Capítulo X
Rony ficou curioso e intrigado. Como Hermione poderia saber que Charlotte não iria apenas molhar as fraldas? O bebê, na verdade uma bomba-relógio, o fitava placidamente, como se o estivesse examinando antes de aceitá-lo em substituição à mãe.
— Sou o seu pai, garota. Acho melhor se acostumar comigo, certo?
Logicamente, não houve resposta, mas o rostinho plácido se contorceu, ficando mais vermelho. Passaram-se alguns segundos de intensa concentração e então Charlotte voltou a refletir serenidade e calma. Rony riu, entendendo como Hermione previra o que iria acontecer.
Então, lembrou-se da descrição dela sobre a diversidade de expressões diferentes do bebê, durante o banho, e balançou a cabeça, incredulamente. Quem diria que a personalidade começasse a se manifestar tão cedo? Agora entendia que poderia até ser fascinante ver aquela criaturinha crescer. Talvez os pais abobalhados com as proezas dos filhos não fossem tão idiotas quanto pareciam. Por outro lado, era ridículo e inadequado que deixassem um pingo de gente governar a casa e a família como um tirano!
Rony colocou o bebê na mesa que Hermione preparara para lidar com o bebê mas, antes de começar a imprevisível tarefa, foi até o banheiro buscar uma toalha. Na verdade, trocar fraldas era uma atividade cheia de perigos insuspeitados. Naquela manhã, o filho de Harry parecia uma torneira aberta, cujo jorro o atingiu em pleno rosto, antes que pudesse se proteger.
Depois de reunir todos os utensílios necessários, bem ao alcance de suas mãos, Rony sentiu-se competente e confiante. Então, começou a retirar as roupas daquela carga perigosa, procurando evitar qualquer vazamento inoportuno. A missão foi um sucesso e ele sorriu, vitorioso.
— Você tem que dar o crédito que seu pai merece, garota. Sou previdente e penso no futuro. E o que se precisa fazer na vida para evitar desastres, entendeu?
A única resposta de Charlotte foi um som que mais se parecia com um riso de zombaria.
— Que falta de respeito! Acho melhor se cuidar, sabe? Supõe-se que eu seja a autoridade em sua vida e não devemos começar essa parceria com o pé esquerdo.
Quando Rony finalmente abriu a calça plástica, um cheiro horrível se espalhou pelo quarto. Era talvez o pior que já sentira e sentiu uma onda de náusea.
— Céus! Você tinha razão em chorar! Precisava mesmo que alguém a livrasse desse horror!
Com rapidez e relativa eficiência, ele retirou a fralda suja e a fechou num saco plástico. Então, começou a limpar a área atingida pela ofensiva massa mal cheirosa.
Aos poucos, o odor se tornou menos brutal... ou será que seu olfato se ajustara àquela agressão? Realmente, nunca seria uma tarefa agradável, mas talvez fosse possível acostumar-se com ela. Afinal, o cheiro do removedor de esmalte também era repugnante e uma parte indispensável de seu trabalho de restauração. Certas coisas têm de ser feitas, não importa como!
Entretanto, a experiência o levou a compreender a fixação dos pais em treinar os filhos para fazerem suas necessidades por conta própria! Sempre lhe parecera uma demência paterna, mas tinha sentido. Entendia melhor que uma pessoa obrigada a realizar aquela tarefa diariamente acabasse com uma verdadeira obsessão a respeito do problema.
Depois de terminar a limpeza, Rony preparou-se para colocar a fralda limpa e, subitamente, ficou desorientado. O filho de Harry parecia uma miniatura masculina, mas aquele bebê... era território proibido. Ele deu-se conta de que jamais vira uma menina pequena, pois não tinha irmãs ou primas!
Para sua surpresa a fragilidade daquela futura mulher provocou-lhe uma sensação estranha, uma súbita onda de ternura, mesclada à uma profunda necessidade de proteger aquela menina... a sua filha.
