A.U – Universo alternativo.
Essa fic usa personagens de Saint Seiya ambientados em Vampiro, A Máscara parte do cenário do World of Darkness – Segunda Edição, publicado pela White Wolf. E obviamente nenhuma das duas obras me pertence.
Não custa repetir: Cross over entre minhas duas grandes paixões: CDZ e Vampiros. Como eu é que mando aqui e não o Kurumada ou o Justin Achilli estou tomando certas liberdades em relação aos personagens e a ambientação. Não vou seguir nenhum dos dois universos ao pé da letra, capisco?
ATENÇÃO: Essa fic possui descrição de cenas eróticas não recomendada a pessoas conservadoras. Dispenso também comentários perjorativos de quem só quer ler baixaria, ok? Também dispenso comentários que não concordem com os pares que essa história está formando. Avaliem o conteúdo que existe e não aquele que você gostaria que existisse, por favor.
Cabe aqui uma breve definição de erotismo: "Erotismo é o conjunto de expressões culturais e artísticas humanas referentes ao sexo".
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Capítulo X – O Caminho da Humanidade: arrependimento, prazer e ultimato.
Chicago, Mansão Oresund
- Ai meu Deus que dor de cabeça! – Ele se sentou na cama enquanto seus olhos se acostumavam com a penumbra. Dedicou-se a sentir o toque macio da seda, mas havia algo estranho... Ele não costumava dormir em lençóis de seda. Só então deduziu que não estava em seu refúgio. Estendeu o braço e sentiu o corpo curvilíneo de uma mulher... Esticou novamente o braço e sentiu o corpo de outra mulher...
Onde ele estava afinal? Eram DUAS mulheres... Uma loira e uma morena, ambas lindas! E o que aquele homem fazia dormindo abraçado a mulher de cabelos pretos? O que era isso? Quanta ingenuidade. Era óbvio que ele participara de uma festinha bem particular com aquelas duas mulheres e aquele homem. Mas quem eram eles? Levantou-se com todo o cuidado para não acordá-las. Que horas seriam? Pegou o relógio. Quase seis horas da tarde, a noite começaria a cair em breve.
Enquanto tentava se sentir culpado, o cheiro de cada um daqueles corpos lhe parecia familiar. Mas ele não se lembrava de absolutamente nada, bem, lembrava de algumas cenas desconexas da reunião no Salão das Rosas.
Lembra-se de ter batido boca com dois músicos e de ter caído nas graças de uma Toreador loira com vestido vermelho que desejara a todo custo mostrar-lhe como era a recepção das Toreador em Chicago aos novos membros. – Meu Deus, eu dormi com a archon do Justicar Toreador! – Mas ainda conseguiria se chocar mais – A morena é... A Harpia Mestre da Alemanha... E aquele homem... É o meu primogênito, Afrodite! Onde eu estava com a cabeça? Como eu vim parar aqui?
Precisava se lembrar da noite anterior, mas era como se não fosse ele que estivesse no comando do seu corpo, sentia como se estivesse assistindo apenas como espectador as lembranças que agora vinham a sua mente. Lembranças turvas e distantes que faziam seu cérebro latejar tamanho o esforço que fazia para se lembrar do que tinha acontecido.
Chegara muito atrasado a reunião e logo de cara, fora recebido por dois músicos que deveriam se chamar... Mime e Sorento. Deveriam ser estes os nomes. Eles foram agradáveis a principio, mas tudo mudou quando Milo foi recebido com os braços abertos por Afrodite que sem prepará-lo nem nada, quebrou-lhe as pernas: anunciou publicamente a todos os presentes que ele, Milo, seria seu braço direito e sucessor junto a Camarilla. Assim, simplesmente do nada!
Ninguém questionou abertamente Afrodite. Nenhum Toreador era insano o suficiente para questionar os desejos do seu caprichoso ancião. Mas, Milo realmente não estava entendendo o que acontecia e por que ele fora escolhido. Por quê? Tentou discutir com Afrodite a respeito, mas em vão.
Desde que chegara a Chicago sua vida dera uma tremenda reviravolta. Primeiro a boa recepção dos Brujah. Depois a Condessa que simplesmente aparecera do nada e com suas idéias mirabolantes fizera com que ele deixasse de ser um zero a esquerda e se tornasse alguém. Agora que era "alguém" fora aceito por seu clã com direito a orgia e como se não fosse suficiente... Conquistara uma posição de muito respeito.
Ser alguém entre os vampiros não era nada fácil. E ele já começara a listar os inimigos que fizera abertamente: Kamus, Mime, Sorento. Kamus por motivos óbvios. Mime e Sorento deram a entender que seu momento de glória não duraria muito.
Alguma coisa estava acontecendo e ele precisava entender o quê. Sentiu pela primeira vez desde que se tornara um vampiro que era uma peça num jogo de poder, alguém estava manipulando-o e ele precisava descobrir quem e por que sua ascensão tão repentina seria vantajosa.
Por mais que a Condessa parecesse ser uma vampira integra, deveria saber de algo e ele iria descobrir o quê. Precisava encontra-se com Kamus, pois segundo Aioria, o Ventrue não sossegaria enquanto não o matasse. Agora... Mime e Sorento. Eles realmente não queriam nenhuma aproximação consigo.
Milo sempre vivera como um párea e tudo aquilo era novidade. Certamente que ele possuía tendências anarquistas, mas agora se convertera de vez para a Camarilla. Ele sentia a necessidade de ter um sentido, um objetivo. Desde que chegara a Chicago a noite passada foi a primeira vez que ele perdera o controle de seu próprio corpo, de sua vontade, mas ainda assim sabia que era ele mesmo que fizera tudo aquilo.
Às vezes ele tinha a impressão de que era louco por não se lembrar de coisas simples ou pessoas com quem tivera contato. Precisava realmente se esforçar para que as lembranças fluíssem e então ele ouvia vozes. Era como se várias pessoas vivessem dentro dele, mas todas essas vozes e lembranças eram dele mesmo. Talvez fosse o momento de tentar entender exatamente o que acontecia consigo, procuraria referências na Biblioteca Central, certamente Aioros o ajudaria. Talvez fosse melhor procurar sozinho por respostas, pois ele tinha medo de que a resposta para sua pergunta fosse algo perturbador e abrir essa sua fraqueza para terceiros? Não. Não era uma boa idéia.
Precisava de uma explicação de como conseguira declamar um poema que fez a Guilda parar, deixou vários Toreador com os olhos marejados em sangue. Não era poeta, mas agira como se fosse! E que poeta! Não era fácil conseguir a aprovação de tantos Toreador. Ele finalmente fora aceito em seu clã, mas conseguiria repetir essa proeza? E se ele fosse considerado uma fraude? E se o poeta fosse ele mesmo?
Em Atenas, quando bêbado algumas vezes fora tomado por essa vontade insana de ser um poeta, agir como tal. Também vez ou outra agia e falava como se fosse uma mãe que desesperadamente tentava cuidar de seus filhos e defende-los. Muito do seu senso de justiça advinha dessa personalidade feminina que vez ou outra tomava seu corpo, mas isso acontecera poucas vezes. Outras vezes agira como um pároco medieval que caçava almas perdidas, sentia medo dessa sua faceta em particular. Era bem cruel. Mas era ele, ele mesmo, não era?
Enquanto mergulhara em seus próprios pensamentos não se deu conta de que a loira acordara e se colocara a observá-lo. Cansada de apenas olhar, ela se levantara e somente então Milo percebeu não era o único acordado ali. Tentou sorrir para ela, mas sua expressão preocupada não o ajudou muito.
- Acordou de mau humor, Milo? – Ela sussurrou com sua voz sobrenaturalmente linda enquanto o abraçava com segundas intenções.
- Não, impressão sua... – Tentou se lembrar do nome dela. -... Tétis... – Como a pele dela é macia... E essa voz é tão... Gostosa!
- Esqueceu meu nome? Vejo então que precisarei fazer algo mais para que você não mais esqueça de mim, jovem grego. – Suas palavras pareciam ser cantadas a todo instante, seu tom de voz naquele momento era absurdamente sexy e fora capaz de despertar uma série de fantasias eróticas na cabeça de Milo.
- Venha comigo... Vamos para outro quarto, quero ter um momento somente nosso, não vamos acordar Pandora e Afrodite, podemos nos divertir com eles depois... – Como essa mulher é... Linda e essa voz... Estou realmente com sorte ultimamente! – Tem algum compromisso esta noite? – Ele fez um gesto com a cabeça confirmando que sim. – Então desmarque. – E apertou ainda mais seu corpo nu contra o dele que até então só conseguira vestir sua calça.
Ela começou a puxá-lo na direção da porta, sem fazer nenhum ruído. Conseguiram com sucesso cruzar a porta, foram cautelosos em trancá-la. Finalmente o longo e silencioso corredor da mansão. – Gosto de usar aquele quarto. – E ela apontou na direção de uma porta.
O que ela queria dizer com "gosto de usar aquele quarto"? – Ela mais uma vez o puxou e sem pressa girou a maçaneta da porta do quarto indicado. – Tétis, eu acho que não posso ficar... Tenho que resolver algumas coisas... – Ele também precisava fazer algum charme, não?
Entraram no quarto e ela se encostou na porta, deixando bem claro que não o deixaria sair. Fazendo uma expressão de decepção falou sedutoramente: – Milo, você tem que resolver um problema pra mim. Só você pode fazer isso.
- Problema? – Ele perguntou representando uma expressão de confusão.
- Sim, um problema. Eu quero ter você novamente, e quero isso agora. – Ela andou na direção de Milo, deixando seu corpo muito próximo dele. – Você me ajuda? – Ela fez uma expressão de inocência quase convincente.
- Ah, mas é claro que eu te ajudo! – E os dois começaram a se beijar, um beijo intenso que logo acendeu a masculidade latente dele, precisava dar um jeito de se livrar daquela calça. Aquele contato era realmente bom e aquela mulher era fogosa demais! Milo estava com mil idéias na cabeça do que poderia fazer com ela. Naquele momento Milo não queria mais nada da vida, só se entregar aquela troca de prazer com aquela beldade sedutora. Mas repentinamente ele interrompeu o contato, tinha que ao menos dar uma explicação pra Aioria e mostrar que estava "vivo". Responsabilidades. Ele realmente odiava ser responsável.
- Só um momento, Tétis... – E apesar das investidas dela, afastou-a. – Preciso fazer uma ligação para que ninguém nos interrompa. – Onde está a droga do meu celular? – Tateou a calça em busca do famigerado aparelho. Ela sorriu ao ver a ansiedade dele em procurar o celular e se afastou, jogando-se na cama de dossel e fazendo uma pose que deixou Milo ainda mais excitado.
Vou dar um trato nessa mulher, vou sim! Caramba... Estou fazendo sexo com uma pessoa que eu nem conheço, sou um pervertido mesmo! Bom, na verdade... Eu sou Toreador... Por que gosto de me sentir culpado nessas horas? Nunca fui santo... - Meio tentando controlar a excitação na voz, discou o número do celular de Aioria que deveria estar amaldiçoando-o naquele momento.
- Aioria!? Será que você pode ficar quieto? Escuta... Aioria cala a boca e me escuta! ...Sim, eu tô bem... Não, não... Ta, Dá próxima vez eu aviso. Desculpa Aioria!... Não eu não vou encontrar contigo hoje, amanhã a gente se fala melhor, ok? Tchau... Entendeu? Eu falei tchau! – E finalmente jogou o celular em algum canto enquanto pulava na cama pra agarrar aquela verdadeira sereia, a noite seria muito longa no que dependesse dele e de sua imaginação.
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Chicago, Cobertura do Edifício Louis Joillet
Gabrielle acordou e correu em direção ao banheiro. Se fosse um ser humano teria vomitado, estava se sentindo muito mal, sua cabeça doía, sentia um vazio no peito, não entendia seus sentimentos, parecia ter vivido um pesadelo, mas não se lembrava de detalhes.
Após se acalmar, lembrou-se dos detalhes da noite anterior. Havia tido uma conversa agradável com o Duque, mas antes... Encontrara o irônico e insuportável Seneschal: Kannon. Certamente sua ânsia de vomito se devia a esse encontro. No final da noite sentiu uma dor de cabeça insuportável, despediu-se do Duque e dirigiu-se a sua suíte.
Ela ouviu um decidido bater na porta de seu quarto. Correu para o espelho para verificar sua aparência, sua túnica de linho estava levemente amassada devido ao sono perturbador que tivera. Mas apesar de tudo estava bem, o efeito era apenas psicológico.
Estava em condições de simular que realmente queria tomar um café pela manhã. Mas normalmente ela chamava os criados, eles não ousariam incomodá-la. Olhou rapidamente para o relógio, a noite cairia em breve e esperava que ao menos nessa noite não tivesse surpresas desagradáveis.
- Entre, ela falou com sua costumeira voz de liderança enquanto se deixava cair no sofá postado na ante-sala de seu leito. Os jornais lá estavam colocados e ela pegou um deles para se atualizar precisava pensar nos negócios para fugir dos problemas que ela mesma havia criado.
- Com licença. – Ela se arrepiou ao ouvir a voz do Duque. Esperaria uma bomba atômica, mas não a visita dele naquela hora, ainda mais em seus aposentos! Instintivamente verificou se seu hobbie estava realmente fechado. Medo. Sentiu muito medo de Kamus. – Por que estou sentindo tanto medo dele? Ele é frio, duro, mas não foi tomado pela Besta.
- Condessa, perdoe-me por incomodá-la tão cedo, mas gostaria de discutir alguns detalhes da sua agenda e da minha para esta noite.
