NARUTO NÃO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! X
Hinata dormiu um sono pesado, sem sonhos, e acordou na manhã seguinte com os nervos à flor da pele e tão tensa quanto na véspera, antes de se deitar. Já tomara a decisão definitiva. Na primeira oportunidade que surgisse, iria embora. Sasuke nunca lhe pedira para devolver a passagem de volta, que ainda guardava no fundo da bolsa. Poderia voar até Los Angeles pelo menos, e no momento isso já lhe bastava, embora não fosse muito longe. A parte mais difícil do plano seria convencer Sasuke de que tudo estava normal e que ela iria se casar com ele tal como ele dissera, pois se ele descobrisse seu plano de fugir, sem dúvida iria impedi-la.
Ao se olhar no espelho Hinata percebeu que realmente seria uma tarefa difícil convencer Sasuke, pois o nervosismo e a apreensão estavam estampados em seu olhar. A tensão era bem visível nas linhas de seu rosto. Se ele descobrisse o motivo, ela estaria perdida! Mas, ao mesmo tempo, duvidava que Sasuke pudesse imaginar que ela ousaria desafiá-lo e contrariar os planos dele com aquela decisão de fuga. Ela, até então, tinha sido bastante maleável, concordando com ele e obedecendo-o sempre, esboçando apenas poucos protestos. Sasuke não teria motivos para pensar que dessa vez ela agiria diferente. Ao menos isso tinha a seu favor, agora.
Animada por essa constatação, Hinata desceu para tomar o café da manhã, tendo tido o cuidado de vestir-se com roupas bem coloridas e de deixar o longo cabelo solto, para suavizar sua expressão e deixá-la mais descontraída. Contudo o estômago parecia ter dado um nó e ela não tinha o menor apetite. Tomou apenas café puro e comeu uma torrada. Felizmente Kurenai não estava lá para perceber ou insistir que ela comesse mais. A empregada informou-a de que Kurenai já saíra a cavalo, deixando ordens de que deixassem Hinata dormir quanto quisesse.
Nesse momento a porta da frente abriu-se e fechou-se e Hinata prendeu a respiração ao ouvir passos no saguão de entrada. Com relutância olhou para a porta da sala, sentindo calafrios só de pensar em ver Sasuke surgir por ali. Mas quem entrou foi Denton, que ia passando apressado quando percebeu a presença de Hinata e parou.
— Bom dia — cumprimentou ele, radiante. — Você parece muito bem-disposta apesar de ter dormido tarde ontem! Gostou do baile? Divertiu-se bastante?
— Diverti-me como nunca!
— Ainda tem café aí no bule?
— Está quase cheio ainda. Quer uma xícara?
— Aceito sim, obrigado — Denton suspirou, cansado, e aproximou-se da mesa. Pegou uma xícara limpa e serviu-se. — Vou aproveitar. Estou mesmo precisando de um estimulante e, como diz o ditado, quando o gato sai os ratos fazem a festa.
— Ué, Sasuke não está? — Hinata admirou-se e logo em seguida achou que essa era a oportunidade tão esperada.
— Não. Acabei de levá-lo até o aeroporto — respondeu ele, tirando os óculos e esfregando os olhos. — Ah, não vejo a hora de Sai Yamanaka voltar e reassumir suas tarefas!
— Quando é que Sasuke vai voltar? — perguntou ela, baixando o olhar, com medo que Denton descobrisse o verdadeiro motivo de seu interesse.
— Ele foi a Miami e marcou a passagem de volta para hoje à noite mesmo. — Denton esvaziou a xícara e colocou mais café. — Este aqui vou tomar lá no escritório, se me dá licença, a mesa está empilhada de trabalho e correspondência para responder.
Assim que ouviu a porta do escritório fechar, Hinata subiu correndo e voltou para seu quarto. Pegou a bolsa e começou a remexer dentro, procurando a passagem de avião. Quando encontrou o precioso papel, ligou para a companhia aérea, usando seu telefone de cabeceira, e reservou lugar no vôo da tarde. Havia tempo suficiente para fazer as malas, escrever uma carta para Sasuke, e pegar um táxi até o aeroporto. Quando Sasuke chegasse ela já estaria sã e salva em Los Angeles.
