Capítulo X: Banquete à moda francesa!
– Hum... não, Camus, está cedo... fica só mais – bocejou. – um pouquinho...
Ele nem abrira os olhos para dizer isso. Quando Camus se levantou e fitou-o, Milo já dormia de novo. Sorriu.
– Un joli enfant. – murmurou e cobriu Milo com o lençol.
Olhou para o relógio na cabeceira. Daria tempo de fazer o café da manhã para Sophie antes que ela acordasse. Bastava que ele subisse logo para seu templo.
...
– Papa, não deveríamos chamar o monsieur Milo para tomar café conosco? Ele não costuma fazer as refeições aqui?
– Ah, ele virá, chérie. Nem precisamos nos preocupar em chamá-lo, pois-
– Bom dia, crianças! – exclamou um mais que animado Milo ao adentrar a sala de jantar. – Sophie, poderia pegar uma xícara para o tio Milo? – riu. – Ei Camus, as torradas acabaram?
Camus balançou a cabeça. "Falando no demônio...".
– Petite, pegue o pote com torradas também, por favor.
– Sim, papa!
Sophie se levantou e saiu da sala.
– Que história foi essa de "tio Milo"? – perguntou Camus, sem desviar o olhar do jornal em suas mãos.
Milo puxou uma cadeira e sentou-se ao lado do aquariano. Estava transpirando alegria naquela manhã.
– Nada que vá se repetir. Depois que falei percebi o quanto foi ridículo. – riu e se inclinou por cima do ombro de Camus para ver o jornal.
Sophie voltou trazendo a xícara de porcelana e o pote de vidro cheio de torradas. Estendeu a xícara para Milo e colocou o pote em cima da mesa, voltando a se sentar de frente para o pai.
– Obrigado. – Milo agradeceu pegando a xícara e se serviu. – Eu estava pensando, Camye... será que não poderíamos fazer alguma coisa hoje? Está um domingo tão ensolarado! O que você acha, Sophie?
Camus estava desconhecendo aquele grego ao seu lado. Se aquele era o Milo de Escorpião com quem ele convivia quase vinte e quatro horas por dia, alguma pancada bem forte havia sido dada nele. Sophie por sua vez estava um pouco surpresa e confusa. Milo estava sendo sinceramente adorável com ela pela primeira vez, mas, por outro lado, ele estava tratando Camus como devia fazer sempre, e isso era novidade para a ruiva. No mais obscuro de seu coração sentiu um pouco de inveja do pai por ter o amor do escorpiano, mas já tomara sua decisão quanto aos próprios sentimentos por ele.
– Acho uma ótima ideia, monsieur Milo! Na verdade, eu estava pensando em uma coisa.
– Mesmo? – ele mordeu a torrada. – E sem essa de monsieur. Pode me chamar de Milo.
Camus ergueu o olhar de forma sutil, observando-os por cima do jornal.
– Bem, eu estava pensando em preparar um almoço especial para todos os Cavaleiros de Ouro que estão no Santuário. Seria também uma despedida, já que voltarei para a França amanhã.
Desta feita, Camus abaixou o jornal.
– Como? Você não me disse nada a esse respeito, belle.
– Eu ia dizer hoje. – sorriu. – Bem, mas o que acha, papa? É claro que vai me ajudar a fazer nosso banquete francês! Afinal de contas, você é um ótimo cozinheiro, não acha, monsi... digo, Milo?
– Concordo plenamente. Está decidido. Vocês farão o almoço.
– Desde quando toma as decisões por mim, Milo de Escorpião?
– Desde quando eu acho que elas devem ser tomadas, meu amado Camus de Aquário. – sorriu, provocando-o.
Sophie riu da expressão que seu pai fez. Definitivamente, ele também gostava muito do Cavaleiro de Escorpião.
– Já que está decidido, será que o senhor poderia avisar os cavaleiros, Milo?
– Com prazer, minha cara Sophie.
Os dois trocaram um cúmplice aperto de mão e se levantaram para tirar a mesa do café. Camus dobrou o jornal sobre o colo e ficou um tempo sentado, absorvendo o que acontecia ao seu redor. No fim das contas, revelara-se possível que aqueles dois se dessem bem. Quem sabe pudessem viver como uma família um dia.
