Pequenas Confissões
Mercedes observava Laila por alguns minutos, sem que a garota percebesse isso de fato. Ela estava calada, seus olhos castanhos, sempre vivos, estavam pousados na folha de papel que ela rabiscava aleatoriamente com uma caneta vermelha, fazendo desenhos sem nexo, o tipo de desenho que as pessoas faziam quando estavam ao telefone. Mas Laila não estava no telefone, ela estava focada em seus próprios pensamentos, e nem percebeu quando a tinta da caneta começou a falhar e ela agora perfurava o papel.
Mercedes conhecia bem demais a garota para saber que certamente algo estava errado. Laila não era o tipo de pessoa que ficava quieta por dias, nem quando estava com problemas financeiros. Sempre estava de bom humor e sempre dava um jeito de sorrir para as pessoas. Mas não naqueles dias. Desde que ela chegara da França, quase uma semana atrás, ela estava calada. Mercedes não conseguiu conter sua curiosidade, parte disso porque estava preocupada com ela, parte porque ela já desconfiava do motivo do silêncio.
- Laila... – a garota olhou para ela. – Posso saber por que anda tão calada?
Perguntou, olhando-a através dos óculos levemente quadrados. Laila colocou a caneta na escrivaninha e fez um gesto com a mão.
- Não é nada. Isso é coisa da sua cabeça.
- Não é não, e você sabe disso. Tem quase uma semana que você está desse jeito.
Laila olhou para Mercedes com atenção. A mulher a conhecia o suficiente para saber como ela era de fato, e qualquer história mal contada geraria suspeitas. Laila não queria que Mercedes achasse que ela estava mentindo, então decidiu por contar a verdade. Ou pelo menos parte dela.
- Eu fui pra cama com ele... quando estávamos em Bordeaux.
Mercedes apenas confirmou o que desconfiava quando Laila lhe dissera aquilo, mas preferiu não dar sinais de que já sabia de tudo.
- E como foi? – ela perguntou.
Laila pareceu pensar com cuidado na resposta, olhou para cima e seus olhos tomaram um brilho anormal, e ela sorriu um pouco. Mas logo depois seu sorriso morreu.
- Divino. – respondeu.
- Então por que não se sente bem com isso?
- Eu não sei.
Laila respondeu, voltando a rabiscar o papel e dando a entender que não conversaria mais sobre aquilo. Mercedes percebeu como a garota era fechada, mas ela tinha esse direito, principalmente se tratando de sua vida sexual em um ambiente de trabalho. Ela não fez mais perguntas.
Laila parou de rabiscar o papel e voltou a olhar para a janela, como se estivesse relembrando a noite que passara com aquele homem. Mas ela não estava pensando nisso. Ela estava pensando no real motivo de não poder contar a Mercedes porque não gostara e se arrependera de ter passado a noite com ele. Porque o homem era um assassino, e agora fazia pequenos pedidos para ela com ameaças veladas. E ela ainda não conseguira se livrar dele.
- Que tal irmos ao bar aqui ao lado depois do serviço? Hoje é sexta feira e meu marido está com as crianças.
Mercedes fez o pedido, decidida a tirar Laila daquele tipo de comportamento. A garota a olhou com expectativa nos olhos e assentiu, parecendo um pouco animada. Mercedes ficou satisfeita com a resposta e voltou a digitar a matéria que estava escrevendo.
Laila voltou a escrever no papel, mas agora pensava que sua sexta feira não seria tão ruim assim. Há muito não saía para beber e jogar conversa fora, e a ideia de sair naquela noite a deixou mais empolgada.
Ela só esqueceu de que concordara em encontrar Loki no seu apartamento assim que saísse do seu serviço.
Loki estava sentado no sofá do apartamento de Laila, observando pela janela da sala o sol descer e o céu começar a tomar uma coloração lilás, abrindo espaço para a noite. Seus pensamentos giravam em volta de diversos assuntos. Um deles mais importante do que os outros.
A garota havia feito a pesquisa que ele pedira dias atrás, e por sorte ela descobrira que aquela reportagem que passara no canal local da França, havia passado apenas nos Estados Unidos e em canais internacionais pouco conhecidos. Então ele poderia descartar a possibilidade daquilo ser culpa da SHIELD. De qualquer maneira, dois países inteiros haviam visto aquela reportagem, o que para ele era o suficiente.
Ele teria que pedir para Laila procurar as pessoas responsáveis pelas reportagens. Ele queria os contatos, queria saber de onde vieram e se realmente eram jornalistas. Ele não podia deixar portas entreabertas, teria que fechar todas. Uma por uma. Nem que para isso tivesse que matar todas as portas.