Espalhou as malas sobre a cama e foi jogando as roupas lá dentro, sem se preocupar em arrumar direito ou dobrar as peças. Uma hora depois fez uma última inspeção nos armários e gavetas para ver se não esquecera nada e em seguida começou a fechar as valises.
— Ah, finalmente a encontrei! Estava procuran... — A voz de Kurenai sumiu assim que ela viu as malas em cima da cama. Olhou depressa para Hinata com os olhos arregalados. — Não vai me dizer que está indo embora?!
— Estou — murmurou ela. Hinata já havia pensado numa explicação plausível, mas perdeu a coragem de falar diante do espanto de Kurenai, que não escondia a decepção e tristeza de seu olhar.
— Mas, por quê? Meu Deus, você até parece um fantasma! Está tão pálida... Deve haver algo errado! O que foi que aconteceu, minha filha?!
Hinata fez um gesto de desalento olhando para o telefone, esforçando-se para falar apesar do nó que sentia na garganta.
— Eu... eu recebi um telefonema agora há pouco. Houve um acidente. Minha m... mãe está no hospital. Preciso voltar para casa imediatamente.
— Ah... pobre Hinata. Não é à toa que está assim tão abatida e perturbada! — Kurenai aproximou-se de Hinata e segurou a mão trêmula dela entre as suas. — Posso fazer alguma coisa para ajudá-la?
— Obrigada, mas já reservei lugar no vôo da tarde e já terminei de arrumar as malas. Acho que não esqueci nada... — Hinata encolheu os ombros, realmente perturbada, o que tomava sua mentira mais convincente.
— Justo agora que Sasuke não está em casa! — Kurenai balançou a cabeça tristemente. — Quer que eu entre em contato com ele? Sei que ele voltará voando se souber. Num caso de emergência, assim, em que a gente fica nervosa, é sempre bom ter um homem ao lado para dar apoio e resolver melhor as coisas.
— Não, não, não faça isso! — apressou-se Hinata. — Não é tão grave assim, é que do jeito que eu falei pode dar a impressão... — continuou ela já mais calma.— E que eu me assustei com o telefonema, mas já está passando. Mamãe apenas quebrou a perna e sofreu ferimentos leves, eles me garantiram que não há nenhum perigo.
— Ainda bem! Isso já é um consolo. — Kurenai sorriu, confortando-a. — Eu entendo o que você está sentindo. Naturalmente quer vê-la, para se certificar pessoalmente. Eu sei como é...
— Eu ia escrever uma carta a Sasuke explicando tudo, assim que arrumasse minha bagagem. — Hinata respirou fundo. — Provavelmente não vou voltar para a festa de noivado que você queria dar nesse sábado...
— Nem pense nisso — Kurenai tranqüilizou-a — foi uma idéia de momento e, depois, nossos amigos entenderão quando souberem por que cancelamos a festa. Já está quase na hora do almoço. Você não prefere tomar uma sopinha ou comer um sanduíche para não ficar de estômago vazio? Carla disse que você não comeu nada de manhã, só uma torrada.
— Acho que não vou conseguir comer nada, obrigada. E se eu sentir fome mais tarde, eles sempre servem um lanche a bordo.
— Vou chamar Sam para vir pegar suas malas. Ele a levará até o aeroporto assim que você quiser ir. Não se preocupe, tudo acabará bem, Hinata.
— Oh, Kurenai... — O queixo dela tremeu como se fosse chorar. — Você tem sido tão boa para mim! Lamento tanto ter de ir embora assim... eu não queria. — A amizade sincera que aquela mulher lhe devotava fez com que Hinata sentisse um enorme remorso por a estar enganando tanto. Antes tivesse fugido no meio da noite para não ter de encontrá-la e dizer a ela mais essa mentira ainda. Gostava tanto dela!
— Eu também lamento — disse Kurenai, com os olhos inundados de lágrimas. — Mas são coisas que acontecem... e infelizmente não podemos mudá-las, não é?
