Capítulo 10

Eu nasci em uma época e em um lugar que ter filhas mulheres não era uma vantagem. Primeiramente porque não era bem visto que uma mulher trabalhasse no campo junto de outros homens. E, naquele lugar, não havia muito no que se trabalhar. E, em segundo lugar, filhas mulheres não continuariam com o nome da família, assim, todos os pais desejavam ter filhos homens para sustentar a casa e continuar o legado. Logicamente isso não era um problema se você fosse de uma família rica. As garotas ricas não precisavam trabalhar, apenas arrumar um bom marido. Coisa que era difícil sendo uma garota pobre. Não que as garotas pobres não arrumariam maridos, de forma alguma! Elas sempre arrumavam alguém carinhoso e que a as amavam muito. E só. Não estou dizendo que isso não basta, mas, a única vantagem de se ter uma filha mulher, era o cortejo. E esses homens geralmente não tinham muito que dar.

Meu pai foi um rapaz pobre, que se casou com uma garota pobre. Ambos tinham muito amor um pelo outro, pelo menos no começo do casamento. E desejavam formar uma família. A primeira vez que minha mãe ficou grávida foi uma festa na vizinhança. Meu pai já dizia com o peito inflado de orgulho que seria um menino. Um grande rapaz que iria ser forte e trabalhador e ajudaria na prosperidade da família. Não preciso dizer o tamanho da decepção dele quando minha irmã mais velha nasceu. Ele sequer levou-a para ser registrada. Não olhava nunca para a criança. Minhas tias diziam que foi nessa época que ele começou a beber. Depois de alguns meses minha mãe engravidou novamente e surgiu a esperança de ter um garoto e fazer com que meu pai voltasse a ser o marido carinhoso de antes. Foi uma gravidez difícil e ela teve que ficar de repouso nos últimos dois meses. O parto acabou sendo mais cedo que esperavam e minha outra irmã nasceu com problemas respiratórios. Durou apenas alguns dias antes de morrer. Sequer teve tempo de receber um nome.

Alexandra, minha irmã mais velha, já estava com três anos quando minha mãe engravidou novamente. Eu nasci uma garota e isso foi a gota d'água para o meu pai. Além de beber ele começou a bater em minha mãe. Uma noite, ele chegou em casa com mais dois homens trazidos do bar, e ordenou que minha mãe se deitasse com eles. Porque eles tinham filhos homens e seriam capazes de fazê-la ter um também. É óbvio que minha mãe se recusou a fazer uma coisa dessas, mas ele e os outros dois a forçaram e a machucaram até que ela desmaiasse.

Minha irmã assistiu tudo pela fresta da porta. No dia seguinte minha mãe me levou para a casa de uma tia minha e depois pulou de um penhasco com minha irmã no colo e morreram as duas.

Minha tia não era casada, mas tinha um ótimo trabalho como empregada na casa de uma família muito rica. A família Malfoy. Eles tinham um filho de dez anos quando eu fui morar na casa deles com minha tia. Damnum Malfoy era um garoto encrenqueiro e mimado, exatamente como o pai. Já a Senhora Malfoy, sua mãe, era uma das pessoas mais dóceis do mundo inteiro. Sonhara a vida toda em ter uma filha e ensiná-la a ser uma dama. Mas não podia mais engravidar depois do parto difícil que teve com Damnum.

Quando minha tia Maria chegou comigo na casa da família Malfoy, a Senhora Malfoy se encantou pela pequena menina que eu era. Cuidou de mim o melhor que pôde, dentro daquilo que o seu marido lhe deixava. Viu-me crescer e me ensinou tudo o que uma dama deveria saber. Literatura, música, modos e até culinária. A Senhora Malfoy era uma fã de culinária.

Eu deveria ter uns treze anos quando eles receberam a visita de um amigo vindo de muito longe. Era um senhor de uns quarenta e poucos anos, solteiro e rico. Na mesma hora ele se encantou comigo, que na época já trabalhava como dama de companhia da Senhora Malfoy. O Senhor Malfoy não gostava de mim. Dizia que eu fazia com que sua esposa perdesse tempo com coisas banais. Ofereceu-me como esposa para o seu amigo e ele aceitou no mesmo instante. Minha tia e a Senhora Malfoy foram bravamente contra esse casamento. Mas o Senhor Malfoy enviou minha tia Maria para trabalhar na casa de verão deles e a Senhora Malfoy foi mandada junto com Damnum para o exterior.

