(Parte 10 – A sombra que engole maças)

A nossa próxima parada era no Hospital de Ponyville, distante alguns quilômetros do centro da cidade. As estradas, como sempre, eram tortuosas e um tanto irregulares, prova de tantos pôneis a marcando com os cascos no galopar para cima e para baixo do cotidiano.

Frost e eu tentávamos montar, como havia dito, uma preliminar de quebra-cabeça sobre os fatos.

F – Não creio que seja uma fatalidade, André... Eu conheço documentos quando estão regulares, de acordo com a lei. Os da Rarity só faltava polir e colocar como troféu na estante, era a típica "cidadã exemplar".

A – Pois sim, Frost... Ammm, pode parecer que houve alguma anomalia em qualquer uma daquelas tubulações, mas aquele pedaço de tecido que encontrei justinho dentro do forno...meu irmão, ele devia ter sido queimado também. Como não?

F – De fato... Não podemos nos precipitar, embora eu já tenha apontado Applejack como suspeita numero um. Ainda temos que esperar as conclusões da princesa Celestia sobre o incêndio com base no que a guarda real viu e no que dissemos... Fosse por nós, estaríamos com tudo em mãos já...

A – Coisas que temos de ajustar, meu caro... Não viemos aqui para colocar ordem da casa? Então, vamos colocar ordem na casa. Detalhes assim não podem esperar pelo aval da princesa. Tá... Ela é a imperatriz, mas a vida dos súditos e os riscos que correm pedem respostas urgentes.

F – Tem razão... Alias, não esperava que a primeira investigação fosse assim. Vocês me disseram que Equestria era um lugar pacífico...

A – Mas não prometi um mar de rosas, Frost. Todo lugar tem suas imperfeições... Qualquer pônei pode apontar uma arma e matar outro... Isto é, arma... Quis dizer, feitiço, por ai...

F – Bom, o importante é que estamos aqui, estamos trabalhando e já temos um grande teste para provar a Celestia e a Luna que podemos... Alias, que gatinha a Luna, hein?

A – Alicórnio, Frost... Alicórnio... E alias, apesar dela ser muito atraente, não podemos cair na bobeira de ficar com nenhuma pônei aqui. Estamos a trabalho.

F – Estraga-prazeres... Bolas! Mas se atente ai, parece que aquele casarão ali é o hospital.

A – Aquele cheio de curiosos na porta?

F – Curiosos... Imprensa... Eles devem ser jornal, creio eu... Não são atrasados assim...

Na porta do único hospital de Ponyville uma multidão cercava a entrada. A polícia local mantinha um cordão de isolamento impedindo a passagem de curiosos e de parte da imprensa equestriana para dentro do grande casarão.

Deixamos o Mini do lado de fora e, se esgueirando entre pôneis, unicórnios e pégasus, fomos em direção a porta. Com distintivos a mão, claro. Esperávamos na recepção pela enfermeira responsável, sem deixar de observar as instalações.

F – Eles chamam esse lugar de hospital? Tá mais pra uma escola infantil, tão colorido.

A – Vai ver, as cores estimulam a recuperação do paciente, cada um com seu método, sabe?

F – É... Meio doido, meio lisérgico... Mas não deixa de ser uma bela decoração. Faz-nos sentir em casa. E as enfermeiras... hmmmm... Eu deixaria que elas cuidassem de mim a hora que quisessem

A – Não era você que estava se tremendo com medo dos cavalos?

F – André, meu jovem...você tem que saber que tendo pernas bonitas, um sorriso quente e um olhar fatal... Sem contar outros detalhes... É peixe e cai na rede... Neste caso, não me importo se elas tem quatro patas, até parece mais divertido...

A – É, você anda carente... Olha, parece que vem vindo a enfermeira...(se colocam em pé)

Muito educadamente, coisa que até nos impressionou de cara, a enfermeira nos conduziu pelas alas do Hospital. Tudo muito bem asseado e organizado, enfermeiros e médicos correndo de um lado a outro, levando a sério aquele juramento de "a vida em primeiro lugar".

Os métodos de cura são avançadíssimos, diria... Bastava um unicórnio na sala e uma breve recuperação nos leitos e tudo dava certo... Quer dizer, nem tudo.

