Ano: 2009
Mês: Dezembro
– Bom, Finn, a vida profissional vai de vento em poupa, você já fez mais filmes do que muito ator com o dobro da sua idade, mas... E como vai o coração?
Tão típico, pensou Finn.
Será que não poderia passar por uma bateria de entrevistas sem que fizessem aquela pergunta? Por que será que as pessoas tinham tanto interesse assim na vida pessoal dos famosos? Ele fora anônimo apenas durante a infância, portanto não tivera muito tempo para compreender.
– Vai bem, obrigado. – respondeu simplesmente, sem querer estender muito o assunto.
Mas a entrevistadora não parecia estar satisfeita.
– Bem no sentido de que está ocupado por alguém?
A simpatia que ela queria transmitir era tão falsa que o efeito em Finn era totalmente o inverso. Mas ele tinha que ser cordial, senão Mercedes daria um puxão em sua orelha.
– Na verdade não. Estou solteiro e não há ninguém em vista.
Por que diabos Rachel Berry tinha que aparecer em sua cabeça no mesmo instante em que dizia isso? Inquieto, Finn trocou de posição em sua cadeira.
– E quanto aquela moça com a qual você apareceu na mídia há uns meses atrás?
Finn passou a mão no queixo, sentindo o vestígio da barba. Por acaso ela lia mentes? Dava graças à Deus pelo milagre concedido de que, pelo menos até agora, ninguém havia aparecido com uma foto deles dois se beijando no bar. Pensar naquela noite fez com que sentisse uma cosquinha no estômago.
– Aquela moça é uma amiga da minha família há anos e nós nos encontramos por acaso na galeria. Apenas isso.
– Então realmente não há nada entre vocês?
Quanta insistência!
– Não, nada. Nunca houve. – respondeu, deixando claro que não queria mais falar sobre o assunto.
Sentada à mesa da cozinha de sua casa, no dia seguinte, Rachel não expressou nenhuma reação externa ao assistir na televisão a resposta de Finn, uma vez que Puck também estava lá. Mas estava imaginando a si mesma dizendo para Finn que "nada" não era exatamente a verdade. Mesmo que depois daquele beijo ele tenha passado a evitá-la, como se ela fosse uma leprosa, de novo.
– Eles ainda se lembram dessa história? – Puck falou, olhando para a televisão. – Depois de tanto tempo?
Rachel apenas encolheu os ombros em resposta.
– Ouvimos dizer que você fará um novo filme com Quinn Fabray em breve. É verdade isso? – Rachel ouviu a mulher da entrevista perguntar a Finn.
– Não é verdade.
– Ah... – ela pareceu decepcionada. – Devo confessar que adoraria vê-los juntos. Mesmo com tantas poucas cenas no primeiro filme que fizeram, a química estava ali.
Rachel viu Finn apenas balançar a cabeça e concordar com o que a mulher tinha dito, mas não respondeu mais nada. Será que Quinn Fabray ainda o incomodava? Rachel se perguntou se ele ainda sentia algo por ela e por isso nunca mais tivera um relacionamento sério desde o cancelamento do casamento. A possibilidade de que este fosse o caso fez com que ela mordesse o lábio inferior, preocupada.
– Bom, mudando de assunto. – a mulher da TV continuou a dizer. – Como passará o ano novo?
Rachel pôde ver, pela postura dele, que Finn estava aliviado com a mudança para aquele novo assunto.
– Como sempre passo, junto com a família e os amigos. Não sou muito adepto às grandes festas.
Ao ouvir, Rachel cruzou os braços e lembrou-se de que o ano novo seria em apenas alguns dias e os amigos a que ele se referia era a família Berry. As duas famílias costumavam passar o ano novo juntas desde muito tempo.
Teria que aguentar de novo Finn fingindo que ela simplesmente não estava lá. Da mesma forma como fazia quando ela ainda o tratava como um semideus.
Rachel olhou para a imagem de si mesma em frente ao espelho. Estava pronta para a festa de ano novo, e os convidados, leia-se os Hudson-Hummel, já estavam todos lá embaixo. Estava adiando o momento de descer, mas ia ter que fazer isso uma hora ou outra.
A indiferença de Finn fizera com que ela ficasse triste no início. Mas agora o que sentia era uma pontada de raiva. Enquanto baixava as escadas, pensava em como ele não passava de um covarde que não tinha coragem de enfrentar as consequências dos próprios atos.
Engraçado, há um tempo atrás, Rachel achava que Finn era perfeito e não tinha nenhum defeito. Mas bem que Kurt dissera certa vez: enxergava-o com olhos de fã, sem nunca ter chegado a conhecê-lo realmente e que, se chegasse a conhecer, talvez nem fosse gostar tanto de Finn assim.
É, mas aquilo não se comprovara ser exatamente verdade, pensou, no mesmo instante em que o via de pé, perto da grande janela de vidro da sala de estar, parecendo tão lindo e charmoso como sempre, vestido com uma blusa branca e um terno cinza. Não podia se enganar, os sentimentos que nutria por ele quando era uma menina podiam ser considerados bobos, mas eles haviam crescido e evoluído junto com a própria Rachel.