- Cla...ro, Kamus. – Ela gaguejou. – Não estou conseguindo controlar minha voz! O que aconteceu comigo? Por que tenho a sensação de não lembrar-me do que deveria me lembrar?
- Seria adequado que nós jantássemos em público essa noite. Preferencialmente no Masquerade para sermos vistos. Mas antes gostaria de levá-la a outro lugar. Podemos nos encontrar no saguão principal às vinte horas? – Ele falou sem nenhuma emoção na voz. – Ela está sentindo os efeitos de ter sua mente apagada e reconstruída... Preciso me retratar quanto a isso... – Pensou ainda tomado pelo arrependimento.
- Sem problemas. Estarei no saguão às vinte horas em ponto. – Vá embora, me deixe sozinha, por favor! Preciso me recompor, não posso me mostrar fraca diante de você! – Gabrielle estava realmente perturbada com a presença de Kamus e pelo visto ele havia percebido. Kamus se levantou e sem dizer uma palavra a deixou, sozinha, imersa em sua agonia.
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Chicago,
refúgio do Príncipe e do Seneschal, localização desconhecida.
- O ghoul de Kamus reservou uma mesa para dois na Elite. Tudo indica que ele vai oficializar o "noivado" com a Condessa. – Kannon falou enquanto passava a agenda da noite com Saga.
- Creio que você tenha providenciado uma reserva para nós bem ao lado deles, não? – A voz de Saga mostrava uma ausência de interesse. Parecia estar preocupado com outra coisa.
- Mas é claro. – Kannon sorriu. – Eu não perderia isso por nada. - Kannon queria mesmo era estudar sua rival no club. E talvez, quem sabe... Acrescentar pontos por sua uma nova conquista? – Acho que vou me divertir mais com a Condessa do que com Verônica, aquela teimosa!
- Providenciou também para que alguns membros importantes estejam perto quando Kamus e a Condessa chegarem, não? – Saga continuava distante, imerso em seus pensamentos.
- Suas perguntas merecem respostas obvias Saga. Tudo está preparado para que os dois pombinhos sejam vistos juntos e que isso seja muito comentado em Chicago. – Kannon realmente não conseguia disfarçar o divertimento que sentia em ver Kamus numa situação tão embaraçosa e o que significava essa ausência de Saga?
- Você está se divertindo com tudo isso, não? – Saga conhecia bem o irmão. Mas mesmo assim Kannon ainda era um mistério para ele, ainda conseguia surpreende-lo fosse para o bem ou para o mal.
- Mas é claro! Kamus vai precisar de muito jogo de cintura pra sair dessa. E até lá se tornará mais dependente de nós. – Espero que Saga não perceba meu interesse na neófita. Bom, ele não percebeu sobre a Verônica até hoje... Então... Nem vai se tocar de que desejo ter um affair com a noivinha de Kamus. Eu vou dobrar aquela neófitazinha!
- Isso é verdade, meu irmão. Quero que agende uma reunião de emergência com o Conselho Primogênito para o momento mais breve que as agendas de seus integrantes permitirem. – Verônica... Vou fazer de tudo para te proteger, nem que eu tenha que morrer para que você viva...
- Como? – Kannon parecia não acreditar no que ouvia.
- Isso mesmo, Kannon. Temos assuntos de segurança para tratar. O Sabbat pretende atacar Chicago, precisamos estar preparados. – Agora sim, Kannon havia entendido o por quê da ausência do irmão. Era isso que realmente o preocupava. Realmente, era mais importante do que a imagem de Kamus e do Clã Ventrue.
- E você não me fala nada a respeito? Uma guerra à vista e você não me fala nada? – Kannon se sentia traído e agora, preocupado. O assunto quase o fizera esquecer de suas intenções nenhum pouco nobres com Gabrielle.
- E que tempo tive em falar contigo ontem? Não se faça de traído, Kannon! Os Nosferatu confirmaram pequenas incursões de bandos no território anarquista e Aioros veio ter comigo ontem para falarmos a respeito...
E os dois começaram um longo e cansativo debate sobre estratégias de defesa contra o inimigo que estava por vir. Antes de serem políticos, eram guerreiros, líderes em batalhas. Mas os tempos eram diferentes, havia a Máscara para se preocuparem, e o Sabbat não respeitava a Máscara. Um combate entre as duas seitas poderia revelar à humanidade a existência dos vampiros e isso eles não podiam permitir.
Durante a Idade Média, houve uma perseguição maciça levantada pela humanidade sobre criaturas sobrenaturais como eles, os Vampiros. Quase foram exterminados, pois apesar de mais fracos, os humanos representavam (e ainda representam) uma gigantesca maioria. Em questão de alguns anos de perseguição os humanos conseguiram reduzir assustadoramente o número de vampiros na Europa.
Desesperados, os vampiros não tiveram outra opção a não ser se esconderem dos olhos humanos. Foi então que os Ventrue tiveram a idéia de criarem a Camarilla e suas leis. Sete dos treze clãs aderiram à causa da sobrevivência. Dois deles repudiaram a recém criada Camarilla. Não desejavam se submeter à Gehenna e uma forma de controle tão rígida quanto a Camarilla, para eles os vampiros não deveriam se esconder dos mortais, afinal de contas os mortais eram como o gado, seu alimento, nada mais do que isso. Estes dois clãs eram os Tzmisce e Lasombra. Quatro clãs não tomaram partido nem da Camarilla, nem do Sabbat, continuando a viver como estava acostumados: na penumbra.
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Chicago, Clube Masquerade, Porão.
A nota mental para não esquecer de comprar as latinhas de cerveja funcionara. Marin estava descarregando sozinha sua caminhonete carregada de caixas de cerveja. Cervejas baratas, diga-se de passagem, afinal de contas, o público do Porão não bebia pela qualidade e sim pela quantidade. Mais tarde naquela mesma noite, finalmente iria colocar aquele lugar pra funcionar, apesar do cansaço físico estava muito animada. Colocara os "meninos" do Rage pra tocar e tudo indicava que a reabertura do Porão seria um sucesso absoluto.
Enquanto ela levantava mais algumas caixas de cerveja ouviu aquela já não tão desconhecida voz.
- Quer ajuda? – Aioria. Assim que se virou quase deixou as caixas caírem ao vê-lo. Estava mais bonito do que nas noites anteriores, usava uma calça de couro justa que realçava (e muito!) os músculos de suas pernas, um coturno surrado nos pés e uma camisa (camisa?) branca com alguns botões abertos exibiam um peitoral difícil de ser descrito com palavras. Seus cabelos estavam levemente molhados e os olhos brilhavam naquele tom verde surreal.
Não dê bandeira, Marin. Ele é um vampiro e só quer o seu sangue! – Não estou em condições de negar ajuda. – Ela sorriu, meio sem graça e apontou pras caixas de cerveja. – Pegue quantas conseguir carregar, tenho que colocar tudo isso no gelo ainda.
- Deixa comigo! Só vim aqui pra te dar uma força, fique tranqüila, pois não quero seu sangue. Desculpe se a assustei. – Ele pegou o máximo de caixas que conseguiria carregar, não pelo peso que era ridículo diante de sua força sobrenatural, mas pelo volume que era grande.
- Obrigada, senhor vampiro. - Ela saiu andando com suas três caixinhas nas mãos. – Mas depois que você deixar as caixas lá dentro, pode ir embora, se quiser voltar no Porão quando abrir, tudo bem. Mas antes, sem chance! Vai ter que pagar ingresso pra entrar como todo mundo! – Falou em tom levemente amigável.
- Tudo bem, a senhora que manda, Dona Humana. – Um avanço pelo menos! Ela aceitou a minha ajuda! Eu sabia que deveria ter me arrumado mais ontem, pelo menos por enquanto ela não me mandou embora.
Mais duas viagens da caminhonete até o bar do Porão e as cervejas estavam quase em seu devido lugar. Marin, exausta olhou o relógio, Doug estava quase uma hora atrasado e em menos de três horas o Porão estaria aberto. E ela tinha que guardar toda a cerveja, arrumar o equipamento de som, (que naquele momento estava distribuindo panfletos pra lotar mesmo o lugar), montar a bateria, preparar as fichas pra colocar no caixa... E mais um monte de coisas pequenas. Tentou falar com Doug umas cinco vezes no celular. Caixa postal. Ela realmente queria comer o fígado daquele punk sem vergonha. Aioria só observava, ela ainda não o mandara embora.
- Problemas, Dona Humana? – Falou com um leve tom de preocupação.
- Sim, além de você ser um problema, mais um problema pra mim. Acho que tomei um chapéu daquele punk maldito. Ele não atende o celular. A oferta de ajuda era séria ou você só estava me cantando?
- Sim, eu estava te cantando, mas o oferta de ajuda era e ainda é séria. – Escolhe bem as palavras, Aioria. Se não ela chuta o seu traseiro!
- Era isso que eu queria ouvir. Quero dizer ouvir sobre a ajuda. A cantada eu dispenso. – Ela falou enquanto deixava o cansaço tomar conta do seu corpo.
- Não faço seu tipo? – Aioria você não deveria ter falado isso. – Desculpe, só estava brincando. O que você quer que eu faça? – Como ela é bonita... Mas está tão... Tão cansada... Dá pra ver isso no rosto dela, eu poderia dar só um pouco do meu sangue pra ela... E ela agüentaria a noite numa boa... Mas... Ela não vai aceitar... Ela nem concorda com a minha presença aqui... Se eu falar isso pra ela, pronto, ai sim ela me chuta daqui de vez!
Até faz o meu tipo, mas você é um vampiro. Vampiros são eternos, humanos morrem. Vampiros não tem amor nem respeito com a vida, você se mostra todo bom moço, mas no fundo é igual a todos eles! – Pensou, enquanto percebia que Aioria a examinava com cautela. Deveria estar horrível, estava acordada há muito tempo, não parara praticamente nenhum minuto nas últimas vinte e quatro horas.
Apesar de empolgada com a inauguração agora o cansaço estava pegando forte em seu corpo. Precisava mesmo de alguma coisa pra ficar ligada, tinha que recorrer a alguma droga pra agüentar o tranco, a noite seria longa. Só em situações como essa pra Marin pensar em usar alguma química pesada.
- Tira as cervejas das caixas, pega o gelo no freezer lá do fundo e coloca as cervejas pra gelarem ali. – Apontou para um outro freezer – Coloca o gelo por que essas porcarias não congelam direito e eu me recuso a servir cerveja quente! – Ela saiu cambaleando rumo à mesa de som pra acertar os tons de graves e agudos, felizmente tinha muita prática nisso.
Ela num ta bem. O que é que eu faço? Ofereço meu sangue? Drogas? Ela num me parece ser do tipo que usa heroína ou cocaína... Drogas, eu sou mesmo um idiota! Ela vai me chamar de traficante e dizer que era por isso que eu tava querendo me aproximar dela... Bom, vou guardar essas cervejas rapidinho e vou oferecer meu sangue pra ela, acho que é menos mal do que oferecer heroína ou cocaína... – Tolo e ingênuo Aioria para assuntos relacionados a mulheres. Melhor dizendo, para assuntos que agora balançavam seu coração.
Ele tivera muitas mulheres em sua existência mortais e vampiras, mas... Seu interesse não era nada muito além de uma relação casual, pois seu apetite sexual era um tanto quanto anormal. Nunca quisera criar nenhum laço duradouro com suas parceiras. Era somente o sexo e a vitae que lhe interessava.
Em se tratando de um vampiro, Aioria era mesmo uma anomalia, quase comparável aos Toreador que eram absolutamente intensos em tudo o que faziam; procurando ao máximo se manterem próximos aos mortais e agirem como se fossem ainda mortais. Geralmente os vampiros perdiam o interesse pelo sexo, pois sentir o gosto do sangue humano era infinitamente mais prazeroso do que o ato sexual "humano" em si, de certo modo poderia se dizer que, se um vampiro ainda se interessa por sexo, possui grandes resquícios de que um dia foi humano.
Alguns encaravam isso como uma fraqueza e não admitiam publicamente essa faceta, principalmente os clãs mais conservadores como os Ventrue: ser humano, ter sentimentos e sucumbir a algo tão instintivo definitivamente era uma fraqueza e eles nunca a admitiriam em público.
Com muito cuidado Aioria usou seus dons sobrenaturais para terminar a tarefa que Marin lhe passara. Não desviou o olhar dela nem por um segundo, ela estava realmente com dificuldades de se manter acordada. Finalmente criou coragem e foi até a cabine de som diretamente oposta ao bar, mas do outro lado da pista de dança.
- Marin? – Perguntou hesitante.
- Já terminou? – Ela parecia surpresa.
- Já.
- Você está me enrolando. – Ela saiu da cabine, cruzou a pista de dança, entrou no bar e conferiu que tudo estava no lugar, impecavelmente arrumado. – Não acredito! Você é realmente impressionante, senhor Vampiro. Obrigada!
- Como disse antes, estou aqui só pra te ajudar. Você não está bem, precisa acordar. Eu tenho algo que pode te ajudar. Sei que você não confia em mim, mas pelo menos agora, tente acreditar.
- Depois dessa arrumação no bar, você merece um crédito. Veja bem, eu disse um, apenas um crédito. – Ela estendeu a palma aberta já esperando o que ele lhe daria. Cocaína? Heroína? Esse vampiro era realmente um vampiro e como muitos Brujah, devia ser um traficante de drogas. Fosse o que fosse ela estava realmente precisando.
- Não é nada disso que você está precisando. Isso vai te fazer muito mal, o que eu tenho pra dar é melhor. – Ele segurou com muita delicadeza a mão dela e puxou-a na direção do seu corpo, ela se assustou e resistiu ante a aproximação inesperada de Aioria.