Kurenai saiu do quarto e, assim que ficou sozinha, Hinata sentou-se para escrever a carta que ia deixar para Sasuke. Escreveu concisamente sem deixar transparecer a dor que sentia ao abandoná-lo. Disse apenas que estava indo embora e que não casaria com ele em hipótese alguma naquelas circunstâncias, que sua decisão era definitiva e irrevogável e que ele não tentasse procurá-la. Depois levou a carta, o anel de safira e a pulseira até o quarto de Sasuke e deixou tudo lá, dizendo a Kurenai que deixara uma carta no quarto dele.
Duas horas depois Hinata estava a bordo do avião que cortava os céus rumo a Los Angeles. Mas só respirou aliviada quando se viu dentro de um táxi com sua bagagem e deu ao chofer o endereço do apartamento em que morava com Hanabi. Ela havia esquecido que estava com pouco dinheiro e só se lembrou disso quando chegaram ao destino e ela abriu a carteira para pagar a corrida, ficando quase sem nada depois.
Entrou no saguão do prédio e logo o porteiro veio ajudá-la com as malas. Assim que o viu Hinata sorriu, apesar de toda tristeza que sentia. Ficou contente ao ver seu velho e simpático conhecido, Tom Farber.
— Como vai Sr. Farber?
— Eu vou bem, e vendo a senhorita fico melhor ainda!— Ele sorriu.
— Mas o que está fazendo por aqui de mala e tudo? Não que eu não esteja contente de vê-la, é que...
— Ué, por que tanta surpresa? — perguntou Hinata, franzindo a testa. — Eu voltei para casa... eu moro aqui, lembra?
Ele franziu a testa, apreensivo.
— Deve ter acontecido alguma coisa... — disse ele, hesitante. — Sinto muito, Srta. Hyuuga, mas sua prima cancelou o contrato do apartamento e mudou-se daqui já faz uma semana.
— Ah, não pode ser! O senhor deve estar enganado... balbuciou ela.
— Ela deixou o endereço da casa dos pais para que eu encaminhasse a correspondência dela e disse que a senhorita não ia mais voltar — disse Tom e inclinou a cabeça com uma expressão séria. — Talvez seja melhor telefonar para sua tia.
— É, sim, acho que é melhor mesmo — concordou Hinata com olhar ausente, chocada por ter descoberto de repente que não tinha onde ficar. — Se quiser, a senhorita pode usar o telefone aqui da portaria — ofereceu ele, conduzindo-a para lá.
Hinata se deixou levar e com um terrível constrangimento discou o número da casa dos tios. No segundo toque atenderam e ela imediatamente reconheceu a voz da tia.
— Alô, tia Hikari, aqui é Hinata... — foi tudo o que conseguiu dizer.
— Não pensei que você ainda tivesse o descaramento de ligar para cá — declarou a tia em tom glacial —, depois de tudo o que fez para minha pobre Hanabi! Como é que se atreve a aparecer de novo? Estou admirada!
— Como assim, depois de tudo o que fiz para Hanabi? — repetiu Hinata, sem entender.
— É claro! Minha pobre filhinha ficou arrasada quando descobriu que você tinha roubado o noivo dela, na cara dela, sem que ela percebesse. Ela confiava tanto em você e você nem se importou de magoá-la e fazê-la sofrer! Quando penso em como seu tio e eu nos sacrificamos para criá-la como se fosse nossa filha... e é assim que você nos retribui! Que coisa horrível!
— Vocês não tiveram de se sacrificar coisa nenhuma — o queixo de Hinata tremia e seus olhos encheram-se de lágrimas. — Meu pai deixou dinheiro suficiente para que eu fosse sustentada durante todos esses anos!
— E você esbanjou à vontade! Pois bem, não pense que vamos continuar a sustentá-la! Seu rico noivinho que cuide de você agora e fique fora de nossas vidas! Você já nos causou bastante mal!— disse a tia com aspereza e bateu o telefone.
Era evidente que Hanabi não tinha contado a verdade aos pais, que não dissera como é que Hinata tinha ido parar em Mobile, fingindo ser a prima. Só Deus sabia que mentiras ela contara aos pais depois que Sasuke rompera o noivado, deixando-a cheia de despeito. Hinata jamais saberia. Tudo o que sabia no momento é que os tios não queriam mais saber dela, não a queriam ver nem pintada de ouro.
