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Era quinta-feira e Oliver se perguntava até quando ele e Flint ficariam naquele clima infantil, tentando se evitar ao máximo: se, por um acaso, ocorria de estarem no mesmo cômodo, ou passarem um perto do outro, simplesmente se ignoravam.
Desde domingo, quando tivera aquele sonho, Wood não pode deixar de se sentir perturbado com a idéia de trocar um olhar sequer com o moreno. As metáforas baratas em seu sonho agora se faziam claras e latejantes em sua mente, e as únicas coisas que o prendiam eram conceitos e sentimentos dúbios quanto às implicações de amar outro homem – toda a sua homofobia o consumira por um bom tempo.
Ele sempre fora receptivo com inovações quando se tratava de setores genéricos: esportes, tecnologia, estudos e pesquisas exóticas. Já quando se tratava de assuntos polêmicos, era alguém que se desdobrava para parecer tolerante, mas que, no fundo, era cheio de incertezas, questionamentos e represálias.
Talvez seus pais o recriminassem por um tempo, e ele tinha medo de desapontá-los, mas algo o garantia que ainda teria sua compreensão e amor, principalmente se cumprisse com seus deveres e tocasse sua vida de forma independente. Porém, o que diria para si mesmo ao se olhar no espelho? Ele veria o velho Oliver, um jogador de futebol perito em caçar talentos e agradável com todos, ou o novo, desvirtuado e sem princípios morais?
Precisava se libertar dessas correntes. Era como uma longa travessia por uma estrada movimentada, e ele sabia que poderia ser atropelado a qualquer momento, contudo, de que valeria ficar preso em suas próprias angústias sem tentar, sem viver, sem aproveitar? Era preciso dar o primeiro passo e ele sentia, mais intensamente que ninguém, como era alentador poder correr para onde queria.
Saindo de seus dilemas internos, ele tinha a certeza de que estaria bem, não só por poder estar com o moreno sem o pesar que o prazer lhe gerava, mas por poder saciar a sede de devorar por inteiro o quebra-cabeça que era Marcus Flint.
Sim, ele se deixara fascinar pelo moreno quando pôde ver através de seus atos e constatar que não eram infundados. Foi, de forma tentadora, convidado a adentrar naquele pântano denso que Flint representava, cheio de caminhos e trilhas surradas, histórias fragmentadas, mágoas enterradas e surtos abafados. Era a tempestade de seus espasmos com a calmaria de seu olhar frio que sibilava para que fosse até o fim naquela jornada, já sem volta.
E agora, como deixaria aquilo claro para Marcus? O que seria dele se fosse só mais uma paixão, um deleite carnal e nada mais? Era tão difícil ser explícito sem ter medo de falhar, de perder tudo para a sorte. Talvez ele fosse uma mera experiência hormonal, comum aos quinze anos. Quer dizer, não que homossexualismo fosse comum a todos os adolescentes de quinze anos, mas... Não adiantava ficar se barrando.
E a pena que sentiria, ah, a pena. Cogitou ter sentido um apego maior por conta do que sentira ao atender o telefonema da senhora Flint, e parecia plausível querer abraçá-lo por aquilo, mostrar que o mundo não era feito só de víboras e pessoas sedentas por sugar sua vida, mas também de pessoas que queriam o bem, que exalavam felicidade para todos que a quisessem. Só que, e isto ele teve de admitir, não era normal alguém sentir tanto apego por pena, ou mesmo por tesão. Não era um sentimento desgovernado que o acompanhava, mas constante e definido, claro aos olhos de quem quisesse ver. E, agora, ele queria ver.
A aula passava como uma ampulheta, afogando-o nas areias da ansiedade aos poucos, ininterruptamente. Ele tamborilava impaciente com a caneta em suas anotações, o barulho do relógio deixando-o ainda mais inquieto. Precisava agir, precisava correr.
Ele tinha de se arriscar.
"Ah, esse moleque é uma encrenca! Não entrar na aula... Quem ele pensa que é para sumir desse jeito?", dizia uma voz indignada, distante.
"Você não quer ouvir o que acho... Já procuraram no quarto, na quadra e nas duchas, mas nenhum sinal dele", respondia outra, agitada.
