Só espero que essas férias coloquem minha cabeça no lugar mais uma vez. Perdão pela negligência e obrigada por ainda acompanharem a fic.

Boa leitura!


Alfred dava comida aos pombos ao lado da idosa Sra. Dotts, que balbuciava pela quinta vez algo a respeito de sua bisneta haver lhe trazido um presente no último final de semana. Ele sorriu e acenou polidamente com a cabeça, um pouco mais preocupado em checar o celular de cinco em cinco minutos do que com o tema já batido.

Não telefonava para Arthur havia duas semanas. Na maior parte do tempo, era porque mantinha o celular desligado para evitar que o impulso o fizesse ceder. A essa altura, era muito provável que ele já tivesse voltado de onde quer que tivesse ido trabalhar, mas Alfred não poderia saber, já que o inglês tampouco se dignou a contatá-lo. Era como se ambos estivessem um esperando o primeiro passo do outro. Depois do fatídico dia em que Matthew descuidadamente deixou a verdade escapar, Alfred ficara receoso em tornar a telefonar para o amante, por mais que seu inconsciente parecesse urrar em desespero por encontrá-lo. Era ou muito teimoso ou muito medroso para enfrentar a realidade, ou ao menos mascará-la com um sorriso de quem tudo ignora.

Seu irmão se viu forçado a contar o que sabia, mas Alfred não estava certo se era a história completa. Matthew explicara que havia escutado uma conversa entre Francis e Arthur quando ainda nem tinha ciência do caso que tinha com seu consanguíneo. E que depois perguntara por mera curiosidade a respeito. Naquela época, Francis não revelou que o garoto com qual seu amigo casado estava se envolvendo era o seu próprio irmão. Talvez porque sequer desconfiasse do parentesco entre os dois.

E os mesmos pensamentos infestavam a mente de Alfred durante aquelas duas semanas. Ok, Arthur era casado e havia omitido o fato. Contudo, na condição de meros amantes, não era como se ele fosse realmente obrigado a revelar toda a sua vida para o americano. Mas no fundo, era uma atitude ainda mais infiel da parte do inglês e fazia parecer como se ele tentasse desesperadamente sustentar ambos os relacionamentos com a certeza de que conseguiria fazê-lo até finalmente cansar-se de um deles. Não importava o conflito interno em curso, a parte certa era que Alfred se sentia completamente traído por Arthur.

Como se ele tivesse algum direito em se sentir traído, pensava de forma aborrecida.

Olhou de relance para a simpática velhinha que ainda falava animadamente sobre a bisneta e a interrompeu gentilmente, sugerindo que voltassem para dentro do prédio para que pudessem almoçar. Com cuidado e mantendo o sorriso no rosto, a ajudou a se levantar.

"Você é um rapaz tão bonzinho, Sr. Jones." Comentou a idosa. "Mas você parece incomodado. Essa pobre velha aqui pode saber o que o aflige?"

Alfred encarou Sra. Dotts e achou que conseguiria mascarar sua surpresa com um sorriso forçado.

"Não há nada de errado, Sra. Dotts."

Ela riu e sacudiu a cabeça. "Posso ser velha, meu jovem, mas não sou burra. Está claro para mim que você está terrivelmente preocupado com alguma coisa, isso desde a última vez em que esteve aqui." Ela parou para contemplar o rio. "Mas não posso ser chata. Vou entender perfeitamente se você desejar não compartilhar comigo."

"Me desculpe." Ele balançou a cabeça e deu um sorriso triste. "Eu só não me sinto à vontade para falar a respeito."

A idosa lhe dedicou um olhar compreensivo e apertou de leve sua mão, de modo a demonstrar compreensão.

"Então busque tirar esse olhar preocupado do seu rosto, ouviu bem, meu filho? Qual for o seu problema, é apenas uma questão de tempo até que ele seja resolvido."

"Tomara." Murmurou.

Próximo a entrada do asilo havia certa comoção. Um grupo escolar repleto de crianças obstruía a porta principal.

"Não sabia que hoje era dia de visita escolar." Comentou mais consigo mesmo do que com a senhora ao seu lado.

"Mas que crianças adoráveis."

"Acho que vamos ter que entrar pelo lado, Sra. Dotts." Ele a tomou pelos braços para guiá-la até a outra entrada, mas foi interrompido por um grito vindo do grupo.