Aioria já esperava por isso, não permitiu que Marin reagisse ainda mais. Mordeu a própria língua com força para que sangrasse, sem pensar duas vezes tocou de leve os lábios dela deixando seu sangue espalhar-se.
O gosto e o cheiro do sangue do vampiro: doce, inebriante, energético. Marin nunca havia provado algo tão... Diferente, tão... Maravilhoso. Não queria resistir mais, queria mesmo era mais daquele líquido quente e vermelho, era tão delicioso, tão renovador! Não era mais Aioria que segurava Marin e sim ela que se agarrava a ele, beijando-o com sofreguidão para conseguir mais e mais daquela vitae vampírica.
Embora estivesse adorando aquele contato, Aioria procurou manter sua mente raciocinando para não sucumbir ao prazer que a busca por mais vitae de Marin estava causando em seu corpo. Chegara o momento de parar, caso contrário chegaria ao ponto onde não mais haveria retorno, ao menos para ele. Virou o rosto interrompendo a continuidade do beijo, o que, claramente frustrou Marin, ela estava sob o efeito da vitae de Aioria. Em segunda ele se desvencilhou do abraço dela. Ficou de costas, não conseguia encará-la. Seu desejo estava em níveis quase não controláveis.
- Por que você parou? – Ela perguntou enquanto o abraçava por trás e tocava de modo provocante o tórax dele.
- Eu não quero que seja assim. – Simulou uma respiração profunda. – Só fiz isso para te dar meu sangue para você ficar bem. O sangue vampírico pode revigorar um mortal e até mesmo curar suas feridas. Antes que você pense que estou te manipulando, acho que nem os seus amigos sabem que parar se fazer um ghoul vampírico é necessário que se beba três vezes consecutivas em noites distintas o sangue. – Mais uma vez simulou uma respiração. - Para manter esse ghoul é necessário dar ao menos uma vez por mês do seu próprio sangue a ele. Pode ficar tranqüila que eu não a transformei em uma ghoul, é preciso muito sangue e tempo para isso.
- Não estou falando disso, Aioria. Estou falando disso! – Ele sentiu a mão dela sobre sua calça.
- Essa é a sua noite, não a nossa noite. Você merece muito mais do que somente isso. – Autocontrole, Aioria, autocontrole. Imposto de renda. Trânsito. Celular fora de área. Cartão de crédito estourado... Controle-se homem! – Ele repetia para si mesmo como um mantra para se acalmar. – Marin, por favor... Me solte, não quero ser grosseiro... Ahhh tire a mão daí... Por favor... - Imposto de renda. Trânsito. Celular fora de área. Cartão de crédito estourado... Controle-se homem! Ai meu pai, ela tá me provocando, essa mão... Ela está... Hummm... Mexendo... Como é bom... Imposto de renda. Trânsito. Celular fora de área. Cartão de crédito estourado... Controle-se homem!
- Você quer isso tanto quanto eu quero! Não somos crianças. – Ela se sentia estranha em falar a palavra criança para um vampiro, ainda mais tão velho como diziam ser Aioria. Não tinha como negar, tinha gostado do sangue e do beijo dele. Queria muito aquele corpo sem nenhuma peça de roupa para atrapalhar, claro. Seria muita hipocrisia de sua parte negar que sentia uma atração desproporcional por ele desde que o conhecera na arena Brujah, mas ele ainda era um vampiro... Mesmo assim, naquele momento ela estava tentada a não considerar que se sentia atraída por aquele vampiro.
- Não quero que seja assim, Marin. – Lutando contra seus instintos ele se afastou daquele corpo quente e humano que clamava por ele. – Eu preferiria lutar contra os persas por dias e dias a fio, sem comida, sem água, sem dormir... Seria bem mais fácil do que fazer o que eu tô fazendo agora. – Desculpe... Mas eu não quero você por uma noite ou pra uma aventura, eu quero mais. – E caminhou, deixando-a absolutamente irritada, sem conseguir encará-la.
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Chicago, limusine em movimento pela cidade.
- Quanto tempo para chegarmos? – Gabrielle perguntou sem desviar os olhos do laptop que abrira para trabalhar dentro da limusine. A sua frente Kamus executava o mesmo gesto. O tempo era realmente precioso para os Ventrue.
- Aproximadamente vinte minutos, considerando o trânsito neste começo de noite.
- E aonde vamos, afinal?
- Você saberá quando chegarmos. – E ele mergulhou em seu trabalho ignorando a existência da mulher a sua frente. Ela fez o mesmo que ele, mas dentro de si estava inquieta. Será que ele iria matá-la? Certamente era por isso que não falara para onde a levava.
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Chicago, Villa del Vecchio, bairro residencial às margens do Lago Michigan.
- Chegamos. – Kamus falou enquanto fechava o laptop.
- Que lugar é este? – Gabrielle achou ter reconhecido a região... Parecia que estavam próximos a mansão Oresund de Afrodite.
- Vamos entrar. – Kamus baixou o vidro que os separa do motorista e ordenou que adentrassem um imenso portão. Gabrielle estava apreensiva. Ele ia mesmo matá-la. Mas tudo isso só por que ela havia se encontrado com Milo no shopping?
A limusine parou. O motorista abriu a porta, Kamus desceu e estendeu a mão para ajudá-la a sair do veículo. Estavam em uma propriedade imensa, de altíssimo nível.
- Seja bem vinda a Villa del Vecchio, Condessa. – Kamus falou em tom gentil. Tom gentil? Ele não se esforçava para ser agradável geralmente. – Por favor, me acompanhe. – Estendeu o braço a ela. Subiram uma grande escadaria em mármore. Um mordomo veio cumprimentá-los e gentilmente abriu uma das gigantescas portas talhadas no mais nobre carvalho.
- O que é... Isso tudo? – Gabrielle olhava ao seu redor tentando entender o que estava acontecendo. No imenso hall de entrada, flores. Muitas flores. Pétalas de rosas brancas e vermelhas cobriam o chão e ao redor, em todo ambiente flores dos mais variados tipos exalavam odores inebriantes.
- É para você, Gabrielle. – Kamus falou enquanto estudava a reação dela.
- Não estou entendendo... Para mim? Todas estas flores? – Se afastou dele enquanto se dedicava a estudar a arquitetura do local, típica das vilas italianas que lhe eram muito familiares.
- As flores, a propriedade e tudo mais que se encontra nela é seu. Inclusive meu respeito, dedicação e se alguma noite você quiser e pudermos... Meu amor. – Foi realmente difícil falar a ultima palavra "amor". Danielle. Aqueles olhos azuis do Toreador... Danielle... Mas ela estava morta e o Toreador devia morrer também pelas suas próprias mãos. O mínimo que ele podia fazer era torturar Milo como ele torturava os Garou. Kamus finalmente acreditava estar tomando a decisão correta: recomeçar.
- Kamus, você está bem? Por que faz isso? – Ela não conseguia esconder a surpresa. Definitivamente aquele ancião estava em crise.
- Por que quero me dar uma chance de ser feliz novamente com alguém, Gabrielle. Vivi praticamente toda minha existência movido pelo sentimento de vingança, quero mudar isso e conto com sua jovialidade para me ajudar a recuperar o que perdi. – Eu sei que você não se lembra, mas me perdoe por ontem, eu agi pior do que o mais sujo dos meus inimigos, eu não deveria ter feito o que fiz... Tenho que me retratar com você de alguma forma. – Os pensamentos de Kamus eram confusos, definitivamente ele estava confuso, mas como um bom Ventrue acreditava ter tomado a decisão mais correta e sensata.
- Bem, isso é algo que realmente não esperava. Você não precisa fazer tudo isso por que iremos nos tornar consortes, Kamus. – Agora era Gabrielle que sentia a consciência pesada. Afinal de contas ela criara aquela situação.
- Não é por toda a conveniência que nos cerca que faço isso. Faço por mim, por Danielle. Creio que seja a hora de deixar o espírito de minha esposa descansar em paz. Creio que seja hora de superar que perdi minha esposa grávida e meus três filhos, hora de recomeçar e recuperar parte da pessoa que um dia fui. Sinto que é hora de mudar e você é tão jovem, tão viva... Parece ser tão feliz mesmo vivendo como uma vampira. Parece não ter ódio, nem rancor no coração. Quero reaprender. Quero ser humano novamente, ou melhor, o mais próximo disso que puder chegar, creio que você por ser tão jovem está mais próxima de ser humana do que eu. Preciso acalmar a minha Besta, se não... Irei sucumbir a ela.
- Kamus... Eu... Eu não sabia... – Agora tudo fazia sentido. O beijo que Milo dera em Kamus havia realmente mexido com o passado do Duque, ele havia amado a esposa e de alguma forma Gabrielle fizera Milo tocar em algo que ele considerava muito precioso. Agora entendia que o ódio de Kamus não era somente devido a sua honra ter sido ferida, mas ao fato de que algo muito bem guardado fora despertado. A julgar pela idade de Kamus, tomar uma decisão que mostrasse sentimentos tão íntimos deveria ter sido muito difícil.
- Com exceção de alguns anciões, ninguém sabe o que aconteceu com minha família. Eu amava Danielle do fundo de minha alma, ela me deu três lindas crianças e ao ser assassinada estava grávida... – Kamus sentiu a voz falhar. – Eu não toco neste assunto há muito tempo... Não deseja conhecer sua propriedade nova? Enquanto caminhamos vou contar-lhe o que aconteceu.
Sem questionar, ela aceitou o braço que ele lhe oferecia. Enquanto caminhavam Gabrielle sentia-se cada vez mais tocada pela trágica história do Duque. Kamus falava de modo pausado, não encobrindo a dor que lhe tomava o coração ao falar dos filhos: os pequenos Isaac e Jacó, mas a voz falhou ao contar sobre Ester, sua pequena princesa. Seu olhar transbordava uma tristeza contagiante.
- Agora você entende por que desejo recomeçar, Gabrielle?
- Sim, eu entendo e farei o possível para ajudá-lo. Seu coração sempre pertencerá a Danielle, isso é um fato, Kamus. E como sua consorte, serei sua melhor amiga, creio que isso será o melhor para nós... – Estranho usar a palavra "nós" ao se referir ao Duque. – Pelo menos você percebeu que o caminho que seguia era auto destrutivo. Ter sobrevivido tanto tempo nele é o que mais me surpreende.
- É estranho dizer isso... Mas sinto-me mais aliviado por ter tocado neste assunto. Não se tem espaço para diálogos voltados aos sentimentos em nosso clã. Você é realmente diferente entre todos os Ventrue que conheci, não mude. Não se torne como eu.
Ela sorriu tristemente. Sentaram-se num banco no bem cuidado jardim nas margens do lago Michigan. – Eu também tenho uma história, Kamus. Mas hoje a sua história é mais importante que a minha. – Ele pensa que eu não tenho meus problemas... Sinto tanta vergonha do meu passado...
- Vamos escrever a nossa história a partir de hoje, Gabrielle. – Ele revirou o bolso do casaco a procura de algo. Pegou uma pequena caixa em veludo negro e virou-se para ela. – Você deseja ser minha consorte, Gabrielle?
Ela podia ver que ele estava realmente se esforçando para fazer aquilo. Kamus queria realmente começar uma vida nova, mas... Gabrielle sentia que essa vida que ele procurava não seria com ela. Talvez ela tivesse de fato algum envolvimento com parte daquele processo de mudança, mas se aceitar realmente (e não apenas convenientemente) ser consorte de Kamus era parte do que estava por vir, deveria realmente considerar que esse era o caminho certo a seguir.
- Eu aceito. Honestamente aceito, Kamus.
Ele pegou a mão direita dela e colocou o anel. – Escolhi uma esmeralda por que são como os seus olhos, espero que não tenha apenas predileção por diamantes.
- Você não poderia ser mais gentil, obrigada. Eu realmente gostei da sua escolha.
- Gabrielle, posso... Beijar-te?
- Como? Bem, claro. – Por essa ela também não esperava. Não podia negar que ele era atraente e bonito e... Bem, era apenas um beijo e beijar não era algo bom? Algo humano?
Muito cuidadoso Kamus aproximou o rosto. Com precisão quase matemática estudava a forma mais adequada de beijar aquela boca, afinal de contas, com exceção do beijo que recebera no combate com Milo e o beijo roubado sem o consentimento da Condessa... Foram suas desastrosas experiências depois de muito, muito tempo. Agora ele tinha que fazer as coisas do jeito certo e tentar ser o mais próximo de um ser humano novamente.
Ainda meio perdido seus lábios finalmente se tocaram e se exploraram, ele a envolveu pela cintura e gradativamente aquilo que começou timidamente ganhou força. Começaram a trocar um beijo provocativo, intenso suas línguas se tocavam com avidez e desejo. Kamus interrompeu o beijo, dedicando-se a explorar com suas presas (agora expostas) a pele macia do pescoço da loira arrancando gemidos de prazer dela. – Gabrielle... Podemos ir... Para um local mais aconchegante?
- Falando assim... Claro que podemos... – Nesta altura do campeonato eu vou aonde você quiser... Mas será que você quer mesmo fazer isso?
- Sim, eu quero. Agora eu realmente preciso fazer isso. – Eles se levantaram e caminharam rumo à mansão, parando vez ou outra para se beijarem e sentirem a adrenalina daquele momento tomar conta de seus corpos. Entraram no primeiro quarto que encontraram e apressadamente despiram um ao outro e mais uma vez um beijo fogoso se iniciou.
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Chicago, Clube Masquerade, Elite.
A Elite estava fervilhando naquela noite. Verônica olhava com prazer a imensa quantidade de vampiros bem vestidos que circulavam pelo andar mais caro de seu precioso Club. Naquela noite em especial Saga e Kannon optaram por uma mesa na Elite e não a sala Vip, algo especial certamente aconteceria.
