Capítulo 9 – Vila Rica (EdD 56)
Harry acordou de madrugada, pouco depois de ter se deitado, assim que sua cicatriz parou de doer. Estava com muita sede e torceu para não se perder pelo apartamento enquanto descia. Ao chegar à cozinha acesa, viu Kojiro preparando alguma coisa no fogão.
- ... Boa noite. – disse Harry, um pouco acanhado. – Vim... ahm... beber água.
- Ah, sim... – falou, sem dar muita importância.
- Algum... problema?
- Ah... Oh, desculpe, Harry... – suspirou, pondo a mão na testa, parando e explicando. – Vim fazer um chá para a Leah. Ela não passou muito bem.
- Puxa... – cruzou os braços, pouco à vontade. – Ahm... Bem... melhoras pra ela. Deve ser... a preocupação... Vocês...
- Ela teve um pesadelo. – deu de ombros. – Digo, não sei se foi com Toji, creio que não... Ela acordou chorando, vomitou, estava gelada.
Harry fez um "hum" longo. Chorando de novo? Definitivamente, era muito estranho juntar choro e a professora numa mesma situação. Kojiro foi subir com a xícara de chá quando o telefone tocou. Os dois se olharam. Ele deixou a xícara na mesa e foi atender, aflito:
- Ah, meu Deus... Deve ser do hospital...
Ele parou, mas não atendeu. Harry se sentiu mal com a situação. Kojiro respirou fundo e tirou o fone do gancho:
- Alô?... Sim. Sim, é o Kojiro. Isso, pai do Ian.
Silêncio. Kojiro pôs a mão na mesa do telefone, de cabeça baixa, de costas. O coração de Harry se apertou, com medo.
- Co... Como assim? Ah... perfeitamente! Claro, claro... Nem sei o que... Ok, já vamos.
Kojiro desligou, ainda perplexo. Olhou Harry, e balançou a cabeça chocado:
-... Toji acordou.
- ... Como? – piscou Harry, e Kojiro sorriu.
- Ele acordou, faz pouco tempo. Sem mais nem menos, e não pára de perguntar por nós. Os médicos... querem que a gente vá lá... buscar ele.
Harry sorriu:
- Que ótimo!
Leah estava sentada na beira da cama, ainda zonza, com a mão na testa. Sentiu alguém se aproximar. Do chão, ela viu uma túnica branca. Ergueu os olhos e viu sua mãe, sorrindo.
- ... Mama Paloma?
- Por que andas triste, filha? – perguntou, com sua doce voz etérea.
Leah suspirou. Sua mãe se ajoelhou, segurando seu rosto nas mãos, sorrindo:
- Não tema... Jamais retroceda, jamais desista.
- Foi... horrível.
- ... Passou, filha. Sua vida foi feita de sangue, de mortes. Mas já passou.
- Não quero isso para minha família...
- ... Sua família não terá mais. Apenas depende de você. Não volte para seu antigo caminho.
- É tarde, mama... Eu matei.
Paloma olhou para o lado, pensando.
- O círculo só anda porquê você acredita no movimento dele. Deixe-o de lado. E ele irá parar.
- ... E o que acontece se ele parar?
- Você só saberá se deixá-lo parar.
Leah suspirou:
- Já chega disso. Se eu ficar mais tempo aqui será perigos... Preciso ir logo pra Vila Rica.
Paloma sorriu, erguendo-se e desaparecendo. No instante seguinte, Kojiro apareceu na porta, os olhos brilhando.
- Eu vi minha mãe... de novo. – disse Leah, olhando o marido e vendo sua satisfação. - ... Que foi?
- Toji acordou.
- ... Quê?
- Ele acordou. Ninguém sabe como... mas ele acordou.
Kojiro apertou as mãos no rosto, rindo, respirando fundo:
- É para irmos buscar ele.
- ... Bu... Buscar?
- É. E aí? Vamos?
Toji estava elétrico no quarto do hospital. Quando escutou a porta se abrir e os pais entrarem, ele saltou da cama e correu para pular nos braços dos pais. Leah o agarrou no ar, o abraçando forte, aliviada:
- Ah, meu filho...! Você está bem!
