Capítulo 9

Talvez eu devesse começar te narrando a minha perspectiva daquele maldito dia que recebeu o resultado dos exames? Porque sinceramente não sei o que poderia dizer sobre isso, uma vez que, até bater a porta com força e praticamente correr pra fora daquele prédio, simplesmente não consigo entender o que aconteceu.

Afinal, eu só perdi o norte de um jeito tão literal que mal sabia onde estava e só posso imaginar, depois da tua narrativa sobre isso, a cena que não protagonizei lá. Mas, sinto muito, não tenho vergonha de ter perdido mais a cabeça do que você com aquilo, por mais ridículo que eu possa ter sido.

Por mais egoísta que seja.

Eu só não posso.

... Falando a verdade, mal me lembro de ter chegado no carro. Porque naquele momento... Eu sei lá... Era como se eu não estivesse raciocinando. Reduzido a um animal. E eu era só aquele instinto de autopreservação que acomete uma besta ferida. Mas daí... Eu sei lá... Não era isso...

Eu tive medo de novo. Aquele medo gelado e profundo que-... Eu não podia perder você também! Não assim-, eu só-...

Arh!...

Inferno! COMO eu falo isso? É obvio que tenho medo de te perder, o que mais poderia querer?!...

Eu já perdi tanta coisa Di! Como eu poderia aguentar perder, então, logo você?

... Naquele pedaço da fita, perto do fim, quando você fala que somos a vida um do outro, sabe? Não me surpreendi quando vi que mais uma vez você tinha conseguido por em palavras uma coisa que nunca consegui sequer racionalizar pra mim. E no fim, é exatamente isso. Disse que seu mundo não existe sem mim? Pois o meu também não sobreviveria sem você! E, ter essa perspectiva tão à porta... mesmo que só nas ideias... ...Deus!... Eu-, eu não-...

... Eu perdi o controle. Não estava pronto pra mais esse golpe, Di, e sinceramente eu nunca vou estar! E eu só desejo que seja lá o que for que venha te levar embora um dia, me leve junto também, ou que me leve antes, porque eu não posso-!...

Eu só não posso, ok?...

Uhm...

E quando você me perguntou aquilo?... Quando entrou no carro, parecendo tão pequeno e assustado e me chamou com a voz trêmula e perdida? Me perguntando 'porque eu tinha ficado assim', e se... se você ia morrer...

Eu pensei em tanta coisa ao mesmo tempo! Naquela noite quando você voltou todo ferido e ensanguentado depois de uma espera longa de aterrorizante demais... Naquele corpo frio, afogado no próprio sangue, aquele corpo, da mulher que me trouxe ao mundo. E que devia ser quente e gracioso, mas que só não sorria mais, nem mesmo pra mim!... No que minha mãe, minha própria mãe tinha se reduzido pra mim! Uma lembrança desbotada pelo tempo, uma-uma ferida, uma cicatriz mal remendada, um trauma. E aquele sonho. Aquele maldito sonho onde eu te via morrer! Onde eu não conseguia salvar você também...

Claro que depois me arrependi de ter agido com você como eu agi... Durante aquelas horas na casa de Saga, nos fazendo de bobos na companhia dele e do irmão depois de toda aquela cena?... Eu sei que não viu, mas foram poucas as vezes que desviei meu olhar de você.

E o que ouvi na tua entrevista só serviu pra confirmar o que tinha pensado então. Que no meu desespero, te deixei na mão com o seu próprio desespero, por você, por mim, pela perspectiva de não só ter que passar por tudo isso, mas ter de passar sozinho porque talvez eu simplesmente não estivesse lá. E... eu sinto muito Di...

Ou Alexander, Afrodite, que seja...

Eu só... sinto muito por ter te feito passar por isso, mesmo que por um segundo. Porque não é apenas por vontade, obrigação, dever ou o que seja, que eu jamais sairia do teu lado... Eu só não poderia fazê-lo. Porque não existe outro meio, não existe rota de fuga e sinceramente nunca quis procurar por nenhuma.

Não vou dizer que foi fácil, aceitar esse assunto. Você sabe que não foi e até agora ainda é uma coisa que engasga aqui. Soa atravessado, errado e se desse eu só queria nunca mais ter de falar sobre isso, já que não consigo pensar em outra coisa realmente... Olha, não sei se entende o que quero dizer então... se põe no meu lugar, na falta de algo melhor, tá bom?

... Eu só... só não posso te perder, cara...

Porque isso seria pior que a própria morte e eu sei que não seria capaz de durar muita coisa sem você... Porque, isso pode ser o quão doente for, mas você simplesmente se tronou o centro do meu mundo. O grande pilar que sustenta tudo. E o que mais poderia existir, além disso?

Seria o mesmo que tentar existir sem um coração...

...Fico imaginando sua reação ao ouvir isso... Acho que vai te fazer doer, isso. Que vai te preocupar, afligir e talvez até te desesperar, não é? Não quero isso.

Não quero, porque, por pior que seja eu prefiro assim.