"Hey! Senhor Alfred!"

Surpreso, o americano se virou e viu um rosto familiar vindo em sua direção. Ele imediatamente abriu um sorriso.

"Eu me lembro de você." Ele afagou os cabelos do pequeno depois de ele haver se aproximado. "Peter, não é?"

O outro assentiu efusivamente, seus olhinhos brilhando de admiração pelo mais velho.

"O que você está fazendo aqui?" Eles perguntaram ao mesmo tempo. Alfred riu.

"Eu trabalho como voluntário aqui nesse asilo. Essa bela senhora aqui ao meu lado é a Sra. Dotts."

"Oh, meu jovem, você é um galante." Ela riu. "Muito prazer, pequeno. Todo amigo desse rapaz é meu amigo."

Peter deu a entender que continuaria a conversa, mas foi chamado pela professora. Ele olhou para Alfred de forma desanimada e o americano o assegurou que eles se encontrariam assim que o grupo tivesse a liberação para entrar no asilo. E foi o que aconteceu. Alfred deu um jeito de ser o responsável pelo grupo de Peter e mais quatro crianças e ele os guiou pelos aposentos espaçosos daquela casa antiga que era utilizada para abrigar os idosos. Ele apresentou cada um de seus amigos para as crianças e cuidou para que não houvesse problemas de interação. A todo o momento Peter tentava chamar a sua atenção e arrumava uma maneira de ficar ao seu lado. O americano estranhou a princípio. Não estava habituado a receber tanta atenção infantil. Contudo, o encontro foi agradável, pois o garoto era extremamente educado e divertido. Em um determinado momento, Alfred chegou a pensar em como seria ter um irmão daquela idade.

Peter se relacionou bem com a Sra. Dotts. Lidou de maneira muito madura com os esquecimentos da idosa, que acabou, na medida do que sua memória lhe permitia, se afeiçoando ao pequeno. Quando chegou a hora de se despedirem, foi praticamente uma novela até que finalmente a idosa compreendesse que ele precisava partir.

Ele voltou dois dias mais tarde, sozinho. Alfred ficou preocupado com isso, mas o menor assegurou que sua mãe havia lhe dado uma carona até ali e viria busca-lo em duas horas. Isso diminuiu o peso no peito do americano e eles puderam se dedicar às atividades de distração dos internos.

No final de semana, Peter veio acompanhado da mãe. Alfred lembrava-se dela perfeitamente: uma moça aparentemente jovem, com rosto bonito, expressivos olhos azuis e cabelos loiros. Ela era bem sorridente e conversou com o americano por horas. Nada pessoal, apenas sobre o voluntariado e alguns hobbies em comum.

Na segunda-feira, ele tornou a aparecer desacompanhado. Sentou-se ao lado de Alfred no piano e os dois observaram enquanto a Sra. Dotts tocavam com paixão as poucas melodias que ainda recordava.

"Você deveria voltar mais vezes, meu jovem." Ela disse na hora de se despedirem, sem se recordar que o pequeno já estivera ali. "Quando esse seu amigo aí ficar velho, ele vai precisar de alguém para lhe fazer companhia."

"Ainda vai demorar um pouco, sra. Dotts." Riu Alfred.

"Pode deixar comigo!" Peter respondeu de forma animada. Ele ouviu o celular tocar e disse que realmente precisava ir. Despediu-se de Alfred e jurou que voltariam a se ver.

Terminado seu período no asilo, o americano não se sentia a fim de voltar para casa ainda e por isso resolveu dar uma volta no cais e deixar sua mente divagar um pouco. Não falava com Arthur há muito tempo e a sensação em seu peito era engraçada. Era um incômodo amargo, desagradável. Não conseguia esquecê-lo sequer um minuto e aquela sensação era terrível.

"Olha só o que você fez comigo, sobrancelhudo." Ele resmungou, atirando uma pedrinha no rio. "Eu não deveria estar assim."

"Assim como?"

Alfred sobressaltou-se e se virou para encarar a mulher parada atrás de si. Natasha tinha os braços cruzados e as sobrancelhas ligeiramente arqueadas.

"N-Natasha!" Ele deu um sorriso desajeitado. "Há quanto tempo!"

"É." Ela respondeu de forma seca. "Parece que o nosso encontro não te agradou muito."