Quando Milo saiu para avisar os cavaleiros sobre o tal banquete, Sophie aproveitou para conversar com Camus sobre sua partida.
– Eu pensei que você fosse ficar, petite. Assim que Saori retornasse, eu conversaria com ela a respeito. É certo que você poderia viver aqui. Você não disse que gostaria?
– E eu realmente gostaria, papa. É só que... agora o melhor que posso fazer é voltar para casa. Eu preciso terminar tudo o que iniciei lá e também...
Ele esperou diante da hesitação dela.
– E também preciso esquecer isso que eu sinto pelo monsieur Milo.
Então era realmente verdade.
– Sophie...
– Mas se futuramente eu ainda puder, gostaria muito de poder viver aqui com você. Acho que nós três poderíamos ser uma boa família, não? – sorriu, disfarçando o pouco de tristeza que estava em seu olhar.
Camus abraçou-a.
– Certamente nós poderemos, filha. Eu esperarei por isso.
...
A notícia se espalhou rapidamente, sem que Milo precisasse ir a cada um dos templos. Quando retornou a Aquário, Sophie e Camus já haviam separado os ingredientes. Como faltavam algumas coisas, eles encarregaram o escorpiano de ir comprá-las. Ele aproveitou para sugerir que servissem o almoço na Sala do Mestre, já que era mais espaçosa. Saori nem ia ficar sabendo, no fim das contas. Além do que, mesmo que ela descobrisse, eles não estariam fazendo nada de errado, se comparado com coisas que haviam acontecido na ausência dela. Camus acabou aprovando a ideia. Estavam todos empolgados com o banquete.
Já passava das duas quando tudo ficou pronto. Os dourados já haviam se reunido no grande salão, aproveitando a oportunidade para uma confraternização. Ficaram bebendo, conversando e lançando velhas e novas piadas. Máscara da Morte havia retornado ao Santuário na noite anterior, e Sophie estava ansiosa para subir até a sala e conhecê-lo e também a Aldebaran, que chegara naquela manhã. Estava contente por poder reunir-se com quase todos os dourados antes de sua partida. Queria fazer daquela data algo memorável.
Camus se deixou contagiar pela animação de Sophie e de Milo. Para os dois, parecia que estavam organizando a festa do ano. Ele estava feliz por estarem fazendo uma espécie de trabalho em equipe. Era melhor do que esperava ver que as pessoas que ele mais amava estavam finalmente perto dele, e em paz. Se ao menos Sophie não houvesse se apaixonado por Milo... mas, isso ia mudar. Era uma questão de tempo. Ele queria acreditar nisso.
Mu ajudou a transportar as panelas, talheres e tudo que foi necessário. Sophie ainda trocou de roupa e arrumou os cabelos antes de subir para a Sala do Mestre. Quando ficou diante da porta, estava tão nervosa que as mãos estavam úmidas e frias. Respirou e prosseguiu, adentrando o salão.
A mesa estava impecável. Era enorme, e os pratos, copos e talheres haviam sido distribuídos perfeitamente na direção das cadeiras. Alguns cavaleiros ainda estavam em pé, terminando de beber e conversar em suas rodinhas. Foi como se todos parassem quando notaram a presença dela. O momento só foi quebrado quando Afrodite puxou Máscara pela mão e levou-o em direção a ela.
– Antes de qualquer coisa, é claro que devo lhe apresentar o meu famoso italiano! – riu.
Máscara estava sério e um pouco bravo com Afrodite por apresentá-lo daquela maneira. Vestia jeans e camisa preta, os cabelos estavam arrepiados como de costume e seu jeito deixou Sophie um pouco deslocada. Hesitante, ela estendeu a mão.
– É um prazer conhecê-lo, monsieur... ahn...
– Pode me chamar de Máscara mesmo. – ele disse a contragosto. – Então você é a filha do Camus?
Ela corou de leve, ainda com a mão estendida.
– Bem, sim...
Afrodite deu um cutucão em Câncer.
– Vamos, amorzinho, seja educado e aperte a mão dela!