Cada vez que o via só servia para comprovar que estava apaixonada por aquele homem que nem sequer demonstrava interesse. Mas agora, o que sentia era um amor maduro, não um amor de criança, o que fazia com que a rejeição fosse ainda mais dolorosa.
Como se tivesse sido atraído, o olhar de Finn voltou-se para Rachel, enquanto ela descia as escadas. Tentou convencer a si mesmo de que não tinha sentido o coração falhar uma batida ao vê-la naquele vestido branco que nem chegava ao joelho. Aquilo sim era o que poderia ser chamado de um belo par de pernas...
Ele sacudiu a cabeça para afastar os pensamentos. Tinha feito muito isso ultimamente, porque Rachel insistia em fazê-lo pensar e imaginar coisas que não devia. Finn a culpava totalmente, mesmo sabendo que ela não tinha culpa nenhuma, por mais confuso que isso pudesse soar.
Passou a noite inteira naquele martírio. Olhar para Rachel tornava tudo ainda mais difícil, por isso ele ficava o mais longe possível dela.
Ficava todo tempo tentando colocar na própria cabeça que aquele beijo nunca havia acontecido. Não era possível que ele tivesse beijado uma pessoa que costumava segui-lo com olhar de cachorrinho abandonado. E que, para completar, era irmã caçula de seu melhor amigo, quase irmão, o que fazia com que ela quase fosse irmã dele.
Não, era melhor não pensar assim, já que os pensamentos que tinha em relação a Rachel não eram nada fraternais.
Ao dar meia-noite, todos começaram a celebrar a chegada de 2010. As pessoas se abraçavam e desejavam felicidades umas as outras. O que significa que, irremediavelmente, Finn teve que fazer o mesmo com Rachel. Em determinado momento eles ficaram frente e frente, mas nenhum dos dois parecia ter coragem de dar o primeiro passo. E, mesmo assim, de alguma forma, foram atraídos para os braços um do outro como se fossem imãs.
Finn a abraçou apertado pela cintura, sentindo os braços de Rachel envolver seu pescoço. Aspirou o perfume que ela estava usando e cheirava maravilhosamente bem! Ele sabia que o perfume ficaria em sua própria roupa, fazendo-o lembrar-se dela pelo resto da noite.
E, por Deus, porque ele simplesmente não conseguia soltá-la? Já estava mais que na hora, o abraço já havia durado bastante tempo, muito mais do que o recomendável, e Finn sabia que não estava parecendo apenas um abraço de cumprimento pela forma com que a mantinha apertada contra si, como se quisesse manter contato com o corpo dela por inteiro. Ainda bem que os outros estavam distraídos e não percebiam que a cena era um pouco íntima demais.
Mas ele teve que se separar, por mais que não quisesse.
– Feliz ano novo. – Rachel desejou, olhando-o nos olhos.
– Feliz ano novo. – Finn respondeu da mesma forma.
E então, Rachel deu um breve sorriso e se distanciou dele, indo cumprimentar Carole e Burt.
O resto da noite passou da mesma forma que antes, com a mínima interação entre os dois. Chegou determinada hora que Rachel estava se sentindo meio sufocada e precisou ir até o lado de fora para respirar uma pouco melhor.
Saiu da casa discretamente e foi até a varanda. Procurou ficar fora da vista da janela, dirigindo-se até a lateral direita, e se apoiou no parapeito de madeira que circundava a varanda completamente. Não sabia quantos minutos havia se passado até que sentiu a presença de Finn atrás dela. Não precisou nem se virar para saber de quem se tratava.
– O que veio fazer aqui? – perguntou, ainda de costas para ele.
– Eu vi quando você saiu.
– E isso não deveria te manter do lado de dentro, ao invés de do lado de fora?
Atrás dela, Finn abaixou a cabeça. Sabia que Rachel estava chateada com o fato de que ele a estava evitando, mas ouvir saindo da boca dela o deixou envergonhado.
– Sim. – ele respondeu, porque a verdade era que devia mesmo estar do lado de dentro e não ali sozinho com ela. Mas algo tinha se apoderado dele e Finn não resistiu ir até lá.
Deu mais alguns passos a frente e também apoiou os cotovelos no parapeito, ao lado dela. Rachel se mexeu de forma inquieta, devido à proximidade dele.
– Então porque não faz isso? Por que não entra?
– Porque apesar de saber que deveria, eu não quero.
Rachel ficou em silêncio depois da resposta dele e Finn se sentiu meio ansioso para saber o que ela estava pensando. Havia passado pela cabeça dele que Rachel ainda podia manter algum tipo de sentimento por ele, mas também chegara a considerar a possibilidade de que ela tivesse superado tudo aquilo de vez e já não sentisse mais nada.
