Disclamer: Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada e a ele todos os direitos são reservados. Mas os sobrenomes dados aos cavaleiros nesta fanfic são de minha autoria. A Música incidental é I Walk the Line, de Johnny Cash.

Capítulo X - As Sure as Night is Dark and Day is Light

A região cerealista do centro de São Paulo estava apinhada de gente naquela manhã. Os carregamentos chegavam de toda parte em diversos caminhões e carretas, fazendo o odor característico de diferentes especiarias se mesclar por entre as quadras da rua Santa Rosa.

As duas jovens caminhavam já há algum tempo e a mais alta parecia cansada e sonolenta. Era ainda muito cedo, quase madrugada, mas Débora parecia sentir prazer naquela caminhada e de vez em quando perdia a vista em uma esquina, como se procurasse algo do outro lado da avenida, no prédio do Mercado Municipal.

- Até agora eu não entendi porque eu saí da minha cama aquela hora, pra te acompanhar nesse seu programa "espetacular" na busca dos seus temperos perdidos...

- Ah, vai dizer que não é maravilhoso sentir o cheiro de canela e curry em um canto e aguardar pela próxima mistura de aromas do quarteirão seguinte?

- Fala sério... To ficando enjoada! – a ruiva fez uma careta. – Você já não achou tudo que precisava? Vamos logo embora, pelo amor de Deus!

- Calma, falta só o cardamomo.

- Tinha essa coisa em três das lojas que ficaram pra atrás...

- Muito caro! Mais pra frente tem um lugar que é mais barato. E além disso foi você que se ofereceu, porque disse que tinha uma coisa pra me contar e até agora não abriu o bico.

- Que jeito? Quando não tá negociando o preço do tomilho, tá olhando pro Mercadão pra ver se enxerga um certo grego que agora está de entregador peixe nas horas vagas! Fique sabendo que se eu chegar perto de um carregamento daquele agora, eu vou chamar o juca, então nem tente me usar de desculpa!

Débora pisca por alguns centésimos de segundo, sentindo-se descoberta e encarada pelo cinismo típico da amiga.

- Eu não ia te usar de desculpa! – fez-se de indignada e depois sorriu brincalhona. - Pra isso tem o cardamomo e as outras coisas.

As amigas riram cúmplices e Débora entrou em um estabelecimento de cheiros exóticos. Aspirou o ar por um instante com os olhos fechados, tentando identificar alguma parte daquela variedade enquanto Iara tampava o nariz disfarçadamente. Para a surpresa da segunda, a compra foi rápida e indolor, pois a amiga sabia exatamente a prateleira onde as sementes verdes ficavam.

- Pronto, agora desembucha Iara. Daqui a pouco vou pro trampo e vamos nos desencontrar até domingo ou mais, dependendo do seu programa com o Deba...

Iara tenta respirar fundo quando chega a calçada, mas se engasga com outra mistura de cheiros.

- Quase posso sentir o despertar catastrófico da minha rinite!

Ela limpa a garganta ante ao olhar reprovador da amiga antes de continuar.

- Pra que você usa esse troço mesmo?

- Chai. Já te falei umas cem vezes. – respondeu séria.

- Ah é. Seu café é um horror, mas esse troço você sabe fazer, até que gosto.

- Iara, fala logo. O Deba esperou vários anos, mas eu não tenho todo esse tempo.

- Ai, ta bom! É sobre ele mesmo que eu preciso falar.

- Já fez um ano que vocês voltaram, né? Passou tão rápido! Quando e onde vai ser a festa? – cutucou a amiga, provocando-a como uma criança faria.

- Não é isso... É que... A gente... meio que... A gente decidiu morar junto. Pronto, falei!

Débora parou no meio do caminho, segurando a amiga pelos ombros, sem esconder a empolgação.

- Repete isso, agora!

- Pois é, a gente conversou e... Acontece que eu fiquei preocupada com você e resolvi te perguntar se tudo bem.

- Como assim, preocupada comigo? É claro que vai ficar tudo bem! Ai, nem acredito que ele conseguiu te laçar finalmente!

- Calma Déby! Tenta acompanhar meu raciocínio... Você consegue pagar o aluguel do apê sozinha?

Débora volta repentinamente do transe de euforia e se vira para atravessar a avenida.

- Ah, Iara! Isso é o de menos! Eu dou um jeito... Sei lá, qualquer coisa eu falo com o Isaac ou se o Dite sabe de alguém... Até lá eu faço as contas e penso em alguma coisa!

- Débora, sério. Eu não quero te deixar na mão.