No fim é simples. Nós somos simples Di. Baratos e medíocres lembra? Não existe nada de apurado em nós dois, a não ser talvez essas palavras bonitas que aprendemos a usar. E é desse jeito meio bruto, cru e visceral que acabamos nos misturando, né? É assim que conseguimos fazer dar certo.

Não existem poemas e músicas e histórias ou quadros... Não existe obra alguma em sua opulência intelectual e lírica que chegue sequer perto de descrever o que temos.

Talvez porque você está certo e isso não é um romance. Talvez porque, justamente por não ser, isso tudo seja tão errado em tantos níveis.

Já cheguei a pensar nisso, sabe? No quão doentio não deve ser, isso que eu sinto aqui e que eu acho que você sente também. No quão obcecado não devo ser por você. Mas funciona. De algum jeito funciona e, nunca vou estar demais aí contigo como eu sei que nunca estará também comigo. É incondicional, não é?

É incondicional...

E não devia, não poderia ser realmente errado então, porque não faz mal a ninguém mais além de nós mesmos, se muito. Talvez nem isso...

Nessa vida de agora, nesse ato brilhante onde sou apenas algum tipo de galã nos braços generosos da sorte, me tornei um ser de muitos amores. Descobri cores e cheiros, sabores e texturas que nunca imaginei existirem. Descobri como é criar algo. Servir a algo maior do que eu mesmo, ser parte de alguma coisa e criar beleza, criar poesia.

Me exponho às luzes da ribalta em tantos outros 'eus', quando o maior papel da minha vida, na verdade, sempre foi fora dos palcos. Nesta história suja, torta, errada da qual desde sempre fui protagonista. Nesta história docemente amarga na qual a única nota pura, sempre foi você.

Você e a neve acinzentada. Você e as nossas cobertas imundas e puídas. Você e as rosas. Você e todos os cigarros e bebidas que pudessem espantar o frio que congelava a ponta dos nossos dedos. Você e o cheiro de fumaça no ar. Você e as luzes de Natal. Você e os banhos de chuva, as brincadeiras maliciosas, os doces roubados. Você e o seu corpo delgado e sua voz arrastada, provocativa. Sempre você.

Uma vez, até mesmo cheguei a tentar montar mentalmente uma vida normal para nós. Uma em que nos conheceríamos, em que seu nome pra mim realmente seria Alexander. Eu te talvez eu te chamasse de Alex, ou Al... Você seria minha família também, e eu te acordaria de manhã com uma xícara de café bem doce apenas pra ver sua cara de sono. Seriamos como Sherlock Holmes e Dr. Watson, e você bufaria com as piadinhas tortas sobre a nossa relação em meio a um sorrisinho mal disfarçado e malicioso. E talvez neste... neste universo eu tivesse o Camus pra mim. Talvez eu o amasse tanto quanto o amo hoje, aqui. E você desdenharia disso tudo, só porque você é bom demais para esses romances patéticos... Não existiria essa dor, essa culpa. Só que assim, também não existira esse desejo. Meu amor por você seria puro. Mas assim, invariavelmente, ele seria condicional. E pensando nisso tudo eu percebi que não quero nada disso.

Só porque não existe um universo em que seja real eu não te querer como te quero. Um em que você não seja carne da minha carne, em que não seja outra parte de mim. A melhor parte...

Talvez... Se eu pudesse... Eu mudasse tudo.

Exceto aquilo que me levou a você.

Não vou mentir... E dizer que viveria de novo tudo aquilo que escondi de você Di. Eu não faria. Mas... tudo o que você sempre soube... tudo desde que te vi ali, andando perdido pelas ruas como se finalmente, finalmente, os Céus tivessem se compadecido da minha solidão... Isso eu não mudaria uma vírgula.

Talvez se eu fosse menos torto, as coisas não seriam como são. E talvez seja apenas errado, querer que fosse de qualquer outro jeito que não esse... E por isso sou grato por não poder voltar no tempo. Porque se o preço da minha dor é o que me torna alguém melhor? Você disse tudo na sua conclusão. Não vale a pena.

Não vale, porque não sou uma vítima. Sou um guerreiro.

É... eu não sou uma vítima... Eu conquistei tanta coisa! Nós conquistamos...

E isso... a sua doença, Di... É só mais uma luta que temos pela frente, não é? Mais uma que vamos vencer, eu sei. Porque eu sempre vou estar com você, querendo ou não.

Porque você é meu, Di. E eu nunca vou deixar nada acontecer contigo. Nunca.

Porque temos muito ainda pra viver e, não tenha dúvidas de que te aguento talvez até mais do que você seria capaz de me aguentar!

Hah... Foi isso que sentiu? Quando narrou a sua história, mano?...

... É libertador...

Temos tanto pela frente...

Tanto, tanto pela frente ainda...

E nós vamos conseguir, não é? Vamos seguir em frente e vamos enfrentar isso e tudo mais que a vida quiser nos jogar. E vamos vencer, Di. Juntos.

(TE)

Câmbio-desligo.