Pensar em Laila deixou-o inquieto. Ele estava a manipulando. Usava o medo dela contra ela mesma. Ela não conseguia tomar uma atitude quando ele a ameaçava, e ele sabia que ela sempre relutaria. Temia por sua vida, e era esperta ao temer. Loki era o tipo de pessoa que não pensaria em matá-la duas vezes caso ela interferisse em seus planos.
Ele não estava tomando a mente dela, por enquanto. Ele não tinha força e poder para isso ainda. De qualquer maneira, Laila era uma humana. E humanos sempre conseguiam ser persuadidos com jogos de palavras.
Ele olhou para a janela novamente e percebeu que o céu estava escuro, indicando que a noite finalmente chegara. Mas ela não estava ali. Laila costumava chegar antes do crepúsculo, mas a sala já estava quase negra e ela ainda não havia chegado. Ele franziu o cenho, perguntando-se onde aquela garota estava.
Revirou os olhos.
Pelo visto teria que gastar mais de sua força para usar magia e descobrir.
Laila terminava sua quinta dose de tequila quando Mercedes a alertou de que ela estava bebendo demais.
- Não que eu me preocupe com isso, não sou sua mãe. – ela acrescentou. – Mas como vai embora depois?
Laila gesticulou com as mãos. Poderia muito bem caminhar. Mas nem estava pensando nisso naquele momento, o tanto de cerveja e tequila que havia bebido a ajudava a esquecer de coisas aleatórias.
- Mercedes, eu moro a cinco quarteirões daqui.
Respondeu, despreocupando a amiga. Elas estavam na melhor mesa, a que ficava no canto do bar e por isso era a que permanecia com menos pessoas em volta. O fundo do bar era mais aquecido também, algo bem vindo em uma noite fria. A mesa era baixa e havia dois pequenos sofás, um de frente para o outro. Laila estava sentada em um, Mercedes em outro, e sobrara bastante espaço ao lado, espaço que elas ocuparam rapidamente com as bolsas para que os homens dali não achassem que elas buscavam companhia.
E de repente a porta abriu, e um homem alto e elegante entrou. Laila engoliu em seco, seus olhos castanhos pousados do outro lado do bar, onde ele andava calmamente, já a encontrando com os olhos azuis gélidos. Mercedes percebeu que a garota desviava sua atenção para a entrada e virou-se, vendo um homem muito bonito e aristocrático caminhar diretamente em direção à mesa das duas.
Ele parou ao lado de Laila e sorriu calmamente, olhando-a com um misto de curiosidade e interesse. Mercedes, nesse meio tempo, teve a oportunidade de correr os olhos sobre o espécime masculino mais bonito que ela já havia visto em meses.
Ele usava uma calça social negra que caía perfeitamente em seu corpo. Seu paletó era negro também, mas havia uma blusa cinza por baixo e um cachecol da cor verde escura enrolado de qualquer maneira em seu pescoço. Ele era alto, os cabelos eram escuros e batiam quase no ombro, mas estavam peculiarmente puxados para trás, deixando os fios organizados de forma milimétrica. Os olhos eram azuis, e estavam atentos a Laila de uma maneira até mesmo predadora, mas Mercedes foi pega de surpresa quando ele finalmente virou-se para ela, sorrindo de forma educada.
- Boa noite, sou Loki.
Ele se apresentou, pegando a mão de Mercedes e beijando-a com cuidado. A mulher ficou admirada, e quase esqueceu seu próprio nome ao responder o cumprimento.
- Ahn... Mercedes.
Loki olhou rapidamente em volta da mesa, já sabendo que não havia ninguém suspeito por ali. Conseguira perceber isso à medida que caminhava por aquele bar. De uma forma, todos o olharam quando ele entrou, e ele se perguntava o motivo disso, mas não teve tempo de buscar a resposta, ele apontou para o local ao lado de Mercedes.
- Posso me sentar?
- Claro.
Ele fez um movimento rápido e gracioso e sentou-se ao lado de Mercedes, que havia retirado a bolsa e agora o observava com atenção. Mas nem por isso ela deixou de notar que Laila ficara calada e parecia temer algo, como se o homem fosse a qualquer momento enforcá-la.
- As noites da cidade são sempre cheias assim?