- Iara vai a merda! Que deixar na mão, ta ficando louca? Você às vezes esquece que eu sou só maluca, não um bebê. Pára com isso. Não me use de desculpa pra fugir do Deba outra vez, deixa de ser cagona.

- Ah. Obrigada pela parte que me toca.

Um furgão parou poucos metros de onde elas estavam e Débora avistou finalmente quem procurava. Virou-se para olhar nos olhos da amiga de tantos anos, tentando conter a emoção que sentia.

- Iara, nada me deixaria mais feliz do que você parar de fugir da felicidade. Ele te ama tanto quanto você o ama e vocês vão superar qualquer obstáculo que possa aparecer. Vai pra casa tomar seu merecido café e não se preocupa com mais nada. – beijou-lhe a testa e a abraçou, sendo imediatamente retribuída.

- Obrigada, amiga.

- Ta, ta, deixa isso pra dedicatória do seu livro biográfico. – riram ainda abraçadas. – Agora me dá licença que eu vou ali fisgar um peixe. Tenho que combinar uma coisa com ele, antes que eu me atrase pro trabalho.

Iara sorriu e acenou de longe para Miro quando ele as avistou, pois falara sério sobre o seu estômago não suportar certos cheiros pela manhã. Deixou a amiga com o namorado enquanto combinavam o horário do encontro, sentindo-se um pouco nostálgica, pensando em todas as mudanças que viriam. Ela e Débora moravam juntas desde que puderam cuidar de si mesmas. Ia ser estranho não ver aquela criatura no meio da sala plantando bananeira ou meditando às cinco da manhã ou tagarelando sem parar às onze da noite...

I keep a close watch on this heart of mine
I keep my eyes wide open all the time
I keep the ends out for the tie that binds
Because you're mine, I walk the line

Eram por volta de sete horas da noite, quando Miro passou para pegá-la no trabalho e caminhavam abraçados pela rua em silêncio, até Débora descobrir que ele precisaria ir embora em algumas horas.

- Parece que o fim do mundo chega, mas a sua folga nunca...

Ela resmungou manhosa, o que o fez apertá-la mais em seus braços.

- Sei que esse horário é horrível, mas pelo menos pagam um pouco melhor e consegui diminuir a quantidade de bicos. Achei que você e o Barão iam pegar menos no meu pé. – riu da própria brincadeira e piscou para ela antes de beijar-lhe o pescoço.

- Ah, foi sempre assim o longo desencontro das nossas folgas. Mas parece que...

A moça gaguejou, com medo de parecer sentimental e grudenta demais. Mas foi o grego que continuou sua frase.

- Nos ver tão pouco não é mais suficiente.

Débora diminuiu o passo, espantada por ele ter compreendido. Fez uma careta.

- É, você me pegou. Aproveita e foge agora de mim. – murmurou ela, tirando sarro de si mesma.

Miro achou graça em como a namorada ficara sem jeito e brincou:

- Tarde demais pra correr. E sei que boa parte do seu sincericídio piegas, já é culpa da lua.

Débora ergueu a sobrancelha enquanto cruzava os braços, encarando-o.

- Você não tem medo da morte, tem?

- Se eu tivesse, perderia a melhor parte. - lhe respondeu com um sorriso sedutor.

- Sei.

Miro procurou a lua disfarçadamente com o olhar, e, vendo que estava cheia, confirmou mentalmente que a namorada estava na sua fase mais sensível do mês. Percorreu os dedos vagarosamente pela curva das costas dela pelo corte do vestido, sabendo que seria o suficiente para arrepiá-la.

- Ainda não me disse o que vai querer fazer hoje, gata.

Débora fechou os olhos por um instante quase imperceptível e suas faces coraram levemente, fazendo o namorado sorrir deliciado.

- Se formos pra sua casa, podemos pedir uma pizza. Lá você fala menos e faz mais.

- E o que exatamente você quer que eu faça? – perguntou malicioso, pelo simples prazer de provocá-la.

Ela corou irritada, revirando os olhos.

- Chris, cala a boca.

Deus, como ficava linda assim. - pensou.

Aquele era o momento em que ele mais gostava de roubar-lhe um beijo e o fôlego. Puxou-a bruscamente pela cintura, num beijo lento e exigente. Ela suspira ofegante segurando-o pelo queixo, quando ele afrouxa a carícia.

- Ardiloso, calculista, perverso... – sussurrou em meio ao desejo que sentia.

- Esqueceu de mencionar pianista habilidoso e amante insaciável.

- Eu ia dizer presunçoso e arrogante.

