Ele lia os papéis em sua mão tranquilamente, enquanto tomava alguns goles do café já frio em sua outra mão. Os organizadores do evento tomavam mais o seu tempo do que o próprio evento em si… Uma longa conversa sobre a agenda do dia de hoje fizera seu café esfriar. Mas tudo bem… Ele não ia se aborrecer por causa disso. Estava um lindo dia afinal. A chuva finalmente parara. Talvez até pudesse tirar aquelas fotos com os fãs que prometera do lado de fora do hotel. É, talvez…

Misha atravessou o corredor e chegou à sala central, que era o miolo do andar, o encontro de todos os corredores que levavam ao elevador e a uma sala de estar muito aconchegante. Ele foi até o elevador, que ainda passaria alguns andares acima antes de começar a descer. Então ele apenas esperou. Misha terminou o seu café e virou-se para procurar alguma lixeira, esbarrando em duas garotas que estavam vindo na direção do elevador.

A mais baixa tinha os olhos escuros e os cabelos pretos lisos e compridos estavam presos e caídos ao redor de seu pescoço, já a outra tinha os cabelos claros e olhos verdes, e estava com um dos pulsos enfaixados, o que chamou a atenção de Misha, por algum motivo.

Seu português não era perfeito, mas tinha certeza de que elas entenderam o seu pedido de desculpas. Elas se desculparam também, antes de sorrirem, um pouco nervosas e se afastarem do caminho dele. Misha foi até a lixeira mais próxima e colocou o copo de café fora, antes de voltar até o elevador, onde as duas meninas ainda estavam, agora sussurrando entre si.

Do outro lado da sala, vindo de algum corredor, o som de um salto tocando o chão encheu o cômodo, antes que uma ruiva de expressões nada simpáticas surgisse, acompanhada por uma mulher loira. As duas pararam antes de alcançarem o elevador, assim que viram Misha ali. Ele apenas sorriu na direção delas, antes de desviar sua atenção para as duas garotas ao seu lado, que simplesmente congelaram ao ver Danneel do outro lado da sala. Misha não tinha certeza se elas estavam daquele jeito por estarem diante de alguém famoso, ou se era por algum outro motivo.

Mas logo seus pensamentos foram interrompidos quando mais duas pessoas surgiram de outro corredor e entraram na sala. Um homem alto, de cabelos escuros e lisos, acompanhado por outro homem, um loiro de olhos esverdeados, que congelou ao ver todos naquela sala.

E foi assim que tudo lá dentro parecia ter mergulhado em um profundo lago de tensão e dúvidas, vindas de todos os cantos, e alcançando todos ali presentes. Vários olhares foram trocados por alguns segundos, antes que finalmente os olhos claros de Jensen alcançassem os olhos verdes de Gabs.


Jensen se deu conta de que seu cérebro não estava totalmente paralisado naquele momento, pois ele logo estava desejando que o elevador chegasse ou que um buraco se abrisse no meio da sala, para que ele pudesse pular, ou para que Danneel caísse dentro, pois agora ela estava vindo em sua direção. A ruiva correu até ele e o abraçou com força, Jensen teve que segurá-la para que os dois não caíssem ali, na frente de todos. Danneel exibiu um largo sorriso antes de jogar os braços em torno do pescoço de Jensen e puxá-lo para um beijo apressado.

Enquanto a ruiva o agarrava, sem se importar se ele precisava respirar ou não, Jensen só queria se afastar dela e tentar iniciar uma conversa normal. Ele não queria ficar entre beijos com Danneel bem diante dos olhos de Gabs, que ele tinha certeza de que ainda estava naquela sala, tão surpresa quanto ele. Afinal, era sobre isso que ele queria falar com Danneel, sobre Gabs, sobre eles.

As portas do elevador se abriram de repente, chamando a atenção de todos. Jensen conseguiu afastar-se de Danneel, mas não a tempo de ver o rosto da garota que entrara no elevador e se virara para a amiga, evitando olhar o que acontecia naquela sala. Misha também entrara no elevador, provavelmente percebera que não era uma boa hora para tentar falar com Jensen, então ele preferiu apenas continuar seguindo seus compromissos.

— Danneel, precisamos conversar. — falou Jensen, afastando-a novamente, antes que ela desse outro beijo nele.

Danneel estava prestes a responder que eles não precisavam conversar, que ela o entendia e que tudo ficaria bem, que eles ficariam bem. Mas o fato de Jensen chamá-la pelo nome, sem diminuições ou apelidos, num tom de voz nada acolhedor e praticamente evitando tocar nela, fez com que Danneel parasse, preocupada. Ela encarou os olhos verdes do marido e tudo o que conseguia enxergar era arrependimento. E a idéia de que esse arrependimento envolvesse o casamento deles foi suficiente para fazê-la tremer o procurar por alguma coisa onde pudesse se apoiar.


Eles estavam sozinhos agora, no quarto que Danneel reservara. Jensen estava sentado na cama, as mãos entrelaçadas uma na outra e os olhos preocupados enquanto observava a ruiva andar pelo quarto de um lado para o outro, em um claro sinal de impaciência.

— Não foi por minha causa que você sumiu? É isso? — perguntou ela, nervosa, voltando-se para ele.

— A princípio foi por causa da briga. Mas depois… Eu não sei… E nem sei se foi pelo que aconteceu entre nós, eu só…

— E sobre esse acidente? — interrompeu ela. — É verdade ou você só está dizendo isso para parecer que você sumiu por outro motivo? — indagou Danneel, tentando manter a voz calma. — Jen, você não precisa dizer nada, na verdade. — pediu ela, lançando um leve sorriso compreensivo para ele. — Eu entendo que você está chateado, e confuso, e que eu aparecer aqui talvez não tenha sido uma boa idéia. Mas eu não vim até aqui para provar que eu estava certa e que você desistiu de tudo por mim. Eu só vim até aqui porque eu queria ver você, só isso.