No fundo do hospital, quase que em isolamento, estava a ala que, em Mobius, chamaríamos corriqueiramente de UTI (Unidade de Terapia Intensiva, para os leigos). Naquele Hospital tinha o estranho nome de Centro de Recuperação Extrema. Explicava a enfermeira que ali estavam os casos mais graves e sensíveis, que nem todo o tratamento por magia podia resolver de "quase imediato".

A aparelhagem soava rudimentar, mas era o suficiente para manter pôneis em estado, digamos, crítico, em recuperação. Os corredores eram pintados de forma diferente. Em vez de um jeito caseiro, estavam em um bege que lembrava mais uma fábrica.

Enfim, quarto 140. Onde Rarity estava. Na porta havia recomendações expressas de que apenas ela permanecesse no quarto, que quem entrasse o fizesse de máscaras para evitar possíveis contaminações nocivas ao estado de saúde dela. Antes de entrar, pedimos apenas pelo quatro clínico da unicórnio, para termos uma noção.

Terrível! Os pulmões estavam enfraquecidos pela grande quantidade de gás absorvida, combinada com a fumaça do incêndio. Havia uma irritação nos olhos que não prejudicava a visão, mas inspirava cuidados.

Só que a preocupação maior era uma concussão cerebral provocada por um... Golpe na cabeça. Isto mesmo que o leitor leu. Pela intoxicação apenas, Rarity estaria até acordada e costurando na cama, mas a lesão ainda a deixava inconsciente desde o incêndio.

Não esperamos mais, entramos lentamente no quarto e, tão logo pisávamos o assoalho bem polido, paralisamos. Ao lado da cama, a pequena irmã de Rarity, Sweetie Belle, vigiada a pequena distancia de um sofá pelos pais. Os cumprimentamos de forma respeitosa, como manda a educação, e observávamos atônitos a pequena pônei no leito.

Aparelhos de respiração, batimentos cardíacos, todos conectados nas patas e no peito de Rarity, imóvel na cama de hospital. Sua face era serena, assustava-nos, pois em toda hora não nos saia da mente a impressão que ela tinha mesmo "se passado".

Nos aproximamos lentamente da cama, a observávamos ao lado da mesma sem conseguir esboçar nenhuma reação. Nada que demonstrasse nosso espanto e perplexidade com o que acontecera. Somos agentes, frios nas missões...mas somos seres com sentimentos, como qualquer pônei ali.

SB – Ela ainda não voltou... Papai e mamãe estão aqui a noite sem dormir, literalmente... Como isso foi acontecer? (esboçando um choro, mas um de tanto que já tivera)...

A – É... Nem nós sabemos ainda como isso pode acontecer. Ainda estivemos na casa dela há pouco... Nada de anormal que pudesse causar uma explosão...

Pai – E... Então, o que houve? Não é possível que alguém entre num lugar, agride a minha filha e sai a deixando assando como qualquer peixe na grelha... (retira o chapéu, nervoso)... Como pode?

A – Não temos ainda certeza... Mas... Deduzimos que não foi nada de anormal... Mas intencional

Mãe – O que você quer dizer, Sr. agente?

F – Sendo direto e franco, senhora... Alguém quis ver sua filha fora do caminho...

SB – Mas quem faria isso? Minha irmã não tinha inimigas, não tinha ninguém que pensasse em algo contra ela... Não pode ser isso... Vocês tem certeza disso? (agoniada)

F – Calma, por hora é apenas uma hipótese... Hipótese considerável, diga-se de passagem.

A – Tudo que encontramos lá... (tira do bolso o fragmento de pano brilhante dentro de um plástico)... Foi isto. Caprichosamente dentro do forno. Me surpreende que não queimou, já que o depósito de materiais é exatamente embaixo da cozinha.

Pai – Gozado... Não queimar? Isto aqui é cetim... Rarity tinha rolos e rolos disso por la... Todos queimaram...

SB – Estava dentro do forno? Se não queimou é normal... Aquela geringonça não funcionava há tempos. Rarity usava um forninho menor pra fazer bolos...