Miro riu divertido. Adorava ver Débora gastar um dicionário inteiro só para evitar dizer um palavrão. Ela colocava mais sonoridade em cada sílaba, o que evidenciava o formato daqueles lábios que sempre o deixaram louco. Sussurrou algo em grego em seu ouvido, com o mesmo desejo de tê-la para si como da primeira vez que a viu.

Beijaram-se uma vez mais, trocando olhares e promessas silenciosas antes de descerem as escadas da entrada do metrô.

I find it very, very easy to be true
I find myself alone when each day is through
Yes, I'll admit that I'm a fool for you
Because you're mine, I walk the line

A pizza estava praticamente intocada na bancada da cozinha e as peças de suas roupas faziam uma trilha até o quarto, onde estavam sentados no meio da cama desarrumada. Miro ainda beijava os ombros da namorada, que estava com o queixo pousado sobre os próprios joelhos e envolvida pelas pernas dele.

- Você ficou um pouco longe de repente. – sussurrou aspirando o aroma dos cabelos dela, beijando-lhe a nuca. – Fiz alguma coisa errada?

Débora sorri e faz que não com a cabeça, erguendo-se um pouco e recostando-se sobre ele, que a envolveu com os braços.

- Desculpe. Não foi nada.

- Me conta, gata. Como está sendo lá na yôga? Você gosta?

- Que pergunta, Chris... – ela ri sarcástica.

- Ei! Eu sei que você gosta da prática, modo de vida e sei lá mais o que... Mas queria saber como está sendo dar aula.

- Me desafia bastante, eu gosto sim. Ganho um pouco melhor, isso também é bom. Mas ainda me cobro muito.

- E a prova de História é quando?

- Não sei. Estou tentando não pensar nisso por enquanto.

- Não se force tanto, dessa vez.

- Talvez eu faça isso.

Miro pensou por um instante, respeitando o silêncio dos pensamentos dela, e arquitetando os seus próprios. Não conseguira encontrar um meio disfarçado de conversar sobre o que queria, então teria de ser direto.

- E a Iara, finalmente te contou?

- Contou o quê?

Ele pigarreia, frustrado por ainda ter que esperar a boa vontade da amiga dela.

- Nada, depois ela te fala. – disfarçou.

- Tá falando dela e do Deba morarem juntos? Isso ela me contou hoje.

- Finalmente.

Ela ri da sinceridade do grego.

- Faz tanto tempo assim que você sabe e eu não?

- O suficiente pra pensar em várias coisas.

- Tipo o quê?

- Que se ela te falou de manhã, ta caindo sua ficha só agora e explica muita coisa.

- É uma sensação esquisita mesmo. Estou eufórica por ela, mas ao mesmo tempo meio nostálgica.

- Já pensou em como vai fazer?

- Ainda não.

- Você podia vir pra cá. – murmurou finalmente, fingindo que não pensara nisso durante um mês inteiro.

- Você ficou maluco?

- Não.

- Chris que diabos você...?

Ela tenta se levantar e virar-se, mas Miro a segura em seus braços, impedindo-a.

- Peraí, gata, respira! Não é nenhum pedido de casamento. Você podia morar aqui até se acertar, só isso. Não estou pedindo que fique pra sempre, nem exigindo que seja só por um tempo. A gente deixa rolar, quem sabe depois eu te convença a ficar. Mas por enquanto não leve tão a sério. Só pense que vamos nos desencontrar menos.

- Lógico. Claro. Resolve tudo! Até o dia que você quiser ficar sozinho e não puder fazer isso na sua própria casa.

Desta vez ela se levanta, recolhendo suas roupas e vestindo a blusa, enquanto o namorado a observava perplexo.

- Eu o quê, Débora? Que papo é esse? E por que você ta se vestindo como se fosse pegar o último trem?

- Chris, obrigada por oferecer, mas é melhor deixar isso pra lá.

As sure as night is dark and day is light
I keep you on my mind both day and night
And happiness I've known proves that it's right
Because you're mine, I walk the line

- Ok, tudo bem... Eu ia dizer pra pensar no assunto, mas por que ficou tão nervosa? Eu te ofendi?

- Eu não to nervosa. – Débora diz séria, um pouco corada.

- Tá. – ele coça o nariz tentando não rir da mentira dela. - Então eu devo achar que você surtou?

- É, eu surtei. – ofegou, sentindo-se no meio de um ataque de pânico. - Acho que é muito cedo pra gente fazer isso, mesmo que não seja sério.

- Tudo bem. Também não tem que sair correndo.

