Quando a porta se abriu, ela sentiu os joelhos tremerem.
Não poderia ser verdade.
Seu rosto ficou vermelho como tomate em poucos segundos. O ar lhe saiu todo de uma vez dos pulmões. Os orbes que a fitavam pareciam indiferentes, mas as mãos nos bolsos indicavam o contrário. Aquilo não mexia só com ela. A garota respirou fundo. Precisava se acalmar. O olhar de Kaoru – e Hikaru e Catarina mais atrás – não ajudava. O ruivo expressava um misto de satisfação e ansiedade. Ansiedade por que ela não sabia.
- Não se preocupe, a gente tem tempo. – a voz de Kaoru era provocadora.
Hana cerrou os pulsos por um breve instante e então ficou frente a frente com o visitante. Sem a bota, ela ficava com a cabeça no meio do peito do rapaz. A diferença de altura a incomodava. Ela fitou o peito do outro por alguns segundos e então levantou o olhar. Ele a olhava de volta com uma frieza e indiferença calculados, mas que não escondiam totalmente o que sentia. Ela sabia. Era do mesmo jeito.
- Abaixa. – apesar de seu estado, a garota tinha a voz firme.
Ele aproximou o rosto do dela sem hesitar, quase tocando as testas.
Ela engoliu em seco.
- Merda…
E então cobriu a distância que faltava. Seus lábios estavam pressionados aos dele. Eram quentes e estranhamente acolhedores. Mas ele tinha sido avisado da brincadeira. Tudo aquilo poderia ser coisa de sua cabeça. Ela poderia estar vendo o que queria onde queria. E, por isso, não esperava nada vindo dele. Assim, poucos segundos depois, tinha se separado do rapaz, que apenas se ajeitou e analisou o apartamento com o olhar.
O silêncio era total.
Hana, de punhos cerrados, deu meia-volta e tornou a se sentar. O coração estava quase pulando do peito, num misto de raiva e satisfação. Os olhares de Kaoru e Kyouya continuavam sobre ela. Então a garota ouviu o ruivo mais novo convidando o moreno a entrar e participar. O mais velho não respondeu e logo a porta foi fechada. Kyouya tinha apenas balançado a cabeça em negativa em resposta e voltado para seu próprio apartamento.
Hana sentia as bochechas arderem.
Catarina sentia-se chocada.
Hikaru sorria largamente, assim como Kaoru. Toda aquela encenação era típica do amigo.
- Vamos continuar? – Kaoru tinha um tom divertido na voz. Sem esperar resposta, ele girou novamente a garrafa.
Hana para Catarina.
A loira engoliu em seco.
- Verdade. Pelo amor de deus, verdade. – ela se apressou em responder antes mesmo que a amiga perguntasse.
- Éééé verdade… – a morena pareceu pensar por um breve instante, ainda não totalmente recomposta – Que… Vejamos… Que você gosta de um dos alunos estrangeiros? – a morena lançou um olhar significativo para Kaoru por um segundo e então tornou a fitar Catarina.
- E-eu… – a loira secou as palmas das mãos na calça. A resposta saiu quando ela soltou o ar todo de uma vez – É. – pelo menos não estava vermelha.
Kaoru e Hana sorriram com satisfação e olharam para Hikaru. Antes que alguém pudesse protestar, a morena girou a garrafa.
Kaoru para Hikaru.
- Desafio. – o mais velho sorriu com satisfação. O que Kaoru poderia fazer para constrangê-lo?
- Eu o desafio a beijar a Catarina. Um beijo de verdade, hein? – o mais novo sorria largamente, passando os braços ao redor dos ombros da loira como se para evitar que ela fugisse.
A menor sentiu o rosto ferver de repente. Hana continha o riso como podia, olhando de um para outro dos amigos. Agora as coisas estavam nos eixos. Hikaru franziu o cenho. O que diabo Kaoru poderia estar planejando com aquilo? Então, tirando a garrafa do caminho, o gêmeo mais velho se ajoelhou no centro da roda e colocou uma mão no rosto de Catarina. Na mesma hora, Kaoru a soltou, sentando ao lado de Hana.
Sem que ninguém percebesse, os dois bateram as mãos como se comemorassem uma vitória.
Hikaru engoliu em seco, fitando os orbes azuis de Catarina. Naquele momento, eles contrastavam bastante com a pele repentinamente rubra da loira. Era melhor não demorar mais. Então ele abaixou o rosto, tocando de forma inicialmente hesitante a boca da outra com a própria. A garota não o rejeitou, de forma que o ruivo passou a beijá-la.
Catarina ouvia a própria circulação correndo.
Não tinha sido mais do que um selinho relativamente demorado quando Hikaru tornou a se afastar, mas tinha tirado Catarina da posse de suas habilidades mentais. Hana ria, cobrindo a boca com a mão para abafar o riso, e Kaoru tinha passado os braços ao redor dos ombros do irmão. Hikaru suspirou.
- Catarina, fofa. – Hana tinha se posto diante da amiga e a ajudava a levantar – Vem, vamos beber um pouco de água.
