CAPÍTULO 9

- Vanusa, quer dá licença?

Eu realmente estava cansada de tudo aquilo e não queria me estressar ainda mais. Eu ali, forçando a bengala e Vanusa lá, sem intenção de sair da frente.

- Quem você pensa que é? – ela disse, num tom de voz que chegou a me arrepiar. Mas fiquei firme.

- Como você mesma diz, Vanusa, não sou ninguém. Agora pode me deixar passar? Meu irmão me chamou...

Ela levantou o celular. Era o do Tomás – por quê só alguém com mais de trinta anos teria um aparelho de flip, sem câmera e que não tem music player... Mas aí, uma coisa me ocorreu.

- Peraí, o que você ta fazendo com o celular do Tomás?

- Não é óbvio?

Por um momento, achei que a Vanusa que estava ali na minha frente não era a mesma de sempre.

- Me devolve. – exigi, estendendo a mão. Estava muito pê da vida com mais essa brincadeira de mau gosto.

- Você é muito metida. – ela disse – Andando por aí, com essa bengala, pela regra, você deveria ser o último degrau da hierarquia do colegial!

- E desde quando você conhece o significado da palavra hierarquia? – perguntei.

Ela me olhou com raiva. Levantei a bengala e bati de leve nas pernas dela.

- Vou abrir caminho de qualquer jeito, garota.

Empurrei Vanusa com meu ombro. Ela, rápida, pegou meu pulso com toda a força, que doeu.

- Mas o quê...

- Você não vai ficar com o Eros!

Tentei me desvencilhar, mas ela me pegou com toda a força, e me puxou para dentro da área livre.

- Que é isso, garota? Surtou?

- O que ele vê em você? – ela estava histérica – Você é gorda, aleijada, cega...

- A palavra é míope. – interrompi.

- Eu sou muito mais bonita que você, sua horrorosa! Ele devia estar aos meus pés, como todo mundo, por que ele está com você?

Ela apertou ainda mais o meu pulso e me fez descer cinco degraus de escada.

- Ai! Olha aqui, sua doida, você ta me machucando!

- E eu vou fazer muito mais do que quebrar o seu pulso!

Puxei meu braço com toda a força, mas isso só fez doer mais. Ela continuava me levando, até chegarmos ao portão de entrada. O que será que deu nela? Era o que me perguntava.

- Você ta fazendo tudo isso pelo Eros? Qual é! Ele nem é todo esse chocolate!

- Ele está a fim de você! E POR QUÊ? Por que você, quando eu estou aqui?

- Já ouviu falar de "gosto não se discute"? Me solta!

Já estávamos gritando. Mas, como todo mundo se encontrava no ginásio com o som nas alturas, ninguém podia nos ouvir. Flashes do acidente de meses atrás surgiam na minha cabeça, sem motivo.

Eu começava a ficar com medo.

- Eu não posso acreditar que um cara tão lindo como Eros prefira alguém como você!

- Vanusa, se quer ficar com o Eros, fique à vontade!

Ela parecia fora de si! Fiquei apavorada. Larguei a bengala, que eu ainda estava segurando, e tentei soltar meu pulso, cravando as minhas unhas no dela. Vanusa não pareceu se importar.

- Vamos dar uma voltinha?

Ela balançou uma chave. Era de carro. Um tremor me percorreu a espinha e comecei a suar. Um medo terrível tomou conta de mim. Gritos ecoaram nos meus ouvidos. Gritos de meses anteriores. Comecei a sentir sangue na minha boca.

- Não! NÃO! – gritei.

Consegui me soltar, sabe-se lá como. Me esforcei para correr, apesar da minha perna. Lágrimas corriam pelo meu rosto. O que tinha acontecido com Vanusa? Ela é uma esnobe, mas não doida pra tacar terror comigo. Subi até a área livre, olhando para trás. Ela ainda estava no portão, parada e agindo que nem uma surtada.

- Acha mesmo que pode ir tão longe, sua tapada? – gritou. Depois ela começou a gargalhar, de um jeito sombrio. Eu conhecia a gargalhada da Vanusa, e tinha certeza que não era daquela forma.

Atravessei o saguão do primeiro pavilhão e fui direto até a sala dos professores, na esperança de encontrar Tomás. Estava trancada. Comecei a chorar descontrolada. Minha única chance era atravessar todo o terreno da escola até o ginásio. Para não voltar pela rampa, teria que descer as escadas... Mas aí, eu me virei e...

- Saudade?

Faltou voz para gritar de susto. Vanusa estava com uma expressão que a deixava irreconhecível. Ela me pegou pelo ombro e me jogou, não, ela me lançou com toda a força para o meio do saguão.

Ai, que dor.

- Sabe de uma coisa? – Vanusa ainda estava no mesmo lugar – Eu me sinto tão bem... Estou me sentindo... tão linda! Tão poderosa!

- Desde quando descobriu a vocação de madrasta da Branca de Neve? – eu deveria ficar calada, mas não conseguia.

Vanusa riu. Ela segurava alguma coisa, enquanto vinha na minha direção.

- Vou fazer com você o que aquele acidente não fez. Vou cortar o teu rosto inteiro! Aí o Eros vai deixar de gostar de você e finalmente vai ser todo meu!

Levantei com dificuldade.

- Você não sabe o que está fazendo!

Naquele momento eu soube como o Michael Douglas se sentia em Atração Fatal. A Glenn Close estava ali na minha frente!

Eu não podia ir pela rampa sem ir de encontro com a Vanusa, assim como eu não podia ir até a área descoberta entre os dois pavilhões de salas, pois com um movimento ela me pegaria. A minha única opção era subir as escadas do primeiro pavilhão de salas, seguir direto pelo corredor, chegar na passarela onde antes Eros revelara seus poderes, seguir por outro corredor e descer as escadas de uns vinte degraus que dava para o terreno do ginásio – com a perna do jeito que era.

De repente, eu era o Wagner Moura em Tropa de Elite. Mas foi o que fiz.

Eu não corria, eu pulava. Só assim, pra ser mais rápida. Vanusa não correu, andou calmamente atrás de mim.

- Você não vai fugir!

Ela apertou o passo no corredor entre os dois pavilhões. Eu não chorava mais. Só pensava em chegar até o ginásio. Porém...

Eu senti uma dor nas costas. Quase caí no chão.

Estava sangrando.

Pude ver que Vanusa estava com um estilete na mão. Eu já me encontrava no topo da escada. Cogitei escorregar pelo corrimão – depois lembrei que isso não funcionava na vida real, só em filme.

- Vanusa, pensa um pouco. Você é superior a tudo isso. – argumentei.

Ela nem respondeu. Regulou a lâmina do estilete e já se preparava para talvez cortar minha jugular, quando ouvimos a voz do pivô de tudo isso.

- Alma! Alma! Onde você está?

A voz de Eros distraiu Vanusa. Não sei de onde tirei coragem para avançar sobre ela e tentar tirar o estilete da mão dela. A dor do corte em minhas costas era terrível e piorou quando ela bateu com toda a força na ferida. Mas não larguei o pulso dela. Eu a segurava com as duas mãos. Girávamos, batíamos uma na outra, nenhuma parecia que iria ceder. Só havia um jeito.

Pensei na dor que isso me causaria.

Pensei no transtorno de Tomás.

Pensei no prolongamento da fisioterapia e na quantidade de remédios.

Tudo isso caiu por terra com a minha decisão.

Segurando o pulso de Vanusa com uma das mãos, deu um murro no estômago dela e nos lancei escada abaixo.