Tenho sim, ou posso acabar aceitando essa sua loucura e me apaixonar mais ainda por você. – pensou aflita.

- Anda, volta pra cama.

- Você tem que sair daqui a pouco.

- Por isso mesmo eu não te dei permissão pra sair de perto de mim.

Débora faz uma careta, mas volta a se sentar na beirada cama e Miro a alcança, beijando-a no canto da orelha.

- Debie, não precisa pirar, faça o que quiser. Só por favor não me inventa de ir morar com aquele seu ex.

- Quem?

- Você sabe de quem eu to falando. Aquele seu vizinho caolho.

- E quem disse que eu namorei com ele? Agora você que ficou maluco.

- Eu não disse que namorou. Mas nem tente me convencer que nunca rolou nada.

Débora fica um pouco sem jeito, mas tenta disfarçar.

- E por que essa crise de ciúmes agora?

- Porque sei que é maluca suficiente pra cogitar a idéia, só porque são amiguinhos de infância.

- Dá pra parar de ofender o Isaac?

- Pode ouvir o que estou realmente dizendo?

- Que está querendo controlar a minha vida.

- Estou tentando te dar uma opção com um pouco de privacidade! Ou você acha que ia ter alguma, morando com ele?

- Eu não disse que vou morar com o Isaac!

- E nem que não vai.

- Eu não quero discutir por bobagem.

- Então deixa de ser tão arisca e me promete que vai pensar um no assunto. – concluiu sério e já um pouco irritado.

Débora respira fundo, sabendo que estava sendo muito chata, deixando que o seu receio de perdê-lo a alterasse daquele jeito. Fez que sim com a cabeça, aceitando refletir sobre a ideia. Miro mordiscou-lhe o pescoço repetidas vezes, provocando-a e parecendo adivinhar-lhe os pensamentos quando sussurrou:

- Nem vamos nos ver tanto assim, pra ter tanto medo que eu enjoe de você... Devia considerar algumas vantagens...

Débora ri, virando-se para o namorado e beijando-o nos lábios, segurando-o pelo queixo.

- Então me diz algumas, já que andou pensando tanto.

Então ela iria fazer aquele jogo do "me convença"... Em outros tempos, com outras garotas, seria o momento perfeito de concordar com a frescura que propunham, desarmando-as e em seguida apagar seus telefones da agenda. Mas também em outros tempos jamais teria feito tal proposta. Ele sabia que era um ataque de pânico e que a provocação de agora, era para que ele não forçasse a barra e a deixasse digerindo a ideia.

Além disso, aqueles olhos de gata fazendo charme não permitiam que ele fizesse nada menos do que atender a todos os seus desejos. Riu irônico, como uma presa que encara o seu fim no olhar do predador. Muito provavelmente ela já soubesse deste poder que tinha sobre ele.

- Bom, posso te acordar para ir trabalhar, já que é perto do horário que eu chego do trampo... – beijou-a nos lábios com intensidade, puxando as pernas dela para mais perto de si. - E quem sabe, se você se comportar, eu faça café e te chame mais cedo para as nossas aulas de piano...

- Olha lá o que você promete, gato... Se a propaganda for enganosa, eu cancelo o contrato.

Ambos riem, enquanto Débora ainda segura o rosto dele entre os dedos e trocam olhares.

- Certo, vamos as cláusulas de letras miúdas. - Miro fez uma pausa dramática. - Se a gente brigar, você que vai pro sofá.

Débora arqueia uma das sobrancelhas, sorrindo com um cinismo calculado e colocando o indicador sobre a própria boca, fingindo pensar.

- Desde que inclua nessas letrinhas que vai me pedir desculpas me jogando no tapete, por mim tudo bem.

Os olhos dele se incendiaram, completamente deliciado com a resposta.

- Onde eu assino?

Débora solta uma gargalhada sincera.

- Calma, ainda tenho que passar pro meu advogado para uma análise mais séria.

- Quanta burocracia, gata.– resmungou.

Mas já estava nos olhos dela, no modo como o puxou e acariciou sensualmente pelo pescoço, no suspiro que dera depois que Christakis a beijou novamente... Ela ia ficar.

You've got a way to keep me on your side
You give me cause for love that I can't hide
For you I know I'd even try to turn the tide
Because you're mine, I walk the line

Depois de um dia pesado de trabalho, os dois desempacotavam os pertences que ela começara a trazer para o apartamento. Parte do guarda-roupa e algumas gavetas haviam sido separadas para sua nova moradora. Um misto de empolgação e receio dividia o pensamento dos dois, mas no fundo estavam ansiosos que estivesse tudo pronto para a mudança definitiva.