O menino não parecia notar o alívio dos pais. Sorria largamente, abraçando forte a mãe pelo pescoço. Kojiro também pegou Toji, enchendo-o de beijos. Os dois adultos estavam visivelmente emocionados em ver o filho completamente curado.
- Eeei... – disse Toji, inocente. – Porquê essa cara de choro? Não extão felizex? Eu extou...
- Estamos, Toji. – sorriu Kojiro. – Estamos muito felizes.
- ... É impressão minha ou Toji está falando certo? – comentou Leah.
- Jura...? – estranhou Kojiro. – Toji, diga alguma coisa.
- Dizer o quê?
- Ora, sei lá! Fale... ahm... sobre as historias que eu contava de sua mãe.
- Hum... – pensou Toji. – Minha mãe é uma das bruxas expadachins maix famosas e poderosas de que se tem notícia nox quatro cantox do mundo! – sorriu, orgulhoso.
- Oh, dó... – murmurou Leah, de sobrancelhas erguidas.
- É verdade! Ele está falando como um adulto! – espantou-se Kojiro.
- Só não perdeu esse "belo" sotaque carioca. – murmurou Leah.
Toji não foi para a cama dele naquela noite mas, sim, para a grande cama dos pais, que insistiram em não desgrudar do garoto naquela madrugada. Kojiro e Leah trocavam cuidadosamente a gaze que o filho tinha na cabeça. Ao tirarem, constataram que ele havia ganho uma grande cicatriz no meio da testa, na horizontal, cortando quase a testa toda. O menino se olhou num espelhinho de mão, tocando o ferimento já cicatrizado.
- Filho... – disse Kojiro. – Não ligue pra essa marca. Com o tempo ela vai...
- Eu adorei! – exclamou o garoto. – Minha primeira cicatrix de batalha! Para um samurai como eu, ixto é apenax o início de uma longa jornada em buxca da perfeição!
- Soltaram um parafuso dele. – murmurou Leah, fazendo Kojiro rir. – Bom, Toji, vamos ver se você um dia me ultrapassa. Em poder, claro.
- Extamox trabalhando pra isso. – disse o filho, largando o espelho e se deitando, de braços cruzados.
Alguns minutos depois Kojiro e Leah se deitaram, cada um de um lado do filho, abraçando-o, encostando suas cabeças na dele.
- É muito, muito bom ter você de volta, Toji. – sussurrou Kojiro, beijando-o.
- Sem você perderíamos a vontade de viver. – disse Leah, também o beijando.
Toji riu, satisfeito:
- Preciso me machucar maix vezex.
Harry arrumava as malas sem muito ânimo, um tanto cansado com tantas coisas acontecendo em uma semana. Sentiu-se ser empurrado para a cama, e quando olhou viu uma sorridente Hermione, muito animada.
- E aí? – perguntou, ansiosa.
- Hum... Bom dia. – respondeu, voltando a arrumar as malas.
- ... Não está ansioso?
- Ah... Não sei. Deveria? – perguntou, indo buscar as meias.
- Ora, claro! Vamos pra Vila Rica! Vamos finalmente pra escola!
- Você realmente está feliz em voltar pra escola? Nem é nossa escola, Hermione...
- Ah, Harry, é uma escola nova. Pelo que escutei, ela é sem dúvida uma das maiores e mais modernas que...
- Não acho que essa escola seja melhor que Hogwarts.
- Mas eu não acho que haja escola melhor que Hogwarts! – defendeu-se Hermione. – Mas em termos de auxílio àqueles que vêm de família trouxa... Isso deveria nos interessar, não?
- ... Deveria? – perguntou, apático.
- De certa forma... Sim, né, Harry? Mas pelo que escutei, é uma escola realmente diferente e especial, o André estava me contando...
Harry balançou a cabeça, desanimando-se definitivamente:
- Mione, ainda não lhe ocorreu que ele estuda nessa escola?
- Claro que estuda, ele é um bruxo.
- E você realmente acha que ele iria falar mal da escola dele?... Aliás, você não acha que ele falaria mal da escola DELE para você?