Checou as reservas e não foi difícil deduzir o que era. Havia uma reserva em nome de Kamus para duas pessoas e uma série de exigências típicas de um Ventrue na posição dele. Havia também uma reserva para Afrodite e Pandora, outra em nome de Sorento e Mime e uma terceira em nome dos Malkavianos Shaka e Mu. Muitos vampiros respeitáveis próximos um dos outros. A surpresa realmente foi... Uma reserva em nome de Aioria e Ikki? Isso era realmente estranho. O irmão de Ikki iria tocar no porão e Aioria estava interessado na humana contratada para cuidar do lugar. Eles não deveriam ir à reabertura do Porão?
Por volta das dez da noite, as mesas reservadas começaram a ser ocupadas. Primeiro, Shaka e Um, depois Afrodite e Pandora, Saga e Kannon e por fim Aioria e Ikki que estavam anormalmente bem vestidos. Definitivamente estavam tramando alguma coisa.
Enquanto ela divagava a respeito das intenções dos visitantes da noite, um burburinho formou-se na Elite: Kamus finalmente chegara ao local junto da Condessa. Estavam atrasados. Muito estranho. Ventrue não costumavam se atrasar, já eram quase onze horas da noite a entrada dos dois não passou em nada despercebida, pareciam muito satisfeitos um com a presença do outro e na mão direita Verônica viu um belo anel de noivado que combinava com os olhos da Condessa. – Kamus realmente sabe das coisas. – Murmurou enquanto acompanhava a movimentação nos vídeos de segurança. - Até que formam um casal bonito e bem vestido. – Verônica concentrou a atenção na mesa dos Toreador que comentavam sobre os trajes usados pelo casal.
- Eu tenho certeza de que o Duque está usando terno Salvatore Ferragamo, a camisa e gravata são Giorgio Armani, gostei da cor... Reparou naquele broche e nas abotoaduras Gracie & Pricci? – Falava Afrodite para sua acompanhante que assim como ele não tirara os olhos dos dois. – Nem parece que ele se lembra de que Milo o derrotou na arena dos Brujah. Esses Ventrue são tão... Arrogantes.
- Não acha um tanto quanto ousado ela usar um vestido neo-barroco de Christian Lacroix? – Falou Pandora. – Eu conheço aquele sapato! É um Louboutin! Eu reconheceria aquele salto tão fino, tão pontudo em qualquer lugar é um dos meus preferidos!
- Pelo visto a Condessa já te agradou, não é, minha querida?
- As roupas e os sapatos dela, sem dúvida me agradam. Mas acho os Ventrue muito distantes para algo mais me agradar.
- Ela é harpia como você, Pandora. E acredite, está bem mais próxima do nosso estilo de vida, do que dos Ventrue. Eu só não entendo por que ela não me contou sobre esse affair secreto com o Duque.
- Affair com o Duque? Será que identifiquei que você não gostou muito disso? Quero detalhes! – E Afrodite começou a contar a sua versão da história para a atenta harpia alemã. Obviamente omitindo os detalhe que lhe comprometiam junto a Condessa e seu plano de transformar Milo em seu sucessor. Ele precisava conquistar a simpatia de Pandora para ampliar a fama do seu pupilo. Nem que para isso ele tivesse que aumentar algumas coisas e diminuir outras.
Um pouco mais adiante, Mu e Shaka pareciam estar em outra galáxia, mas intimamente estavam atentos aos movimentos dos dois que acabavam de chegar. Não falavam, mas trocavam suas impressões telepaticamente. Verônica quase desistira em estudar as reações deles. Os Malkavianos eram indecifráveis e loucos demais para que ela os compreendesse.
- Kamus me parece bem. A aura dele está diferente. É como se tivesse recobrado um pouco de humanidade.
- Também percebi isso. Isso é bom, pois ele estava muito próximo de sucumbir a Besta, Shaka, você percebeu uma memória apagada na aura da Condessa?
- Agora consegui ver, Mu. Quem será que fez isso com ela? Isso não estava lá da última vez que a examinamos metafisicamente na arena Brujah. Tente sondar com quais vampiros ela esteve nas últimas noites, precisamos estar atentos aos movimentos da Jihad dos Ventrue.
- Mudando de assunto, Shaka você reparou que Saga está apreensivo? Estou vendo uma preocupação muito grande ao redor dele e não tem nada a ver com o Kamus embora ele não esteja tirando os olhos dos dois.
- Sim, eu vi! Por outro lado... Kannon está ignorando a presença de Kamus e concentrado toda sua atenção nela. Ele está admirado com ela, estou vendo que ele está apaixonado, mas... Existe uma ignorância ao redor dele, ele ainda não percebeu isso. Acho que vamos ter conflito entre os Ventrue, Mu.
- Kannon não presta Shaka. Vive na sombra do irmão e isso o frustra, por mais poder que ele tenha em mãos, ele quer mesmo é tomar o lugar de Saga e tudo o que for importante para o seu gêmeo. Estranho ver um sentimento tão humano naquela alma quase perdida.
- Talvez ele ainda tenha salvação, Mu.
- Shaka, eu não estou gostando daquela mulher de preto que está com Afrodite. Ela tem uma proteção mística que me impede de ler sua aura. Ela é a maior harpia da Alemanha, certamente está aqui para a reunião do Conselho Mundial das Harpias, mas acredito que esse não é o único objetivo dela.
- Mu... Eu também não consigo ver a alma dela. A barreira negra é muito forte. Existe feitiçaria pesada a envolvê-la. Não conheço muitos vampiros que entendam de magia, e neste caso é magia negra! Definitivamente temos um problema.
- Sim, temos realmente um problema. Ikki não está nem prestando atenção em você, Shaka. Nem no casal de Ventrue. Ele está olhando somente para a mulher de negro.
Verônica dirigiu a câmera de segurança finalmente para seu alvo preferido: os gêmeos. Saga parecia satisfeito com a entrada triunfal do casal Ventrue e Kannon se limitava em encarar um pouco mais a noiva de Kamus. Era realmente um safado, mas ela adorava aquele gênio incontrolável de Kannon e toda aquela pose de lorde.
Ikki e Aioria pareciam mais interessados em discutir a respeito da acompanhante de Afrodite, embora estivessem tecendo muitos elogios a noiva de Kamus.
- Kamus realmente é um cara de sorte. Além de bonita ela sabe bater muito bem.
- Melhor você respeitar a noiva do almofadinha, Ikki. Só não entendo por que nenhum dos dois mencionou esse noivado antes. Esses Ventrue são frescos demais pro meu gosto. É bem possível que ele tenha ido a arena quando ficou sabendo que ela estava lá. Agora estou entendendo por que ele se atracou com o Milo. Deve ter ficado enciumado quando viu que o Milo tava passando cantada na garota. Pelo menos é isso que todos estão comentando. Mas quem venceu foi o Milo e ninguém pode tirar esse mérito do nosso Toreca.
- Alias, onde é que tá o Milo? Ele não ia vir conosco hoje?
- Aquele safado me ligou. Pela voz dele devia estar aprontando alguma com alguma mulher por aí. Ele pensa que me engana, mas, eu sei que ele é safado e pervertido como todos os outros Toreador. – Aioria riu. Ele realmente gostava de Milo, ao menos ele tinha senso de humor.
- Aioria, como é que você pode afirmar isso?
- Pela voz dele. Eu sei quando um homem quer disfarçar quando tem uma mulher por perto. Eu só queria saber quem é que teve que agüentar aquele moleque!
- Será que não é uma Toreador?
- É bem possível que seja. Milo deve ter feito as pazes com o clã depois de socar, quero dizer beijar o Kamus. – Aioria queria muito rir descontroladamente – Mas também pode ser UM Toreador. Num esquece que esses Torecas são muito liberais.
- Eles são mesmo. Quero distância dos Toreador assim como dos Malkavianos.
- Se você quer distancia dos Toreador, por que não tira os olhos daquela mulher que está com o Afrodite?
- Oras, só estou olhando pra ela por que é bonita. Olhei pra ela como olhei pra todas as mulheres bonitas que estão aqui!
- Ikki, você é mesmo um mentiroso. E o pior, mente muito mal! – Agora Aioria ria sem se conter.
A conversa dos Brujah não estava tão interessante para Verônica quanto estaria a do casal que acabara de ocupar sua mesa, cumprimentam educadamente com um gesto de cabeça aos conhecidos. Era hora de parar de observar e participar da cena. Hora de descer e cumprimentar os visitantes e dar a devida atenção ao casal que Saga formara para manter a imagem conservadora daquele clã.
Seguiu a ordem de status: primeiro cumprimentou o Príncipe e o Seneschal da maneira mais formal e respeitosa possível. E eles retribuíram com aquela fria distância que mantinham em público.
Seguiu para a mesa de Shaka e Mu, depois Afrodite e Pandora. Conversou trivialidades com todos eles, atendo-se mais ao casal Ventrue. Todos concordavam que formavam um belo par e o qual raro era ver uma união entre os Ventrue.
Finalmente foi ter com o casal que a recebeu com o modo tipicamente Ventrue: educada e friamente. Verônica usou ao máximo sua habilidade diplomática para engolir aqueles dois chatos. Estava fazendo isso pelo plano de Saga, só por isso. Educadamente ela se retirou da mesa dos dois e finalmente foi ter com Aioria e Ikki, deixou-os por último por que não se dava nenhum pouco bem com Aioria. Chegou sorrindo na mesa deles e pode perceber fechou sua expressão ante a presença dela.
- Aioria! Ikki! Pensei que vocês fossem participar da reabertura do Porão! A que devo a honra de terem trocado esse evento por um jantar na Elite?
- Sente-se, Verônica. Temos algo a conversar. – Aioria fora curto, mas educado. – Não precisa me tratar com esmero como faz com os outros, acredito que já te conheço a tempo o suficiente para deixarmos essas frescuras de lado. Dedique toda essa etiqueta a quem realmente gosta dela.
- Tudo bem, Aioria. – Ela ainda sorria ao sentar-se. – Certamente está assim por que seu irmão veio me visitar ontem, não é?
- Sim, Verônica. É por causa do meu irmão que estou aqui.
- Eu sei que você não aprova nosso relacionamento nenhum pouco convencional, Aioria. Mas Aioros e eu nos entendemos, eu como Dominadora e ele como meu submisso. Nunca deixei que soubessem o que faço com seu irmão, só deixo transparecer que eu tenho "algo" com ele, tanto que ontem nos beijamos bem ali, no bar.
- Não é o que vocês fazem que me preocupa, Verônica e sim como o meu irmão aceita tudo isso vindo de você. O Sabbat vai atacar Chicago, Verônica.
- Aioros mencionou isso. Mas o que o meu relacionamento com ele tem a ver com isso? – Ela realmente não estava entendendo.
- Ele não te falou que esse ataque é por sua causa? Por você ter traído seu senhor quando ajudou o Saga a matá-lo? Não é só uma incursão de neófitos, estão reunindo os mais velhos e perigosos da sua família e dos Tzmisce para entrarem em Chicago e o meu irmão ta quase vendendo a alma dele pra te salvar! Tanto que ele veio fazer uma trégua com Saga por sua, causa! E você vai continuar tratando o cara que mais te ama nesse mundo como um mero submisso? Você quer que eu espalhe isso pra todo mundo ouvir, Verônica?
- Não, Aioria. Isso não é necessário – Apesar do choque interior, ela conseguira manter a compostura. Definitivamente não esperava por aquilo. Seu passado era realmente condenável e a perseguira com todas as forças.
- Então, Verônica, acho bom que você tome vergonha nessa cara e pare de tratar meu irmão apenas como seu brinquedo. O que te impede de ficar com ele? O Saga, por acaso? Você está cansada de saber que o Saga é Ventrue e você é Lasombra, NUNCAseriam aceitos juntos, nunca. Eu sei da sua brincadeira com os gêmeos, Aioros me contou. Sei das suas brincadeiras com meu irmão também. Mas será que você pode evoluir para algo mais sério? Acorda minha filha! A fila anda, sabe? E o meu irmão ta parado na tua há muito tempo. Ou você deixa o Aioros em paz e para com essa brincadeira ou então mostre alguma dignidade de caráter e dê uma chance pra ele! Meu irmão está disposto a morrer por você, Verônica, você quer uma prova de amor maior do que essa? – O mais impressionante era que apesar do conteúdo extremamente agressivo da conversa, Aioria não erguera a voz em nenhum instante.
- Verônica, eu tenho que concordar com o Aioria. Nós tivemos muito trabalho pra descobrir o que ele andava fazendo nos últimos meses. Ele negou uma aliança com o Sabbat por sua causa. Sabe por quê? Por que eles pediram a SUA cabeça e não invadiriam Chicago se você fosse entregue a eles. Sua família é bem vingativa e pelo visto é um dos seus irmãos possivelmente vai liderar o ataque.
- Não se preocupem. Eu terei uma séria conversa com Aioros. – Ela disse sem demonstrar o medo que sentia. Felizmente seus olhos sensíveis à luz estavam protegidos por um óculos escuro, afinal até a luz artificial era capaz de machucar suas retinas acostumadas com a escuridão que os Lasombra viviam. – Se me dão licença... Tenho uma casa noturna para administrar.
- Verônica, não decepcione meu irmão. – Aioria falou enquanto ela se distanciava.
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Prontinho. Depois de meses e meses sem atualizar aqui está a continuação da fic.
Engraçado... Mas eu tenho mais facilidade em escrever as parte da história referente ao Saga, Aioria e Kamus que são meus personagens preferidos...
Tive um bloqueio criativo que durou alguns meses e também completa e absoluta falta de tempo.