– Ora, Dite, não me encha! – resmungou, mas cumprimentou a menina.
Sophie ainda estava um pouco tímida e sem graça pela apresentação, quando o Cavaleiro de Touro se aproximou.
– É, facilmente pode-se dizer que ela é sua filha, Camus! Apesar de... bem, ela é a sua cara! – Aldebaran sorriu para a ruiva. – Muito prazer, eu sou Aldebaran de Touro.
Ela ficou mais à vontade com o jeito simpático dele.
– O prazer é meu, monsieur Aldebaran.
– Já terminaram os cumprimentos? – berrou Kanon, já sentado na mesa. – Estou com uma fome dos infernos!
Reclamações e vaias foram feitas ao geminiano.
– Vamos nos sentar? – disse Camus, indo até a jovem e conduzindo-a para a mesa.
Sophie foi designada a sentar-se numa das pontas da mesa, lugar geralmente ocupado por Saori. Camus sentou-se na outra ponta, de frente para ela. Os demais se espalharam pelos lugares, a maioria sentando-se perto de seus namorados.
Milo foi o último a se sentar, ao lado direito de Camus. Estava com uma garrafa nas mãos.
– Acho que a nossa visitante merece um brinde de despedida, não? E logo, pois eu estou ansioso por provar esse almoço!
– Despedida? – indagou Shaka, expressando a surpresa de todos.
– Eu... – Sophie falou timidamente, ajeitando o guardanapo sobre o colo e então olhando para os cavaleiros. – vou retornar para a França amanhã.
Ela percebeu emocionada que muitos demonstraram descontentamento com a notícia.
– Mas já? – perguntou Aiolos. – E eu nem te contei o resto da história!
– Sorte a dela. – alguns disseram.
– Bem... mas eu pretendo voltar, se puder.
– Claro! Você é muito bem-vinda, sempre. – disse Mu, também expressando a opinião geral.
– E quem sabe em breve ela retorne para ficar definitivamente. – disse Camus, causando surpresa.
– Ah! Mas seria maravilhoso uma companheira para minhas compras! – exclamou Afrodite.
Formou-se um burburinho. Sophie não podia imaginar que seria tão querida pelos dourados. Estava triste por saber que teria de partir, mas feliz por saber que era bem-vinda. Mal podia esperar por retornar. Antes mesmo de ter partido, já sentia saudades.
– E então? Faremos ou não o brinde?
– Certo! Você e o Kanon são dois famintos!
– Ei, eu estou quieto! – reclamou Kanon, trazendo risos.
Após estourar a champanhe e esperar que todos fossem servidos, Milo ergueu sua taça. Camus olhou-o discretamente, sem imaginar o que poderia vir dali. Nunca em toda sua vida Escorpião lhe surpreendera tanto. Naquele dia, ele poderia esperar de tudo.
– Bem... é em nome de todos que eu dedico esse brinde à Sophie. Sua chegada no Santuário foi muito inesperada e... receio não ter reagido muito bem a isso, mas não vamos falar no que já foi, não é? Camus a considera sua filha, assim como eu acredito que todos nós a consideremos alguém muito especial. E vamos esperar que você nos visite outras vezes e quem sabe possa morar aqui. É meio louco para mim que eu diga isso, mas acho que poderemos ser uma ótima família, certo?
– M... merci, Milo.
Camus escondeu o sorriso que se desenhou em seus lábios, cobrindo a boca com a mão por um breve momento.
– Então... é isso. Um brinde à Sophie! – completou Milo.
Taças tilintaram para todos os lados.
– E que venha a comida!
O almoço foi divertido. Há tempos os dourados não tinham um momento daqueles. Sophie e Camus receberam diversos elogios pelos belos pratos que prepararam. E como o aquariano já havia previsto, piadinhas com os nomes das receitas foram feitas e coisas do tipo. Estavam provando a sobremesa que Sophie preparara quando a porta do salão se abriu.
– Oras! Uma festa comemorando minha ausência?
– Shura!
– Perdeu a melhor parte! – disse Saga. – Onde está Atena?
Apontaram um lugar vago para o capricorniano.