F – Isso é grave... Se ela não usava o forno... Ela não ia usar esse pedacinho ai pra untar formas de bolo

SB – E não usava, ela tinha um feitiço pra isso... E pra tantas coisas, descascar frutas, picar, lavar a louça... Unicórnios usam mais o chifre do que as patas, as vezes...

F – Praticidade... Por que que eu não nasci com um chifre? Errr...(limpa a garganta)...mas não há tempo para brincadeiras. Isto pode ser sério...

A – É algo a considerar... (volta a olhar Rarity no leito)... Se ela não tinha inimigos, nem rivais... Quem faria isso?... É claro, se isso for mesmo um incêndio criminoso

Mãe – Não faço ideia, meu filho... Mas, a única coisa que queremos é nossa filha de volta. É tão dolorido vê-la aqui, sem estar fazendo o que gosta... Sem suas amigas...

A – Alguma amiga dela apareceu por aqui hoje?

Mãe – Ah... Apenas Fluttershy, mas só ela apenas. As outras devem estar ocupadas com seus afazeres... Até entendemos. Devem vir aqui mais tarde...

Ainda permanecemos algum tempo conversando sobre Rarity no quarto. Frost estava sentado, junto de Sweetie Belle, enquanto eu não conseguia sentar, tamanha a minha ansiedade quanto ao que ouvira. Ela não usava o forno do fogão, mas nenhum deles se lembrava de vê-la com algum tecido parecido com cetim na cozinha, era uma peça muito nobre para ser usada lá.

Mas a conversa com a família da unicórnio trouxe-nos alguns detalhes que seriam úteis. Segundo Sweetie Belle, ela preparava uma coleção especial que seria mostrada na próxima semana, em Manehatan, uma espécie de Nova York de Equestria, algo assim. Ela teria como inspiração a música, o som pop fluindo pelas veias provocando o movimento em qualquer ser. Era cheia de cores, vibrante e ousada para a época...

Não, não virei estilista, eram os detalhes ricos que Sweetie Belle contava. Faltava apenas um último vestido dos cinco programados, que seria usado pela própria Rarity. Ele não batia com a cor do fragmento que encontramos no forno.

E, como dissemos, o forno era inoperante naquela cozinha. Fora isso, nada mais de informação, ao menos, por àquela hora. A enfermeira pediu que nos retirássemos, já ia além da hora de visitação...

Despedimos-nos cordialmente dos pais de Rarity, que demonstravam uma gratidão fora dos padrões pelo nosso trabalho, ainda preliminar. Sweetie Belle, chorosa, estava um pouco melhor depois de tudo que havia acontecido.

Despediu-se fazendo o mesmo pedido da vez anterior... "Não se esqueçam de trazer minha irmã de volta"... Não éramos curandeiros, mas se o "trazer de volta" era explicar o que aconteceu e, se acaso fosse, trazer o culpado a tona, então seria isso.

Saímos do quarto, junto da enfermeira. Sem antes olhar rapidamente de volta para o interior do quarto. Sweetie Belle era abraçada pelos seus pais, sendo que os três fixavam os olhos em Rarity.

Talvez, de alguma forma, ela estivesse sentindo tudo aquilo em espírito. Ora, unicórnios não tinham feitiços para tantas coisas? Provavelmente tinham também sentimentos além do que sentíamos.

Andávamos pelo corredor, ouvindo apenas a voz da enfermeira, mas ainda estupefatos pelo que havíamos visto. Havia uma pônei em risco de vida, que poderia bem ter sofrido um atentado por um motivo que ninguém fazia ideia do que podia ser.

Felizmente, a noite iria acabar bem. A distância, Applejack estava junto de Twilight, pronta para deixar o hospital. Ela estava enfaixada na cabeça e com alguns curativos pelo corpo, talvez pelas queimaduras.

F – Olha só, a grande maçã está bem! Já vai sair?

AJ – Sim...não guentava mais ficá dentro desse Hospital... Se aproxima o outono, tem maça a balde pra coier lá em casa...

TS – De jeito nenhum Applejack, não ouviu o que o médico pediu? Repouso absoluto pelo menos, por um mês!