Hinata curvou os ombros sob o peso da situação aterradora e virou-se para Tom perplexa, com ar de abandono. Ele a fitou com olhar compreensivo.
— Eles não querem saber de você, não é? — perguntou ele, compadecendo-se com o jeito resignado com que ela balançou a cabeça fazendo que sim.
— O que vou fazer agora? — Hinata suspirou, depois deu uma risada amarga. — Nem sequer tenho dinheiro para passar a noite em algum hotel!
— Posso lhe emprestar... — ofereceu ele gentilmente.
— Não, não, obrigada, mas não posso deixar que faça isso — protestou ela, triste, sacudindo a cabeça com firmeza. — Eu me arranjo, pode deixar.
— E se eu lhe oferecesse ao menos um lugar para passar a noite? — E antes que Hinata pudesse responder qualquer coisa ele acrescentou, depressa: — Eu e minha mulher temos um bom quarto de hóspedes em nossa casa. Não seria incômodo nenhum para nós e assim a senhorita teria um lugar para ficar até que se acalme e resolva o que vai fazer.
— Eu já sei o que vou fazer. Vou procurar um emprego sem demora.
— Hinata sorriu sem alegria. — Não posso mais aceitar caridade dos outros. Eu não quero mais isso! — As palavras ásperas da tia ainda ecoavam em seus ouvidos.
— Não se trata de caridade — insistiu Tom, compreendendo o motivo real que a fazia responder daquele jeito, com tanto amargor. — Assim que a senhorita encontrar um emprego e estiver recebendo pode nos pagar pela hospedagem, a quantia que achar justa. — A oferta era bastante tentadora, mas Hinata hesitava. — Vamos fazer uma coisa. Pode pensar à vontade, não precisa responder já — sorriu ele — sente-se aqui no sofá, tome um café e relaxe um pouco. Daqui a uns quinze minutos acaba meu horário de serviço. Jenkins já deve estar chegando para me substituir e daí eu vou embora. Se decidir outra coisa posso lhe dar uma carona. Se resolver aceitar minha proposta, terei muito prazer em levá-la comigo para casa. E, então, o que acha?
— Gostei da sua sugestão, senhor Farber. — A expressão satisfeita dele fez com que ela sorrisse com sinceridade.
— Eu sou Tom para os amigos, pode me chamar assim.
— E eu sou Hinata para os meus, é melhor parar de me chamar de senhorita Hyuuga. — Ela sorriu de novo e apertou a mão que ele lhe estendeu.
Quinze minutos mais tarde Tom estava arrumando a bagagem de Hinata no porta-malas de seu carro. Ela havia, afinal, escolhido a alternativa mais sensata: ficar com Tom e a esposa. A hipótese de entrar em contato com Sasuke passou por sua cabeça mas Hinata nem quis considerá-la. Por mais que o amasse e que se sentisse tentada a correr para os braços protetores dele, preferiria morrer de fome a casar-se com ele, sabendo que ele não a amava.
Depois de tudo ajeitado. Tom sentou-se ao volante e deu a partida no carro. Hinata olhou para ele, hesitante, querendo dizer algo.
— Tom... — começou ela, depois fez uma pausa, tentando ordenar as palavras — pode ser que alguém procure por mim lá no apartamento... você me faria o favor de dizer que não sabe onde eu estou? — Hinata não queria que Sasuke a encontrasse.
— Você está metida em alguma encrenca, minha filha?
— Não propriamente isso. É que há um homem que pode aparecer querendo falar comigo, mas eu não quero vê-lo.
— Então pode ficar sossegada que de mim ele nunca vai saber onde você está. — Tom sorriu e piscou um olho.
Betty, a mulher de Tom, era tão amável e simpática quanto o marido. Assim que Hinata começou a se desculpar por estar quebrando o sossego de seu lar, ela a interrompeu, dizendo que nem pensasse nisso e afirmou que ficaria muito contente de ter a companhia de outra mulher, assim teria com quem conversar e fofocar.