Ele perguntou aleatoriamente para Mercedes, que logo gesticulou afirmativamente com a cabeça e começou a falar sobre as noites da cidade de Novosibirsk. Loki não prestava muito atenção, agradecia mentalmente e começara a gostar daquela cidade a partir do momento em que entrara no bar. Mesmo que o lugar estivesse cheio, não era comparado nem mesmo às ruas ermas de cidades grandes. Ali parecia um buraco. Um lugar perfeito para ele permanecer anônimo e passar despercebido.
- Esse é um dos bares mais conhecidos na rua, mas...
Mercedes foi interrompida com o toque do seu próprio celular. Ela pediu licença e pegou o aparelho, saindo da mesa e olhando para Laila com atenção. No momento em que a mulher desapareceu, indo para um lugar mais privado e silencioso, Loki saiu do sofá e sentou-se ao lado de Laila, colocando calmamente a mão esguia na perna dela.
- O que você está fazendo aqui?
Ela perguntou visivelmente irritada, movendo a perna ligeiramente para o lado. Loki sorriu de forma jocosa, olhando-a com atenção.
- Fiquei com saudade.
Respondeu ironicamente, o que a deixou ainda mais irritada. Ela abriu a boca para gritar com ele, não se importando muito se fosse chamar atenção, parte disso era culpa do álcool, parte era culpa da raiva. Mas ele a interrompeu, o sorriso jocoso morrendo e o rosto voltando a ficar sério.
- Achei que estava fugindo de mim... – ele voltou a colocar a mão na perna dela. – Você não pretende fazer isso, não é?
Laila não respondeu aquela pergunta. Ele já sabia a resposta. Era não era louca de tentar fugir de um homicida. Principalmente um deus homicida.
- Como me achou?
Ela perguntou, um pouco constrangida de ele conseguir rastreá-la tão facilmente. Devia ter procurado um bar mais distante do seu local de trabalho. Loki apontou para a cabeça dela e sorriu ligeiramente. Ela entendeu o que ele quis dizer, mas nada disse. Voltou a pegar um copo de tequila e dessa vez tomou a dose em um só gole. Loki arqueou uma sobrancelha.
- Nunca a vi bebendo dessa maneira. – ele pontuou.
- Normalmente não tenho motivos para beber assim.
Ela respondeu de forma sarcástica, fazendo-o sorrir. Ele apreciava o sarcasmo, mas não parecia certo quando Laila fazia uso dele. Ela era doce e animada... e não aquela pessoa que estava a sua frente. De que isso importava?
- Mas eu preciso de você inteira... vou precisar de sua ajuda esse fim de semana.
Ela negou com a cabeça, procurando mais um copinho de tequila. Mas todos já estavam vazios.
- Não vou ajudá-lo... não mais... – ela falou de forma embargada. – Não...
Loki fez uma careta. Ela estava bêbada.
- Você não está falando com coerência, Laila.
Laila ia abrir a boca para respondê-lo de forma irritada quando sentiu a mão dele apertar a perna dela. Olhou-o de forma incrédula, perguntando-se o motivo daquilo, mas logo percebeu que Mercedes voltava para a mesa.
- Conversamos quando chegarmos ao apartamento.
Ele avisou, soltando a perna dela. Mercedes se aproximou e fez uma careta.
- Gente, me desculpem... os meninos estão com febre, vou precisar ir embora.
Antes que Laila pudesse reclamar, Loki sorriu para a mulher.
- Crianças... normalmente dão trabalho. Eu fico com Laila.
Mercedes olhou para a garota, procurando algum indício de que ela fosse reclamar, mas Laila estava calada. Na verdade, Laila descobrira que Mercedes não havia bebido toda a sua tequila e já virava o resto em sua boca.
- Cuide dela, tudo bem? – a amiga pediu.
- Eu sempre vou cuidar dela. – Loki disse de forma convicta.
Laila soltou uma risada estranha e tombou a cabeça no sofá, respirando fundo e fechando os olhos. Mercedes achou aquela atitude muito estranha, mas já que ele estava calmo e Laila estava claramente bêbada, se despediu e saiu do bar, deixando-os a sós novamente. Loki voltou a fitar Laila, mas parecia um pouco irritado.
- Onde você está com a cabeça?
- Me deixe em paz.
Laila pediu, gesticulando para que o garçom se aproximasse.
- Você já bebeu demais.
Ele disse, retirando duas notas altas do bolso interno do paletó e colocando-as em cima da mesa. Se Laila estivesse sã, ela perguntaria onde ele havia conseguido dinheiro, mas ela estava desligada demais para fazer perguntas desse tipo. Ele a pegou pelo braço e a levantou delicadamente, como se realmente estivesse a ajudando. Ela só teve tempo de pegar a sua bolsa e cambalear. O garçom aproximou-se e olhou para o possível casal.
