Capítulo 9. Até Quando o Coração Aguenta

Ele empurrou de seu caminho dois garotos bêbados e teve que passar no meio de uma roda de conversa de garotas barulhentas; a mesa em que Marlene dançava nada discretamente com metade das garotas de torcida da escola (que costumavam odiá-la na ausência daquela quantidade absurda de álcool) agora estava a cinco passos de distância. Observara-a durante toda a noite de longe, bem lembrado da promessa interna de manter a distância mas excessivamente consciente de sua beleza.

Aquela a sua frente, porém, não era só a garota que lhe dera dias mágicos de prazer intenso seguidos por um ódio anormal e um medo que ele não queria assumir, mas também era sua amiga de infância, em um estado de consciência que gritava por ajuda. Antes de alcançar a mesa, uma mão forte o segurou. Virou-se preparado para socar Edgar Bone, o infeliz que a deixara desprotegida.

Mas era Frank Longbottom que o encarava, olhando-o com a mesma raiva que sentia em seu próprio peito.

- Você 'tá indo falar com ela? – Gritou perto de seu ouvido, para se fazer ouvir sobre o barulho da festa.

Sirius meneou o rosto concentrado na expressão protetora de Frank.

- Escuta, cara, não piora as coisas. Tentei fazer ela parar, mas não consegui. Ela ta muito nervosa e eu não 'tô entendendo o que 'tá acontecendo aqui. – Com o olhar, ele exigia a resposta de Sirius.

Não conseguira beber nada a noite toda, e ainda assim sentia-se ridiculamente confuso. Encarou Frank, respirou fundo e só conseguiu falar entre os dentes para o olhar agora acusador:

- Eu preciso falar com ela, Frank. – E virou-se em direção a garota novamente, mas o amigo o impediu de caminhar, apertando ainda mais seu braço na altura do peito.

- Sirius! – Ele o olhava ameaçadoramente agora.

- Quê, droga!

- Se for pra piorar as coisas, deixa quieto. Daqui a pouco levarei Alice pra casa, e levo a Lene também.

- CADÊ A PORRA DO NAMORADO DELA! – Sirius explodiu. As pessoas que estavam por perto se viraram atentas. A roda de garotas barulhentas ficou quieta e interessada ao notar que Sirius Black era o dono da voz.

Frank olhava o amigo analiticamente.

- É sério, não piora tudo. – Ele repetiu, mas agora apertava o braço do amigo não com ameaça, mas com compreensão.

- Vou levar ela pra casa. – Sirius afirmou com um olhar penetrante para Frank, que pareceu se acalmar de vez.

- Você vai cuidar dela, certo? – Perguntou.

- Vou. – E Sirius sentiu Frank soltar seu braço e o viu menear o rosto quase num sorriso antes de virar para a mesa de Marlene.

As pessoas voltaram a atenção para ele quando Sirius, com determinação e uma espécie de certeza nos gestos, segurou a mão de Marlene e a puxou até a beirada da mesa, de onde ele a pegou pelos quadris, colocou-a no chão e, ainda aproveitando-se dos reflexos lentos da garota, segurou seus dois braços e com o corpo apertado atrás do dela, e a guiou para fora da festa.

À repentina ausência de pessoas e barulho e ao enfim detectar quem era o seu seqüestrador, Marlene se agitou em seus braços e tentou sair. Sirius teve que segurá-la com força até que a voz de Edgar Bone paralisou os dois.

- O que você 'tá fazendo com a minha garota, Black? – Ele tinha um tom de brincadeira falso, pois olhava-os com apreensão, certamente raciocinando o que vira na escola três dias antes.

Marlene tentou aproveitar a chance de sair de perto de Sirius, mas sentia agora um repentino cansaço e torpor, e ainda tentava raciocinar como viera parar ali e o que estava acontecendo, então rendeu-se ao aperto de Sirius e ficou ali quietinha, Bone andava mesmo lhe cansando.

- Vou cuidar dela, Bone, já que você não cuida. – O tom de Sirius, porém, era sério, quase livre de emoção.

Bone abria a boca numa expressão de raiva, quando Meg apareceu:

- Six? O que você 'tá fazendo.…?

- Certo, agora me larga, Sirius. – Marlene conseguiu enfim exprimir alguma coisa: ia acabar vomitando se Meg Brown desse um de seus escândalos.

Sirius, no entanto, sentiu a mente clara como não a sentia há muito, muito tempo. Segurou Marlene com firmeza e, vendo que a garota resistiria, ergueu-a do chão jogando-a por cima do ombro, e desceu as escadas para o estacionamento. Carregou-a até seu carro, onde, sob olhares perplexos de sua namorada e à frente de um Edgar Bone possesso correndo agora em disparada a descer as escadas até o estacionamento, ele fez Marlene sentar no banco que era dela e só dela, fechou a porta, deu a volta, abriu sua porta, sentou-se em seu devido lugar, e ligou o carro a tempo de Edgar dar um soco no porta-malas.