Hermione desmanchou o sorriso, coçando a nuca, enquanto Harry pegava um grande pacote amarrado num embrulho. Ela deu um leve suspiro, incomodada com a observação do amigo, mas comentou, mudando o rumo da conversa, olhando Harry ajeitar o pacote na mala:
- ... É seu uniforme de Auror Supremo, não é?
- É sim.
- Você vai usar?
- Nunca se sabe.
- Você fica bem nele. – disse, natural.
Harry parou e olhou significantemente para Hermione, antes de fechar a mala e perguntar:
- É para a gente descer com elas, já?
- É. Eu te ajudo. – disse, pegando uma grande mochila de acampamento. Harry pegou as outras duas malas; e desceram.
- Estão animados, não? – perguntou Adenair, quando o casal chegou na cozinha.
- ... Mais ou menos... – disse a garota, mais cautelosa.
- Ouro Preto é uma cidade bonita. Muito mesmo, cheia de jovens. Vocês vão adorar.
- Esperamos que sim. – foi a resposta de Harry.
Então Toji apareceu, elétrico:
- Já vão hoje?
- Já. – disse Hermione. – Alguém tem que estudar nessa casa.
- Extou de licença de saúde. – retrucou, metido. Foi até Harry e ergueu a arrepiada franja, mostrando a grande cicatriz. – Olha! Tenho uma igual à sua. – disse, orgulhoso.
- ... Igual? – estranhou Harry, sem melhorar o humor.
- Não são iguais. – murmurou Hermione.
- São cicatrizex de batalha. – insistiu Toji.
- A minha não é uma cicatriz de batalha. – lamentou Harry, sem a mínima paciência.
- ... Melhor pra mim! – concluiu, feliz, achando ótimo trocar idéias sobre cicatrizes. – Maix então como você a ganhou? Num tombo? Eu também tenho váriax de tombox...
- Nem queira saber. – encerrou Leah, aparecendo atrás do trio, batendo de leve na cabeça do filho, para que saísse do caminho. – Meninos, é tomar café e sair.
- ... Você... está melhor? – perguntou Harry, sem saber ao certo se deveria perguntar.
- Ahm... estou. – respondeu, rápido. – Foi só uma indisposição.
- ... Que bom.
Harry e Hermione, pela primeira vez, iam ao subsolo do prédio, para levar as malas junto de outros dois seguranças. Logo em seguida voltaram para o hall, onde encontraram Leah, Kojiro e um feliz Toji e seu grande racho na cabeça.
- Muito bem; pé na estrada, macacada. – sorriu Leah, visivelmente mais animada. – O caminho é longo pra caramba.
O motorista trouxe o carro – dessa vez um preto, alto, como uma grande caminhonete 4x4 coberta.
- Vamos fazer um rally? – assustou-se Harry, achando que iam se embrenhar em pântanos e estradas abandonadas.
- Nem tanto. – riu Kojiro. – Mas, bem... Ouro Preto tem seus altos e baixos.
- A estrada em si também. – resmungou Leah. – Bem, vamos indo... tchau, meu pequeno grande samurai.
Leah agarrou Toji nos braços, e deram um apertado abraço. Beijaram-se e ele pulou de novo para o chão.
- Comporte-se, heim? – pediu Leah, agachando-se e colocando a mão na cabeça do pequeno, para depois lhe dar outro beijo na testa. – A mãe te ama.
- Tchau, Toji. – despediu-se Harry, apertando a mãozinha do garoto, fazendo-o rir ao sacudi-lo com força. – Economize nas cicatrizes, ou quando chegar na minha idade você não terá lugar pra mais nenhuma.
- Tchau, Toji. Vá nos visitar em Vila Rica – disse Hermione, agachando-se e dando um beijo na bochecha do garoto, que ficou visivelmente encabulado e correu para detrás das pernas do pai.
- Vocês, se cuidem. – disse Kojiro, apertando a mão de Harry e lhe piscando um olho. – E você, senhor Potter, cuide das duas. Você é o homem da casa, agora.
- Pode deixar. – respondeu.
- Não seja como seu padrinho. Por favor! – riu, dolorido.
- Não, não vou ser...
- E você, Hermione... – comentou, virando-se para a garota. – Não facilite para o André. De jeito algum.
- Ahm... Sim... – sorriu, sem graça.
