Capítulo X

O Mundo Dá Voltas


I'm sorry

It's all that I can say

You mean so much

And I'd fix all that I've done

If I could start again

I through it all away

To the shadows of regrets

And you would have the best of me

(Best Of Me, Sum 41)


- O que estás a fazer aqui?

- Ora, Draquito – começou Hermione enquanto se aproximava do loiro com os lábios torcidos num sorriso venenoso – pensei que ficasses contente por me ver.

- Pensei que tivesse ficado esclarecido que não queria olhar mais para a tua cara!

- Jura? Olha que não fiquei com essa impressão. – Os olhos da morena, antes fixados em Draco, captaram um borrão vermelho atrás de um arbusto. Nem foi preciso perguntar, reconheceria aquela cor em qualquer lugar. - Estou a ver que ainda não te livraste dela – disse, sem o menor remorso.

- Como podes falar assim da Ginny? Pensei que fossem amigas – disse Draco. Apesar da odiar a Granger com todas as suas forças, era óbvio que as duas eram muito amigas.

Mas Hermione não pareceu perturbada com a sua acusação. Os seus sensores de Comensal disseram-lhe que algo não estava certo. Sempre percebeu que a morena não gostava muito dele, sempre a auror mais empenhada em capturá-lo – isso não lhe passou despercebido. Mas porquê? Porquê aquele estranho brilho estava sempre nos olhos castanhos dela quando eles estavam fixos sem si?

Tudo bem, Draco não era a pessoa mais bondosa do mundo, mas nunca lhe fizera nada. Pelos menos não directamente, sempre desprezara os sangues de lama.

De repente, sentiu o arbusto atrás de si mexer e lembrou-se que Ginny ainda estava lá. Tinha de a tirar dali. Não poderia lutar se estivesse constantemente preocupado com a segurança da ruiva.

- O que querem? – perguntou tentando fazer tempo enquanto pensava num plano.

- Acabar algo que começaste há muito tempo atrás – respondeu a morena, misteriosamente.

Draco perdeu a paciência.

- Mas afinal qual é o teu problema, sangue de lama? Andas com essa conversa há meses e nunca desenvolves! Posso saber o que te fiz?

- O que me fizeste? Não vale a pena fingires que não te lembras! Ou se calhar não te lembras mesmo… Deves tê-lo feito a tantas pessoas!

Ginny não aguentou mais. Estava farta de estar ali escondida como uma fraca. Podia não saber lutar, mas tinha coragem e tinha o directo de saber o que se estava a passar.

Saiu detrás do arbusto e juntou-se ao trio com um ar determinado. Ignorou a cara de zangado de Draco e falou directamente para Hermione, sua melhor amiga.

- O que se passa aqui?

Grant sorriu, mas não disse nada. Ainda não era a altura. Por enquanto iria apenas observar.

Hermione ficou surpreendida por Ginny se expor assim. Será que não sabia que era perigoso? Estava um Comensal da Morte mesmo ao seu lado que não hesitaria em matá-la apenas pelo prazer de o fazer, já para não falar de Draco Malfoy, no qual não acreditava bem um pouco. Todo este envolvimento com a ruiva era uma farsa. Ele apenas queria roubar a dignidade dela tal como fizera com a morena.

Ginny estava agora terrivelmente confusa. Primeiro Hermione chega juntamente com um Comensal como se fossem velhos amigos e começa a discutir com Draco com um veneno que a pequena Weasley nunca pensara ouvir vindo da boca da amiga, e agora estava petrificada, num silêncio que estava a deixar Ginny louca. Porquê todos os segredos? Porque ela sempre era a última a saber de tudo?

- Já chega! Ou vocês começam a falar ou eu…

- Tu o quê? Puxas-nos os cabelos?

Ginny pensou que as palavras tinham vindo da boca de Grant mas este permanecia com um sorriso no rosto como se soubesse mais do que ela. Então olhou para Hermione, mas esta não abrira a boca. Olhou para trás e deu de caras com Draco e com um ar irritado.