"Onde será que se enfiou?".
"Não vai demorar muito, esse libertino vai se transformar num estorvo enorme para nossa escola. A senhora Flint deve ser alertada que ele corre o risco de-"
"Eu sei que sim, Umbridge, mas vamos com calma. Você sabe bem que é muito cedo para isso. Pense no prestígio que teríamos como a escola que transformou o jovem problema! É cedo demais para desistir."
Aparentemente, duas mulheres conversavam longe, num lugar que não era possível definir.
"Brilhante! Bom, agora temos de encontrá-lo então."
Oliver abriu os olhos. Tentando se lembrar de como dormira, ele se viu sozinho num dos bancos externos da escola. Ao que parecia, as janelas que estavam acima de sua cabeça eram as da sala da direção; as vozes, por sua vez, deveriam pertencer à diretora e a uma de suas subordinadas. Ainda um pouco atordoado, chacoalhou a cabeça e recapitulou o que ouvira, procurando algum sentido naquilo. Já foram no quarto, nas duchas e na quadra, ele era um estorvo potencial, tinham de achá-lo, notificar a senhora Flint... Flint... Flint! Estariam procurando por Marcus Flint?
Oliver piscou, arregalando os olhos para despertar por completo. Seu relógio marcava quase cinco da tarde e ele se assustou. Não levaria muito tempo para escurecer e, se o moreno estivesse machucado, seria difícil socorrê-lo. A idéia de um Marcus abandonado, ao relento, sem ajuda alguma, era dolorosa demais, e o goleiro logo se pôs a correr. Precisava encontrá-lo logo, e antes das duas mulheres.
Ele sabia que Marcus gostava do bosque da escola, e achou estranho as duas não terem procurado lá ainda. Talvez alguém já estivesse vasculhando-o, naquele momento, o que fez Wood pensar: será que Flint se esconderia lá? Era um lugar muito óbvio, e as árvores não eram muitas, o que facilitava a busca. Se fosse se esconder, Oliver sabia que ele desejaria ser o melhor, o mais criativo, o mais ágil – não deixaria ninguém encontrá-lo. Então onde, naquela vasta escola, Flint escolheria seu ninho?
Correndo sem rumo, o mapa de todos os ambientes da escola começou a passar pelos olhos de Oliver. Laboratórios, refeitório, quartos de outros alunos... Nada parecia muito atraente para alguém impulsivo como Flint. Não havia ninguém que lhe interessasse para pedir refúgio – já que isso seria como se submeter à pessoa, e ele nunca faria algo assim; nenhum laboratório que o cativasse, muito menos comida que valesse tanto quanto um bom lugar para ficar só consigo mesmo.
Descuidado, Wood acabou por tropeçar num vaso que estava no chão. Para evitar qualquer lesão nas pernas, conseguiu se forçar para trás, caindo sentado. Olhou enraivecido para o objeto e, em seguida, mirou o céu. Mesmo com algumas nuvens, tinha certeza que, se Flint tivesse asas, estaria sobrevoando o terreno, zombeteiro e feliz por estar inalcançável. Inalcançável...
Oliver sorriu para o vaso, orgulhoso. Acabara de descobrir onde Flint estava.
Não muito distante dali, Flint ouviu o barulho de algo sendo chutado. Com o olhar incisivo no horizonte, ele aproveitava a brisa de verão que permeava o telhado da escola. Queria que a chuva viesse para lavar tudo o que era e carregava consigo.
No começo daquela semana, sua mãe ligara denovo e, desta vez, ele mesmo quem atendera. Depois de meia hora ouvindo a senhora Flint reclamar de como "ele" desligou o telefone do nada, ainda foi forçado a ouvir o que Oliver não quis comentar: sobre estar se tornando uma decepção para ela e como seu comportamento logo se equivaleria ao de seu pai.