Mais uma vez, admitiu que estava desconcertado. Esse sentimento seria o tão falado elo existente entre o pai e a filha? Uma menina parecia tão mais vulnerável! Era evidente que precisava de alguém que a protegesse dos maus carateres. Claro que as mães são importantes e até insubstituíveis, mas o papel paterno também é vital, na defesa de sua prole.
— Não se preocupe com o futuro, Charlie! Os moleques malandros terão de ser aprovados por mim e sou uma verdadeira fera!
Charlotte moveu os lábios, minúsculos e rosados como um botão de rosa.
— Ah! Está me mandando um beijo? Pois devia mesmo. — Ele terminou de fechar a fralda e começou a vesti-la. — Agora você está confortável e sequinha. Que tal um outro beijo?
Subitamente, Rony ouviu sua própria voz e chocou-se com o tom meloso. Respirou fundo, horrorizado diante da rapidez com que caíra na mania de falar a mesma língua infantil de um bebê! Por sorte, estava sozinho e essa atitude instintiva não se repetiria, porque agora estava alerta. Nem em seus piores pesadelos, imaginara que iria sucumbir a essa idiotice paternal!
Seu olhar refletia suspeita e um ligeiro temor. Aquele pingo de gente tinha um poder insidioso, contra o qual seria obrigatório resistir. Nenhuma criança o transformaria em um tolo que balbuciava como se tivesse a mesma idade do bebê. De maneira alguma! Ele era e sempre seria o senhor de seu próprio comportamento.
— De volta para a cesta, garota — ordenou ele, carregando o pequeno pacote de dinamite até o local apropriado, onde não provocaria desastres inesperados e estaria prote gida de imprevistos.
Contrariado, ouviu Charlotte chorar.
— Cada coisa em seu lugar e um lugar para cada coisa, certo?— O choro aumentava. Ele não deu atenção, continuando a limpar a mesa. Entretanto, ainda precisava arrumar a cozinha e só lhe restava a opção de levar a cesta do bebê para a sala. Obviamente, Charlotte queria chamar sua atenção. Era um evidente conflito de interesses que precisava ser cortado pela raiz.
— Ouça, garota — declarou ele, com uma voz autoritária. — Você e eu temos de chegar a um acordo.
Como se o assunto a interessasse, Charlotte parou de chorar.
— A raça humana se entende melhor, quando um tem consideração pelo outro. Não vou deixar a cozinha suja para sua mãe limpar, quando vier do trabalho. Você já recebeu sua cota de atenção da minha parte. Agora, é a vez dela... portanto, pare de ser egoísta.
Charlotte fez o mesmo som, semelhante a uma zombaria.
— E chega de insolência — brincou ele, olhando-a com fingida severidade. — Vamos ouvir um pouco de música. É a última palavra de seu pai sobre o assunto.
As palavras de Rony foram seguidas por um silêncio total. Satisfeito, ele escolheu uma antologia dos Beattles entre os discos de Hermione. Acabara de descobrir a solução do problema... educação e instrução adequadas! A pequena Charlotte aprenderia a gostar de música e a acatar a autoridade do pai.
Diante do silêncio continuado, ele cumprimentou a si mesmo. Aprendera a entrar no jogo infantil e sair vencedor. As crianças conseguem dominar um relacionamento em um piscar de olhos. Pareciam muito indefesas e meigas, mas não passavam de verdadeiras ditadoras, se lhes fosse dado o espaço necessário para subjugarem todos os membros da família. Diante disso, era vital manter as proporções da situação. Precisava existir respeito, disciplina e conhecimento de limites que não podem ser ultrapassados.
Na verdade, era extremamente fácil. Bastava reconhecer que se tratava de um jogo de poder. Como dizia o velho ditado, a mão que controla o berço, dirige o mundo. Quem permitisse que a criança no berço comandasse a família... estaria procurando encrenca!
Eu amo esse capítulo é um dos melhores.
Viu o coração do Rony já esta amolecendo.
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