AJ – Mas a temporada vai começá amanhã... Vovó e Big Mac não vão conseguir sem mim!

A – Err... É melhor ouvir a roxinha, AJ... Você saiu de um incêndio sem precedentes, e ainda bem que foi com vida, andando e falando. Afinal, uma amiga de vocês ainda está dependendo de aparelho.

TS – Poxa... Estou preocupada com a Rarity, ela não dá sinais ainda... Ao menos os médicos disseram que ela está estável, apesar de tudo. Pulmões, cabeça...

A – Ainda bem mesmo... Alias, quando chegarmos na biblioteca tenho que contar-lhe o que vimos por lá na casa dela...

TS – Acharam alguma coisa? O que aconteceu?

F – Ainda não sabemos... Estamos esperando o parecer real...afffff, que demora!

Tão logo passou o tempo, fomos surpreendidos por Applebloom, que vinha junto de Bic Mac com uma pequena carroça, para levar a irmã para casa. Era noite já, e eu não confiava muito numa carroça andando aquela escuridão para os lados do interior...

A – Apple... Tem certeza que não quer uma carona? É perigoso voltar esta hora pra casa, ainda no estado que você está...

AJ – Perigo nenhum, André... Já tô costumada a fazê esse caminho a noite. Mas agradeço mesmo assim, tá bem, docinho?

F – Olha... Essas estradas escuras... Vem morcego fazer estrago... Tem gente voando, galopando... Sei lá, que não é digna de confiança...

AJ – Relaaaaxa... O único morcego que pode me atacar sem querer é a Fluttershy com fome de maça...Alias, ocê num é morcego não? Eu teria que desconfiar de ocê também...

F – Ahhhh... Eu... Eu... Eu sou homem de família... Digo, morcego de família. Como poderia mordê-la?

TS – Fiquem tranquilos, rapazes... A região de Ponyville é segura para se andar a noite. Desde que se fique longe das florestas... A noite elas são perigosas mesmo, hehehehe... É sério, fiquem longe das florestas

F – Logo lá que eu não sinto medo... E você me manda ficar longe?

A – Sem crise, Twi... Agora, se acontecer algo, nos comuniquem. De alguma forma, vamos chegar rápido.

AJ – Beleza... A gente se vê amanhã...tchau procês... Manda um tchau pra Rarity... Se ela acordá...

Assim, seguiu-se a pônei loura rumo a casa. Ouvia-se ao longe Applejack teimando para puxar a carroça junto do irmão, sendo toda vez repreendida por ele e por Applebloom.

Tinha sido um longo dia e eu e Frost teríamos de voltar a biblioteca para colocar as coisas em ordem e refletir sobre tudo o que verificamos acerca do incêndio e do estado de Rarity. Hora de cruzar informações, tecnicamente falando.

Twilight não voltaria com a gente, teria de regressar ao castelo, mas deixaria Spike conosco mais alguns dias, ajudando a conhecer a casa. Ela ainda demoraria a sair, já que daria um último alô aos pais de Rarity, e foi até o quarto na ala especial.

Ficamos eu e Frost, junto de Spike, na porta do Hospital aguardando a alicórnio retornar. A movimentação da tarde havia cessado, e a noite escura nos arredores era quebrada pelo cantar dos grilos e o vento que, calidamente, balançava as folhas das árvores.

A – Ela costuma demorar assim em outros lugares, Spike?

Sp – Deixe-me ver... Banho, estudar, trancar o castelo a noite... Fora isto, não me recordo mais...

F – Mulheres, meu caro dragão... Demoram até para dar o primeiro passo. Ela disse que só daria um alô. Não disse?

A – Será que a Rarity deu sinal de vida e ela não voltou por isso?

Sp – Se vocês quiserem, posso dar uma olhada... Já volto

Spike saiu em disparada para dentro do Hospital. Apenas a equipe de plantão estava lá dentro, pronta para passar a noite. Frost e eu falávamos qualquer coisa invariável, não apenas sobre o caso com Rarity, mas sobre nossas impressões sobre Ponyville e Equestria.