Não era a primeira vez que ele ouvira aquelas palavras dela, e se forçava a acreditar que a dor parecia bem menor do que era no começo, mas... Quando se lembrava da existência Oliver, tudo mudava de figura. O hábito de retrucar a mãe se tornara algo mais intenso, já que antes ele só o fazia por defesa própria. Era de praxe que tomasse o dano das declarações que recebia diretamente e, com seu desprezo habitual, se esforçasse para parecer indiferente com aquilo, digerindo, de forma superficial, o que o consumia internamente. Porém, com a perspectiva de estar exercendo os mesmos pecados que o sentenciaram uma vez mais, era muito pior se convencer daquilo. Afinal, porque tinha de se martirizar tanto? Porque a idéia de estar com o Oliver o fazia se torturar? A acidez de sua mãe corroia toda a sua esperança de ser feliz, e ele sabia disso. Tanto sabia que sentia cada palavra de nojo dela cravada em seu corpo, como uma chuva infinita de flechas, uma mais vil que a outra, não lhe deixando escapatória senão se jogar e cair.
Cair... Ele sempre ouviu colegas idiotas falarem sobre voar, e ele até via certo brilho no ato, mas nada mais fascinante que a queda. Não era o baque oco de seu corpo no chão, ou a decepção de se jogar e não planar que o encantavam. Não, a verdadeira magia em cair era o puro despencar, a sensação de não pertencer ao tempo nem ao espaço real, o poder de se render sem perder. Era o prazer de se libertar de suas amarras e feridas sem grandes feitos, podendo contar com o tombo eterno, a certeza da adrenalina característica do momento, a emoção constante – e confortável.
Era uma sensação similar que culminava em seu peito ao sentir o calor de Oliver em sua pele, penetrá-lo sem nenhuma outra vontade que não gozar. Talvez fosse até além: era muito mais do que cair, porque não se restringia ao plano físico. Ele engrandecia seu eu dentro de si, como se explodisse em seu próprio corpo. Essa mesma pressão o salvara de suas cicatrizes em seus sonhos; essa força que o impulsionara para o outro lado da janela, onde as coisas aconteciam segundo seus almejos.
Sim, ele corria para além do horizonte, e nem mesmo seus compromissos familiares o deteriam. Aquelas flechas não poderiam se tornar os carros que o atropelariam, mas o escudo que o manteria vivo. Abriu os braços, uma pontada de insegurança súbita em seu coração. Já era noite e a Lua começava a se erguer imponente no céu, as nuvens não sendo capazes de conter sua luminescência. Ansioso, ele aguardava pelos primeiros pingos de verão que viriam satisfazê-lo, como um elixir da ressurreição.
E, assim, o céu caiu.
Eram pingos fartos que banhavam a escola, formando poças violentamente, sem muita preocupação com os rapazes que estavam expostos à sua fúria. A chuva veraneia começara bruscamente, sem considerações ou pormenores, mas se fez clara e deixou sua marca cunhada. Sorrindo friamente, Marcus Flint era um só com as lágrimas celestiais que aliviavam seu peso. Ele ria sozinho quando alguém o surpreendeu:
- Flint?! – exclamou Oliver, acordando o moreno de seus devaneios. O goleiro sentira-se aliviado ao constatar que ele estava bem, e estava a poucos passos deste, um pouco ofegante pela corrida.
- Ah, você... – disse Marcus, desconcertado, fechando a cara. Ele tinha vontade de perguntar várias coisas, todas sobre o porque do outro ter encontrado seu refúgio e parecer tão alarmado antes de constatar que estava bem, mas achou que soaria emotivo demais. Interrompeu, então, as próprias palavras, aguardando por alguma justificativa por parte de Oliver.
Wood fitou o moreno, um ar severo no semblante:
- Você não sabe o que trabalho que deu chegar até aqui, sua mula! A diretora ainda deve estar te procurando...
Marcus desviou o olhar, constrangido. Até de Oliver ele seria obrigado a receber sermão? Passou longos dias se indagando sobre a influência que aquele garoto tinha em sua vida para ter de agüentar aquilo? Não era mais um menininho para ter de tolerar coisas assim.
- E porque não deixou que elas viessem me dar bronca? – perguntou, irritado. O fato de Wood ter encontrado-o ainda estava entalado em sua garganta, mas seu sarcasmo não deixou que formulasse algo referente a isso.