Em seguida Kojiro olhou longamente para a esposa, um tanto desanimado.
- Koji, não faça essa cara. – murmurou Leah. – Você sabe que viemos para isso. Ir para Ouro preto.
- Eu sei, eu sei. – suspirou. – Mas é que uma semana só...
- Nós nem devíamos ter ficado nessa semana. – lamentou. – Mas tanta coisa aconteceu...
- Uma semana nem deu tempo de matar as saudades. – sorriu torto, tombando a cabeça. – Agora vai ser pior.
- Ah, vai. – concordou Leah, sorrindo.
- Eu posso aparecer por lá. Que tal? Fugir do trabalho.
- Não começa. – murmurou, dando as costas e indo abrir a porta da caminhonete.
- Oras! Eu sou o dono daquela empresa! Se eu não puder fugir do trabalho pra ir ver minha própria esposa, tirar férias fora do tempo, qual a verdadeira utilidade de ser o presidente? Não é isso que os outros presidentes de grande empresas fazem? Porque eu sou o único que tenho que trabalhar?
- Tudo bem, tudo bem. – concordou, balançando a cabeça. – Mas dê um tempo e deixe tudo em ordem, depois, sim, você vai.
Kojiro fez que sim com a cabeça, enquanto a esposa o puxava pelo rosto, dando um longo beijo de despedida.
- Te amo. Fique bem. – desejou.
- Eu também te amo. Vá com Deus. – respondeu Kojiro.
- Amém. – sorriu, já dando as costas e entrando no carro com os alunos.
Leah subiu ao volante, Harry ao seu lado. Hermione sentou no banco detrás. Colocaram o cinto e deram um último "tchauzinho" para Kojiro e Toji, antes de arrancarem e saírem do prédio.
O jovem casal inglês estava adorando a viagem, apesar da longa duração. Era visível que estavam "subindo". Assim que saíram de casa pegaram o mesmo caminho para o aeroporto internacional, passando pelos túneis, até caírem na via expressa e deixarem para trás a paisagem da capital carioca, tendo como destino apenas uma grande serra verde escura.
- Vamos fazer basicamente uma diagonal para a esquerda, subindo. – explicava Leah, dando uma de guia turístico. – Aqui, Harry, abra o mapa. Estamos aqui, certo? Isso, Rio de Janeiro. – dizia, indicando no mapa os lugares, com o dedo, olhando para a estrada e às vezes para o mapa, conferindo se apontava certo. – Achou? Tá vendo agora essa outra capital, aqui em cima, quase no centro desse estado, que é Minas... – Harry achou, apontando com o dedo. – Isso, é BH, ou Belo Horizonte, capital do estado.
- Sei. – falava Harry, erguendo o mapa para que Hermione, debruçada em seu banco, também enxergasse. – Esse estado aqui é o Rio de Janeiro, saímos aqui da capital, que tem o mesmo nome, e vamos subir pra esse outro estado aqui...
- Olha, São Paulo. – apontou hermione. – Do lado do Rio, aqui, onde a gente desceu, não foi? Vamos passar por ela de novo? Queria entrar de carro nela, é enorme...
- Não, não vamos. – disse Leah. – Seria andar demais... Se tivéssemos tempo, até poderíamos pegar a Via Dutra, – e apontou. – essa estrada grande, que liga Rio a São Paulo, e depois subir direto por essa outra famosa, a Fernão Dias... que vai de São Paulo até Belo Horizonte... mas demora demais. Vamos pra cá, achem aí, embaixo de BH, uma cidade chamada Ouro Preto... São duas pequenas cidades históricas bem próximas, Ouro Preto e Mariana.
- Hum... aqui, achei. – mostrou Harry. – Vamos então fazer essa diagonal, daqui... até aqui? – perguntou, um pouco desanimado. – Não vamos pegar nenhuma estrada famosa?
- Não. Quer dizer... famosa, movimentada, não, mas vamos basicamente seguir a trilha que chamam de "caminho do ouro", ou coisa assim, porque é quase o mesmo caminho que faziam quando transportavam o ouro e as pedras preciosas de Minas pro Rio. No momento estamos... aqui.
- Nossa, só andamos isso? – gemeu Hermione.