Tentarei postar ao menos 1 vez por mês um capítulo dessa fic. Enquanto isso:
Só escrevo o próximo capítulo se as pessoas deixarem reviews!
A.U – Universo alternativo.
Essa fic usa personagens de Saint Seiya ambientados em Vampiro, A Máscara parte do cenário do World of Darkness – Segunda Edição, publicado pela White Wolf. E obviamente nenhuma das duas obras me pertence.
Não custa repetir: Cross over entre minhas duas grandes paixões: CDZ e Vampiros. Como eu é que mando aqui e não o Kurumada ou o Justin Achilli estou tomando certas liberdades em relação aos personagens e a ambientação. Não vou seguir nenhum dos dois universos ao pé da letra, capisco?
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Capítulo X – O Caminho da Humanidade: arrependimento, prazer e ultimato.
Chicago, Mansão Oresund
- Ai meu Deus que dor de cabeça! – Ele se sentou na cama enquanto seus olhos se acostumavam com a penumbra. Dedicou-se a sentir o toque macio da seda, mas havia algo estranho... Ele não costumava dormir em lençóis de seda. Só então deduziu que não estava em seu refúgio. Estendeu o braço e sentiu o corpo curvilíneo de uma mulher... Esticou novamente o braço e sentiu o corpo de outra mulher...
Onde ele estava afinal? Eram DUAS mulheres... Uma loira e uma morena, ambas lindas! E o que aquele homem fazia dormindo abraçado a mulher de cabelos pretos? O que era isso? Quanta ingenuidade. Era óbvio que ele participara de uma festinha bem particular com aquelas duas mulheres e aquele homem. Mas quem eram eles? Levantou-se com todo o cuidado para não acordá-las. Que horas seriam? Pegou o relógio. Quase seis horas da tarde, a noite começaria a cair em breve.
Enquanto tentava se sentir culpado, o cheiro de cada um daqueles corpos lhe parecia familiar. Mas ele não se lembrava de absolutamente nada, bem, lembrava de algumas cenas desconexas da reunião no Salão das Rosas.
Lembra-se de ter batido boca com dois músicos e de ter caído nas graças de uma Toreador loira com vestido vermelho que desejara a todo custo mostrar-lhe como era a recepção das Toreador em Chicago aos novos membros. – Meu Deus, eu dormi com a archon do Justicar Toreador! – Mas ainda conseguiria se chocar mais – A morena é... A Harpia Mestre da Alemanha... E aquele homem... É o meu primogênito, Afrodite! Onde eu estava com a cabeça? Como eu vim parar aqui?
Precisava se lembrar da noite anterior, mas era como se não fosse ele que estivesse no comando do seu corpo, sentia como se estivesse assistindo apenas como espectador as lembranças que agora vinham a sua mente. Lembranças turvas e distantes que faziam seu cérebro latejar tamanho o esforço que fazia para se lembrar do que tinha acontecido.
Chegara muito atrasado a reunião e logo de cara, fora recebido por dois músicos que deveriam se chamar... Mime e Sorento. Deveriam ser estes os nomes. Eles foram agradáveis a principio, mas tudo mudou quando Milo foi recebido com os braços abertos por Afrodite que sem prepará-lo nem nada, quebrou-lhe as pernas: anunciou publicamente a todos os presentes que ele, Milo, seria seu braço direito e sucessor junto a Camarilla. Assim, simplesmente do nada!
Ninguém questionou abertamente Afrodite. Nenhum Toreador era insano o suficiente para questionar os desejos do seu caprichoso ancião. Mas, Milo realmente não estava entendendo o que acontecia e por que ele fora escolhido. Por quê? Tentou discutir com Afrodite a respeito, mas em vão.
Desde que chegara a Chicago sua vida dera uma tremenda reviravolta. Primeiro a boa recepção dos Brujah. Depois a Condessa que simplesmente aparecera do nada e com suas idéias mirabolantes fizera com que ele deixasse de ser um zero a esquerda e se tornasse alguém. Agora que era "alguém" fora aceito por seu clã com direito a orgia e como se não fosse suficiente... Conquistara uma posição de muito respeito.
Ser alguém entre os vampiros não era nada fácil. E ele já começara a listar os inimigos que fizera abertamente: Kamus, Mime, Sorento. Kamus por motivos óbvios. Mime e Sorento deram a entender que seu momento de glória não duraria muito.
Alguma coisa estava acontecendo e ele precisava entender o quê. Sentiu pela primeira vez desde que se tornara um vampiro que era uma peça num jogo de poder, alguém estava manipulando-o e ele precisava descobrir quem e por que sua ascensão tão repentina seria vantajosa.
Por mais que a Condessa parecesse ser uma vampira integra, deveria saber de algo e ele iria descobrir o quê. Precisava encontra-se com Kamus, pois segundo Aioria, o Ventrue não sossegaria enquanto não o matasse. Agora... Mime e Sorento. Eles realmente não queriam nenhuma aproximação consigo.
Milo sempre vivera como um párea e tudo aquilo era novidade. Certamente que ele possuía tendências anarquistas, mas agora se convertera de vez para a Camarilla. Ele sentia a necessidade de ter um sentido, um objetivo. Desde que chegara a Chicago a noite passada foi a primeira vez que ele perdera o controle de seu próprio corpo, de sua vontade, mas ainda assim sabia que era ele mesmo que fizera tudo aquilo.
Às vezes ele tinha a impressão de que era louco por não se lembrar de coisas simples ou pessoas com quem tivera contato. Precisava realmente se esforçar para que as lembranças fluíssem e então ele ouvia vozes. Era como se várias pessoas vivessem dentro dele, mas todas essas vozes e lembranças eram dele mesmo. Talvez fosse o momento de tentar entender exatamente o que acontecia consigo, procuraria referências na Biblioteca Central, certamente Aioros o ajudaria. Talvez fosse melhor procurar sozinho por respostas, pois ele tinha medo de que a resposta para sua pergunta fosse algo perturbador e abrir essa sua fraqueza para terceiros? Não. Não era uma boa idéia.
Precisava de uma explicação de como conseguira declamar um poema que fez a Guilda parar, deixou vários Toreador com os olhos marejados em sangue. Não era poeta, mas agira como se fosse! E que poeta! Não era fácil conseguir a aprovação de tantos Toreador. Ele finalmente fora aceito em seu clã, mas conseguiria repetir essa proeza? E se ele fosse considerado uma fraude? E se o poeta fosse ele mesmo?
Em Atenas, quando bêbado algumas vezes fora tomado por essa vontade insana de ser um poeta, agir como tal. Também vez ou outra agia e falava como se fosse uma mãe que desesperadamente tentava cuidar de seus filhos e defende-los. Muito do seu senso de justiça advinha dessa personalidade feminina que vez ou outra tomava seu corpo, mas isso acontecera poucas vezes. Outras vezes agira como um pároco medieval que caçava almas perdidas, sentia medo dessa sua faceta em particular. Era bem cruel. Mas era ele, ele mesmo, não era?
Enquanto mergulhara em seus próprios pensamentos não se deu conta de que a loira acordara e se colocara a observá-lo. Cansada de apenas olhar, ela se levantara e somente então Milo percebeu não era o único acordado ali. Tentou sorrir para ela, mas sua expressão preocupada não o ajudou muito.
- Acordou de mau humor, Milo? – Ela sussurrou com sua voz sobrenaturalmente linda enquanto o abraçava com segundas intenções.
- Não, impressão sua... – Tentou se lembrar do nome dela. -... Tétis... – Como a pele dela é macia... E essa voz é tão... Gostosa!
- Esqueceu meu nome? Vejo então que precisarei fazer algo mais para que você não mais esqueça de mim, jovem grego. – Suas palavras pareciam ser cantadas a todo instante, seu tom de voz naquele momento era absurdamente sexy e fora capaz de despertar uma série de fantasias eróticas na cabeça de Milo.
- Venha comigo... Vamos para outro quarto, quero ter um momento somente nosso, não vamos acordar Pandora e Afrodite, podemos nos divertir com eles depois... – Como essa mulher é... Linda e essa voz... Estou realmente com sorte ultimamente! – Tem algum compromisso esta noite? – Ele fez um gesto com a cabeça confirmando que sim. – Então desmarque. – E apertou ainda mais seu corpo nu contra o dele que até então só conseguira vestir sua calça.
Ela começou a puxá-lo na direção da porta, sem fazer nenhum ruído. Conseguiram com sucesso cruzar a porta, foram cautelosos em trancá-la. Finalmente o longo e silencioso corredor da mansão. – Gosto de usar aquele quarto. – E ela apontou na direção de uma porta.
O que ela queria dizer com "gosto de usar aquele quarto"? – Ela mais uma vez o puxou e sem pressa girou a maçaneta da porta do quarto indicado. – Tétis, eu acho que não posso ficar... Tenho que resolver algumas coisas... – Ele também precisava fazer algum charme, não?
Entraram no quarto e ela se encostou na porta, deixando bem claro que não o deixaria sair. Fazendo uma expressão de decepção falou sedutoramente: – Milo, você tem que resolver um problema pra mim. Só você pode fazer isso.
- Problema? – Ele perguntou representando uma expressão de confusão.
- Sim, um problema. Eu quero ter você novamente, e quero isso agora. – Ela andou na direção de Milo, deixando seu corpo muito próximo dele. – Você me ajuda? – Ela fez uma expressão de inocência quase convincente.
- Ah, mas é claro que eu te ajudo! – E os dois começaram a se beijar, um beijo intenso que logo acendeu a masculidade latente dele, precisava dar um jeito de se livrar daquela calça. Aquele contato era realmente bom e aquela mulher era fogosa demais! Milo estava com mil idéias na cabeça do que poderia fazer com ela. Naquele momento Milo não queria mais nada da vida, só se entregar aquela troca de prazer com aquela beldade sedutora. Mas repentinamente ele interrompeu o contato, tinha que ao menos dar uma explicação pra Aioria e mostrar que estava "vivo". Responsabilidades. Ele realmente odiava ser responsável.
- Só um momento, Tétis... – E apesar das investidas dela, afastou-a. – Preciso fazer uma ligação para que ninguém nos interrompa. – Onde está a droga do meu celular? – Tateou a calça em busca do famigerado aparelho. Ela sorriu ao ver a ansiedade dele em procurar o celular e se afastou, jogando-se na cama de dossel e fazendo uma pose que deixou Milo ainda mais excitado.
Vou dar um trato nessa mulher, vou sim! Caramba... Estou fazendo sexo com uma pessoa que eu nem conheço, sou um pervertido mesmo! Bom, na verdade... Eu sou Toreador... Por que gosto de me sentir culpado nessas horas? Nunca fui santo... - Meio tentando controlar a excitação na voz, discou o número do celular de Aioria que deveria estar amaldiçoando-o naquele momento.
- Aioria!? Será que você pode ficar quieto? Escuta... Aioria cala a boca e me escuta! ...Sim, eu tô bem... Não, não... Ta, Dá próxima vez eu aviso. Desculpa Aioria!... Não eu não vou encontrar contigo hoje, amanhã a gente se fala melhor, ok? Tchau... Entendeu? Eu falei tchau! – E finalmente jogou o celular em algum canto enquanto pulava na cama pra agarrar aquela verdadeira sereia, a noite seria muito longa no que dependesse dele e de sua imaginação.
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Chicago, Cobertura do Edifício Louis Joillet
Gabrielle acordou e correu em direção ao banheiro. Se fosse um ser humano teria vomitado, estava se sentindo muito mal, sua cabeça doía, sentia um vazio no peito, não entendia seus sentimentos, parecia ter vivido um pesadelo, mas não se lembrava de detalhes.
Após se acalmar, lembrou-se dos detalhes da noite anterior. Havia tido uma conversa agradável com o Duque, mas antes... Encontrara o irônico e insuportável Seneschal: Kannon. Certamente sua ânsia de vomito se devia a esse encontro. No final da noite sentiu uma dor de cabeça insuportável, despediu-se do Duque e dirigiu-se a sua suíte.
Ela ouviu um decidido bater na porta de seu quarto. Correu para o espelho para verificar sua aparência, sua túnica de linho estava levemente amassada devido ao sono perturbador que tivera. Mas apesar de tudo estava bem, o efeito era apenas psicológico.
Estava em condições de simular que realmente queria tomar um café pela manhã. Mas normalmente ela chamava os criados, eles não ousariam incomodá-la. Olhou rapidamente para o relógio, a noite cairia em breve e esperava que ao menos nessa noite não tivesse surpresas desagradáveis.
- Entre, ela falou com sua costumeira voz de liderança enquanto se deixava cair no sofá postado na ante-sala de seu leito. Os jornais lá estavam colocados e ela pegou um deles para se atualizar precisava pensar nos negócios para fugir dos problemas que ela mesma havia criado.
- Com licença. – Ela se arrepiou ao ouvir a voz do Duque. Esperaria uma bomba atômica, mas não a visita dele naquela hora, ainda mais em seus aposentos! Instintivamente verificou se seu hobbie estava realmente fechado. Medo. Sentiu muito medo de Kamus. – Por que estou sentindo tanto medo dele? Ele é frio, duro, mas não foi tomado pela Besta.
- Condessa, perdoe-me por incomodá-la tão cedo, mas gostaria de discutir alguns detalhes da sua agenda e da minha para esta noite.
- Cla...ro, Kamus. – Ela gaguejou. – Não estou conseguindo controlar minha voz! O que aconteceu comigo? Por que tenho a sensação de não lembrar-me do que deveria me lembrar?
- Seria adequado que nós jantássemos em público essa noite. Preferencialmente no Masquerade para sermos vistos. Mas antes gostaria de levá-la a outro lugar. Podemos nos encontrar no saguão principal às vinte horas? – Ele falou sem nenhuma emoção na voz. – Ela está sentindo os efeitos de ter sua mente apagada e reconstruída... Preciso me retratar quanto a isso... – Pensou ainda tomado pelo arrependimento.