- Desculpe, mas essa aqui já vai para casa.
Loki disse rapidamente, fazendo o garçom sorrir e pegar as duas notas.
- Fique com o troco.
O garçom agradeceu e Loki desviou sua atenção para Laila. Mas ela não estava mais lá. Ele revirou os olhos e caminhou em direção à porta do bar, que acabava de ser fechada. Ela andava pela calçada da rua, cambaleando. Ele andou ao lado dela e estendeu os braços para ajudá-la.
- Não toque em mim.
Ela pediu, afastando-se dele de forma brusca. Algo naquela reação deixou Loki um pouco fora de rumo, mas logo ele voltou a caminhar ao lado dela, olhando-a com atenção quando ela escorregava. A calçada estava molhada, a noite estava fria e ela usava botas de salto alto.
- Achei que tivesse gostado do meu toque.
Ele provocou, aproximando-se um pouco dela. Laila o olhou com raiva.
- Gostei. Mas antes de saber o que essas mãos já fizeram além de tudo o que eu experimentei.
Ele sorriu, sem se importar muito com a crítica, e logo eles estavam em frente ao prédio dela. Laila entrou, sendo seguida por Loki. Ela caminhou até as escadas e ficou olhando para os degraus por um breve momento. Logo ela bufou, sentando-se no segundo degrau da escada.
- Não adianta, eu não vou conseguir subir isso tudo. - apoiou a cabeça na parede e fechou os olhos. – Pode subir. Vou dormir aqui.
Loki fez uma careta de desagrado.
- Não seja ridícula. Vamos.
Quando ele viu que Laila não ia se mexer, agachou-se e pegou-a facilmente no colo. Nos primeiros segundos, ela tentou se debater nos braços dele, mas ele a apertou ainda mais contra si depois disso.
- Pare com isso, Laila! Você parece uma criança. Quer que eu a deixe no chão do prédio?
Ele perguntou e ela viu que ela tinha duas opções. Ou engolia seu orgulho e se esquecia de que estava nos braços do homem que jurou não deixar tocá-la mais, ou dormia no hall de entrada do prédio. Um lugar muito frio e com vizinhos fofoqueiros. Ela parou de se debater, encolhendo-se.
Ao perceber que ela havia se aquietado, ele começou a subir os inúmeros degraus com facilidade. Ele podia muito bem teletransportar, mas ela podia se assustar com isso, sem contar a vertigem que normalmente não era bem vinda em mentes não acostumadas com mágica. Laila aconchegou-se mais ao peito dele e ele percebeu tarde demais que a respiração dela estava mais pesada. A garota havia caído no sono.
Ele ficou muito inquieto com ela ali, no seu colo. Uma coisa era pegá-la no colo para jogá-la na cama e saciar seus prazeres levianos. Outra era tê-la nos braços e carregá-la como se ela fosse uma amada.
Ele abriu a porta com magia e entrou no apartamento, trancando-a com magia novamente. Andou calmamente até o quarto da garota e colocou-a com delicadeza na cama. Ele retirou o cachecol dela e jogou-o em uma poltrona, bem como as botas que ela usava. Puxou o cobertor grosso e o colocou por cima dela. Loki ficou ali por quase dez minutos, apenas observando-a.
Ele se aproximou calmamente, sentando-se no colchão. Sem conseguir se conter, inclinou-se em direção ao rosto dela, sentindo uma vontade súbita de experimentar novamente os lábios daquela garota. Estava tão próximo agora que conseguia sentir a respiração dela bater em seu rosto, os cílios estremeceram quando ela pareceu acordar levemente, fitando-o com olhos entreabertos.
- Por que você é tão ruim? Por que você não é bom?
Ela resmungou, parecendo querer cair no sono novamente. O cansaço e a bebida estavam vencendo o seu debate mental. Laila levantou calmamente o braço e pousou a mão vagarosamente no rosto dele. Loki fechou os olhos ao toque. Tão inocente e delicado... Sentiu um arrepio estranho percorrer o seu corpo.
Ela correu os dedos levemente pelos lábios dele, atenta àquela parte do rosto masculino. Logo ela fechou os olhos novamente, tombando o braço em cima do próprio corpo. Ele correu a mão pelo braço dela, colocando-o por debaixo da coberta.
- Sou ruim porque as circunstâncias me fizeram ficar assim.
Respondeu de forma sussurrada. Mas ela já estava dormindo. E ele sabia disso.