Alfred sorriu, mas seus lábios tremiam.

"Não tem necessidade de ficar assim. Você parece patético." Ela estendeu o braço. "Quer caminhar?"

Foi a vez de Alfred de arquear a sobrancelha. Ele estendeu o braço de volta.

"Então... O que você faz por aqui, hm... Sozinha?"

"Eu queria falar com você."

Ele a encarou de forma atônita, ponderando como ela conseguira encontrá-lo, em primeiro lugar. Natasha percebeu o olhar esquisito e rolou os olhos.

"Ora, por favor, não duvide de uma pessoa com recursos."

"O que você quer falar comigo?"

Ela encarou o rio, pensativa.

"Você estudou com Ivan na universidade e agora trabalha com ele e vocês nunca na vida se deram muito bem, estou certa?"

"Bom, acho que todo mundo que nos conhece sabe disso, mas... Uh...".

"Tanto faz. Eu soube do seu encontrozinho com ele na diretoria. Com quem ele estava?"

Aquela mulher sempre conseguia coagir Alfred com sua capacidade de ir direto ao ponto. Ele pigarreou e respondeu com seriedade.

"Eu não acho que seja adequado citar nomes."

Natasha bufou impaciente.

"Olha, eu tenho um interesse especial em manter meu irmão longe daquele sujeito. E você tem um interesse especial em ver algo dar errado para Ivan pelo menos uma vez na vida. Pff." Ela riu quando percebeu a expressão indignada do americano. "Alfred, meu querido, você não é um santo. E eu sei de tudo que tem a ver com meu irmão, então você não precisa vestir sua máscara de Batman e fingir que é moralista."

O americano fez um bico, mas talvez Natasha tivesse razão.

"O que eu quero propor aqui é uma aliança. Nosso encontro deu certo uma vez, então acho que uma parceria não seria um problema, certo?"

"Diga."

"Vamos destruir o que quer que Ivan esteja construindo com aquele sujeito."

Alfred se engasgou, mas prontamente recuperou a compostura. Ele achou aquilo tudo cruel demais mesmo para sua rivalidade com o russo. Não era típico de Alfred destruir relacionamentos, mesmo que unilaterais. Mas novamente, ele recordou da angústia de Feliks e do olhar assustado de Toris cada vez que Ivan estava por perto. Não era justo que o russo se colocasse daquela forma entre seus amigos. No dilema moral que enfrentava, ele optou pelos seus aliados e não pela aceitabilidade ou não do que viria a fazer.

"Faço o que quer que você proponha, desde que não prejudique a pessoa com quem ele está se envolvendo. Mas quero as suas razões."

"Eu amo o meu irmão. E não me olhe com essa cara. Para a sua informação, Ivan não é meu irmão de verdade. Eu fui adotada quando tinha seis anos de idade. A despeito disso, eu o amo desde o primeiro dia que o vi e não quero ninguém se metendo no meu caminho. Eu o quero só para mim, entendeu?"

"Natasha, você não pode forçar alguém a ficar com você."

"Eu posso."

Alfred suspirou.

"Olha, eu não quero muita coisa, na verdade. Nem vai exigir muito esforço da sua parte. O sujeito tem um relacionamento com outra pessoa. Tudo o que preciso é que você faça com que o caso dele com o meu irmão se torne público."

"Desculpa, mas eu ainda não vi como isso não vai prejudicar a outra pessoa. Eu me recuso." Ele respondeu, sem olhá-la. Pediria desculpas a Feliks e provavelmente ele entenderia. Apesar de tudo, a reputação de Toris estava em jogo ali.

Natasha fez uma expressão de desagrado.

"O que aconteceu com você, git? Por que você nunca mais ligou? Sinto sua falta." Ela disse com um tom de voz engraçado e Alfred se virou para ela mortificado. Tateou os bolsos tarde demais para perceber que Natasha tinha seu celular em mãos e um sorriso sádico no rosto. "Arthur Kirkland."

"Me devolve isso agora." Disse entre dentes.

"Sabe, eu conheço um Arthur Kirkland." Ela entregou o celular na mão de Alfred e a mensagem recém-visualizada ainda estava na tela. Bela hora para Arthur fazer contato! "Ele tem uma esposa e um filhinho e é um arquiteto renomado. Ele projetou nossa casa, inclusive. Já pensou se é a mesma pessoa? Que coincidência ele ser seu amigo. Que escândalo."