Magoara. Aquilo magoara. Mas não o deixou transparecer.

Hermione pareceu despertar do seu estupor. Ergueu a sua varinha para Draco e disse:

- Rectusempra!

Draco, que estivera ocupado em encarar Ginny com todo o seu aborrecimento, fora apanhado desprevenido. Ainda tentou se defender, mas não foi a tempo. O seu corpo foi atirado e caiu com violência no chão a uns metros de distância.

Sentiu toda a raiva vir ao de cima. Tudo o que tentara esconder. Tudo o que tentara enterrar. Tudo o que tentara aceitar. Estava tudo a corroê-lo por dentro.

A sua vida estava óptima. Brilhante. Fenomenal. Tinha tudo o que queria. Era um Comensal respeitado por todos. Tinha comida na mesa, sítio para dormir, muggles para torturar e um plano em mente para derrotar Harry Potter. Mas ela teve de aparecer. Ginny. Teve de parecer e estragar tudo. Quando a conheceu, naquela noite, foi aí que tudo se desmoronou. Foram meses até conseguir aceitar os seus sentimentos. Todas as batalhas interiores, todas as razões pelas quais eles não deviam ficar juntos, tudo o torturou durante meses. Depois, Grant não parava de o chatear para se juntar ao seu bando. Ginny é raptada. Hermione aparece com aquele olhar e jura vingança por algo que Draco nem sabe o que é. Esperem lá, Grant pediu-me para me juntar a ele e quando eu recusei, Ginny foi raptada…

Sentiu uma onda de ódio invadir todo o seu corpo.

Era verdade, a sua vida estava óptima. Antes de se apaixonar.

O ódio era tão grande que todo o seu corpo tremeu.

Porque isto tinha de acontecer? Porque a sua vida tinha de ficar tão complicada? Porquê?

Não sabia. Não tinha resposta. Se Draco não tivesse entrado por aquela janela… nunca teria visto Ginny, nunca teria sentido necessidade de beijá-la. Mas ele podia ter parado. Quando quisesse. Poderia ter deixado de aparecer. Mas não o fez. Deixou-se levar pela tentação e agora todas as emoções reprimidas dentro de si estavam a deixá-lo louco.

Olhou para Grant. Aquele cretino com aquilo sorriso colado no rosto como se estivesse a apreciar um bom show, como se tudo aquilo fosse entretenimento para ele. Ele raptara-a. Usara-a como isco. O loiro recusara-se a juntar a ele, por isso Grant vingou-se e apoderou-se de Ginny… Podia ser apenas uma coincidência. Draco não tinha provas de que havia sido Grant o culpado do rapto de Ginny. Pena que Draco não acreditasse em coincidências.

Desviou o seu olhar para a Granger. Ela representava tudo o ele que odiava. Uma rapariga filha de pais muggles que fora a melhor aluna de Hogwarts. Como se o estudo fosse compensar toda merda que havia dentro dela. Melhor amiga de Harry Potter, seu grande inimigo. Auror. E ainda tinha uma língua afiada. Como se atrevia ela a acusá-lo de algo que não havia feito?

Já podia sentir o gosto do ódio na sua boca…

Por fim, o seu olhar caiu em Ginny. Ela olhava-o com uma expressão confusa, determinada e assustada, tudo ao mesmo tempo.

Aqueles olhos.

Odiava a forma como se perdia neles.

Aquela boca.

Odiava a forma como o efeito que os seus beijos tinham nele.

Odiava o facto dela ser a sua prioridade na vida.

Odiava a forma como se entregara a ela como se estarem juntos fosse algo certo, normal.

Mas não o era. Era errado. Pertenciam a mundos diferentes.

Amava-a. E odiava-se por isso. Amava-a tanto que chegava a odiá-la.