O Senhor Reverbel era demasiadamente rico. Poderia ter encontrado outras milhares de jovens dispostas a casar com ele, mas tinha se encantado por mim. Naquela época o casamento com crianças não era uma coisa deplorável como é hoje em dia. Se você tivesse dinheiro poderia ter quem quisesse. E aquele maldito francês tinha mais do que dinheiro, ele também podia contar com a raiva que o Senhor Malfoy, meu patrão, sentia por mim. Nunca soube o motivo dessa raiva, mas era algo explicito.

O casamento ocorreu em poucos meses. Na cerimônia nem minha tia, nem minha Senhora haviam comparecido. Foi triste entrar naquela igreja e não ter um único sorriso de apoio. E mais triste ainda não ter alguém para me preparar para o que aquele homem faria comigo na lua-de-mel.

O Senhor Reverbel queria um filho tanto quanto meu pai quis um dia. E depois de cinco anos tentando eu não tinha engravidado. Ele me levou em médicos e mais médicos até que um lhe disse que eu realmente nunca teria uma criança. Eu era seca. Naquela noite ele me bateu no estômago até eu sangrar. No dia seguinte me levou de volta para a Inglaterra com o intuito de me devolver ao Senhor Malfoy. Foi uma briga horrorosa, o Senhor Malfoy não queria que eu voltasse a morar lá e o Senhor Reverbel não me queria como esposa. No fim, me deixaram em um beco escuro, abandonada.

Eu comecei a pedir dinheiro para poder comer e dormir naquele beco todos os dias, com a esperança de que algum deles se arrependessem e me buscasse. Não o fizeram. Depois de alguns meses nas ruas, eu já estava sem esperanças, quando vi uma mulher loira e alta saindo de uma boutique. Era a minha Senhora Malfoy. Corri até a direção dela e agarrei-lhe os joelhos antes que ela entrasse no carro. Ela me reconheceu e chorou a me ver. Cinco anos não tinham sido o suficiente para fazê-la me esquecer.

Não podia me levar para casa, pois o Senhor Malfoy me expulsaria novamente. Então me levou para Londres e me arrumou trabalho na casa de seu filho recém casado. O Senhor Damnum me recebeu educadamente, e sempre foi um patrão justo. Mas somente à pedido de sua mãe. Ele não era exatamente uma pessoa boa, mas estava mudando graças ao amor de sua linda esposa, Catarina. Eles tiveram uma criança em poucos meses. Lucio era exatamente como o avô e teria me oferecido como esposa para qualquer mendigo que lhe cruzasse a vista. Minha sorte era que Lucio não costumava cruzar com mendigos.

O Senhor Damnum foi mudando muito conforme ia envelhecendo, no final da vida era quase tão bom quanto a Senhora Catarina. E começou a acreditar cegamente em amor e caridade. Era um milagre o que aquela mulher tinha feito com ele. Quando Lucio casou-se com Narcisa, eu continuei trabalhando para o Senhor Damnum, até Draco nascer e Narcisa precisar de ajuda. Então eu fui mandada para a casa deles. O Senhor Damnum e sua esposa ainda tinham um carinho especial por mim e exigiam que eu fosse tratada bem. Narcisa era uma boa mãe, mas não tinha tempo de dar a Draco a atenção que precisava, devido aos jantares que Lucio vivia promovendo em sua casa. Lucio nasceu para ser político. E assim o faz desde que descobriu isso.

Narcisa quem me manteve em casa todos esses anos. E quando Draco cresceu mais um pouco ela me promoveu governanta, para que eu pudesse passar mais tempo ao lado do menino.

Nunca mais me casei e nem penso em fazer isso. Casamentos não são bem sucedidos em minha família. Além de eu já estar com quase sessenta anos e não achar que eu vá encontrar um homem bondoso e apaixonado por mim nessa idade. Mas sou muito feliz com a vida que levo. Draco é o filho que nunca pude ter. E é por isso que eu sei que ele é um bom rapaz, e é por isso que eu sei que você vai se apaixonar por ele.

Ginny olhou para Amélia e sorriu. Quando perguntou se ela conhecia Draco desde que nasceu, não era exatamente isso que esperava escutar. A vida de Amélia tinha sido de rejeição, violência e falta de amor. Mas mesmo assim ela conseguia ter um sorriso no rosto e acreditar em um final feliz para ela e Draco.