Mesmo que fosse um blefe, o estrago já estava feito. A expressão de Alfred o entregara.

"Você pretende me chantagear?"

"Hm. Talvez?"

Ele queria dizer coisas bastante rudes para ela, mas engoliu o orgulho.

"Eu espero nunca mais ver a sua cara depois que isso terminar, ouviu bem? Estou falando sério."

"É sempre bom fazer negócios com você, Alfred."

"Você é pior do que o seu irmão."

Ela riu.

"Eu sei."

–-

Em outra parte da cidade, Arthur descarregava algumas compras do carro.

"Filho, você pode me ajudar com isso aqui?"

O garotinho disparou para fora da casa, tagarelando sem parar sobre a mais nova brincadeira que havia inventado enquanto recebia do pai algumas sacolas do supermercado.

"Que bom." Ele sorriu, afagando os cabelos do pequeno. Daí ele falou que havia visitado um asilo, conhecido um sujeito bacana e que eles cuidavam de uma senhora que costumava se esquecer das coisas. Arthur não prestou muita atenção, porque era mais uma das inúmeras coisas que Peter sentia a necessidade de lhe contar. Mas sua cabeça estava um pouco enrolada com as suas próprias preocupações para demonstrar mais interesse que um sorriso de incentivo.

"Ele está efusivo assim a semana inteira." Emily riu e deu um selinho no marido. "Agora tudo é esse amigo novo dele. Você deveria conhecê-lo. É um rapaz muito agradável."

"Quem sabe da próxima vez." Novamente ele não prestou muita atenção. Emily percebeu.

"Algo errado?"

"Ah? Não, nada. Eu só estou um pouco aéreo." Riu para descontrair. Mas a ruga de preocupação na testa da esposa não desapareceu. "O que temos para jantar?"

"Fiz o seu favorito: peixe e batatas."

"Ótimo." Ele agradeceu com um beijo.

"Francis ligou. Convidei-o para jantar conosco."

Arthur rolou os olhos.

"Por que você chama esse sapo para tudo o que fazemos?"

"Ele é nosso amigo. Além disso, não ouço notícias dele há semanas. Vocês tem se falado menos."

"Estive bastante atarefado ultimamente." Rebateu o inglês.

Emily não respondeu. Arthur era naturalmente irritadiço desde os tempos de universidade, principalmente no que concernia Francis. Mas de alguma forma, ela vinha sentindo que o marido estava muito mais defensivo do que de costume. Havia conversado com Francis a respeito e o comportamento do amigo foi-lhe estranho, apesar de ela não encontrar razões para duvidar dele. "É só uma crise por causa da idade." Ele lhe assegurou, com a voz bastante insegura.

Ela nunca mais conversou com o marido sobre suas inseguranças. Quando eram jovens, costumavam falar de tudo, até do que não deviam e isso tornava sua relação bastante turbulenta, mas ao mesmo tempo a fortaleceu. Nos últimos meses, contudo, algo havia mudado e ela não sabia dizer o quê.

Após ela e o marido organizarem as compras nos armários, ela perguntou:

"Como vão as coisas?"

"Boas." Ele respondeu enquanto molhava o rosto na pia do lavabo. "Por quê?"

Emily deu de ombros e foi para a cozinha esquentar a comida. Alguns minutos depois, a campainha tocou e Francis chegou com os mesmos comentários de sempre.

"Ah, Arthur, você se esqueceu de fazer a sobrancelha de novo?" e "Qual é o problema com o seu cabelo? Você não conhece uma coisa chamada escova?" e ainda "E aí, Emily, ele continua impotente?"

"CALADO, SAPO!" Arthur berraria corado de consternação e indignação, empurrando Francis de volta para fora de casa.

"Arthur, não seja rude." Riu Emily. "Que bom que você veio, Francis."

"Como era você quem ia cozinhar, minha doce amiga, eu não poderia recusar! Agora se fosse o seu marido, eu felizmente dispensaria o convite."

"Morra." Grunhiu Arthur logo que Peter entrou no recinto.

"Tio Francis!" Ele correu ao encontro do visitante.

"Como vai meu afilhado favorito?"