A loira concordou de pronto, levantando e indo para a cozinha sem protestar. Não conseguia processar nada do que se passava naquele momento. Kaoru aproveitou a ausência das duas para falar com Hikaru. Sentou-se no sofá de frente para o irmão, sorrindo um tanto largamente. Hikaru apenas tinha o cenho franzido em resposta.
- E então, o que achou? – Kaoru parecia feliz com a situação.
- O que achei do que? – Hikaru se fazia de desentendido.
Da porta da cozinha, Hana ouvia a conversa enquanto via Catarina virar um copo atrás do outro de água.
- Ora, de beijar a Cat. Foi bom? – Kaoru falava como se lidasse com uma criança.
- Ah… Foi… Sei lá. Estranho. Mas um estranho bom. – Hikaru fitou o chão. O mais estranho tinha sido que, desde que passaram a conviver mais com a amiga loira, ele se sentia cada vez menos incomodado com Haruhi e Tamaki. O desafio de Kaoru o tinha feito perceber aquilo.
- Estranho por quê? Você gosta dela? Acha que isso pode complicar as coisas? – Kaoru tinha um ar paciente.
Hikaru negou com a cabeça.
- Você viu como ela ficou. Era de você que ela estava falando quando respondeu à pergunta da Hana. – pelo tom, Kaoru sorria.
Hikaru ficou um momento em silêncio.
- Mas eu…
- Você gosta da Haruhi. É, eu sei. Mas ainda temos tempo para você mudar de ideia. – Kaoru se levantou e foi em direção à cozinha, acariciando a cabeça do irmão no caminho – Acho que agora é melhor pararmos. A Cat não parece muito em condições de continuar. – o ruivo olhava de Hana para Catarina ao falar.
A morena conferiu a hora.
- Podemos dormir aqui? Não gosto de dirigir a essa hora.
Kaoru assentiu com a cabeça.
- Sem problemas.
Hana sorriu e Kaoru voltou para a sala.
Já estavam no meio da noite quando o telefone de Hana vibrou sob o travesseiro. Ela e Catarina estavam dividindo um dos quartos do apartamento. A morena se espreguiçou, olhando no visor quem a tinha acordado. Ao seu lado, esparramada no colchão, estava Catarina. As duas tinham juntado as camas para facilitar as conversas até tarde da noite. A morena sorriu de canto. Pelo menos não tinha acordado a amiga quando se assustou com o telefone.
Hana se levantou, com o aparelho na mão, e foi até a cozinha. Sentia sede e aproveitaria para ver a mensagem que tinha recebido. Pela hora marcada no topo, a mensagem tinha chegado atrasada. "Eu mereço…", ela suspirou. Precisaria de um copo de leite morno para voltar a dormir. Então ela deixou o aparelho sobre a mesa da cozinha e foi atrás do que precisava, parando apenas para tomar água antes.
Na volta, a morena se assustou ao ver Kaoru sentado no sofá, enrolado em uma colcha grossa e com uma caneca levemente fumegante nas mãos. O ruivo sorriu ao ver a amiga e a convidou para se juntar a ele no sofá. Hana aceitou de bom grado, tomando o chocolate quente que preparara com cuidado para não se queimar. O silêncio se instalou entre eles por alguns instantes, até que o ruivo decidiu falar.
- A Cat ainda surtou muito antes de vocês dormirem?
Hana tomou um gole da bebida antes de responder.
- Não muito, na verdade. Acho que ela ainda não processou direito o que aconteceu. E seu irmão, falou mais alguma coisa?
Kaoru riu baixinho.
- Não… Mas ele ficou vermelho uma hora. Quando lembrou como as coisas aconteceram. Acho que ele ainda não acredita que fez isso.
- Seria bom se eles se acertassem. – a morena terminou a bebida em dois grandes goles e pôs a caneca sobre a mesa de centro.
- De fato… Mas e você, Hana? – Kaoru desviou o olhar tranquilo para a amiga, que o fitou de volta com curiosidade, o que fez o sorriso do ruivo alargar um pouco – Quando vai se acertar com Kyouya-senpai?
Hana riu de leve da pergunta. Era estranho falar em inglês e usar os tratamentos japoneses.
- E tem o que acertar? As reações dele já disseram tudo. – ela levantou as pernas e apoiou os braços cruzados sobre os joelhos – Incluindo hoje. – e então ela apoiou o rosto sobre os braços, o que levantou levemente suas bochechas.
Kaoru terminou a bebida e colocou a caneca sobre a mesa, junto à usada pela outra. Então, sem dizer nada, passou um braço ao redor dos ombros da amiga e a puxou para si em um abraço carinhoso e quase paternal. A morena levou alguns segundos, mas logo o abraçava de volta, escondendo o rosto em seu peito. Não demorou muito para sentir a mão de Kaoru passeando por seus cabelos, lhe fazendo carinho. O gesto a fez sorrir de canto. Aquele era um garoto que merecia todo o amor do mundo. E, até onde ela sabia, ainda não tinha encontrado ninguém.