"Agora eu vou deixar você dormir, porque já está tarde e amanhã você vai ter que buscar o seu vestido" Amélia deu um beijo na testa de Ginny e deixou o quarto.

A garota ajeitou-se na cama e fechou os olhos pensando no que Amélia tinha dito sobre o avô de Draco. Uma pessoa poderia mesmo mudar por causa do amor de outra pessoa? Draco mudaria pelo amor de Ginny?

Deixe de ser estúpida, Ginny. Damnum Malfoy amava Catarina, Draco não te ama.

Ou amava? Desde o seu aniversário eles não falaram mais sobre o beijo. Mas Draco a beijara outras vezes. Beijos rápidos e sem preliminares. Ele esperava que ela ficasse sozinha, encostava-a em uma parede e lhe beijava ferozmente, depois saía como se fosse um fantasma. Ela começou a ficar sozinha mais vezes depois que isso começou a virar um padrão.

Ouviu a porta se abrindo e abriu os olhos. Draco estava entrando em seu quarto e ia diretamente para ela. Ela sabia que isso ia acontecer, ele ia para o seu quarto todas as noites antes de dormir.

Ele sentou-se ao lado dela na cama e ela sentou-se também. Como todas as outras vezes não houve uma única palavra. Ele segurou-lhe a nuca e colou os lábios nos dela. Avançou com a língua para dentro de sua boca e chegou mais perto para que seus corpos se encostassem o máximo possível. Ela sentia a língua dele brincando com a sua e desejava que aquilo fosse para sempre. A boca dele era incrivelmente quente, comparada ao seu corpo. Ele continuava a trazê-la mais para perto. Ela jogou o corpo para trás e ele se deitou sobre ela. Uma das mãos dele começou a investir pra baixo da coberta. Quando alcançou sua cintura ela o sentiu correndo os dedos gelados para suas coxas. Isso era novo. Geralmente ele parava antes de chegarem a se deitar. Os beijos costumavam ser rápidos. Mas aquele estava bem além do tempo normal e estava bem mais ousado também. Ele alcançou a barra de sua camisola e colocou a mão entre ela e sua pele. Começou a subir devagar até chegar no elástico de sua calcinha. Parou ali e tirou os lábios dos lábios dela, mas somente para começar a beijar seu pescoço. Com a ponta dos dedos fazia o contorno do formato da calcinha dela. A parte interna das coxas de Ginny estava queimando. Ela desejava mais do que tudo que ele arrancasse fora sua camisola e fosse até o final. Ele voltou a beijar os lábios dela e de repente parou. Levantou-se e começou a sair do quarto. Ginny ficou um tempo parada exatamente no mesmo lugar, como se esperasse que ele voltasse a lhe beijar. Quando a porta bateu e ele já não estava maia lá, foi que seu coração começou a bater em um ritmo normal novamente.

***

Draco entrou em seu quarto e jogou-se de costas na cama. Qual era o problema dele? Estar apaixonado por Ginny não lhe dava o aval de beijá-la todos os dias (e noites também). E dessa vez ele tinha chego muito mais perto de dormir com ela, do que em qualquer outra noite. Não poderia dormir com ela. Se não conseguia mais parar de beijá-la, depois do primeiro beijo há cinco semanas. Se dormisse com ela o que ele iria fazer depois? Pedi-la em casamento?

Vocês já estão noivos. Lembrou-se em pensamento.

Mas essa não era a questão. A questão era que ele estava agindo como um idiota apaixonado e que isso tudo iria dificultar as coisas quando voltassem para Hogwarts no dia seguinte. Se estômago remexeu quando se lembrou disso. Queria voltar a ser bruxo, sem a menor dúvida. Mas não sabia se queria voltar para a vida normal onde ele e Ginny não podiam ficar se agarrando todas as horas que ele bem entendesse.

A porta de seu quarto abriu e ela entrou. Parecia furiosa quando bateu a porta atrás dela e avançou para perto de sua cama.

"O que você pensa que está fazendo, Malfoy?" ela gritou enquanto colocava as mãos na cintura.

"Estou tentando dormir" ele sabia que não era sobre isso que ela perguntava, mas não estava nem um pouco disposto a ter uma discussão de relacionamento com ela. Discutir a relação era a primeira prova de que havia uma relação. E ele não tinha certeza se era isso que ele queria.