- Acha que aquele gaveteiro que tem no seu quarto pode caber aqui no canto?

- Será que precisa?

- Não sei. Estou achando que tem muita roupa nessas caixas.

Iara sorriu vendo Aldebaran coçar a cabeça, fingindo que estava confuso. O conhecia o suficiente para saber que estava tirando uma onda com ela e empurrou-lhe pelo ombro aos risos.

- Para de me criticar, ou eu desisto outra vez.

- A gente se preocupa em fazer o melhor e elas sempre acham que tudo é uma crítica, tsc. – brincou e tomou-a nos braços. – Quando é que você se muda mesmo?

Iara sorri. Estava feliz, como jamais imaginara que ficaria.

- Calma, amor. Deixa a Débie se acertar primeiro...

Beijaram-se carinhosamente. Aldebaran ainda tentava acreditar que estavam finalmente juntos, mais envolvidos do que nunca. Graças ao empurrãozinho daquela menina tão maluca, sua vida estava voltando ao rumo do qual nunca deveria ter saído.

- Tudo bem. Algo me diz que não vai demorar.

- Como assim?

Afastaram-se e ele voltou a tirar as peças de roupa e objetos das caixas, enquanto Iara arrumava um lugar para elas.

- Não está sabendo da última do moleque? A Barbie Zen deve ter feito algum voodoo dos brabos.

- Não. Me conta você, pra eu saber se mato o Miro, a Débie ou os dois.

- Faz tempo que ele vem falando disso, me perguntando se deveria. Os dias de solteiro inveterado do moleque estão no fim. O grego fajuto está louco pra trazer a Barbie pra morar com ele, mas está se borrando nas calças da reação dela.

- Com razão, porque ela vai enlouquecer com uma ideia tão absurda.

- Iara, deixa de ser implicante... Ele nunca teve nada tão sério com ninguém, ganhou até um pouco de juízo. Dá uma folga!

- Mas o que deu na cabeça dele pra achar que... Ele tem noção do que ta fazendo?

- Ele só quer ajudar, gosta dela. Por que tem que virar uma decisão tão séria ou tão trágica? Eles se entendem super bem, acho que têm mais é que deixar rolar.

- Escreve o que estou dizendo, a Débie vai ter um piti.

- Então se ela vier falar com você, trata de colaborar. O grego já é tão inseguro com tudo, a única vez que ele se encoraja para fazer alguma coisa direito, merece um crédito.

- A Debie não é doida de perguntar pra mim, sabe que estou sempre contra ele. Vai querer alguém imparcial. O que também desabilita o Isaac, que tem um pouco de ciúmes por ter perdido o antigo affair. Mas se ela aparecer com um piercing ou tatuagem novos, já sabemos que a vítima foi o Ragnvald.

- E esse cara tem alguma coisa útil na cabeça? Vai saber o que dizer ou vai estragar tudo?

- Ele pode até estragar a ordem das coisas, mas besteira não vai falar. Ele é tatuador, já parou pra pensar que esses caras tem que ser meio piscólogos, pra lidar com os malucos que vão lá fazer tatuagem da mãe que morreu?

- Minha ruiva, você é sempre tão ácida... Tenho muita pena dos seus inimigos, sabia?

- Já está querendo desistir?

- Não. Eu sei que quanto mais perto, menos riscos eu corro.

I keep a close watch on this heart of mine
I keep my eyes wide open all the time
I keep the ends out for the tie that binds
Because you're mine, I walk the line

O loiro a encarava de pé com os braços cruzados e a sobrancelha arqueada, enquanto a ouvia descrever o que queria sentada na cadeira da sala dele com aquele olhar confuso e familiar de quando estava com problemas.

- Sério, no pulso esquerdo? Tudo bem que é coisa pequena, mas sabe que não precisa dessa desculpa pra conversar. Ainda mais quando está estampado na sua cara que está em outra das suas crises existenciais. É o cara da grama?

- Vai se ferrar, antes que eu me esqueça, Ragn.

Débora revira os olhos e Afrodite ri divertido. Aquela história sempre a deixava sem graça e conseqüentemente, irritada.

- E que vai ser dessa vez, Estaladeira?

- Uma joaninha, pra dar sorte. Pensei em algo realista, com sombra... Como se ela estivesse pousada mesmo no meu pulso.

- Ok, essa vai ser fácil, você só quer um conselho. Enquanto eu me organizo aqui, você já vai falando...