– Para a felicidade de vocês, ela só volta depois de amanhã. – olhou para os lugares a seu redor e deparou-se com Sophie. – Ei... quem é? Alguma irmã de Atena?
Todos riram.
– É minha filha. – disse Camus, com um meio sorriso, já esperando a surpresa de Shura.
– O quê? Não, você só pode estar brincando! – olhou de Sophie para Camus. – Como foi isso? Milo, você não... trocou de sexo, né?
Mais risadas explodiram na sala.
– É uma longa história, Shura. Mas não, eu continuo sendo homem. – riu.
Shura ficou olhando para a menina, perplexo.
– Er... prazer em conhecê-lo, monsieur Shura.
– Ah... desculpe! Prazer! Puxa, um tempo que eu fico fora do Santuário e acontece tudo isso! Vocês vão ter que me atualizar!
– Que tal você provar um pouco da sobremesa deliciosa que Sophie fez para nós? Enquanto isso, lhe contamos tudo! – disse Afrodite.
Sophie levou um pouco do doce à boca e depois de engolir, disse:
– É uma pena... não vou conhecer mademoiselle Saori.
– Ah, você não perde nada, pode ter certeza!
A partir daí, várias piadas e histórias sobre a deusa foram contadas. Já estava anoitecendo quando eles deixaram o salão. Ia ser uma data memorável, para todos.
Mais tarde, em Aquário, Sophie, Camus e Milo se reuniram para jogar cartas. Ficaram conversando sobre as coisas engraçadas que haviam acontecido no almoço, enquanto faziam suas jogadas. A hora parecia voar, mas o dia fora aproveitado o máximo possível. Passava das onze quando Camus disse:
– Chérie, está na hora de você ir para a cama.
– Está brincando? Fala sério, Camus, a menina já é quase adulta! – Milo balançou a cabeça. – Que tal só mais uma partida, seus franceses perdedores?
– Eu adoraria fazê-lo engolir essas palavras, mas tenho mesmo de dormir, monsieur Milo. – disse ela, usando o tratamento em tom de brincadeira. – Boa noite. – foi até Camus e deu-lhe um beijo. - Boa noite, papa.
– Bonne nuit, petite. Tenha lindos sonhos.
Ela acenou para os dois e foi para o quarto.
– Sabe, eu nunca imaginei que veria isso. Camus, você é o pai mais chato que uma pessoa pode ter!
Camus guardou o baralho na caixinha e apenas olhou de relance para Milo, sem responder. Levantou-se do chão e foi guardar o jogo. Quando voltou para a sala, Milo abraçou-o.
– E eu acho isso lindo de se ver. – riu. – Ela é uma garota de sorte, apesar de tudo.
Camus continuou sem responder, apenas olhando para Escorpião.
– Você... não vai dizer nada?
– Obrigado, mon cher. Você foi ótimo com ela. E... eu não sou o pai mais chato que uma pessoa pode ter!
– Ah sim, você é sim. – abraçou-o mais. – E o amante mais perfeito que uma pessoa pode ter. Graças aos deuses eu sou essa pessoa.
Camus apenas balançou a cabeça.
– Sabe de uma coisa? É melhor eu ir para casa.
– Como? – Aquário não escondeu sua surpresa.
– Está tarde, não é mesmo? Não se preocupe. Amanhã eu voltarei com todas as minhas bagunças para cá. Me espere para o café da manhã, viu? – disse, se afastando.
– Oui... – suspirou. Sua rotina ia voltar ao que era antes e ele se sentia bem contente com a ideia de ter Milo por perto outra vez. Sentira falta, no fim das contas. – Boa noite, Milo.
– ' noite, Camye. – acenou, já quase na saída do décimo primeiro templo, então voltou rapidamente e deu um beijo de surpresa no aquariano. – Durma bem! – sorriu.
– Você também.
Quando Camus apagou as luzes do templo e foi se deitar, se sentia leve. Tudo o que ele jamais sonhara havia acontecido. Sua defesa estava sendo vencida, a barreira de gelo que tentara criar em torno de seu coração estava terminando de ser derretida. Não importava. Ele estava feliz assim. Eram tempos de paz, afinal.
...