Seria uma grande ironia da vida se esse fosse o caso, imaginar que Rachel já não queria mais saber dele justo agora que Finn ficava tendo pensamentos impróprios com relação a ela. Era uma situação tão ridícula que Finn deixou escapar uma risada.
– Qual é a graça? – Rachel perguntou.
– Nada... – respondeu, de forma vaga. – Só os rumos que a vida toma e que às vezes são os que menos esperamos.
– E o que se supõe que isso significa?
– Significa que a vida é uma grande caixa de surpresas.
Ela semicerrou os olhos para ele.
– Vai mesmo continuar a falar em charadas? – Rachel perguntou. – Porque se for, saiba que eu nunca fui muito boa nelas.
Finn se virou para ela.
– A verdade é que nem mesmo eu estou entendendo direito, então, como é que posso te explicar? A única coisa que sei é que, apesar disso não te deixar muito contente, Rachel, nós temos que agir como se aquele beijo nunca tivesse acontecido.
Finn pôde ver, pela expressão no rosto dela, que Rachel não estava esperando que ele tocasse tão claramente no assunto que evitara confrontar todo aquele tempo. Mas tinha que esclarecer tudo, ainda que no fundo temesse bastante a reação ela pudesse ter.
Entretanto, Rachel simplesmente voltou a olhar para frente e disse:
– Tudo bem. – ela disse, calmamente, e então foi ele que ficou surpreso. – O quê? – Rachel perguntou, depois de olhá-lo novamente e ver a expressão confusa em seu rosto. – Esperava que eu fizesse algum tipo de escândalo? – ela riu, mas sem humor. – Você realmente não me conhece, Finn. Nem mesmo nos meus tempos de maior idolatria eu cheguei a fazer cena.
Rachel balançou a cabeça negativamente, mostrando certa inconformação. Ele devia mesmo ter o pior tipo de opinião sobre ela.
– Eu não quero que fique chateada, Rachel. – Finn disse, depois de um tempo. – Espero que ainda possamos ser amigos.
Ela se desencostou e se preparou para voltar a entrar na casa. Tinha ido ali para se livrar um pouco da pressão que sinta no peito, mas acontecera totalmente o contrário. Ficou um tempo olhando para ele, que a olhava de volta.
Sob a luz da lua, Finn pensou que nunca antes a tinha visto tão linda.
Então, Rachel respondeu:
– Nós não éramos amigos antes.
A resposta dela não foi bem a que Finn queria. Tinha quase dado por garantido que, apesar de que Rachel pudesse até se sentir um pouco triste no início, depois se daria conta de que estava, na verdade, muito feliz por ele querer ser amigo dela, por mais convencido que isso pudesse soar da parte dele.
Finn se sentiu inconformado com a falta de entusiasmo. Até mesmo irritado.
Foi por isso que, quando Rachel tentou passar por ele para voltar à festa, Finn a agarrou pelo braço, trouxe-a para junto de si e a beijou.
A sensação instantânea ao ter os lábios dela contra os seus outra vez, depois de tanto tempo desejando, poderia ser comparada à que teria um faminto comendo um prato de comida feita por algum dos mais renomados chefes de cozinha. Era uma comparação realmente pertinente, já que Finn estava mesmo quase devorando-a com o beijo.
Não era um beijo tranquilo, mas sim forte e avassalador. Ele a mantinha presa e apertada entre os braços. Mas Rachel também não deixava por menos, agarrando os fios do cabelo da nuca de Finn entre os dedos, além de que a língua mostrava-se tão exigente quanto a dele. Os dois estavam completamente entregues àquele contato e a cada minuto o beijo se tornava mais voraz.
Finn sugou o lábio inferior de Rachel, sentindo uma tremenda satisfação tomar conta de seu corpo por estar fazendo isso. Ela soltou um pequeno suspiro de prazer, o que fez com que ele aprofundasse o beijo ainda mais.
Quando se separaram, ambos ofegantes, Rachel teve que voltar a se apoiar no parapeito para recuperar o equilíbrio. Precisaram de um tempo para se recuperar, apesar de que Finn sabia que precisaria ficar ali fora por um tempo maior, para que certas partes de seu corpo voltassem ao normal, até que pudesse retornar para dentro da casa sem causar constrangimento.
Quando percebeu que a respiração dela foi voltando a um ritmo normal, ele abriu a boca para tentar falar, mas Rachel o interrompeu no mesmo instante, levantando uma mão, claramente trêmula.
– Não ouse se desculpar.
– Mas eu...
– Não. – pediu de novo. – Não diga algo que estrague tudo outra vez.
Finn colocou as mãos nos bolsos e depois concordou com a cabeça.
– Talvez seja melhor que eu não diga nada mesmo.
Mas a preocupação de Finn era se prevenir de dizer exatamente o contrário do que ela estava achando.
Se quando a Rachel falou aqui neste capítulo "Nós não éramos amigos antes", alguém lembrou da conversa dela com o Puck, no próprio Glee, não é mera coincidência, eu também lembrei e usei. :)