O ruivo desejou que, sendo os dois parecidos, eles fossem capazes de perceber os sentimentos um do outro. "Mas Kyouya-senpai é bom em esconder o que sente…", ele abraçou a garota um pouco mais forte, como se quisesse protegê-la de algo. "Pelo visto, acertar esses dois vai ser mais difícil que acertar o Hikaru com a Cat…", então a envolveu com os dois braços. As reações da garota durante o jogo tinham deixado bem claro como ela se sentia. Já as de Kyouya tinham feito com que ele parecesse insensível. "Não custava nada ter se juntado à gente".
Quando Kaoru percebeu, Hana tinha adormecido em seu colo. O ruivo sorriu de canto, ajeitando a coberta sobre ele e a amiga e apoiando a cabeça sobre a dela. Talvez dormir ali não fosse uma ideia tão ruim. Poucos segundos depois, ele também dormia, ainda envolvendo Hana em seus braços como se a protegesse. Quando a garota acordou, sentir o calor vindo de Kaoru a fez sorrir. Às vezes era bom ter uma companhia masculina agradável na hora de dormir.
O sol entrava pela janela através das frestas da cortina. A casa ainda estava quieta. Era cedo, apesar de tudo. Muito cedo, como a garota constatou ao desviar o olhar para um relógio na parede. A morena apenas se ajeitou, apertando mais a colcha contra o corpo. Kaoru tinha um ar inocente quando dormia. Sem pensar muito a respeito, Hana lhe beijou carinhosamente a bochecha. O ruivo abriu lentamente os olhos, parecendo um tanto desnorteado de início. Então, ao fitar a amiga, ele sorriu de canto e retribuiu ao beijo com outro na bochecha dela.
- Acho que devíamos voltar para a cama ou vamos ficar doloridos. – ele se ajeitou no sofá ao falar.
Hana esticou um pouco o braço para fora da coberta e logo se encolheu de novo.
- Mas… Frio…!
Kaoru riu, tornando a abraçá-la.
- Não vai ficar frio o dia todo?
- Talvez. – ela tornou a se apoiar no amigo – Mas, por enquanto, eu não quero enfrentá-lo. – Kaoru riu de novo, o que fez Hana sorrir – Você deve estar desconfortável…
O ruivo negou com a cabeça.
- Não precisa se preocupar com isso. – ele sorria de canto – E o que fez você levantar no meio da noite?
- Ah, meu telefone tocou. – a morena olhou ao redor, procurando o aparelho – E ele está… Está… Em algum lugar.
Kaoru riu mais uma vez.
- Depois você procura. Ou alguém encontra por acaso. – ele olhou para a morena.
- E você? – a garota tinha tornado a fechar os olhos, com a cabeça apoiada no ombro do amigo.
- Na verdade, eu não dormi. Só um pouco agora. – ele sorria com um ar triste – Hikaru teve muitos pesadelos no começo da noite.
Hana não pôde deixar de achar graça. Kaoru cuidava do irmão como se de um filho. Era fofo, pelo menos para ela. A garota sorriu de canto. O ruivo olhava para frente ao acabar de falar e ela teve vontade de abraçá-lo e dizer, em um tom provavelmente maternal, que ele era um bom menino. Mas apenas ficou olhando para o amigo com um carinho verdadeiramente profundo. Os gêmeos tinham uma relação fraternal diferente de qualquer outra que ela tivesse visto. Ao mesmo tempo em que era estranha, tinha sua beleza. A garota só lamentava que os outros geralmente preferiam ver pessoas assim com maus olhos.
- Você deveria ir para a cama e dormir de verdade. – ela se levantou, estendendo a mão para ele.
Kaoru sorriu para a amiga e segurou a mão estendida, se levantando. Hana franziu o cenho com a diferença de altura e mostrou a língua para o rapaz, que riu em resposta. Então ele lhe acariciou a cabeça e foi para o quarto. Hana se virou para ele, perguntando se ele conseguiria dormir fácil. O ruivo deu de ombros e fechou a porta atrás de si. À garota coube levar as canecas para a cozinha antes de voltar para o quarto.
A coberta continuou no sofá.
Quando Catarina acordou, estranhou que Hana não estivesse em sua cama. Ao olhar ao redor, constatou que a amiga estava sentada em uma das poltronas que havia no cômodo, encolhida no assento e com uma coberta até o pescoço. No chão, caído, estava um livro grosso com uma página marcada. Para a alegria da morena, o livro tinha caído fechado. Catarina se levantou e recolheu o livro, deixando-o sobre a escrivaninha. Imaginou que Hana tivesse acordado no meio da noite e não tivesse conseguido voltar a dormir.
Ela sorriu de canto ao olhar para a morena mais uma vez e então foi para o banheiro. Já eram mais de nove horas da manhã: hora de sua corrida matinal. Ela lavou o rosto e ajeitou o cabelo enrolado com certa dificuldade, mas no tempo previsto. Tomaria banho quando voltasse. Felizmente, estava sempre com seu aparelho de música. Procurou nas gavetas alguma coisa que servisse para a atividade esportiva e se trocou em pouco tempo, saindo para correr em seguida.