- Sem problemas. Estarei no saguão às vinte horas em ponto. – Vá embora, me deixe sozinha, por favor! Preciso me recompor, não posso me mostrar fraca diante de você! – Gabrielle estava realmente perturbada com a presença de Kamus e pelo visto ele havia percebido. Kamus se levantou e sem dizer uma palavra a deixou, sozinha, imersa em sua agonia.
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Chicago, refúgio do Príncipe e do Seneschal
- O ghoul de Kamus reservou uma mesa para dois na Elite. Tudo indica que ele vai oficializar o "noivado" com a Condessa. – Kannon falou enquanto passava a agenda da noite com Saga.
- Creio que você tenha providenciado uma reserva para nós bem ao lado deles, não? – A voz de Saga mostrava uma ausência de interesse. Parecia estar preocupado com outra coisa.
- Mas é claro. – Kannon sorriu. – Eu não perderia isso por nada. - Kannon queria mesmo era estudar sua rival no club. E talvez, quem sabe... Acrescentar pontos por sua uma nova conquista? – Acho que vou me divertir mais com a Condessa do que com Verônica, aquela teimosa!
- Providenciou também para que alguns membros importantes estejam perto quando Kamus e a Condessa chegarem, não? – Saga continuava distante, imerso em seus pensamentos.
- Suas perguntas merecem respostas obvias Saga. Tudo está preparado para que os dois pombinhos sejam vistos juntos e que isso seja muito comentado em Chicago. – Kannon realmente não conseguia disfarçar o divertimento que sentia em ver Kamus numa situação tão embaraçosa e o que significava essa ausência de Saga?
- Você está se divertindo com tudo isso, não? – Saga conhecia bem o irmão. Mas mesmo assim Kannon ainda era um mistério para ele, ainda conseguia surpreende-lo fosse para o bem ou para o mal.
- Mas é claro! Kamus vai precisar de muito jogo de cintura pra sair dessa. E até lá se tornará mais dependente de nós. – Espero que Saga não perceba meu interesse na neófita. Bom, ele não percebeu sobre a Verônica até hoje... Então... Nem vai se tocar de que desejo ter um affair com a noivinha de Kamus. Eu vou dobrar aquela neófitazinha!
- Isso é verdade, meu irmão. Quero que agende uma reunião de emergência com o Conselho Primogênito para o momento mais breve que as agendas de seus integrantes permitirem. – Verônica... Vou fazer de tudo para te proteger, nem que eu tenha que morrer para que você viva...
- Como? – Kannon parecia não acreditar no que ouvia.
- Isso mesmo, Kannon. Temos assuntos de segurança para tratar. O Sabbat pretende atacar Chicago, precisamos estar preparados. – Agora sim, Kannon havia entendido o por quê da ausência do irmão. Era isso que realmente o preocupava. Realmente, era mais importante do que a imagem de Kamus e do Clã Ventrue.
- E você não me fala nada a respeito? Uma guerra à vista e você não me fala nada? – Kannon se sentia traído e agora, preocupado. O assunto quase o fizera esquecer de suas intenções nenhum pouco nobres com Gabrielle.
- E que tempo tive em falar contigo ontem? Não se faça de traído, Kannon! Os Nosferatu confirmaram pequenas incursões de bandos no território anarquista e Aioros veio ter comigo ontem para falarmos a respeito...
E os dois começaram um longo e cansativo debate sobre estratégias de defesa contra o inimigo que estava por vir. Antes de serem políticos, eram guerreiros, líderes em batalhas. Mas os tempos eram diferentes, havia a Máscara para se preocuparem, e o Sabbat não respeitava a Máscara. Um combate entre as duas seitas poderia revelar à humanidade a existência dos vampiros e isso eles não podiam permitir.
Durante a Idade Média, houve uma perseguição maciça levantada pela humanidade sobre criaturas sobrenaturais como eles, os Vampiros. Quase foram exterminados, pois apesar de mais fracos, os humanos representavam (e ainda representam) uma gigantesca maioria. Em questão de alguns anos de perseguição os humanos conseguiram reduzir assustadoramente o número de vampiros na Europa.
Desesperados, os vampiros não tiveram outra opção a não ser se esconderem dos olhos humanos. Foi então que os Ventrue tiveram a idéia de criarem a Camarilla e suas leis. Sete dos treze clãs aderiram à causa da sobrevivência. Dois deles repudiaram a recém criada Camarilla. Não desejavam se submeter à Gehenna e uma forma de controle tão rígida quanto a Camarilla, para eles os vampiros não deveriam se esconder dos mortais, afinal de contas os mortais eram como o gado, seu alimento, nada mais do que isso. Estes dois clãs eram os Tzmisce e Lasombra. Quatro clãs não tomaram partido nem da Camarilla, nem do Sabbat, continuando a viver como estava acostumados: na penumbra.
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Chicago, Clube Masquerade, Porão.
A nota mental para não esquecer de comprar as latinhas de cerveja funcionara. Marin estava descarregando sozinha sua caminhonete carregada de caixas de cerveja. Cervejas baratas, diga-se de passagem, afinal de contas, o público do Porão não bebia pela qualidade e sim pela quantidade. Mais tarde naquela mesma noite, finalmente iria colocar aquele lugar pra funcionar, apesar do cansaço físico estava muito animada. Colocara os "meninos" do Rage pra tocar e tudo indicava que a reabertura do Porão seria um sucesso absoluto.
Enquanto ela levantava mais algumas caixas de cerveja ouviu aquela já não tão desconhecida voz.
- Quer ajuda? – Aioria. Assim que se virou quase deixou as caixas caírem ao vê-lo. Estava mais bonito do que nas noites anteriores, usava uma calça de couro justa que realçava (e muito!) os músculos de suas pernas, um coturno surrado nos pés e uma camisa (camisa?) branca com alguns botões abertos exibiam um peitoral difícil de ser descrito com palavras. Seus cabelos estavam levemente molhados e os olhos brilhavam naquele tom verde surreal.
Não dê bandeira, Marin. Ele é um vampiro e só quer o seu sangue! – Não estou em condições de negar ajuda. – Ela sorriu, meio sem graça e apontou pras caixas de cerveja. – Pegue quantas conseguir carregar, tenho que colocar tudo isso no gelo ainda.
- Deixa comigo! Só vim aqui pra te dar uma força, fique tranqüila, pois não quero seu sangue. Desculpe se a assustei. – Ele pegou o máximo de caixas que conseguiria carregar, não pelo peso que era ridículo diante de sua força sobrenatural, mas pelo volume que era grande.
- Obrigada, senhor vampiro. - Ela saiu andando com suas três caixinhas nas mãos. – Mas depois que você deixar as caixas lá dentro, pode ir embora, se quiser voltar no Porão quando abrir, tudo bem. Mas antes, sem chance! Vai ter que pagar ingresso pra entrar como todo mundo! – Falou em tom levemente amigável.
- Tudo bem, a senhora que manda, Dona Humana. – Um avanço pelo menos! Ela aceitou a minha ajuda! Eu sabia que deveria ter me arrumado mais ontem, pelo menos por enquanto ela não me mandou embora.
Mais duas viagens da caminhonete até o bar do Porão e as cervejas estavam quase em seu devido lugar. Marin, exausta olhou o relógio, Doug estava quase uma hora atrasado e em menos de três horas o Porão estaria aberto. E ela tinha que guardar toda a cerveja, arrumar o equipamento de som, (que naquele momento estava distribuindo panfletos pra lotar mesmo o lugar), montar a bateria, preparar as fichas pra colocar no caixa... E mais um monte de coisas pequenas. Tentou falar com Doug umas cinco vezes no celular. Caixa postal. Ela realmente queria comer o fígado daquele punk sem vergonha. Aioria só observava, ela ainda não o mandara embora.
- Problemas, Dona Humana? – Falou com um leve tom de preocupação.
- Sim, além de você ser um problema, mais um problema pra mim. Acho que tomei um chapéu daquele punk maldito. Ele não atende o celular. A oferta de ajuda era séria ou você só estava me cantando?
- Sim, eu estava te cantando, mas o oferta de ajuda era e ainda é séria. – Escolhe bem as palavras, Aioria. Se não ela chuta o seu traseiro!
- Era isso que eu queria ouvir. Quero dizer ouvir sobre a ajuda. A cantada eu dispenso. – Ela falou enquanto deixava o cansaço tomar conta do seu corpo.
- Não faço seu tipo? – Aioria você não deveria ter falado isso. – Desculpe, só estava brincando. O que você quer que eu faça? – Como ela é bonita... Mas está tão... Tão cansada... Dá pra ver isso no rosto dela, eu poderia dar só um pouco do meu sangue pra ela... E ela agüentaria a noite numa boa... Mas... Ela não vai aceitar... Ela nem concorda com a minha presença aqui... Se eu falar isso pra ela, pronto, ai sim ela me chuta daqui de vez!
Até faz o meu tipo, mas você é um vampiro. Vampiros são eternos, humanos morrem. Vampiros não tem amor nem respeito com a vida, você se mostra todo bom moço, mas no fundo é igual a todos eles! – Pensou, enquanto percebia que Aioria a examinava com cautela. Deveria estar horrível, estava acordada há muito tempo, não parara praticamente nenhum minuto nas últimas vinte e quatro horas.
Apesar de empolgada com a inauguração agora o cansaço estava pegando forte em seu corpo. Precisava mesmo de alguma coisa pra ficar ligada, tinha que recorrer a alguma droga pra agüentar o tranco, a noite seria longa. Só em situações como essa pra Marin pensar em usar alguma química pesada.
- Tira as cervejas das caixas, pega o gelo no freezer lá do fundo e coloca as cervejas pra gelarem ali. – Apontou para um outro freezer – Coloca o gelo por que essas porcarias não congelam direito e eu me recuso a servir cerveja quente! – Ela saiu cambaleando rumo à mesa de som pra acertar os tons de graves e agudos, felizmente tinha muita prática nisso.
Ela num ta bem. O que é que eu faço? Ofereço meu sangue? Drogas? Ela num me parece ser do tipo que usa heroína ou cocaína... Drogas, eu sou mesmo um idiota! Ela vai me chamar de traficante e dizer que era por isso que eu tava querendo me aproximar dela... Bom, vou guardar essas cervejas rapidinho e vou oferecer meu sangue pra ela, acho que é menos mal do que oferecer heroína ou cocaína... – Tolo e ingênuo Aioria para assuntos relacionados a mulheres. Melhor dizendo, para assuntos que agora balançavam seu coração.
Ele tivera muitas mulheres em sua existência mortais e vampiras, mas... Seu interesse não era nada muito além de uma relação casual, pois seu apetite sexual era um tanto quanto anormal. Nunca quisera criar nenhum laço duradouro com suas parceiras. Era somente o sexo e a vitae que lhe interessava.
Em se tratando de um vampiro, Aioria era mesmo uma anomalia, quase comparável aos Toreador que eram absolutamente intensos em tudo o que faziam; procurando ao máximo se manterem próximos aos mortais e agirem como se fossem ainda mortais. Geralmente os vampiros perdiam o interesse pelo sexo, pois sentir o gosto do sangue humano era infinitamente mais prazeroso do que o ato sexual "humano" em si, de certo modo poderia se dizer que, se um vampiro ainda se interessa por sexo, possui grandes resquícios de que um dia foi humano.
Alguns encaravam isso como uma fraqueza e não admitiam publicamente essa faceta, principalmente os clãs mais conservadores como os Ventrue: ser humano, ter sentimentos e sucumbir a algo tão instintivo definitivamente era uma fraqueza e eles nunca a admitiriam em público.
Com muito cuidado Aioria usou seus dons sobrenaturais para terminar a tarefa que Marin lhe passara. Não desviou o olhar dela nem por um segundo, ela estava realmente com dificuldades de se manter acordada. Finalmente criou coragem e foi até a cabine de som diretamente oposta ao bar, mas do outro lado da pista de dança.
- Marin? – Perguntou hesitante.
- Já terminou? – Ela parecia surpresa.
- Já.
- Você está me enrolando. – Ela saiu da cabine, cruzou a pista de dança, entrou no bar e conferiu que tudo estava no lugar, impecavelmente arrumado. – Não acredito! Você é realmente impressionante, senhor Vampiro. Obrigada!
- Como disse antes, estou aqui só pra te ajudar. Você não está bem, precisa acordar. Eu tenho algo que pode te ajudar. Sei que você não confia em mim, mas pelo menos agora, tente acreditar.
- Depois dessa arrumação no bar, você merece um crédito. Veja bem, eu disse um, apenas um crédito. – Ela estendeu a palma aberta já esperando o que ele lhe daria. Cocaína? Heroína? Esse vampiro era realmente um vampiro e como muitos Brujah, devia ser um traficante de drogas. Fosse o que fosse ela estava realmente precisando.
- Não é nada disso que você está precisando. Isso vai te fazer muito mal, o que eu tenho pra dar é melhor. – Ele segurou com muita delicadeza a mão dela e puxou-a na direção do seu corpo, ela se assustou e resistiu ante a aproximação inesperada de Aioria.
Aioria já esperava por isso, não permitiu que Marin reagisse ainda mais. Mordeu a própria língua com força para que sangrasse, sem pensar duas vezes tocou de leve os lábios dela deixando seu sangue espalhar-se.
O gosto e o cheiro do sangue do vampiro: doce, inebriante, energético. Marin nunca havia provado algo tão... Diferente, tão... Maravilhoso. Não queria resistir mais, queria mesmo era mais daquele líquido quente e vermelho, era tão delicioso, tão renovador! Não era mais Aioria que segurava Marin e sim ela que se agarrava a ele, beijando-o com sofreguidão para conseguir mais e mais daquela vitae vampírica.