Oliver, por outro lado, se deu conta de como estava agindo feito uma criança birrenta. Não fora aquela a razão que o levou até ali, e ele sabia disso. Podia muito bem dar lições de moral em Flint depois, mostrar como era ser um bom companheiro e todas essas falas comuns. Sem o peso que carregava, sem nenhuma outra dúvida que não a de beijá-lo direto ou falar algo mais, ele tinha a necessidade de tentar, de correr. Começou a andar lentamente na direção do moreno, ganhando força e confiança conforme se aproximava deste, que olhou ressabiado.
A chuva ainda caía impiedosa, os pingos nítidos fazendo a roupa de ambos grudar em seus corpos. Os cabelos colados na face de tão molhados que estavam, Oliver começou:
- Eu... – ele olhava para baixo, os pés encharcados não fazendo diferença alguma. Sua respiração estava acelerada, não sabia dizer se pelo peso da chuva ou pelas declarações que tinha dentro de si, que se estapeavam para ver qual sairia primeiro.
- O que foi? – Marcus suspirou. Parecia carregar um ar mais velho, e o jeito como jogou os cabelos para trás quase fez Oliver pular nele – Mais algum sermão? É isso? Vai ficar aí me falando merda? É?!
O jeito hostil de Flint só revelava seu medo do que viria a seguir, sua vontade de encerrar aquele momento o mais rápido possível. Ele pedia clemência com o olhar, embora as sobrancelhas carregassem um ar intimidador.
- Não! – com as mãos segurando Marcus pelos ombros, Oliver avançou brusco para cima deste. Odiava a mania que o moreno tinha de sempre interrompê-lo – Seu imbecil! Eu só... Eu só queria falar que eu-
- Cala boca.
Pela primeira vez, Oliver vira algo totalmente novo em Flint: além do tom de voz, que parecia mais um gemido suplicante, o olhar, que agora afrouxara para dar espaço a uma aura cansada, coagida a temer qualquer um que lhe oferecesse declarações hostis. Mesmo assim, o goleiro não se deixou abalar. Já não era a primeira vez que o moreno tentava proibi-lo de se expressar, de extravasar suas reflexões, e guardá-las por muito mais tempo o enlouqueceria, ele tinha certeza. Olhou firme para Marcus, forçando este a sustentar seu olhar.
- Não, cala boca você! – respondeu, segurando Flint pelo colarinho – Chega!
Marcus olhava assustado, surpreso. Não ousou se manifestar, embora parte de si quisesse. Oliver prosseguiu, o olhar valente nos orbes de Flint, agora um pouco mais suave:
- Foda-se o que você achou que eu falaria, Marcus. Eu... – Oliver hesitou, não sabendo que palavras usar. A boca ainda aberta, tudo o que conseguiu fazer foi beijar Marcus, soltando um sussurro pouco antes de suas línguas se encontrarem – Eu te...
Incerto sobre o fim daquela frase, Wood se contentou e presentear Flint com um beijo tenro e eterno. Assim como a chuva, ele aconteceu: repentino, alentador – e marcante. Sentia os pingos caindo e se mesclando ao que parecia uma coreografia minuciosamente ensaiada entre as línguas dele e de Marcus. O gosto era doce, amargo, azedo, salgado... Tinha toda a inconstância do moreno somada à liberdade abrupta que a chuva parecia conferir. Eles estavam banhados nos mais puros óleos, despidos de todo e qualquer pecado que não amar.
Marcus, por sua vez, conseguia sentir muito bem o compasso que seus corações adquiriram, e apertou o corpo do goleiro contra o seu. Sentir o choque térmico dos pingos frios em suas costas com a pele quente e macia de Oliver era uma terapia divina, muito maior que fazer sexo ou se masturbar. Era uma sensação única de provar a dualidade do amor: era a mescla do frio no calor, da rudez com a delicadeza, das palavras com as ações. Era o pequeno conjunto de coisas que formavam um todo maravilhoso.
Separaram seus lábios sutilmente, satisfeitos. Agora estavam em seu próprio mundo, e a forma como se abraçaram consolidou a certeza de terem o mundo mais perfeito de todos. Ficaram a olhar a Lua por um tempo, a chuva deixando a sensação de que voltaria ainda naquele verão. Trocando um olhar cúmplice, eles sorriram: aquele seria seu lugar. O primeiro a desfazer o rasgo no rosto foi Marcus, que voltou a mirar o céu, o olhar vago:
- Oliver.