Já vislumbrávamos que não seria nada fácil conduzir investigações com a tecnologia que havia lá. No entanto, os pôneis se mostravam colaborativos, educados e muito alegres, especialmente por conta dos broches imperiais que carregávamos no peito.

Eis que, um som de galope pequeno era ouvido a distância. A postos, ficamos em posição esperando que fosse algum pônei pedindo socorro...e era. A pequena Applebloom corria afoitamente, sem seu laço rosado no pescoço.

Ela correu direto para o hospital e a seguimos, talvez ela não tivesse nos visto do lado de fora. Ao nos ver gesticulando pedido para voltar a porta, a pequena pônei literalmente atropelava os enfermeiros no corredor de entrada. Ao nos alcançar, a notícia que eu não queria ouvir, entre soluços e a respiração cansada...

AB - Rap... Apple...ai ai.. Rapta...

F – Calma, pequenina, você tá mais ofegante que pangaré de derby...

AB – A... Ai... RAPTARAM MINHA IRMÃ!

A – COMO É? Applejack foi raptada?

AB – Foi agora... Agora há pouco... Estávamos perto de casa e... Uma sombra nos atacou...

F – Uma sombra? Como?

AB – Não sei... Só sei que, quando vimos, ela sumiu no escuro... Big Mac ficou lá procurando por ela... E... Corri até aqui esperando encontra-los...

F – E fez certo... Mas... Era só o que nos faltava. Não bastasse Rarity no hospital agora, Apple... ANDRÉ, ONDE 'CE VAI? (olhando pra rua fronteira ao hospital)

A – Applebloom, vamos... Precisamos ir atrás de Applejack... Acho que ainda podemos encontra-la

AB – (correndo em direção ao Mini)...

F – André, e quando a Twilight? Vai deixar a princesa a pé?

A – Ela sabe o caminho... Comunique a ela e procure por pistas...

F – Mas André...

A – Vamos, Applebloom, entre e me diga o caminho (sai cantando pneus na noite adentro).

Em marcha acelerada, cruzávamos o estradão rumo ao caminho do Rancho Maça Doce, quase o mesmo que entramos pela primeira vez em Ponyville. Mesmo com as luzes auxiliares na dianteira, era difícil acelerar diante do breu que estava aquela noite.

Applebloom indicava o caminho pelas placas que conseguia ver sentada ao meu lado, no banco do carona. Precisávamos agir logo, Applejack corria perigo e, pela evidencia dela ser a única pônei além de Rarity na loja, a chance de encontrar alguma evidência do incêndio.

Ao entrar no caminho para o Rancho, acendemos os dois nosso sinal de atenção. Estávamos superconcentrados, mas sem perder o foco nas perguntas:

A – Vocês estavam vindo a caminho e uma sombra os atacou, é isso?

AB – Bem... Não exatamente. Foi uma espécie de raio. Não deu pra ver muita coisa, foi muito rápido...

A – Eu vejo, estás com um arranhão numa das patas... Está doendo?

AB – Um pouco apenas... Deve ter sido quando a carroça virou. Big Mac ficou de ponta cabeça... E, depois, não vimos mais Applejack...

A – Applebloom, me avisa quando parar antes que eu passe do ponto...

Mas não precisou tanto. Surpreendido do nada, aparece como um corisco a noite, Big Mac parado exatamente no meio da estrada. O jeito foi frear com tudo que tinha no Mini, torcendo o carro para o lado para evitar o choque, o que consegui. Applebloom acabou de ponta cabeça dentro do carro, mas ao menos não fizemos moída do irmão mais velho dela.

Ao sair do carro, a carroça de rodas para o ar, um Big Mac assustado pela freada do Mini e todas as dúvidas vindo ao mesmo tempo na cachola...

A – Foi aqui então que houve o ataque, isso?

BM – Eeyup!

A – Ajudou muito, meu caro vermelhão... E não sabem para onde ela foi?

AB – Estava embaixo da carroça, só ouvi minha irmã tentando enfrentar a pônei. Mas depois, não ouvi mais nada... Por favor, André... Ajuda a gente... Estamos com medo, ainda mais depois do que aconteceu ontem...