— Danneel, não é sobre isso que se trata. — admitiu Jensen, nervoso. — Não é sobre o que aconteceu com a gente. É sobre o que aconteceu comigo… e com… e com outra pessoa.

Jensen não tinha certeza se ela escutara o que ele dissera ou se apenas estava fingindo que ele não dissera nada. Mas ela ficara claramente nervosa com as últimas palavras dele. Porém, para sua surpresa, Danneel foi até a cama e caiu por cima de Jensen, juntando seus lábios aos dele, enquanto ele apenas tentava afastá-la.

— Danny!… — ele tentou chamá-la.

Ao ouvir seu apelido dito pela voz rouca de Jensen, Danneel apenas sorriu e continuou a beijá-lo. Suas mãos alcançaram a camisa dele, puxando-a para cima e deixando o corpo de Jensen descoberto embaixo do dela, que agora tirava o próprio casaco antes de voltar para a boca dele.


Jared simplesmente não conseguia desviar os olhos dela. Ela estava conversando com uma amiga, e parecia muito nervosa. Os cabelos claros dela estavam molhados, e algumas mechas deixavam gotas pequenas caírem ao chão. Ela provavelmente tinha tomado um banho… Seu braço estava enfaixado, ele não tinha dúvidas de que fosse ela. Mas gostaria que não fosse… Ela parecia ser tão jovem, e… Não! Jensen dissera que ela não era o tipo de garota que só estava tentando uma grande chance com Jensen Ackles. Ele disse que ela diferente, que ela era especial, e Jared confiava nele.

Ele cogitou ir falar com ela por três vezes, mas pensou no quão estranho seria e achou melhor apenas ficar ali, observando-a. Misha veio até ele e olhou para a garota que estava a alguns metros de distância.

— É ela a menina do acidente? — perguntou Misha, despreocupadamente, chamando a atenção de Jared.

— Como você…? O quê?

— Jared! Jared!

Uma mulher alta, de cabelos escuros, corria na direção de Jared e Misha, o som de seus sapatos de salto ecoando na sala, enquanto ela caminhava, tentando organizar alguns papéis em suas mãos.

— Diana, eu… — Jared tentou falar com a organizadora do evento, mas ela não parecia muito disposta a escutar, pois logo o interrompera.

— Jared, o Jensen está aqui não está? E, pelo amor de Deus, não esconda isso de mim. — pediu ela, sacudindo as folhas perto do rosto dele, nervosa. — Porque você não tem idéia do que eu estou tendo que suportar pelo Jensen ter escapado desse jeito!

— Mas eu não…

— Jared, onde ele está? — perguntou Diana.

Jared não queria que Diana fosse procurar por Jensen, porque provavelmente ela ia querer que ele fosse para o salão e se desculpasse com todos os fãs e fizesse pelo menos um painel. E Jensen precisava conversar com Danneel, precisava esclarecer tudo o que acontecera. Ele conhecia o amigo, e sabia que Jensen ia contar a verdade para sua esposa, sobre tudo o que acontecera. E isso significava horas de uma conversa muito tensa e complicada. Então que Diana se contentasse com ele e Misha, que estavam ali, e poderiam distrair os fãs enquanto Jensen e Danneel conversavam.

— O Jensen está no quarto 72, ele está conversando com a Danneel. — disse Misha, com um leve sorriso, antes de encarar um Jared completamente enfurecido.

— Misha! — exclamou Jared, irritado, antes de se voltar para Diana, que já estava indo na direção do elevador. — Diana, por favor! O Jensen e a Danneel precisam conversar! — disse ele. Mas a mulher nem ao menos se virou para encará-lo. Simplesmente continuou seu caminho. — Você enlouqueceu? — perguntou Jared, dando um tapa no ombro de Misha. — Por que você falou onde o Jensen estava?

— Por que eu não acho que o Jensen queria conversar com a Danneel nesse momento, então...

— Ah, você acha? Brilhante, Collins! — murmurou Jared, irritado. — Ele precisava falar com a Danneel, e agora ele não vai ter essa chance, porque aquela maluca da Diana vai fazer ele sair de lá e assinar um bilhão de fotos e camisetas!

— Me desculpe, então! — pediu Misha, desfazendo o sorriso. — Mas eu não sei exatamente o que está acontecendo. É por isso que prefiro ficar com as minhas suposições.

Jared entendeu o tom de voz de Misha. Ele provavelmente ficara chateado por Jensen ter ido conversar somente com Jared. Mesmo depois de ter sido Misha quem avisara sobre Danneel estar no hotel. Ele queria se desculpar pela atitude do amigo, mas não tinha certeza se interpretara a situação da forma correta. Então achou melhor não dizer nada.

Foi então que algo interrompeu os pensamentos de Jared. Ele se lembrara no que estava pensando antes que Diana aparecesse. A garota. A garota especial.

Ele voltou sua atenção para a menina que estava a alguns metros de distância deles, ao lado da amiga, apenas observando-os, sem dizer uma palavra.

Eles estavam conversando em inglês, mas Jared tinha certeza de que ela entendera cada palavra daquela discussão. E isso não era bom. Isso significava que ela sabia, agora, que Jensen falara sobre ela. E a vontade de ir até lá e falar alguma coisa para ela voltou. Mas Jared se conteve a ficar ali e parar de encará-la como se a conhecesse.