- O quê? – disse o chamado, sentindo o calor de Marcus aquecê-lo cautelosamente, os dedos um tanto quando titubeantes.
Ficaram um momento em silêncio, a expectativa de Oliver transbordando o nervosismo de Flint. O moreno travou uma rápida batalha interna entre suas vontades, e o lado que venceu se pronunciou primeiro:
- Você é um tolo, sabia? – riu, envergonhado do que seus lábios proferiram.
Oliver sorriu, não só por dentro como também por fora. Algo sussurrava em seu ouvido que aquilo não era um simples xingamento, muito menos uma frase aleatória. Era algo que Marcus dedicou para ele – e só ele. Deitou a cabeça no ombro do outro, desejando que aquele momento durasse para sempre.
No caminho de volta para o quarto, ambos se depararam com as mulheres que estavam à procura de Marcus.
- Ah, Wood, você o encontrou então?
Wood revirou os olhos. Como aquelas duas não cogitaram procurar no telhado? Afastou-se um pouco de Marcus, o medo de dar a entender que estavam juntos se firmando em seu peito. Olhou para o outro, tentando prever o que lhe aconteceria.
- Senhor Flint, precisamos ter uma séria conversa sobre sua atitude.
- Isso mesmo! Se não se importa, Wood, precisamos ter com Flint a sós.
O moreno parecia impassível, e a calma em seu semblante foi o que confortou Oliver o suficiente para voltar ao quarto sem tentar defendê-lo.
"Talvez piore as coisas para ele", pensou, os passos preocupados guiando-o errante para seu quarto. Sentia-se fraco, de mãos atadas, mas tinha de encarar os fatos: como defenderia Marcus? Torcia em silêncio por um desfecho satisfatório e, quando chegou ao quarto, não pensou duas vezes: jogou-se na cama do outro, querendo aguardá-lo.
Não conseguindo agüentar mais que quarenta minutos, adormeceu ali.
Marcus saiu da sala da diretoria frustrado e possesso. Tudo o que ouvira ali nada mais eram do que palavras de consolo para si, como se fosse digno de pena. Pena. Odiava a forma como as pessoas tinham pena dele por sua família, principalmente depois que o pai morreu.
"Coitadinho, nem tem um exemplo masculino para se espelhar", costumavam dizer. Ou até mesmo "Como vão se virar agora?".
Quando a senhora Flint se casou, não tardou a engravidar e, achando ser seu dever para com o filho, abdicou de sua carreira para cuidar do pequeno Marcus. Pareceu algo nobre na época, mas no momento que todos descobriram da doença terminal que matou o senhor Flint, tudo mudou de figura: ela se tornou ultrapassada, uma mulher que sacrificou tudo pelo filho sem pensar no futuro dos dois. O que ninguém sabia era que ela tinha suas economias, feitas muito antes de se casar por paranóia de sua mãe, avó de Marcus. Assim, financeiramente, ela estava muito bem, e Marcus arriscava dizer que estava até mais segura no momento, podendo se reerguer na área profissional sem preocupações quanto a gastos – afinal, ao contrário do marido, não era uma mulher que ostentasse hábitos caros.
Marcus soube de tudo isso recentemente, o que o tranqüilizou um pouco, porém, não era suficiente para arrebatar o rancor que tinha por todo o preconceito que já sofrera com comentários desnecessários. Apesar de boicotar os telefonemas da mãe e evitá-la, ele a queria muito bem, e isso bastava para enraivecê-lo à mínima ameaça de acabar com a paz desta ou preocupá-la à toa.
Agitado, ele tamborilava os dedos pelas paredes onde passava, a ansiedade de chegar ao seu quarto consumindo-o. Não sabia direito como conseguira se desvencilhar daquela conversa cansativa sem explodir, mas tinha para ele que aquilo não passaria em branco. Não teve nenhum argumento interessante para dar quando o questionaram sobre ter faltado, e preferiu ficar quieto dali em diante para não despertar a ira das mulheres contra si – a coisa mais lúcida que já pensou em fazer, concluiu orgulhoso, já que uma labareda de ódio flertava com seu lado impulsivo.