Hinata estava exausta depois da viagem apressada que fizera, magoada com a rejeição dos tios, triste por ter perdido Sasuke e a amizade de Kurenai e dos novos amigos que fizera em Mobile. Por isso não conseguia dormir. Sem querer ficava lembrando cada momento que passara com Sasuke, revivendo as cenas na memória, e o fato de saber que jamais o veria novamente era mais uma mágoa que dilacerava seu peito, uma dor insuportável.
Chorou tanto que quando afinal adormeceu a fronha do travesseiro estava toda molhada.
No dia seguinte Betty insistiu que Hinata ficasse em casa, achando que ela ainda estava cansada da viagem e um pouco abatida. Era melhor ficar apenas recortando anúncios de emprego nos jornais. A bondosa mulher procurava alegrá-la de todo jeito, conversando, fazendo graça e rindo. Mas Hinata apenas sentia as horas se arrastarem lentamente e se perguntava, em silêncio, como é que agüentaria passar o resto da vida sem Sasuke. Horas, dias, semanas, meses, anos... era uma eternidade! Como suportaria esse vazio?
Naquela noite, durante todo o jantar, Tom observou furtiva e atentamente Hinata, notando as pálpebras um pouco inchadas de chorar, o ar deprimido e triste, e a ausência do sorriso fácil que ele se acostumara a ver no rosto dela. Quando terminaram a sobremesa e estavam começando a tomar o café, ele afinal pigarreou, como quem vai falar. Hinata ergueu os olhos de olhar ausente, e num ato reflexo fixou-os nele.
— Por acaso estava se referindo a esse tal de Uchiha quando falou naquele homem, ontem? — perguntou ele, disfarçando o interesse, olhando para a xícara.
— Ele esteve lá no prédio? — perguntou ela, um misto de tristeza e apreensão na voz.
Tom balançou a cabeça.
— Esteve, sim. No início pensei que ele estivesse procurando por Hanabi e disse a ele que ela voltara para a casa dos pais. Mas ele logo deixou bem claro que estava procurando você e não ela.
— E daí, o que você disse? — perguntou ela, imaginando como Sasuke devia estar furioso para ter se abalado até Los Angeles só para procurá-la.
— Disse a verdade, mas só uma parte. Disse que você tinha estado lá ontem à tarde, ficou sabendo que sua prima desistira do apartamento, de pois deu um telefonema e foi embora.
— E ele acreditou?
— Acho que sim — Tom sacudiu a cabeça. — Ele disse que você era noiva dele.
Hinata ficou pálida e olhou para a marca branca que o sol deixara no de do em que ela tinha usado o anel de safira.
— Eu era, mas já está tudo terminado, agora.
Hinata baixou a cabeça e marido e mulher se entreolharam, trocando uma mensagem que ela não percebeu. Depois começaram a falar sobre outrás coisas corriqueiras, fingindo não perceber o silêncio dela. Alguns instantes depois Hinata balbuciou uma desculpa qualquer, pediu licença e foi para seu quarto. Atirou-se na cama e chorou desesperadamente, sem conseguir aliviar a dor insuportável que afligia seu coração.
Depois de alguns dias de procura, testes e entrevistas, Hinata acabou sendo aceita para o cargo de datilógrafa em um grande escritório de advocacia. A novidade da terminologia jurídica absorvia toda a sua atenção. Ela se concentrava no trabalho para aprender depressa e isso a obrigava a não pensar tanto em Sasuke. As horas do dia passavam assim rapidamente, sem a agonia das horas da noite e o vazio solitário dos fins de semana. Mas a saudade continuava a torturá-la o tempo todo, causando-lhe um sofrimento a que já estava se acostumando.
Durante três meses nem Tom nem Betty tocaram no assunto de seu noivado rompido e Hinata também não falava nisso. Nem que quisesse, não conseguiria. Quando já estava trabalhando há um mês, tentou alugar um apartamento, mas não conseguiu encontrar nenhum cujo preço estivesse ao alcance de seu magro ordenado. Também não tinha nenhuma amiga com quem pudesse dividir o apartamento e a idéia de morar com uma estranha não a atraía nem um pouco. Além disso, Betty e Tom insistiam tanto para que ela ficasse que ela acabou cedendo e continuou morando com eles.