"Ótimo!" E ele começou a contar todas as novidades das últimas semanas. Falou sobre a escola e mais um monte de coisa. E "Alfred, meu novo amigo!"

Francis arqueou a sobrancelha e olhou para Arthur, mas o inglês não estava prestando atenção. Ele conversava com a esposa próximo ao fogão.

"Conte-me mais sobre esse seu amigo, Peter." Ele convidou a falar. E o pequeno prontamente acatou.

Após o jantar, Francis pediu que Arthur o acompanhasse até o carro. Disse a Emily que roubaria seu marido por alguns instantes apenas a fins de pedir uns conselhos, mas que não demorariam.

Claramente não era aquilo que faria e Arthur estava plenamente consciente disso.

"O que você quer?"

"Você apresentou Alfred ao seu filho, Arthur?" O tom de Francis era reprovador.

"Não! Mas é claro que não! Alfred sequer sabe que eu sou casado, pelo amor de Deus. E ele não vai descobrir nada, ouviu bem?"

Francis pretendia retorquir, dizer que duvidava que Alfred não soubesse porque seu irmão lhe contara. Matthew telefonara semanas antes para Francis, em puro desespero, lamentando-se por haver deixado a verdade escapar e repetindo tantas vezes fosse possível que não deveria ter feito aquilo. Então claramente o americano já sabia do pequeno segredo sujo de Arthur. Mas não era Francis quem diria isso a ele.

"Olha... Até onde você pretende ir? O quanto vocês tem se visto?"

Arthur levou a mão ao peito.

"Faz algumas semanas que não nos vemos." Sentiu a dor diante as próprias palavras. "Ele não ligou e das vezes que eu tentei o celular estava fora de área."

"Arthur..." Seu tom se suavizou e seu olhar foi de estupefação ao ver os olhos do amigo se marejarem.

"Eu não sei o que fazer." Ele limpou a própria lágrima, mas outras começaram a cair. "Faz um tempo que estamos nisso. Meu coração dói só de pensar que ele pode ter se cansado de mim. Eu sinto a falta dele, das palavras estúpidas, das idiotices, daquele sorriso ridículo que parece iluminar onde quer que ele vá. Eu deveria ter previsto isso, mas eu achei que não fosse me envolver e que fosse algo fortuito..."

"Oh meu Deus, Arthur... Você está apaixonado por ele?"

O outro assentiu, deixando que mais lágrimas caíssem. Francis o puxou para um abraço forte, quase de tirar o fôlego. Sua testa franzida denotava o que sentia.

"Desculpe. Eu não vi isso acontecer." Ele sussurrou baixinho, aos sons dos soluços do amigo. "Eu te amo, eu te amo tanto que me dá inveja só de te ver chorando por outro. Não é uma inveja comparável ao que senti quando você me disse que ia casar com Emily. É pior, porque você não está feliz. Está sofrendo."

"P-Pare com isso." Arthur o afastou. "Eu não quero ouvir você falando disso."

"Você precisa terminar tudo com ele."

"Não posso!"

"Você deve."

"Não quero. Eu vou morrer se eu não puder mais vê-lo."

Aquele comportamento era tão atípico de Arthur. De repente Francis pensou se havia sido uma boa ideia ter sido omisso desde o começo. Ele começou a detestar Alfred e a si mesmo por fazer Arthur sofrer. Suspirou e acariciou a bochecha do inglês.

"Olha, você está preso nisso. Não tem mais como fugir. Nesse jogo, a Emily e o Alfred disputarão o prêmio sem mesmo saberem, e independente da sua escolha, é você que sairá perdendo."

"Desculpe-me." Sussurrou de modo quase inaudível, esperando que Francis o odiasse. "Mas eu não acho que consiga ficar mais um minuto longe dele."

–-

Alfred bufou de ódio, batendo a cabeça contra a janela do carro. O vidro estava gelado por causa do temporal lá fora.

"Idiota. Idiota. Idiota." Como havia deixado Natasha usar Arthur para chantageá-lo? Como sequer sentiu tanto medo de ter seu segredo revelado e ver a vida do inglês arruinada para se entregar, em primeiro lugar? Quanto despreparo!

Ele ouviu batidas do lado de fora do carro e destrancou a porta. Arthur entrou ensopado, apesar do guarda-chuva.