Os seus olhos escureceram. Estavam tão escuros como o seu coração, como a sua alma.

Ele estava farto. Iria mostrar àqueles três a razão de o considerarem o melhor Comensal de todos os tempos.

Sacou da sua varinha e, num movimento rápido e ágil, apontou para Hermione e murmurou:

- Rictusempra.

O feitiço atingiu Hermione no peito.

Ginny gritou. Draco ignorou.

Aproximou-se da morena caída no chão.

- Não sei o que pensas que te fiz no passado, mas também não me interessa. Crucio.

Observou com uma expressão impassível o corpo da morena contorcer-se e ouviu os seus gritos de dor invadir o silêncio da floresta. Não tinha qualquer prazer no sofrimento que estava a causar. Também não se sentia mal. Era algo que já tinha feito tantas vezes que o movimento chegava a ser mecânico. Porém, com os problemas de Ginny, já há um tempo que não participava numa boa luta. Sentiu outra coisa invadir todo o seu ser para além do ódio – adrenalina.

Ginny.

O ódio intensificou-se. Tudo isto era culpa dela. Se não a tivesse conhecido… Se não a tivesse beijado…

Assim que os gritos de Hemrione cessaram, Draco virou-se para Ginny.

- Draco – disse ela, sentindo a voz falhar. – O que estás a fazer?

- Algo que já devia ter feito há muito tempo.

Então, de repente, aponta a varinha para Grant e acerta-lhe com um feitiço atordoador.

Começa uma troca de feitiços entre os dois. Atiravam feitiços um ao outro como loucos. Entretanto, Hermione recupera-se da maldição e entra na luta. E o caos começa. A morena conseguiu acertar Draco, mas este vingou-se de seguida acertando-lhe com outro Cruciatus.

- Parem com isso! – gritou Ginny. - O que estão a fazer?

Aproximou-se do trio que lutava entre si sem parar. Tinha de fazer alguma coisa que os fizesse parar.

Foi então que um feitiço acertou Ginny. Acertou-lhe em cheio e ela nem teve tempo para processar os acontecimentos. Uma dor aguda percorreu-lhe o corpo, fazendo-a cair no chão gritando de dor.

Todos pararam a luta subitamente. Hermione olhava horrorizada para a ruiva que jazia no chão, tentando recuperar a respiração. Grant formulou a pergunta que se havia formado na mente da morena.

- Quem lançou o feitiço?

Silêncio. E então…

- Eu…

Todos olharam espantados para Draco.

Mas eu não queria acertar-lhe, estava a fazer pontaria para Garnt, ele queria dizer. Mas as palavras não saíam.

A imagem de Ginny contorcendo-se no chão repetia-se vezes sem conta na sua mente; os gritos de dor ecoavam vezes sem conta nos seus ouvidos.

- Ginny…

A muito custo, a ruiva levantou-se e olhou para Draco com os olhos marejados. Porque isto está a acontecer?, pensou. O que está a acontecer contigo, Draco?

- Eu sabia – disse Hermione ainda ligeiramente abalada por ter visto a sua amiga ser torturada por Malfoy. – Eu sabia que mais tarde ou mais cedo isto ia acontecer. Tal como fizeste comigo, eu sabia que o ias fazer a ela também.

- CALA-TE! – explodiu Draco. – Já não te posso ouvir com essa história! Quantas vezes eu preciso de dizer que NÃO TE FIZ NADA! Eu nem queria acertar na Ginny, foi um acidente…

- Tal como foi um acidente comigo? Devo dizer, Mslfoy, que ocorreram bastantes acidentes quando tu e eu estávamos na mesma sala.

- O que…

- TU MATASTE-ME! EU ESTOU MORTA POR TUA CAUSA!

- O que estás para aí a falar? Como podes estar morta se eu estou a falar contigo?