Ela levantou uma sobrancelha e bufou.

"Você sabe sobre o que eu estou falando" ela baixou o tom de voz deixando a frase excepcionalmente ameaçadora.

Era lógico que ele sabia. Não era tapado. Mas ela saber que ele sabia dificultava tudo. Suspirou sabendo que não tinha como fugir. Ia ter que falar coisas que não estavam em seus planos de curto prazo.

"Eu estou te beijando sempre que surge a oportunidade" ele respondeu como se não fosse nada demais. Bom, pelo menos era o que ele queria que parecesse.

Ela sentou na beirada da cama dele. Ele sentou-se também.

"Por quê?"

Esse era o tipo de pergunta que ele não queria que ela tivesse feito. Toda vez que ele se arrependia de ter terminado seu namoro com Pansy ele lembrava dos 'por quês?' que ela sempre estava dizendo e sentia-se aliviado por não estar mais namorando. Esse era o problema das meninas, sempre tinha que ter um por que.

"Porque provavelmente quando nós voltarmos para Hogwarts eu não terei mais essas oportunidades. Sabe como é, certo? O que pensariam se me vissem beijando uma Weasley em algum corredor do castelo?"

Oh Merlin! Que mentira! Ele não estava beijando-a por isso. E sim porque estava completamente apaixonado por ela, mas como diria isso? 'Hey, Weasley! Estou completamente apaixonado por você!' Isso soaria ridículo! E ele provavelmente não seria homem o suficiente para assumir para Hogwarts que estava com ela. Ele não era muito corajoso quando suas idéias iam contra o senso comum.

"É lógico" ela sussurrou abaixando a cabeça e sorrindo tristemente.

Droga! Porque ela estava fazendo isso com ele? Outro problema das meninas era sempre sorrir tristemente com as respostas insensíveis dos garotos. O que ela esperava? Que ele dissesse que estava apaixonado? Quando foi que ele fez com que ela acreditasse que ele era esse tipo de cara?

Quando você a beijou e a abraçou delicadamente.

"Qual é, Ginny!" ele tentou o máximo possível parecer desencanado "Você não pode simplesmente deixar como está?"

"Não Malfoy, eu não posso" ela levantou-se e dirigiu-se para a saída. Parou com a mão na maçaneta e continuou sem olhar para ele "Se tudo der errado amanhã, e nós voltarmos para essa vida. Nada de beijos, nada de visitas noturnas, nada de passeios ao forte." Ela olhou para ele "Afinal, eu sou uma Weasley, né?" e saiu.

Draco esmurrou a cabeceira da cama com força antes de se jogar deitado novamente. Se ele a queria tanto, porque ficava afastando-a de todas as formas possíveis?

Fechou os olhos sabendo que não conseguiria dormir.

***

Ginny bateu a porta do seu quarto e se jogou de bruços na cama. Agarrou um travesseiro e afundou ao rosto nele. A culpa era dela – e um pouco de sua mãe também – que ficavam lendo aqueles contos de fadas onde as garotas acabam com o rapaz no final. Mas não existia um conto sobre uma garota pobre que se apaixona por um rapaz rico e ele vai contra sua família para ficar com ela. Merlin! Porque ela tinha que fazer isso sempre? Havia muitos garotos que sonhariam em estar com ela. Mas ela sempre tinha que escolher um que não ficaria de jeito nenhum. Ou porque seu irmão mataria o garoto, ou porque ela correria perigo, ou porque ela era uma Weasley. Será que ela nunca iria escolher um caminho fácil? Sentiu calor e levantou-se para abrir a janela. Olhou para fora e não acreditou, o sol já estava nascendo. Ela dormiu uma noite inteira e nem percebeu.

Estava com sono ainda, mas sabia que sairiam cedo para pegar o Expresso de Hogwarts. Se tentasse dormir de novo não iria descansar nada e ainda ficaria de mau humor quando acordasse. Decidiu que a melhor opção era tomar um banho e alguns litros de café. Olhou-se no espelho do banheiro e estava com o rosto inchado. Ótimo! Amargurou-se Agora ele ainda vai saber que eu estive chorando. Entrou debaixo do chuveiro e ficou planejando desculpas para o estado do seu rosto. Não que ele fosse perguntar.

