda esteja viva e que não tenha "morrido de antecipação", rs. Demorei um pouco desta vez, mas tive alguns contratempos, como disse acima. Acho que logo conseguirei retomar meu ritmo de escrita para que você e os outros leitores possam descobrir o que vem por aí. A fic está entrando em uma nova fase em que escrevê-la é mais estimulante!
Obrigada pelas palavras gentis e sim, concordo com você quando diz a Gina está cometendo alguns erros. Acho que um dos problemas dela é não confiar em ninguém, mas quem pode culpá-la quando vive em meio a uma guerra? Ela vai aprender uma ou duas coisas sobre confiança e amizade, porém não espere um caminho curto até lá! Beijo!
ooo Alessandra Cordeiro: Oh, que bom que agora tem conta e pode comentar! Sempre fico feliz em ler reviews e saber o que as pessoas pensam, então fique à vontade para dar sua opinião!
O momento do Harry saber sobre a Gina está mais perto a cada capítulo. Isso vai acontecer em algum momento desse "segundo ato", mas não posso dizer em qual porque estragaria a surpresa. Continue lendo para descobrir! Beijo!
ooo Gabi: Obrigada! Fico feliz em saber que realmente aprecia a fic e devo dizer também alguns de seus palpites estão certos. Fique de olho para descobrir quais! Espero continuar te "vendo" por aqui. Beijos!
ooo Shakinha: Sim, acho que isso fazia parte da jornada, afinal Gina saiu de casa com objetivo de encontrar o irmão, não é? Eles tinham que se acertar!
A Gina vai manter a farsa dela por mais algum tempo sim, porém não da forma que ela deseja. Pelo menos não a princípio... A mentira dela é muito grande. Não dá para tudo simplesmente ser um conto de fadas e dar certo, não é? As coisas às vezes ficam difíceis... Estou falando demais, melhor parar por aqui! Até a próxima; beijos!