- Quando fui raptada por Comensais, eu tinha 16 anos. ERA APENAS UMA CRIANÇA! Mas tu não querias saber disso, pois não? Que te importava a ti que eu fosse tão nova, Malfoy? Diz-me! Que te importava a ti que fosse tão pura como a água? DIZ-ME, QUE TE IMPORTAVA A TI?

Hermione sentiu que iria explodir. Sentiu as lágrimas rolarem pelo seu rosto. Sentiu toda a dor voltar. Toda a dor que havia tentado superar estava de volta.

- Foi duro, no início. Quando os teus amigos me torturavam. Chegava a não poder levantar-me durante dias. Eu implorava para que parassem. Eu faria qualquer coisa. Só não queria mais dor. Mas se eu soubesse… se eu soubesse o preço que teria de pagar para que eles parassem de me torturar… se eu soubesse teria ficado calada. Quando dei por mim, tu entraste e foi então que comecei a gritar para que me batessem novamente. Queria as maldições, queria morrer, queria tudo menos aquilo.

Ginny não acreditava no que estava a ouvir. Estaria Hermione a falar sobre aquele dia que fora raptada por Comensais em Hogwarts? Porquê agora? E o que Draco tinha a ver com aquilo?

- Tu aproveitaste-te de mim e eu era só uma criança - continuou a morena. - Mas mesmo assim, tu não quiseste saber e abusaste de mim. TU ABUSASTE DE MIM! Por isso perdoa-me, Draco, se não és a minha pessoas favorita de momento!

Tudo parou. Até o vento, como se soubesse o peso que esta revelação ia causar nas pessoas presentes, parou de soprar.

Hermione agora chorava livremente. As lágrimas escorriam pelo seu rosto e Ginny sentiu as suas próprias começarem a cair.

Nunca se tinha sentido tão egoísta na sua vida. Não por chorar, mas por não chorar por Hemione. A sua amiga havia sido abusada. Falara abertamente do que se passara quando fora raptada, coisa que nunca fizera.

Foi doloroso e demorou muito tempo, mas ela havia superado. Pelo menos, era o que a ruiva pensava.

Ginny nunca se tinha sentido tão egoísta. Hermione finalmente revelara que havia sido violentada e abusada há seis anos atrás e tudo o que o Ginny pensava era: Porquê, Draco? Porquê?

Foi então que ela percebeu algo. Algo que já devia ter percebido há muito tempo. Deixou-se levar pela cegueira e ignorou a única verdade que tinha originado todo aquele desastre.

Por mais que quisesse, por mais que desejasse, por mais que tentasse, nunca, mas mesmo nunca, iria conseguir mudar Draco Malfoy.

- Então é por isso que sempre tinhas de ser tu a apanhar-me.

Poderia ter sido qualquer coisa a sair da boca de Draco. Na sua inocência, Ginny ainda pensou em ouvir o loiro negar, mas isso não aconteceu.

O seu olhar encontrou o dele.

- Porquê? – ouviu-se dizer, numa voz que não parecia a dela.

- Ginny… - começou numa súplica. Poderia ter dito o que estava a pensar, mas depois aquela voz voltou a encher a sua cabeça: era tudo culpa dela. E ele calou-se. Calou-se porque não conseguia encontrar as palavras para dizer o que queria; calou-se porque queria odiá-la e calou-se porque a expressão de desilusão no rosto de Ginny era tão grande que ele sentiu-se imobilizado.

- Porque ele é um Comensal e sempre será – Hermione respondeu à pergunta de Ginny que havia esquecido que a tinha proferido. – É quem ele é.

- Expeliarmus! – uma voz atrás de Draco ecoou e a varinha de Draco voou para as mãos de Grant.

- Eu adoraria ficar aqui e consolar-te, Hermione – disse, sarcástico - mas iria soar um pouco falso, visto que estou-me pouco importando para o que este idiota te fez. – Apontou a varinha para Draco que ainda estava num estado de incredulidade – Devias ter aceitado, Malfoy.