Enquanto o carro andava e os xingamentos de Bone eram lançados furiosos ao vento, Marlene começou a rir.

Sirius ainda se sentia sério pela força de sua nova convicção, mas logo começou a rir também.

- Eu não entendo você, Sirius Black. Eu juro.

Ele a olhou e sorriu por um instante.

- Não tem problema, eu espero você.

Ao ouvir isso, Marlene ficou séria instantaneamente. Não queria pensar no que isso poderia significar… Desviou o olhar de Sirius e seus olhos recaíram sobre o rádio, visivelmente quebrado.

- Você não consertou o rádio. – Sua voz foi lacônica.

- Eu sei. – Era tudo tão maravilhosamente claro para ele agora, que se controlava para não sorrir. Ele esperaria que ela entendesse sozinha se assim ela precisasse, o tempo que fosse. – Vai ter que cantar pra mim de novo…

Ela riu com leveza. Ele se sentiu quente por dentro.

- E eu não ajudei você com o poema…

Ele a olhou. – Lene, 'tá tudo bem. - Marlene achou que dele vinha uma espécie de... paz.

Estacionou em frente a casa dela e foi ajudá-la a sair. Marlene parecia encontrar dificuldade.

- Sirius, acho que eu 'tô passando mal…

Ele quase não teve tempo de ajudar a segurá-la, quando ela deitou a cabeça entre os joelhos e vomitou.

Parou tossindo e voltou a se recostar em seu banco. Sirius abriu a porta traseira e sentou-se ali também, as pernas na rua como as dela.

- Desculpa, Sirius. – ele a ouviu numa voz fraquinha.

Ele riu. Estava tudo tão bem que nada seria capaz de diminuir isso, ele só desejou que ela entendesse logo.

- Não se preocupe, Lene. Não pegou no carro.

Ela riu leve outra vez daquele jeito. Não havia motivos para se preocupar…

- 'Tá se sentindo melhor?

- Uhum.

Ele se levantou para ajudá-la a fazer o mesmo. Agarrou-a pela cintura e apoiou seu braço em seu ombro, levando-a cambaleante em direção a porta, onde ela disse:

- Sirius.

- Hum.

- Sou ridícula por ser assim?

- Assim como?

- Assim… que vomita depois da festa…

Ele riu um latido. – Não.

- Você me acha ridícula, sei que acha. – Ela disse triste e ingênua em seu alcoolismo.

- Não acho… acho você maluca e meio perdida, só isso…

- Ah… consolador.

Ele riu. – Mas eu não me importo. Vem, vou ajudar você a subir. Seus pais não esperam você acordada, certo?

- Não… minha mãe toma remédio pra dormir, e meu pai... você sabe.

Ele apoiou seu corpo em si mesmo outra vez e a guiou pela sala, e pelas escadas até seu quarto. Uma sensação nostálgica o atingiu ao entrar: afora a troca de pôsteres, o quarto de Marlene era exatamente como ele se lembrava: a madeira antiga e a quantidade excessiva de cobertores e almofadas sobre a cama, os livros por todos os lados e a janela alta com cortinas cor-de-rosa.

Sirius a ajudou se deitar, tirou suas sandálias e se sentou a seu lado.

- Obrigada, Pads. – Ele registrou o uso daquele apelido e teve que usar uma força descomunal para não tocá-la. Levantou-se e, em direção à janela decidiu pedir:

- Lene.

- Hum. – Ouve quase um miar.

- Para de fugir, ok?

Ela abriu os olhos e tentou erguer a cabeça, mas ao não conseguir só gemeu baixinho:

- Eu só sei fazer isso, Sirius…

- Não, você sabe que não é verdade… – Ele se aproximou outra vez. Encarou seus olhos quase fechados, os cílios clareados pela luminosidade que vinha da rua e atravessava as cortinas de tule rosa. – Para de fugir, beleza?

Ela suspirou e fechou os olhos com força.

- Beleza.

- Para de fugir de mim também.

Mas ela só grunhiu alguma coisa manhosa.

- Lene…

- Beleza.

Sirius sorriu antes de deixar o quarto, encontrou um chiclete no bolso e o jogou na boca, desejando que as coisas ficassem mesmo bem sem eles que eles precisassem fugir da vida.

"Na boca em vez de um beijo

Um chiclete de menta

E a sombra de um sorriso que eu deixei

Numas das curvas da Highway"