A – Ahhhh... Claro que sim, Applebloom... E que isso sirva de lição. Eu queria ter dado carona a vocês, mas Applejack não aceitou o convite. Naquele estado dela, e sem cuidados, ela pode voltar a ficar mal...

BM – Eeyup!

Mesmo conversando em um tom razoavelmente alto, ouvimos um estalar de galho em um dos campos ao lado da estrada. Havia um muro separando o caminho dos campos de maçã. Em uma placa próxima apenas o aviso de "seleção especial para cidra".

Mais um momento de silêncio e novos estalos no meio do campo, desta vez do lado esquerdo da via. Precisava agir.

Coloquei o Mini atravessado na estrada, com os faróis apontando para dentro do campo. Deixei-os no máximo, o que podia ajudar em algo:

A – Applebloom, Big Mac... Aconteça o que acontecer, não saiam daqui de perto do carro. Não mexam em nada... Eu vou atrás de Applejack (pulando o muro branco)

AB – Cuidado! Grite se precisar de nós!

Esgueirando-se por entre as macieiras, arbustos e pedras daquele campo, ia eu a procura de algo ou alguém no meio daquelas frondosas árvores, que gotejavam o orvalho frio na minha cabeça.

Gritava por Applejack, torcendo para que ela me ouvisse ou desse sinal, mas nenhum resquício da voz da pônei loura por entre as sombras das macieiras.

Ia tudo bem... Até as luzes do Mini se apagarem repentinamente. Poderia ter acabado as baterias? Applebloom mexido em algo que não devia? Eu não sabia mais nada. Estava acuado esperando alguma coisa e ainda chamando por Applejack. Foi apenas chamar, e novos estalos ouvia naquele breu que havia se formado. Applebloom e Big Mac gritavam por mim, e respondia que estava bem... Teimoso.

A – Onde eu me enfiei? Agora, sair daqui seria difícil demais... Eu vou...

Antes que pudesse terminar a frase, um disparo de um raio rosado me atingiu em cheio no ombro. Cai desorientado, mas não totalmente tombado. Levantei-me urgentemente, novos disparos vinham. Alguém me via, mas eu não via quem disparava. Era caótico, e sem contar com a força plena de meu sobretudo tinha apenas os discos 78 que disparava manualmente.

Meio que tentando adivinhar a posição do atirador, atirava discos velozmente. Os escutava apenas acertar árvores. O atirador revidava com tiros de um raio rosado que, ora saiam para o nada, ora acertavam as árvores.

Um dos tiros acertou em cheio a copa de uma das macieiras. Maçãs e maçãs caíram por sobre mim. Estava desnorteado e cercado pelo escuro, talvez na mira do atirador.

A – É bom você aparecer... Ainda estou armado e acerto bem neste breu... AGORA! Em nome de Celestia!

Mentira deslavada, eu tinha ainda um disco apenas embainhado. Meu sobretudo tremia pela fraqueza de magia que continha em si. Fechei os olhos, ouvia os estalos, e junto deles agora uma respiração ofegante, como se faltasse o ar.

Não sabia se era a mesma pessoa, Applejack poderia estar junto do atirador, como refém. Escondido atrás de uma macieira bem grossa, fechei os olhos, respirei fundo e me preparei para o tiro. Sem ver absolutamente nada.

A – (sussurrando) Uma bala só... Ok, André Miles... A hora é agora, agora é a hora... La vai nada!

Desvirando-me do tronco da macieira, atirei. Foi quase certeiro. Uma voz feminina protestou de dor. Gritei outra vez por Applejack, mas foi só isto. Outro tiro de raio acertou em cheio um grande galho da macieira... Que tipo de reação ter em menos de dois segundos?

A – O-opa... Acho que...

O galho da macieira cai violentamente sobre mim...ainda pude amortecer um pouco a queda, mas não o suficiente para me apagar sem piedade por sobre um monte de maçãs. Ouvia sumindo na minha mente os gritos de Applebloom e Big Mac, ainda mais desesperados.

Galopes entraram em meus ouvidos e minha cauda, mal dobrada pela queda no chão, doía muito. Outra vez, pela segunda noite seguida, apaguei por conta de um acidente. E, desta vez, a coisa era bem mais séria.