- Eu sabia, foste tu, meu filho da… - começou Draco, mas foi interrompido pelo grito estridente de Hermione.

- GRANT, NÃO! Não o faças! Sou eu quem o tem de matar!

- Acho que não, querida.

- Mas… tu prometeste… TU PROMETESTE!

- Não deverias acreditar em tudo o que te dizem, Granger. As promessas são feitas para serem quebradas. Avada Kedrava!

Ginny gritou. Aquilo não poderia estar a acontecer. Era tudo um pesadelo, um pesadelo do qual ela iria acordar em breve. Tinha de ser um pesadelo!

A famosa luz verde saiu da varinha na mão de Grant.

Hermione correu, desesperada, para Grant. Não podia deixar que aquele Comensal arruinasse todo o seu plano de vingança.

Infelizmente, não foi rápida o suficiente ou lenta o suficiente. Nem teve tempo de gritar, chorar, desesperar. Quando a maldição lhe acertou, Hermione Granger deixou o mundo dos vivos com uma expressão de tristeza nos rosto.

- NÃO! HERMIONE! – uma voz desesperada ecoou no ar.

Ginny olhava o corpo de Hermione, enquanto esperava. Esperava por um sinal de que tudo não houvesse passado de um equívoco, de que o feitiço não lhe tivesse acertado e de que ela estivesse viva. Mas o sinal não veio.

Tudo pareceu passar em câmara lenta.

Ron ajoelhou-se no chão e pegou Hermione nos braços enquanto chorava. Esperam lá… o que estava Ron ali a fazer?

Ginny não sabia. A sua mente parecia estar em delírio. Estava acordada, mas não conseguia registar o que se passava à sua volta. Viu o rosto de Ron e sua raiva. Provavelmente, estava angustiado, triste, desesperado.

Hermione estava morta. Morrera à sua frente.

Ron dizia coisas como "não pode ser", "chegamos tarde demais" e "porque não nos contaste?". E Ginny? Ginny olhava a cena, sem olhar. A sua mente estava a milhas de distância. Queria chorar, gritar, desesperar como o seu irmão, mas não conseguia. Havia esquecido como se chorava.

Havia um grande vazio na sua alma. Ela não sentia nada.

Sentiu alguém puxá-la, sentiu sendo-se arrastada. A imagem de Ron com Hermione nos braços cada vez mais distante. Era uma pessoa que a levava para longe. A pessoa chamava o seu nome. A voz parecia-lhe familiar, mas Ginny não tinha a força para raciocinar.

Ainda queria chorar.

Ainda queria gritar.

E ainda não sentia nada.

Ginny Weasley estava num mundo à parte.

Se a ruiva não estivesse tão envolvida no choque, se tivesse prestado atenção, veria Ron chegar e ver Hemrione ser morte por Grant. Veria Grant morrer nas mãos de um auror que, juntamente com outros, havia chegado e tentava controlar a situação. Se tivesse prestado atenção, veria Harry arrastá-la dali para fora.

Se Ginny Weasley tivesse prestado atenção, iria reparar que Draco Malfoy havia desaparecido.

I close both locks below the window

I close both blinds and turn away

- Fizeste tudo o que podias, Ron. Fizemos tudo o que podíamos.

- Ela também era tua amiga.

Ron levantou o rosto e, com os olhos cobertos de lágrimas, falou para Harry. Mas cada palavra que prenunciava, cada sílaba, era como se o matasse por dentro, como se tivesse perdido a capacidade de falar.

- Eu sei.

Harry também chorava. Mas Ron estava, de longe, em pior estado.

- Conhecia-la desde os 11 anos. – A voz do ruivo era calma, demasiado calma. Uma calma controlada que ameaçava explodir.

- Eu sei.

- Então porque não estás como eu estou? Porque não sentes que todo o teu mundo acabou?