Queria muito ter mandado-as calarem a boca, pararem de julgá-lo daquela forma e citar tanto a "senhora Flint", mas era impossível. Se o fizesse, sabia que o comportamento de sua mãe para consigo seria pior, e as dificuldades que tinha com esta já eram suficientes. Não precisava se encrencar mais, e resumiu seus atos a permanecer emburrado e concordar em não mais cabular aula alguma.
"Senhor Flint... Realmente não queremos desistir de seu caso, entende? Sabemos como deve ser difícil a sua situação familiar, mas o senhor tem de entender que isto é uma escola muito rígida e conceituada. Estamos constantemente alertando sua mãe sobre seu comportamento, mas não parece o bastante", ele lembrava as palavras de uma das mulheres.
"O bastante seria vocês se assumirem e irem para o motel mais próximo", ele pensava, rindo ao imaginar as duas, já velhas, numa cena que descreveriam como "inadequada para damas".
Porque tinham de envolver tanto sua mãe naquilo? A única razão de ter ido parar naquele lugar era o envolvimento excessivo dela em questões que não lhe eram pertinentes; era a mania das pessoas de quererem administrar sua vida pessoal dizendo ser para "seu próprio bem". Uma ova! Ninguém sabe como é estar na pele de Marcus Flint...
Chegando em seu quarto, a primeira coisa que pensou foi estar vivendo um deja vu: era a segunda vez que encontrava Oliver em sua cama, totalmente vulnerável, as costas descobertas e o corpo levemente encolhido de frio. Aproximando-se gentilmente, ele deitou atrás dele e dormiu, passando o braço por cima deste de forma desajeitada, mas visando aquecê-lo com todo o seu corpo.
Tudo o que ele queria era esquecer de sua família e sonhar.
Durante as três semanas seguintes, ambos aproveitaram uma espécie de Lua de Mel - como Oliver gostava de pensar – onde as coisas pareciam perfeitas. Não era a aura romântica que pairava sobre eles que fazia isso, embora ela se fizesse presente em várias falas e atitudes de Oliver, que Marcus classificava como melosas para ele, mas adorava senti-las para si. Não, eram muitos fatores que contribuíam para que a realidade deles se fizesse tão deliciosa.
Olhando pelo lado de Oliver, tudo parecia ter se acalmado: sim, ele ainda tinha certo medo do que a família poderia pensar, mas ter sido aceito por Flint o fez se sentir confiante o suficiente para acreditar que era possível ser amado mesmo sendo gay. Francamente, era algo que nem o assolava no momento, pois a sensação excitante da aventura que era estar com Marcus desvirtuava qualquer pensamento coerente que viesse a ter. Nem mesmo com sua ex-namorada a segurança e confidência eram tão grandes, e ele podia ter certeza disto através da maneira como Marcus o abraçava toda noite antes de adormecerem, ou como lançava olhares furtivos quando estavam distantes durante os treinos e intervalos. Eram olhares cheios de cobiça, mas também afeto, zelo e paixão, e Oliver sentia tudo isso lhe atravessar a espinha naquela manhã de fim de verão, enquanto se arrumavam para sair para suas aulas.
- Se você continuar assim, vai começar a despencar – disse o goleiro, reparando no modo como Flint se demorava em olhar seu abdômen desnudo, enquanto procurava a camisa que tinha sido lavada recentemente – Não vai colocar a gravata? Tem aula com o Snape hoje, não? Você sabe que ele faz questão...
Marcus parecia hipnotizado, perdido com o olhar num terreno tão bem explorado por ele como era o corpo de Oliver, e ele custava a querer desviar o olhar. Era fascinante como estavam há três semanas sem discussões nem grandes desavenças, tornando as lições de casa a única polêmica dali: Oliver insistia em obrigá-lo a fazê-las logo que as recebia. O moreno chegou a tentar esconder muitas delas, mas Wood tinha amigos em sua sala e, de um jeito ou de outro, descobria os deveres dele. De resto, era tudo como uma história em quadrinhos, com cenas projetadas que tinham conteúdo, frases implícitas, sentimentos explicados por pequenos gestos.