Embora estivesse adorando aquele contato, Aioria procurou manter sua mente raciocinando para não sucumbir ao prazer que a busca por mais vitae de Marin estava causando em seu corpo. Chegara o momento de parar, caso contrário chegaria ao ponto onde não mais haveria retorno, ao menos para ele. Virou o rosto interrompendo a continuidade do beijo, o que, claramente frustrou Marin, ela estava sob o efeito da vitae de Aioria. Em segunda ele se desvencilhou do abraço dela. Ficou de costas, não conseguia encará-la. Seu desejo estava em níveis quase não controláveis.
- Por que você parou? – Ela perguntou enquanto o abraçava por trás e tocava de modo provocante o tórax dele.
- Eu não quero que seja assim. – Simulou uma respiração profunda. – Só fiz isso para te dar meu sangue para você ficar bem. O sangue vampírico pode revigorar um mortal e até mesmo curar suas feridas. Antes que você pense que estou te manipulando, acho que nem os seus amigos sabem que parar se fazer um ghoul vampírico é necessário que se beba três vezes consecutivas em noites distintas o sangue. – Mais uma vez simulou uma respiração. - Para manter esse ghoul é necessário dar ao menos uma vez por mês do seu próprio sangue a ele. Pode ficar tranqüila que eu não a transformei em uma ghoul, é preciso muito sangue e tempo para isso.
- Não estou falando disso, Aioria. Estou falando disso! – Ele sentiu a mão dela sobre sua calça.
- Essa é a sua noite, não a nossa noite. Você merece muito mais do que somente isso. – Autocontrole, Aioria, autocontrole. Imposto de renda. Trânsito. Celular fora de área. Cartão de crédito estourado... Controle-se homem! – Ele repetia para si mesmo como um mantra para se acalmar. – Marin, por favor... Me solte, não quero ser grosseiro... Ahhh tire a mão daí... Por favor... - Imposto de renda. Trânsito. Celular fora de área. Cartão de crédito estourado... Controle-se homem! Ai meu pai, ela tá me provocando, essa mão... Ela está... Hummm... Mexendo... Como é bom... Imposto de renda. Trânsito. Celular fora de área. Cartão de crédito estourado... Controle-se homem!
- Você quer isso tanto quanto eu quero! Não somos crianças. – Ela se sentia estranha em falar a palavra criança para um vampiro, ainda mais tão velho como diziam ser Aioria. Não tinha como negar, tinha gostado do sangue e do beijo dele. Queria muito aquele corpo sem nenhuma peça de roupa para atrapalhar, claro. Seria muita hipocrisia de sua parte negar que sentia uma atração desproporcional por ele desde que o conhecera na arena Brujah, mas ele ainda era um vampiro... Mesmo assim, naquele momento ela estava tentada a não considerar que se sentia atraída por aquele vampiro.
- Não quero que seja assim, Marin. – Lutando contra seus instintos ele se afastou daquele corpo quente e humano que clamava por ele. – Eu preferiria lutar contra os persas por dias e dias a fio, sem comida, sem água, sem dormir... Seria bem mais fácil do que fazer o que eu tô fazendo agora. – Desculpe... Mas eu não quero você por uma noite ou pra uma aventura, eu quero mais. – E caminhou, deixando-a absolutamente irritada, sem conseguir encará-la.
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Chicago, limusine em movimento pela cidade.
- Quanto tempo para chegarmos? – Gabrielle perguntou sem desviar os olhos do laptop que abrira para trabalhar dentro da limusine. A sua frente Kamus executava o mesmo gesto. O tempo era realmente precioso para os Ventrue.
- Aproximadamente vinte minutos, considerando o trânsito neste começo de noite.
- E aonde vamos, afinal?
- Você saberá quando chegarmos. – E ele mergulhou em seu trabalho ignorando a existência da mulher a sua frente. Ela fez o mesmo que ele, mas dentro de si estava inquieta. Será que ele iria matá-la? Certamente era por isso que não falara para onde a levava.
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Chicago, Villa del Vecchio, bairro residencial às margens do Lago Michigan.
- Chegamos. – Kamus falou enquanto fechava o laptop.
- Que lugar é este? – Gabrielle achou ter reconhecido a região... Parecia que estavam próximos a mansão Oresund de Afrodite.
- Vamos entrar. – Kamus baixou o vidro que os separa do motorista e ordenou que adentrassem um imenso portão. Gabrielle estava apreensiva. Ele ia mesmo matá-la. Mas tudo isso só por que ela havia se encontrado com Milo no shopping?
A limusine parou. O motorista abriu a porta, Kamus desceu e estendeu a mão para ajudá-la a sair do veículo. Estavam em uma propriedade imensa, de altíssimo nível.
- Seja bem vinda a Villa del Vecchio, Condessa. – Kamus falou em tom gentil. Tom gentil? Ele não se esforçava para ser agradável geralmente. – Por favor, me acompanhe. – Estendeu o braço a ela. Subiram uma grande escadaria em mármore. Um mordomo veio cumprimentá-los e gentilmente abriu uma das gigantescas portas talhadas no mais nobre carvalho.
- O que é... Isso tudo? – Gabrielle olhava ao seu redor tentando entender o que estava acontecendo. No imenso hall de entrada, flores. Muitas flores. Pétalas de rosas brancas e vermelhas cobriam o chão e ao redor, em todo ambiente flores dos mais variados tipos exalavam odores inebriantes.
- É para você, Gabrielle. – Kamus falou enquanto estudava a reação dela.
- Não estou entendendo... Para mim? Todas estas flores? – Se afastou dele enquanto se dedicava a estudar a arquitetura do local, típica das vilas italianas que lhe eram muito familiares.
- As flores, a propriedade e tudo mais que se encontra nela é seu. Inclusive meu respeito, dedicação e se alguma noite você quiser e pudermos... Meu amor. – Foi realmente difícil falar a ultima palavra "amor". Danielle. Aqueles olhos azuis do Toreador... Danielle... Mas ela estava morta e o Toreador devia morrer também pelas suas próprias mãos. O mínimo que ele podia fazer era torturar Milo como ele torturava os Garou. Kamus finalmente acreditava estar tomando a decisão correta: recomeçar.
- Kamus, você está bem? Por que faz isso? – Ela não conseguia esconder a surpresa. Definitivamente aquele ancião estava em crise.
- Por que quero me dar uma chance de ser feliz novamente com alguém, Gabrielle. Vivi praticamente toda minha existência movido pelo sentimento de vingança, quero mudar isso e conto com sua jovialidade para me ajudar a recuperar o que perdi. – Eu sei que você não se lembra, mas me perdoe por ontem, eu agi pior do que o mais sujo dos meus inimigos, eu não deveria ter feito o que fiz... Tenho que me retratar com você de alguma forma. – Os pensamentos de Kamus eram confusos, definitivamente ele estava confuso, mas como um bom Ventrue acreditava ter tomado a decisão mais correta e sensata.
- Bem, isso é algo que realmente não esperava. Você não precisa fazer tudo isso por que iremos nos tornar consortes, Kamus. – Agora era Gabrielle que sentia a consciência pesada. Afinal de contas ela criara aquela situação.
- Não é por toda a conveniência que nos cerca que faço isso. Faço por mim, por Danielle. Creio que seja a hora de deixar o espírito de minha esposa descansar em paz. Creio que seja hora de superar que perdi minha esposa grávida e meus três filhos, hora de recomeçar e recuperar parte da pessoa que um dia fui. Sinto que é hora de mudar e você é tão jovem, tão viva... Parece ser tão feliz mesmo vivendo como uma vampira. Parece não ter ódio, nem rancor no coração. Quero reaprender. Quero ser humano novamente, ou melhor, o mais próximo disso que puder chegar, creio que você por ser tão jovem está mais próxima de ser humana do que eu. Preciso acalmar a minha Besta, se não... Irei sucumbir a ela.
- Kamus... Eu... Eu não sabia... – Agora tudo fazia sentido. O beijo que Milo dera em Kamus havia realmente mexido com o passado do Duque, ele havia amado a esposa e de alguma forma Gabrielle fizera Milo tocar em algo que ele considerava muito precioso. Agora entendia que o ódio de Kamus não era somente devido a sua honra ter sido ferida, mas ao fato de que algo muito bem guardado fora despertado. A julgar pela idade de Kamus, tomar uma decisão que mostrasse sentimentos tão íntimos deveria ter sido muito difícil.
- Com exceção de alguns anciões, ninguém sabe o que aconteceu com minha família. Eu amava Danielle do fundo de minha alma, ela me deu três lindas crianças e ao ser assassinada estava grávida... – Kamus sentiu a voz falhar. – Eu não toco neste assunto há muito tempo... Não deseja conhecer sua propriedade nova? Enquanto caminhamos vou contar-lhe o que aconteceu.
Sem questionar, ela aceitou o braço que ele lhe oferecia. Enquanto caminhavam Gabrielle sentia-se cada vez mais tocada pela trágica história do Duque. Kamus falava de modo pausado, não encobrindo a dor que lhe tomava o coração ao falar dos filhos: os pequenos Isaac e Jacó, mas a voz falhou ao contar sobre Ester, sua pequena princesa. Seu olhar transbordava uma tristeza contagiante.
- Agora você entende por que desejo recomeçar, Gabrielle?
- Sim, eu entendo e farei o possível para ajudá-lo. Seu coração sempre pertencerá a Danielle, isso é um fato, Kamus. E como sua consorte, serei sua melhor amiga, creio que isso será o melhor para nós... – Estranho usar a palavra "nós" ao se referir ao Duque. – Pelo menos você percebeu que o caminho que seguia era auto destrutivo. Ter sobrevivido tanto tempo nele é o que mais me surpreende.
- É estranho dizer isso... Mas sinto-me mais aliviado por ter tocado neste assunto. Não se tem espaço para diálogos voltados aos sentimentos em nosso clã. Você é realmente diferente entre todos os Ventrue que conheci, não mude. Não se torne como eu.
Ela sorriu tristemente. Sentaram-se num banco no bem cuidado jardim nas margens do lago Michigan. – Eu também tenho uma história, Kamus. Mas hoje a sua história é mais importante que a minha. – Ele pensa que eu não tenho meus problemas... Sinto tanta vergonha do meu passado...
- Vamos escrever a nossa história a partir de hoje, Gabrielle. – Ele revirou o bolso do casaco a procura de algo. Pegou uma pequena caixa em veludo negro e virou-se para ela. – Você deseja ser minha consorte, Gabrielle?
Ela podia ver que ele estava realmente se esforçando para fazer aquilo. Kamus queria realmente começar uma vida nova, mas... Gabrielle sentia que essa vida que ele procurava não seria com ela. Talvez ela tivesse de fato algum envolvimento com parte daquele processo de mudança, mas se aceitar realmente (e não apenas convenientemente) ser consorte de Kamus era parte do que estava por vir, deveria realmente considerar que esse era o caminho certo a seguir.
- Eu aceito. Honestamente aceito, Kamus.
Ele pegou a mão direita dela e colocou o anel. – Escolhi uma esmeralda por que são como os seus olhos, espero que não tenha apenas predileção por diamantes.
- Você não poderia ser mais gentil, obrigada. Eu realmente gostei da sua escolha.
- Gabrielle, posso... Beijar-te?
- Como? Bem, claro. – Por essa ela também não esperava. Não podia negar que ele era atraente e bonito e... Bem, era apenas um beijo e beijar não era algo bom? Algo humano?
Muito cuidadoso Kamus aproximou o rosto. Com precisão quase matemática estudava a forma mais adequada de beijar aquela boca, afinal de contas, com exceção do beijo que recebera no combate com Milo e o beijo roubado sem o consentimento da Condessa... Foram suas desastrosas experiências depois de muito, muito tempo. Agora ele tinha que fazer as coisas do jeito certo e tentar ser o mais próximo de um ser humano novamente.
Ainda meio perdido seus lábios finalmente se tocaram e se exploraram, ele a envolveu pela cintura e gradativamente aquilo que começou timidamente ganhou força. Começaram a trocar um beijo provocativo, intenso suas línguas se tocavam com avidez e desejo. Kamus interrompeu o beijo, dedicando-se a explorar com suas presas (agora expostas) a pele macia do pescoço da loira arrancando gemidos de prazer dela. – Gabrielle... Podemos ir... Para um local mais aconchegante?
- Falando assim... Claro que podemos... – Nesta altura do campeonato eu vou aonde você quiser... Mas será que você quer mesmo fazer isso?
- Sim, eu quero. Agora eu realmente preciso fazer isso. – Eles se levantaram e caminharam rumo à mansão, parando vez ou outra para se beijarem e sentirem a adrenalina daquele momento tomar conta de seus corpos. Entraram no primeiro quarto que encontraram e apressadamente despiram um ao outro e mais uma vez um beijo fogoso se iniciou.
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Chicago, Clube Masquerade, Elite.
A Elite estava fervilhando naquela noite. Verônica olhava com prazer a imensa quantidade de vampiros bem vestidos que circulavam pelo andar mais caro de seu precioso Club. Naquela noite em especial Saga e Kannon optaram por uma mesa na Elite e não a sala Vip, algo especial certamente aconteceria.
Checou as reservas e não foi difícil deduzir o que era. Havia uma reserva em nome de Kamus para duas pessoas e uma série de exigências típicas de um Ventrue na posição dele. Havia também uma reserva para Afrodite e Pandora, outra em nome de Sorento e Mime e uma terceira em nome dos Malkavianos Shaka e Mu. Muitos vampiros respeitáveis próximos um dos outros. A surpresa realmente foi... Uma reserva em nome de Aioria e Ikki? Isso era realmente estranho. O irmão de Ikki iria tocar no porão e Aioria estava interessado na humana contratada para cuidar do lugar. Eles não deveriam ir à reabertura do Porão?