- Só isso. Ah, olhem, olhem, subam o mapa. – pediu, ansiosa, fazendo Harry dobrar o mapa até a parte superior. – Esse estado grandão aqui, o Amazonas... Olhem essa parte toda. É onde tem a floresta Amazônica, olhem o rio Amazonas, ele corta o país inteiro.
- Pra um país tão grande, parece ser pouca floresta, não? – comentou Harry, reparando a grande quantidade de papel que "sobrara".
- Ih, eles foderam a floresta toda, já... Ah, aqui embaixo, na fronteira, tem o pantanal, é outro lugar famoso, uma gigantesca planície... Também é bonito, o lugar. Mas também andam fodendo com ele pra fazer campo pra criar gado. É tudo um bando de broxado do caralho... – resmungou, para depois voltar a se animar quando Harry puxou o mapa para reparar no litoral direito do mapa. – AH! Esse litoral aí, na curva, no alto, é o litoral nordestino, praias muito bonitas e famosas. Sol de rachar o ano inteiro, e dunas que parecem um deserto. E lá embaixo, nos últimos três estados, ficam as cidadezinhas colonizadas por europeus. Tão vendo, aqui, o sul. Dá até pra matar saudades de casa. No inverno, também neva por aqui.
- Neve? – murmurou hermione. – Você tem num mesmo lugar uma floresta selvagem, um sol de rachar nas praias, dunas de deserto, cidades enormes... e neve?
- É um país grande. – deu de ombros, voltando finalmente a dar atenção apenas à estrada.
- E Vila Rica, como é? – perguntou Harry.
- Vila Rica é o nome da colonização, melhor chamarem só de Ouro Preto. Tem uns dois ou três séculos que ela mudou de nome... – riu Leah. – Não vão querer parecer desatualizados, né?... Vila Rica só é raramente usado por bruxos que querem se referir apenas ao complexo da escola, tirando a cidade em si.
- Certo. É grande a cidade?
- Nada; pequena, mas notável. A arquitetura em quase sua totalidade resume-se aos casarões antigos, a cidade é um patrimônio cultural da humanidade, então você respira história do país em todo canto. Ela foi o centro das atenções no "ciclo do ouro", que foi quando resolveram desbravar o interior do país e acharam ouro e pedras preciosas aqui na região. Pra facilitar a vida de todo mundo, criaram a cidade, que virou pólo da colônia.
- Colônia, você diz... – interrompeu Hermione, adorando a aula de história. – Quer dizer país subordinado a outro. Colônias de países da Europa.
- Ah, sim, sim. Foram os portugueses que descobriram o país. Eles saíram em linha reta de Portugal e achavam que, se andassem relativamente em frente, chegariam na Ásia. Chegariam, se não houvesse outro continente no caminho, entulhando a passagem...
- Certo... – riu a garota.
- Daí, pra aproveitarem das terras recém descobertas, Portugal montou portos, cidades, para poderem levar todas as riquezas daqui para a metrópole, na Europa.
- Sacanagem. – disse Harry.
- É a história. – comentou a amiga, dando de ombros.
- Pois é. – continuou Leah. – Mas Ouro Preto respira juventude. Ela é encravada numa serra coberta de floresta de mata atlântica, mas é lotada de jovens. Lá temos duas importantes faculdades do país, tirando, claro, todo o complexo da nossa escola de magia. As faculdades de história que lá se instalaram devem estar mais que satisfeitas...
- Imagino. – animou-se hermione. – Deve ser fascinante estudar História justo num dos lugares mais importantes da história do próprio país.
- Ah, vocês vão gostar. – sorriu Leah.
O trio parou para almoçar assim que pararam de subir e descer serras. Agora, andavam por um lugar onde prevalecia o que Leah disse que era chamado de "mar de morros" por um professor barbudo da escola de magia. Era uma paisagem cheia mesmo de morros, grandes colinas, pequenas serras, como se fosse mesmo um oceano de grandes morros. Era um horizonte bonito, cheio das gigantescas colinas recortadas com pastos, plantações, e algumas pequenas matas preservadas.