- Ron…

- Ela mentiu-nos. Durante todo este tempo, levava uma vida dupla. Mentiu-nos. Porque é que achou que precisava de nos mentir? Terá sido culpa nossa? Ou minha? – Harry entou interromper, mas o ruivo não deixou. - Chegou a contratar aquela tal Danna. Tu ouviste o que os outros aurores disseram. Ela queria matar o Malfoy. Se ela nos tivesse contado, partilhado connosco, tudo poderia ter sido evitado.

O moreno não sabia o que dizer. Queria poder confortar o amigo, mas ele próprio também se sentia perdido.

- Mas ela não o fez – continuou o ruivo. - E agora está morta. Tudo por causa de um mal entendido. – Então as suas feições ficaram mais sérias e os olhos brilhavam de raiva. – Eu juro, Harry, que se Lucius Malfoy não estivesse já morto, eu próprio o mataria!

- E eu também. O que ele fez à Hermione foi imperdoável…

- Nunca odiei tanto aquele Comensal cobarde. Aquele filho da puta! Como se atreveu a tocar na Hermione!

- É compreensível que ela os tivesse confundido. Devia estar assustadíssima, o seu estado psicológico…

- Poupa-me, Harry! A Hermione morreu! A nossa Hermione está morta e tu estás para aí a falar no estado psicológico dela? Sabes que mais, Harry? Vai-te foder!

E, com isto, deixou um Harry para trás.

Merda, pensou o moreno. Sou mesmo idiota.

Olhou para Ginny. Ela estava sendo examinada por um dos curandeiros do St. Mungus. Ela parecia bem, mas só fisicamente. Ao olhar para o seu olhar distante, Harry percebeu, naquele momento, que ela estava longe de estar bem.

Sometimes solutions aren't so simple

Sometimes goodbye's the only way

Um ano mais tarde

Ginny Weasley estava no seu quarto. Ela lia. O quê? Nem ela própria sabia. Apenas lia; era algo que fazia para se manter ocupada. Ajudava a afastar pensamentos perigosos.

O relógio marcava meia-noite. Suspirou inconscientemente.

Noite. Sozinha no quarto. O cenário trazia-lhe tantas recordações. Tantas memórias que ela tentava esquecer, bloquear.

Ainda se lembrava da ânsia. Da espera. E dos beijos.

Se fechasse os olhos, ainda podia senti-lo, vê-lo com as suas vestes escuras, os cabelos loiros e um sorriso divertido. E se esforçasse o bastante, poderia ouvir o seu riso e as suas palavras…

Pronta para o teu beijo de boa noite?

Um beijo. Tudo tinha começado com um beijo. Um beijo que tinha levado a outro beijo e depois a outro beijo e, quando deu por si, Ginny já vivia daqueles beijos. Mas tudo tem um fim. Até as coisas mais doces acabam. E Draco e Ginny tinham acabado. Nunca mais o tinha visto desde aquele dia. Talvez fosse melhor assim. Também não sabia o que lhe dizer.

And the sun will set for you

The sun will set for you

And the shadow of the day

Will embrace the world in grey

And the sun will set for you

Fechando o livro que tentava ler, Ginny apagou a luz e deitou-se sobre os cobertores. Seria mais uma tentativa falhada de dormir. Mas já se havia resigando. A vida continua…

Quando já estava quase a adormecer, sentiu um brisa passar por ela. Aborrecida, sentou-se e esfregou os olhos. Não acredito que me esqueci de fechar a janela, pensou.

- Não esperaste por mim.

Ginny estacou. O seu coração começou a bater violentamente contra o seu peito. É a tua mente a pregar-te partidas, Ginny, nada mais.

- Porque não esperaste por mim?

Ok, aquilo não era a sua mente a pregar-lhe partidas. Havia mais alguém no quarto. Mas não podia ser ele. Talvez estivesse a sonhar. Sim, era tudo um sonho.

- Virgínia?

Não, não era um sonho. Aquela voz não estava na sua cabeça. Era real. Tão real como o bater do seu coração.