Por volta das dez da noite, as mesas reservadas começaram a ser ocupadas. Primeiro, Shaka e Um, depois Afrodite e Pandora, Saga e Kannon e por fim Aioria e Ikki que estavam anormalmente bem vestidos. Definitivamente estavam tramando alguma coisa.
Enquanto ela divagava a respeito das intenções dos visitantes da noite, um burburinho formou-se na Elite: Kamus finalmente chegara ao local junto da Condessa. Estavam atrasados. Muito estranho. Ventrue não costumavam se atrasar, já eram quase onze horas da noite a entrada dos dois não passou em nada despercebida, pareciam muito satisfeitos um com a presença do outro e na mão direita Verônica viu um belo anel de noivado que combinava com os olhos da Condessa. – Kamus realmente sabe das coisas. – Murmurou enquanto acompanhava a movimentação nos vídeos de segurança. - Até que formam um casal bonito e bem vestido. – Verônica concentrou a atenção na mesa dos Toreador que comentavam sobre os trajes usados pelo casal.
- Eu tenho certeza de que o Duque está usando terno Salvatore Ferragamo, a camisa e gravata são Giorgio Armani, gostei da cor... Reparou naquele broche e nas abotoaduras Gracie & Pricci? – Falava Afrodite para sua acompanhante que assim como ele não tirara os olhos dos dois. – Nem parece que ele se lembra de que Milo o derrotou na arena dos Brujah. Esses Ventrue são tão... Arrogantes.
- Não acha um tanto quanto ousado ela usar um vestido neo-barroco de Christian Lacroix? – Falou Pandora. – Eu conheço aquele sapato! É um Louboutin! Eu reconheceria aquele salto tão fino, tão pontudo em qualquer lugar é um dos meus preferidos!
- Pelo visto a Condessa já te agradou, não é, minha querida?
- As roupas e os sapatos dela, sem dúvida me agradam. Mas acho os Ventrue muito distantes para algo mais me agradar.
- Ela é harpia como você, Pandora. E acredite, está bem mais próxima do nosso estilo de vida, do que dos Ventrue. Eu só não entendo por que ela não me contou sobre esse affair secreto com o Duque.
- Affair com o Duque? Será que identifiquei que você não gostou muito disso? Quero detalhes! – E Afrodite começou a contar a sua versão da história para a atenta harpia alemã. Obviamente omitindo os detalhe que lhe comprometiam junto a Condessa e seu plano de transformar Milo em seu sucessor. Ele precisava conquistar a simpatia de Pandora para ampliar a fama do seu pupilo. Nem que para isso ele tivesse que aumentar algumas coisas e diminuir outras.
Um pouco mais adiante, Mu e Shaka pareciam estar em outra galáxia, mas intimamente estavam atentos aos movimentos dos dois que acabavam de chegar. Não falavam, mas trocavam suas impressões telepaticamente. Verônica quase desistira em estudar as reações deles. Os Malkavianos eram indecifráveis e loucos demais para que ela os compreendesse.
- Kamus me parece bem. A aura dele está diferente. É como se tivesse recobrado um pouco de humanidade.
- Também percebi isso. Isso é bom, pois ele estava muito próximo de sucumbir a Besta, Shaka, você percebeu uma memória apagada na aura da Condessa?
- Agora consegui ver, Mu. Quem será que fez isso com ela? Isso não estava lá da última vez que a examinamos metafisicamente na arena Brujah. Tente sondar com quais vampiros ela esteve nas últimas noites, precisamos estar atentos aos movimentos da Jihad dos Ventrue.
- Mudando de assunto, Shaka você reparou que Saga está apreensivo? Estou vendo uma preocupação muito grande ao redor dele e não tem nada a ver com o Kamus embora ele não esteja tirando os olhos dos dois.
- Sim, eu vi! Por outro lado... Kannon está ignorando a presença de Kamus e concentrado toda sua atenção nela. Ele está admirado com ela, estou vendo que ele está apaixonado, mas... Existe uma ignorância ao redor dele, ele ainda não percebeu isso. Acho que vamos ter conflito entre os Ventrue, Mu.
- Kannon não presta Shaka. Vive na sombra do irmão e isso o frustra, por mais poder que ele tenha em mãos, ele quer mesmo é tomar o lugar de Saga e tudo o que for importante para o seu gêmeo. Estranho ver um sentimento tão humano naquela alma quase perdida.
- Talvez ele ainda tenha salvação, Mu.
- Shaka, eu não estou gostando daquela mulher de preto que está com Afrodite. Ela tem uma proteção mística que me impede de ler sua aura. Ela é a maior harpia da Alemanha, certamente está aqui para a reunião do Conselho Mundial das Harpias, mas acredito que esse não é o único objetivo dela.
- Mu... Eu também não consigo ver a alma dela. A barreira negra é muito forte. Existe feitiçaria pesada a envolvê-la. Não conheço muitos vampiros que entendam de magia, e neste caso é magia negra! Definitivamente temos um problema.
- Sim, temos realmente um problema. Ikki não está nem prestando atenção em você, Shaka. Nem no casal de Ventrue. Ele está olhando somente para a mulher de negro.
Verônica dirigiu a câmera de segurança finalmente para seu alvo preferido: os gêmeos. Saga parecia satisfeito com a entrada triunfal do casal Ventrue e Kannon se limitava em encarar um pouco mais a noiva de Kamus. Era realmente um safado, mas ela adorava aquele gênio incontrolável de Kannon e toda aquela pose de lorde.
Ikki e Aioria pareciam mais interessados em discutir a respeito da acompanhante de Afrodite, embora estivessem tecendo muitos elogios a noiva de Kamus.
- Kamus realmente é um cara de sorte. Além de bonita ela sabe bater muito bem.
- Melhor você respeitar a noiva do almofadinha, Ikki. Só não entendo por que nenhum dos dois mencionou esse noivado antes. Esses Ventrue são frescos demais pro meu gosto. É bem possível que ele tenha ido a arena quando ficou sabendo que ela estava lá. Agora estou entendendo por que ele se atracou com o Milo. Deve ter ficado enciumado quando viu que o Milo tava passando cantada na garota. Pelo menos é isso que todos estão comentando. Mas quem venceu foi o Milo e ninguém pode tirar esse mérito do nosso Toreca.
- Alias, onde é que tá o Milo? Ele não ia vir conosco hoje?
- Aquele safado me ligou. Pela voz dele devia estar aprontando alguma com alguma mulher por aí. Ele pensa que me engana, mas, eu sei que ele é safado e pervertido como todos os outros Toreador. – Aioria riu. Ele realmente gostava de Milo, ao menos ele tinha senso de humor.
- Aioria, como é que você pode afirmar isso?
- Pela voz dele. Eu sei quando um homem quer disfarçar quando tem uma mulher por perto. Eu só queria saber quem é que teve que agüentar aquele moleque!
- Será que não é uma Toreador?
- É bem possível que seja. Milo deve ter feito as pazes com o clã depois de socar, quero dizer beijar o Kamus. – Aioria queria muito rir descontroladamente – Mas também pode ser UM Toreador. Num esquece que esses Torecas são muito liberais.
- Eles são mesmo. Quero distância dos Toreador assim como dos Malkavianos.
- Se você quer distancia dos Toreador, por que não tira os olhos daquela mulher que está com o Afrodite?
- Oras, só estou olhando pra ela por que é bonita. Olhei pra ela como olhei pra todas as mulheres bonitas que estão aqui!
- Ikki, você é mesmo um mentiroso. E o pior, mente muito mal! – Agora Aioria ria sem se conter.
A conversa dos Brujah não estava tão interessante para Verônica quanto estaria a do casal que acabara de ocupar sua mesa, cumprimentam educadamente com um gesto de cabeça aos conhecidos. Era hora de parar de observar e participar da cena. Hora de descer e cumprimentar os visitantes e dar a devida atenção ao casal que Saga formara para manter a imagem conservadora daquele clã.
Seguiu a ordem de status: primeiro cumprimentou o Príncipe e o Seneschal da maneira mais formal e respeitosa possível. E eles retribuíram com aquela fria distância que mantinham em público.
Seguiu para a mesa de Shaka e Mu, depois Afrodite e Pandora. Conversou trivialidades com todos eles, atendo-se mais ao casal Ventrue. Todos concordavam que formavam um belo par e o qual raro era ver uma união entre os Ventrue.
Finalmente foi ter com o casal que a recebeu com o modo tipicamente Ventrue: educada e friamente. Verônica usou ao máximo sua habilidade diplomática para engolir aqueles dois chatos. Estava fazendo isso pelo plano de Saga, só por isso. Educadamente ela se retirou da mesa dos dois e finalmente foi ter com Aioria e Ikki, deixou-os por último por que não se dava nenhum pouco bem com Aioria. Chegou sorrindo na mesa deles e pode perceber fechou sua expressão ante a presença dela.
- Aioria! Ikki! Pensei que vocês fossem participar da reabertura do Porão! A que devo a honra de terem trocado esse evento por um jantar na Elite?
- Sente-se, Verônica. Temos algo a conversar. – Aioria fora curto, mas educado. – Não precisa me tratar com esmero como faz com os outros, acredito que já te conheço a tempo o suficiente para deixarmos essas frescuras de lado. Dedique toda essa etiqueta a quem realmente gosta dela.
- Tudo bem, Aioria. – Ela ainda sorria ao sentar-se. – Certamente está assim por que seu irmão veio me visitar ontem, não é?
- Sim, Verônica. É por causa do meu irmão que estou aqui.
- Eu sei que você não aprova nosso relacionamento nenhum pouco convencional, Aioria. Mas Aioros e eu nos entendemos, eu como Dominadora e ele como meu submisso. Nunca deixei que soubessem o que faço com seu irmão, só deixo transparecer que eu tenho "algo" com ele, tanto que ontem nos beijamos bem ali, no bar.
- Não é o que vocês fazem que me preocupa, Verônica e sim como o meu irmão aceita tudo isso vindo de você. O Sabbat vai atacar Chicago, Verônica.
- Aioros mencionou isso. Mas o que o meu relacionamento com ele tem a ver com isso? – Ela realmente não estava entendendo.
- Ele não te falou que esse ataque é por sua causa? Por você ter traído seu senhor quando ajudou o Saga a matá-lo? Não é só uma incursão de neófitos, estão reunindo os mais velhos e perigosos da sua família e dos Tzmisce para entrarem em Chicago e o meu irmão ta quase vendendo a alma dele pra te salvar! Tanto que ele veio fazer uma trégua com Saga por sua, causa! E você vai continuar tratando o cara que mais te ama nesse mundo como um mero submisso? Você quer que eu espalhe isso pra todo mundo ouvir, Verônica?
- Não, Aioria. Isso não é necessário – Apesar do choque interior, ela conseguira manter a compostura. Definitivamente não esperava por aquilo. Seu passado era realmente condenável e a perseguira com todas as forças.
- Então, Verônica, acho bom que você tome vergonha nessa cara e pare de tratar meu irmão apenas como seu brinquedo. O que te impede de ficar com ele? O Saga, por acaso? Você está cansada de saber que o Saga é Ventrue e você é Lasombra, NUNCAseriam aceitos juntos, nunca. Eu sei da sua brincadeira com os gêmeos, Aioros me contou. Sei das suas brincadeiras com meu irmão também. Mas será que você pode evoluir para algo mais sério? Acorda minha filha! A fila anda, sabe? E o meu irmão ta parado na tua há muito tempo. Ou você deixa o Aioros em paz e para com essa brincadeira ou então mostre alguma dignidade de caráter e dê uma chance pra ele! Meu irmão está disposto a morrer por você, Verônica, você quer uma prova de amor maior do que essa? – O mais impressionante era que apesar do conteúdo extremamente agressivo da conversa, Aioria não erguera a voz em nenhum instante.
- Verônica, eu tenho que concordar com o Aioria. Nós tivemos muito trabalho pra descobrir o que ele andava fazendo nos últimos meses. Ele negou uma aliança com o Sabbat por sua causa. Sabe por quê? Por que eles pediram a SUA cabeça e não invadiriam Chicago se você fosse entregue a eles. Sua família é bem vingativa e pelo visto é um dos seus irmãos possivelmente vai liderar o ataque.
- Não se preocupem. Eu terei uma séria conversa com Aioros. – Ela disse sem demonstrar o medo que sentia. Felizmente seus olhos sensíveis à luz estavam protegidos por um óculos escuro, afinal até a luz artificial era capaz de machucar suas retinas acostumadas com a escuridão que os Lasombra viviam. – Se me dão licença... Tenho uma casa noturna para administrar.
- Verônica, não decepcione meu irmão. – Aioria falou enquanto ela se distanciava.
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Prontinho. Depois de meses e meses sem atualizar aqui está a continuação da fic.
Tive um bloqueio criativo que duraram alguns meses e também completa e absoluta falta de tempo, sem contar que meu apartamento foi assaltado, fiquei sem computador, comecei a trabalhar, voltei pra faculdade e tô lutando pra fazer um mestrado no Canadá.
Obrigada pelas reviews deixadas durante meu "desaparecimento". Foi graças a elas que eu não desistir de escrever essa fic por isso eu digo que as reviews me dão força para escrever, por favor, deixem comentários e incentivem essa pessoa a escrever mais.
Tentarei postar ao menos 1 vez por mês um capítulo dessa fic. Enquanto isso:
Só escrevo o próximo capítulo se as pessoas deixarem reviews!