Estavam parados almoçando numa churrascaria que parecia ser o "point" da estrada, porque era grande, e cheia de carros estacionados tanto no restaurante quanto no posto de gasolina. A professora proibiu severamente o casal de abusar no almoço, pra tristeza dos dois que, depois de comerem o suficiente apenas para "encher o tanque", foram dar uma volta em torno de algumas prateleiras cheias de artesanato para vender no canto do restaurante próximo aos caixas da saída. Hermione terminava um picolé de limão e passeava por uma mesa cheia de relógios feitos em madeira com desenhos campestres talhados quando Harry a chamou para a prateleira oposta:
- Mione, olha só isso. – disse, mostrando uma pequena e simpática vaquinha de madeira com bolinhas brancas, de pé num pedestal também de madeira. Ele apertava a parte debaixo do brinquedo e a pobre vaca se desmontava toda, ele soltava, ela subia novamente de pé. – Morri, não morri. Morri, não morri. Morri, não morri. Morri, não morri...
- Ah, chega. – riu Hermione, procurando o que havia lhe chamado a atenção: um passarinho preso a uma haste de ferro. – Olha que fofo, esse. – ela ergueu o passarinho até a ponta de cima e o soltou, e o bichinho, como um pica pau, desceu todo o ferrinho, como se o bicasse, em círculos.
Nisso Leah aparecia simploriamente chupando um pirulito:
- Mas o meu preferido ainda é esse. – e entregou para Harry um caixãozinho de madeira, indo para os caixas, despreocupada.
Harry e Hermione olharam as costas da professora, depois se olharam. Quando Harry abriu o caixão, o defunto que jazia no caixão de madeira fez algo realmente sacana com seu antigo "instrumento", mostrando que nem tudo em seu corpo estava realmente "morto". Hermione não agüentou e começou a gargalhar, enquanto ele largava rápido o "negócio" na estante e saía apressado, tentando ao máximo fazer cara de quem estava sério, apesar da boca se entortar num meio riso:
- Tudo bem, vamos logo embora. – riu, um pouco sem graça, olhando para trás e vendo que Hermione ainda se abanava para retomar o fôlego. – E cuidado pra não engasgar com esse picolé, menina.
- Ai... – disse, respirando fundo e enxugando o canto do olho. – Tinha que ser coisa da Leah, achar aquilo...
Horas depois, Harry e Hermione já estavam sonolentos, quase cochilando, apesar da professora continuar dirigindo animadamente, escutando rádio e cantando.
- Abram os olhos, molecada! – chamou a professora. – Bem vindos a Ouro Preto!
Os alunos despertaram, esfregando os olhos e se erguendo no carro para olhar em volta.
Já desciam em uma cidade pequena, na encosta de alguns morros, quase escondida pelas serras cobertas de florestas e pastos. Varias igrejas se destacavam na cidade, quase sempre nos montes mais altos, e a maior parte das construções eram antigas.
- Por enquanto estamos na "parte nova". – explicou a professora. – Já, já desceremos para a "parte velha", onde não tem asfalto, nem ônibus ou caminhões podem circular.
Por um tempo ficaram circulando pela cidade, nas suas ladeiras de paralelepípedos, passando pelos casarões retangulares cheios de portas e varandinhas, igrejas antigas com gramados e muretinhas de pedra. Hermione parecia extremamente excitada com a cidade. Leah parou em um grande espaço vazio entre as casas e ruas, num dos pontos mais altos da cidade, e apontou um monumento isolado no centro de uma praça, também no centro do lugar:
- Estamos na praça principal da cidade, é aqui que acontecem os shows, eventos, carnaval, etc. Ali, aquele monumento, é onde ficou a cabeça decepada de Tiradentes, que dá o nome à praça, Praça Tiradentes. Aquele casarão lá ao fundo é o Museu da Inconfidência, vocês terão tempo de visitar, se quiserem.
- Tiradentes foi aquele que tentou fazer a independência do pais, que você contou no almoço, né? – perguntou Hermione, debruçando-se na janela, olhando ao redor.
- Estranho o cara tentar libertar o próprio país e prenderem ele, enforcar, esquartejar e colocar a cabeça dele em exposição, não? – comentou Harry, bem apático.