"Maldita chuva." Ele resmungou, sacudindo os braços e o casaco para tirar o excesso de água. Ao finalmente se virar para cumprimentar Alfred adequadamente, foi surpreendido com um beijo repentino e desesperado.

Arthur era incapaz de mentir para si mesmo: sentira falta daquilo, muita mesmo. Era como se tivesse vivido quase um mês de outono sem qualquer fogo para se aquecer: não era - ou pelo menos não deveria ser - realmente essencial na sua vida, mas uma vez lá fazia com que ele percebesse o que estava perdendo. Envolveu o pescoço do americano com os braços e o puxou para mais perto de si, abrindo a boca e permitindo que a língua do outro pudesse ter passagem. Um arrepio familiar lhe percorreu a espinha. As mãos de Alfred adentraram o casaco úmido, abriram um tímido botão na camisa social do inglês e finalmente puderam ter contato com sua pele. Daí foi mais um botão. E outro. Até finalmente aquele empecilho estar mais convidativo ao toque. O americano já havia deixado para se preocupar com Natasha e Toris em momento mais oportuno e decidira aproveitar o presente.

Seus lábios percorreram a pele do pescoço do inglês e nele depositaram chupões vorazes. Arthur suspirou enquanto suas mãos repousavam nos ombros do americano.

"Não devemos fazer isso aqui." Ele comentou de maneira quieta.

"É?" Sentiu um beijo em seu pescoço. "Por quê?"

"É um local público e ainda está claro. Podemos ser vistos."

"Hm." Um chupão. "Mas." Um beijo. "Não estava." Outro beijo. "Chovendo?"

Arthur suspirou novamente. Um lado de seu cérebro buscava a razão e o outro a rejeitava.

"Eu sei, mas... Mmm. Está mais fraca." Suas mãos acariciaram a bochecha de Alfred, que levantara o rosto para olhar para fora. "Vê?"

O americano fez um bico e olhou Arthur bem nos olhos.

"O que você sugere que façamos então, Sr. Não-vamos-fazer-sexo-no-carro-porque-mimimi-vão-ver-minha-bunda?"

Arthur quis ficar irritado com o comentário, mas em vez disso deu uma risadinha e uma leve beliscada no outro.

"Eles vão ver o seu pênis também, gênio."

"Que vejam." Alfred sorriu de forma travessa. O inglês rolou os olhos.

"Você não tem jeito."

"É por isso que você gosta de mim!" Ele brincou.

Arthur deu um sorriso quase imperceptível e não desviou o olhar.

"É. Talvez."

Alfred o encarou, surpreso e assustado pela confissão. Arthur acabara de confessar que gostava dele? O que isso queria dizer? Que a relação de ambos não era apenas movida pelo sexo – pelo menos não mais? Ou essa especulação não passava de um mal entendido? Como poderia Arthur confessar estar gostando de Alfred se ele era casado, pelo amor de Deus? Sua esposa provavelmente estava em casa, crente que o marido estaria fazendo algo que disse que estaria fazendo sem realmente estar. Uma mentira construída apenas como desculpa para estar ao lado do amante. E como poderiam os dois se sentir tão bem com isso?

De repente, era como se Alfred lembrasse que deveria estar ressentido com o amante. Porque ele mentiu sobre ser casado, porque ingenuamente o americano acreditara que a moça fosse apenas sua namorada – como se uma aliança tornasse todas as suas atitudes verdadeiramente erradas. Mas encarando aquelas maravilhosas íris esverdeadas, como podia? Não conseguia e nem tinha o direito de estar com raiva de Arthur e talvez por isso tivesse raiva de si mesmo.

Arthur, por outro lado, ficou apreensivo com a reação de Alfred. Ele parecia assustado, meio abatido e meio em conflito consigo mesmo. Como se ainda não houvesse percebido que aquelas singelas palavras do outro fossem fato havia algum tempo já.

"Algo errado?" Perguntou, deixando transparecer toda a insegurança que o assolava. Soube a resposta no momento em que os olhos de Alfred encontraram os seus. Engoliu seco, querendo dizer alguma coisa, mas com medo.

Alfred passou a língua pelos lábios secos e falou o que seria sua próxima fonte de profundo arrependimento.

"Acho que é hora de darmos um tempo."

E o mundo de Arthur desabou.