Ele se levantou sério e caminhou lentamente, os passos firmes, em direção ao goleiro, que pareceu recuar um pouco com a atitude do outro. Seu olhar era tentador, e explodia de vontades e idéias mirabolantes – ou seriam estes reflexos dos olhos de Oliver?
- De que adianta eu me arrumar todo – começou Marcus, laçando o mais magro com uma das mãos pela cintura, enquanto a outra tocava sua bochecha, um tanto quente – Se você vai bagunçar tudo?
Com um brilho sacana no olhar, ele sorriu, e Oliver o imitou.
- Ora – o garoto de cabelos castanhos se aproximou do outro, sussurrando no ouvido deste – Podemos tentar de roupa então.
Os dois riram, apoiando-se um na testa do outro. Marcus se aproveitou mais um pouco do tórax do goleiro com suas mãos antes de lhe dar um longo beijo e se afastar, procurando sua gravata listrada de prateado e verde.
Já estavam no corredor, alegres e dispostos, quando uma senhora veio ao seu encontro. Não parecia ser uma inspetora daquela ala, mas isso pouco importava. Tinha os cabelos presos, um óculos de armação fina adornando-lhe os olhos castanhos e o rosto fino, com nítidas marcas de expressão. Abriu os lábios finos com certa insegurança, embora os traços faciais revelassem uma pessoa austera e, medindo os garotos dos pés a cabeça, disse:
- Por acaso algum de você conhece o senhor Oliver Wood? – ela perguntou, recatada. Olhava ansiosa por uma resposta, como se tempo fosse tudo o que não tinha.
Oliver franziu o cenho, sentindo a musculatura do ombro mais tensa naquele momento. O que queriam com ele? Até uma ligação da mãe de Flint seria nada estranha – se pensasse que ela não procurava por Marcus há quase duas semanas.
- Por quê? E quem é você? – apressou-se Marcus, olhando desconfiado da senhora para Oliver, um tanto perdido.
- Sou Minerva McGonagall, nova inspetora da escola. Preciso dar um recado de família urgente para ele... E então – ela mudou o tom de voz, uma passada para frente revelando sua pressa – Conhecem ou sabem onde ele está?
Oliver gelou. Um recado de família que não fosse uma ligação direta para ele não devia significar coisa boa – até porque, se fosse algo simples, seus pais raramente o incomodariam. Os demais familiares tampouco; exceto em feriados e em seu aniversário, não ficavam ligando – o que, até então, não o havia incomodado nem um pouco, pois sempre estudou em colégios internos e ter saudade da família não ajudaria muito. Claro que todos lhe eram benquistos, mas ele se contentava em vê-los na época de festas, férias e outros eventos especiais: era sempre mágico como podiam socializar durante horas e horas sem perder o fio da meada, e ele se orgulhava da família que tinha.
Aproximando-se da inspetora com passos incertos, ele contraiu a boca com certo desgosto:
- Sou eu – disse, uma seriedade pesada tomando conta de seus olhos, coisa que preocupou Flint.
- Ah... – a senhora arregalou as sobrancelhas por um momento, demonstrando, com a voz, uma surpresa desanimada que foi rapidamente substituída por pesar – Prazer, senhor Wood. Acho que devemos falar em partic-
- Fala de uma vez – já impaciente, o goleiro cerrava os punhos, rentes ao corpo, tentando conter a tensão.
A mulher se indignou, ao julgar pelo olhar reprovador que lançou para ele e a forma como soltou um "hmpf" no ar, ajeitando os óculos.
Marcus tentava se manter longe, como se não estivesse ali e, por mais que estivesse tão curioso quanto o outro, ele já se prontificara a deixá-los a sós, os pés se voltando para o outro lado do corredor. Entretanto, percebeu que Oliver esticou a mão bruscamente, mesmo com os braços paralelos ao corpo – estava pedindo para que ficasse, e ele obedeceu, calado.
- Sua mãe nos ligou esta manhã – começou Minerva, limpando a garganta – Aparentemente, houve... Houve um acidente ontem à noite e...
À medida que o tom da mulher ia se transfigurando em embaraço e pena, os olhos de Oliver começavam a se arregalar. Quem foi?
- Sua avó faleceu.