In cards and flowers on your window

Your friends all plead for you to stay

Sometimes beginnings aren't so simple

Sometimes goodbye's the only way

- O que estás aqui a fazer?

- Como assim? Eu fiz-te uma promessa, eu disse que vinha.

Ginny olhou-o incrédula. Mas o que ele estava para ali a dizer?

- Pronta para o teu beijo de boa noite? – o tom divertido estava de volta.

- O quê? Estás louco?

- Não me digas que não queres?

- Eu não te vejo há um ano, Draco! Um ano! Isso são 12 meses, caso não tenhas reparado. E 12 meses é muito tempo! Não podes entrar aqui e exigir um beijo como se nada tivesse acontecido!

- Não pude vir mais cedo.

Ginny suspirou. É claro que ele não podia ter aparecido mais cedo, mas ela nunca pensou vê-lo um ano depois, no seu quarto, pronto para um encontro, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

- Eu sei. Mas não esperava que viesses depois de tanto tempo.

- Desistis-te de mim. – Era uma afirmação e não uma pergunta.

- Draco… tens de compreender. Nunca foi minha intenção passar por tudo o que passei.

- Também nunca foi minha intenção me apaixonar por ti, Ginny! – exclamou o loiro. Porque ela tinha de tornar as coisas tão difíceis? - Mas aconteceu! Aconteceu e agora não dá para voltar atrás!

- Desculpa, mas não haverá mais tu e eu. Não haverá mais beijos de boa noite. Acabou. Tu és passado.

Draco fechou os olhos e contou até 5. Bem devagar. 1. 2. 3. 4. 5. Organizou os seus pensamentos. Por quem é que ela o julgava? Um Malfoy não desiste assim tão facilmente!

And the sun will set for you

The sun will set for you

And the shadow of the day

Will embrace the world in grey

And the sun will set for you

- Tu sabes quanto tempo eu demorei para aceitar que te amava? – disse sem esperar por uma resposta. - Uma eternidade! Tu achas que eu estou feliz, achas? Achas que estou contente por ter desistido da minha vida inteira por ti? Pois não estou! Eu tentei odiar-te e por uns tempos achei que tinha conseguido.

Ginny olhou para aquelas íris acinzentadas. Ele estava a ser sincero, mas isso não tornava as coisas mais fáceis.

- Eu amo-te – sussurrou Draco. – Não te posso prometer felicidade eterna, não te posso prometer um casamento e família e muito menos um final saído de um conto de fadas. Mas eu amo-te. E estou disposto a tentar. E tu, estás disposta a tentar? Ou vais desistir?

Ginny não disse nada. Ficou calada por um tempo. E depois, acabou com a distância entre eles e colou os seus lábios aos dele. Um ano. Como pode esperar um ano por isto?

Sentiu que poderia esquecer tudo o que se tinha passado. Iria ficar com Draco para sempre. Desde que pudesse sentir aqueles lábios sobre os seus sempre que quisesse. Uns segundos depois, ambos separaram-se, ofegantes.

- Isso é um sim?

O beijo chegara ao fim e toda a segurança se fora dando lugar à crua realidade da vida.

- Não.

Draco ergueu uma sobrancelha.

- Eu amo-te. Mas isso não basta. Somos de mundos diferentes e se há uma coisa que eu aprendi durante este tempo foi que jamais poderemos mudar uma pessoa. Tu serás sempre um Comensal, o Comensal por quem estou perdidamente apaixonada, mas ainda assim um Comensal. Não irás mudar e não vou pedir que o faças.

Draco ouvia em silêncio. Como o réu em tribunal ouvindo a sua sentença. Ele havia-lhe mostrado o quanto a queria, abriu-lhe o seu coração. Agora a decisão estava nas mãos dela. Só Ginny poderia determinar o seu destino.

- Se eu pudesse ia contigo. Mas não posso. Compreendes?