- Ah, ele deveria estar batendo de frente com interesses de outras pessoas, Harry. – justificou Hermione. – E também teve aquele negócio de dedarem ele e os amigos, também.
- Morrer pela traição de um amigo. Eu já conheço essa história de algum lugar. – murmurou Harry, cruzando os braços e parando de olhar para o monumento central da praça.
- Relaxa, Harry. – sorriu Leah. – O traidor do Tiradentes ficou livre. O da sua história já, já entra pelo cano.
- Hum. – foi a resposta, seguida de um suspiro desanimado.
Leah arrancou e, algumas poucas quadras depois, descendo uma ladeira bem íngreme, ela estacionou na beira da calçada, debaixo de um casarão branco de janelas e portas azuis, com seis janelas com grade no segundo andar, e embaixo uma pequena mercearia, usando também quatro largas e altas portas de madeira azul.
- Chegamos. – sorriu, descendo do carro.
Os alunos puseram a cara para fora, e em seguida seguiram a professora, que chegou ao balcão da marcenaria:
- Oh, de casa! Oh, de casa!
Harry ficou olhando em volta, nas estantes ao fundo do balcão haviam vários produtos, desde latas de óleo até macarrão, passando por produtos de limpeza, praticamente tudo que um supermercado poderia ter espremido em uma estante de madeira com várias prateleiras. Haviam dois grandes congeladores antigos, um vermelho e outro azul claro um pouco enferrujados e bem barulhentos, e vários sacos abertos com grãos e plaquetinhas com nome e preço, estes, do lado de fora do balcão. No balcão ainda havia uma tradicional balança vermelha de ponteiro. Pelas paredes, algumas mulheres ostentavam belos pares de grandes peitos espremidos em pequenos biquínis, enquanto elas sorriam e mostravam diferentes marcas de cerveja. Harry achou estes pôsteres particularmente interessantes, e, ao contrário de Hermione, não achou tanta graça no de propaganda de cerveja preta, onde um sarado tórax e um parrudo par de braços segurava firmemente o produto.
- Ah, olá. – cumprimentou Leah, assim que um gordo careca e barbudo vinha do fundo do lugar, com um avental branco e caneta na orelha. – Vim buscar a chave da casa, acho que os garotos avisaram o senhor.
- Sim, avisaram sim, professora. – disse o homem, abrindo uma gaveta de madeira e lhe entregando um pesado molho de chaves. – Os meninos saíram, mas não devem demorar a voltar.
- Ok, obrigada. Até logo.
Leah, com as chaves na mão, foi até a porta de madeira azul do lado de baixo da mercearia, e abriu a porta, dando vista para uma longa e escura escadaria de madeira.
- É, não tem ninguém em casa... Eles devem estar andando à toa.
- ... Eles quem? –perguntou Hermione.
- Ué, a turma que mora aqui. Isso é uma república.
- República?
- Sim, república. Uma casa onde uma turma de estudantes se junta para morar enquanto estudam longe da casa dos pais. – disse, voltando para o carro. – Essa turma são meus ex-alunos, e andavam com a minha filha. Bem, as malas, vamos tirá-las.
- ... Vamos ficar com seus alunos? – sorriu Hermione, divertindo-se.
- Vamos, vocês vão gostar, eles são ótimos.
- São quantos?
- Seis. Cada um de um canto oposto do país.
- Puxa. Achei que só o André morava aqui...
- André? – Gemeu Harry, sentindo a mala pesar pelo menos uns 50 Kg a mais. – Vamos ficar na casa... dele?
- Na verdade... não. – riu Leah. - Essa casa é minha e do Koji, e eles moram nela, em república, há pelo menos uns 3 anos. Eu morei aí quando dava aula no Castelo. Ele agora mora com a irmã e mais quatro amigos, como república. Ora, vamos subir logo e desfazer as malas.
O trio retirou as malas e as levou para o segundo andar da casa. Subindo as escadas via-se um hall de entrada estreito, com outras duas grandes portas de madeira, e a primeira janela, logo acima da porta de entrada. Ao terminarem de subir com a última mala, escutaram várias vozes vindo da rua, como se chamassem por alguém. Leah debruçou-se na janela, agora aberta, olhou para a esquerda, no alto da rua, e sorriu:
- E aí, macacada!