Deve ter demorado muito no banho, porque quando saiu o sol já estava completamente no céu. Ia ser mais um dia quente. Pelo menos lá onde eles estavam, Londres provavelmente não estaria tão quente assim. Nunca fazia tanto calor em Londres. Colocou uma roupa fresca, mas pegou um casaco de um tecido impermeável para levar junto. Outra característica de Londres era o tempo sempre úmido, com uma chuva fina que flutua*. Desceu para a sala de jantar, não esperando que o café já tivesse sido servido, estava apenas tentando manter-se ocupada para não pensar na noite anterior.

Entrou no cômodo e surpreendeu-se quando viu Amélia tomando café da manhã. Imaginava que ela fazia as refeições junto dos outros empregados.

"Bom dia!" a senhora a cumprimentou com um sorriso no rosto. "Eu já ia acordá-la, mas pelo jeito você foi mais rápida."

Ginny sentou-se na cadeira paralela à senhora.

"Bom dia" respondeu sorrindo também "temos café?"

Amélia indicou uma garrafa térmica de inox – como tudo nessa casa – a qual Ginny pegou e encheu sua xícara. Será que Amélia conseguiria mais para que Ginny levasse na viagem?

"Eu queria levar um pouco de café para a viagem, se for possível" pediu sorrindo.

"Claro querida! Assim que eu terminar eu peço para Edward providenciar" a senhora respondeu ainda sorrindo.

Tomaram café em silêncio e Ginny imaginou que Amélia deveria estar acostumada, já que ninguém acordava tão cedo para acompanhá-la. Sentiu dó da senhora quando se lembrou da história que havia escutado na noite anterior. Quando voltasse para Hogwarts, provavelmente sentiria falta de Amélia.

Ginny já deveria estar na quarta xícara de café, quando Amélia pediu licença e deixou a sala de jantar. Somente em sua sexta xícara que Draco entrou. Ele também não parecia ter dormido divinamente.

Nenhum dos dois se cumprimentou. Assim que ela terminou sua sétima xícara de café – e já estava se sentindo estufada – levantou-se e voltou para o seu quarto com o intuito de escovar os dentes antes de saírem. Pela primeira vez, desde o seu aniversário, ficou aliviada com a idéia de estar voltando para Hogwarts, ao menos lá sua vida voltaria ao normal.

A viagem até Londres foi silenciosa. Draco ficou a maior parte do tempo olhando para fora. Ginny tentava fazer o mesmo, mas não conseguia deixar de olhar para ele vez ou outra. Quando entraram na cidade Draco inclinou o corpo para frente e falou com o motorista.

"Nós vamos passar na estação King's Cross primeiro" ordenou com uma voz seca.

O motorista apenas acenou com a cabeça e continuou a olhar concentrado para frente.

Ginny sentiu um frio no estômago quando avistou a estação. Uma sensação de estar chegando em casa invadiu seu peito. Ela voltaria para Hogwarts e tudo isso acabaria. Nada mais de Molly vaca. Nada mais de casamento forçado. Nada mais de Draco. Com esse pensamento a sensação do seu estômago passou de frio para dor. Ela não queria ficar sem o Draco, mas em Hogwarts ele não iria ficar com ela. Desceu do carro, totalmente desanimada. Se algum dia ela teve uma chance de ficar com ele, essa chance iria embora assim que eles atravessassem para a estação 9 ¾.

"Espere-nos aqui" Draco disse ao motorista enquanto descia do carro. A garota ficou com dó do rapaz, e imaginou que seria demitido quando voltasse para casa sem nenhum dos dois.

Ginny vestiu seu casaco enquanto atravessavam a chuva fina até o local coberto da estação. Draco andava ao seu lado e ela teve vontade de pegar em sua mão uma última vez. Mas ele estava com as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo preto que usava. Ele parecia um Comensal da Morte vestido daquele jeito.

Ela estava distraída pensando em Malfoy e o chão estava molhado. Quando percebeu que tinha escorregado, já estava caindo. Sentiu que alguém a segurou pela cintura evitando o tombo. Quando olhou para o lado para a pessoa que lhe amparava viu o sorriso de um rapaz de vinte e poucos anos, moreno e bem alto. Era um rapaz bem bonito.

"Cuidado aí, ruiva" ele sussurrou sorrindo enquanto ajudava Ginny a se levantar.