- Não, nem por isso – disse Draco com um pequeno sorriso.

A decisão havia sido tomada.

- Não me arrependo de te ter conhecido – continuou. – Apesar de tudo, foste a melhor coisa que me aconteceu na vida. Obrigado.

Ginny pareceu surpreendida pela súbita declaração.

- Er… de nada – disse sem saber o que responder.

Draco riu e afastou-se da pequena Weasley. Antes de se ir embora, porém, virou-se para ela e disse:

- Então até à amanhã. Voltarei para o teu beijo de boa noite.

Ginny abriu a boca de espanto. Será que ele não tinha percebido que não era suposto voltar a verem-se?

Então ela percebeu. Ele não tinha aceitado a sua decisão. Não iria desistir. E em vez de se sentir aborrecida com isso, ela sorriu.

Quem diria que a sua vida iria levar este rumo?

O mundo dá voltas.

And the shadow of the day

Will embrace the world in grey

And the sun will set for you


Linkin Park - Shadow of the Day

N/A: Chegámos ao fim da fanfic! Devo dizer que adorei escrever DG. Apesar de ainda ser HG de coração, devo admitir que amei escrever sobre este casal, pois foi um desafio para mim e aprendi a gostar! E de certeza que irei escrever mais sobre eles!xD

A razão pela qual dei este fim à fic foi porque não queria dar um final cor-de-rosa de "e viverem felizes para sempre" porque acho que DG é um casal demasiado complicado para isso. Afinal, (na fic) ele é um Comensal e ela uma rapariga "boazinha" e, depois de tudo o que se passou, seria estúpido se eu acabasse com um casamento ou algo do tipo; as coisas não se esquecem assim tão facilmente. Mas também não quis um final triste, por isso fi-lo assim. Não ficaram juntos, mas também não ficaram separados.

miaka – sem, tinhas razão. Hermione pensava que tinha sido Draco a abusar dela quando, na verdade, havia sido Lucius. E morreu sem saber a verdade. Enfim… Ainda bem que gostaste da aparição do Grant, adorei escrever essa cena. Obrigada por leres e comentar xD.

Fini Felton – Hermione pensou que Draco lhe tinha causado todo aquele mal, mas afinal ele não tinha feito nada. É incrível os danos que um mal entendido pode causar… Espero que tenhas gostado do último capítulo! Obrigada por todos os teus comentários )

Ly W. – Grant, Hermione, Draco e Ginny. Que grande confusão que estes assuntos inacabados foram originar xD. Malfoy demorou a aceitar o que sentia, mas o que seria de uma fic DG sem um Draco completamente estúpido e lento (digo isto com muito afecto xD)? Muito obrigada por todos os teus comentários e por teres acompanhado até ao fim!

Lauh'Malfoy – Draco não violou Hermione, mas ela pensava que sim por isso é que o queria tanto apanhar… sede de vingança…xD (Assuntos sérios com bonequinhos a rir… não tem problema, eu também o faço haha). Eu também odiava a Hermione nesta fic e já tinha este fim para ela planeado, só que ao princípio tinha pensado em suicídio, mas com o correr dos eventos achei que ficaria estúpido e mudei-o. Agora até fiquei com pena dela, coitada. Mas pronto, é a vida! Obrigada por teres lido e por todo o apoio!) E continua com a tua fic que ela está óptima!xD

Isa Slytherin – Sim, eu odiava a Hermione na minha fic (apesar de ter ficado um pouco triste por a ter matado) e achei que algo precisava de ser feito xD E não levei mal, percebi o que quiseste dizer xD. Ginny não ajudou Draco a escapar, em foi preciso, ele sabe se cuidar xD. Gostaste do final que dei à fic? Obrigada por leres e comentares!)

Um obrigado enorme a todas as pessoas que testemunharam a minha aventura no mundo DG, todos os comentários, adorei, obrigada! Beijos para todos. Assim me despeço :)

Sweet Lie.