Harry e Hermione colocaram a cabeça para fora também e viram uma descontraída turma de seis jovens descendo a ladeira, bastante contentes de verem suas "visitas".
N.A.1:É nóis na fita, mano! Primeiro lugar, desculpem a demora e o dia bozonho de atualização (terça feira). Mas, ontem, segunda, dia 5/12, finalmente foi a abertura da nossa exposição de Artes. Pra quem não sabe, (ainda) estou me formando em Artes Visuais neste ano e minha vida está uma correria. A primeira parte passou, finalmente, com todos os trabalhos que estivemos fazendo todo esse ano expostos, a coisa parte mesmo pra reta final. Agora é a parte escrita e "formal" do trabalho. Quem quiser acompanhar minha saga, tá tudo no meu flog, acho que o link tá no meu profile.
N.A.2: Ahm... falando da fanfic... nada. Nada mesmo. Não ponho a mão na EdD acho que tem meses. Tudo, obviamente, por causa do fim da faculdade. Mas isso não quer dizer nada. A EdD está como arquivo digital até o capítulo 10 (que ainda está pela metade) e, no caderno, até o capitulo 24 ou 25, não me lembro ao certo. Ando bastante estravada porque não gostei do primeiro beijo H/H. (oh, céus, eu contei.) Por mais que a Gabi fale que tá legal e a DenChan diga que também ficou legal, não vejo sentido dele ser naquele lugar, já que, desde o início, ele estava sendo planejado para outra cena. Anyway, vamos ver no que dá, ficar aqui me lamentando disso ou daquilo não vai ajudar muito, e só vai confundir vocês (que não fazem idéia do que acontece lá na frente, hehe).
N.A.3: Hum... ainda não vi o filme 4, corro o risco dele sair de cartaz e eu não ver. faculdade em primeiro lugar. E também nem li nem comprei o livro 6 em português. Obviamente porque eu li ele em inglês, achei uma grande porcaria e não quero ver ele nem de longe. Chega de Harry Potter, pra mim. Ser tão viciada acabou prejudicando bastante minha faculdade e minha vida nesse "momento de transição". Mas não se preocupem, não vou sair falando que HP é uma merda ou é coisa do capeta, ou é isso ou aquilo. É como foi com Cavaleiros do Zodíaco, meu vício na infância. Gostei, e não nego, acho a história legal e sinto falta da época em que me divertia e ficava nervosa ante os acontecimentos. Mas tenhamos o bom senso de saber que é uma história legal, nada mais. Elas jamais vão mudar nossa vida pra melhor ou pior, tampouco iria impedir que vivêssemos bem se não existisse.
N.A.4: Ah, sim, antes que alguém me pergunte: Não farei parte do "projeto HH", onde vários escritores HH vão se reunir pra "reescrever" os livros originais, só que "do jeito que queriam". Basicamente, eles vão pegar o livro 6 e 7 e no lugar de HG e RH provavelmente colocarão HH (ou matarão um dos dois, hehehehe) e também mudar uma ou outra coisa. Não sei se deveria falar sobre o projeto aqui, mas fui convidada e recusei o convite. Não me incomoda nem um pouco ter HG e RH no livro "oficial", mesmo porque nunca achei que tivesse HH. Aliás, eu ficaria constrangida se tivesse side HH no lugar de HG, porque eu achei muito cafona. Mas isso não vem ao acaso. Desejo sorte se o projeto vingar, porque vão ralar bastante, e espero que fique bom. Ou, pelo menos, "menos ruim" que o original. Não me importo mesmo com RH e HG no "original", por mais que eu diga que achei ruim. Achei ruim pq achei mal escrito, tonto, achei que a mulher fosse pôr no livro algo super legal e no fim saiu que nem uma fanfic. E, fanfic por fanfic, eu fico com a minha, sem egocentrismo. Porque, se estivesse querendo "reinventar um livro 7 oficial" (ou me achando capaz de "fazer melhor"), eu nem teria me atrevido a começar essa série absurda chamada Espada dos Deuses. Livro é livro, fic é fic.Graças a Deus.(Oh, lá vou eu de novo...)
N.A.5: Até o próximo capítulo!