Ela sentiu alguém segurando seu braço com força. Olhou para o dono da mão que lhe apertava. Draco estava com o rosto duro e olhava através de Ginny.

"Não encoste nela" ele mal abriu a boca para dizer.

O rapaz moreno colocou as mãos para cima e continuou sorrindo.

"Você deveria me agradecer por ter feito aquilo que você não fez!" e saiu.

Ginny ainda olhava para o rapaz que ia embora quando sentiu sua cintura sendo puxada. Olhou assustada para Draco quando percebeu que ele estava lhe abraçando. O frio no estômago ficou voltou mais gostoso ainda.

"O que?" Draco perguntou quando viu que ela não tirava os olhos dele "Se eu não te segurar, é capaz de você cair e nos fazer perder o trem" sua voz era indiferente.

"Não estou reclamando" ela respondeu e sorriu. Talvez aquele futuro que ela estava imaginando não ia embora tão cedo assim.

***

Draco avistou a plataforma nove e sorriu. Estava perto de poder usar magia novamente. Não via a hora de poder apagar as luzes do quarto ainda deitado em sua cama. Ou de poder lançar um feitiço quando alguém te enchesse o saco. Ou de jogar Quadribol quando estivesse sem absolutamente nada para fazer. Ou de calar a boca de Ginny quando ela começasse a tagarelar. Alguma coisa em seu peito se contraiu. Provavelmente em Hogwarts ele não iria ouvi-la tagarelar. Quando voltasse a ter mágica em sua vida, ele não teria mais Ginny. De repente, jogar Quadribol ou apagar luzes, não te parecia mais tão bom assim. Você não vai desistir da magia por causa de uma garota! Talvez ele não precisasse desistir. Poderia perfeitamente ficar com ela em Hogwarts. Como se você tivesse coragem disso. Olhou para ela e viu um pequeno sorriso nos lábios da garota. Ela estava feliz por estarem voltando à Hogwarts.Mesmo sabendo que eles não ficariam juntos lá, ela estava feliz. Ainda que ele desistisse da magia para ficar com ela, talvez ela não desistisse para ficar com ele. E provavelmente ela também não iria querer ser vista com um Comensal. Uma idéia passou pela sua cabeça, mas ela logo se foi. Ele não gostava tanto assim dela pra abandonar a vida de Comensal.

Pararam perto da plataforma nove e suspiraram juntos, como se tivessem planejado aquilo. Draco olhou ao redor deles e percebeu que havia alguma coisa errada.

"Não há crianças bruxas aqui" Ginny verbalizou seus pensamentos.

E não havia mesmo. Nem um única criança com um malão e uma gaiola com corujas. Ou ratos. Havia uma garota sentada em uma banco ali perto, e ela acariciava um gato em seu colo. Mas ela não se parecia em nada com uma criança bruxa.

"Talvez aquela garota seja mestiça" Ginny novamente disse o que se passava pela cabeça dele.

"Talvez todos já tenham passado pela barreira" Draco deu de ombros.

Ginny segurou sua mão e ele olhou para ela com uma sobrancelha levantada.

"Nós vamos juntos?" perguntou com uma voz insegura.

Ela queria atravessar de mãos dadas com ele. Ele deu de ombros como se não se importasse.

"Pelo menos se nós batermos com a cabeça, nenhum dos dois vai poder rir do outro"

Ela riu e concordou com a cabeça. Eles avançaram devagar até a barreira. Draco fechou os olhos quando ia ultrapassá-la. Apertou a mão de Ginny na sua.

Essa é a escolha certa. Você sabe disso.

N/A: Suspense no ar!

Sim! Eu fiz um capítulo menor só para deixar vocês na vontade!

Hauhauuaauauhau

Como eu sou malvada.

Bom, nós estamos chegando na reta final. =//

Só mais dois capítulos em um epílogo, talvez (mentira, vai ter sim um epílogo).

Desculpe por esse capítulo não ser tão legal assim, mas é que o próximo capítulo já vai ser o quase final de tudo.

Beijos.

Comentem, por favor!

*Meu irmão descreveu Londres exatamente dessa forma, um lugar sempre úmido como se tivesse uma chuva fina que flutua. Achei uma boa descrição, e acabei usando, mas os créditos são dele (ainda mais porque eu nunca estive em Londres).