Uma segunda-feira à noite, depois de ter lavado a louça do jantar, Hinata sentou-se à mesa e começou a folhear ao acaso o jornal que estava lá. De repente, em uma das páginas, uma foto saltou-lhe aos olhos, deixando-a gelada. Ficou imóvel sem poder afastar o olhar daquele homem viril, de negros, bem no centro da foto. Reconheceu imediatamente Sasuke, o mesmo jeito arrogante, olhando para uma garota que o acompanhava. Depois de algum tempo Hinata afinal desviou a atenção para a garota morena que olhava para ele com ar insinuante e sensual. Era Hanabi, sua prima!
Hinata engoliu o choro, sufocou um soluço e leu a legenda da fotografia: "O proprietário de hotéis e grande empresário Sasuke Uchiha foi visto acompanhando a jovem estrela em ascensão, Hanabi Hyuuga, em uma recente festa em Hollywood. Circulam rumores de que há uma noiva morena na vida de Sasuke. Será essa?"
Hinata tentou se alegrar ao ver Sasuke e Hanabi juntos de novo. Tentou o mais que pôde, mas não conseguia deixar de lembrar o jeito como ele costumava olhar para ela, aqueles olhos escuros provocantes, invadindo sua alma e acendendo o fogo do desejo que sempre esteve presente durante o tempo que passaram juntos. Todas aquelas recordações que ela tanto lutou para afastar da memória voltaram num só instante. Era como se tivesse sido ontem o dia em que o abandonara, tal era a força do amor que sentia e a dor de tê-lo perdido. Hinata só percebeu que estava chorando quando viu as gotas que molhavam a página do jornal. Então passou a mão pelo rosto e começou a enxugar as lágrimas depressa. Fechou o jornal e correu para o quarto, sem perceber que Tom a observava em silêncio de sua poltrona.
Hinata começou a ficar desatenta e não conseguia mais se concentrar no trabalho. Precisava usar maquilagem para disfarçar as olheiras, resultado de três noites sem dormir direito.
Com olhos cansados, releu a página que acabara de datilografar e percebeu que tinha escrito o nome de Sasuke no documento e não o do cliente. Ficou desesperada. Precisaria refazer a página inteira, pois não podia corrigir o erro apagando. Era um documento legal. Hinata teve vontade de chorar de frustração ao arrancar da máquina o papel e as folhas de carbono com as cópias.
Nesse momento ouviu passos em sua sala e estremeceu só de pensar no que teria de ouvir do Sr. Jennings quando ele descobrisse que ela não havia terminado o documento. Sem levantar os olhos, começou a se desculpar antes que ele falasse.
— Sinto muito mas ainda não terminei, só falta uma página... — As palavras morreram nos lábios de Hinata quando ela ergueu os olhos.
Não era possível! Devia estar muito mal mesmo, até já começara a ter alucinações! Estava vendo Sasuke diante dela! Piscou uma, duas vezes, mas ele continuava lá.
— Olá, Hinata — disse Sasuke sorrindo, olhando fixo para ela.
— O que está fazendo aqui? — murmurou ela. Olhou em redor, aflita, percebendo as caras curiosas das outras companheiras de trabalho.
— Acho que é óbvio, não? — disse ele com sua voz cínica.
Aquilo era uma terrível provação para Hinata, que não estava em condições de enfrentar o olhar severo dele. Baixou a cabeça e ficou olhando para a máquina de escrever.
— Vá embora, Sasuke. — Era demais vê-lo ali tão perto e não poder cair nos braços dele. Naquele momento, era o que mais queria fazer.
— Acabou-se a brincadeira de esconde-esconde! — disse ele, apenas.
— Por favor, deixe-me em paz — implorou ela num sussurro, com voz trêmula que mal podia controlar.
— Srta. Hyuuga, já terminou de datilografar aquele acordo? — disse um homem apressado que entrou correndo na sala, os cabelos em desalinho, tão preocupado que nem percebeu a figura alta e imponente de Sasuke.
— Ainda não, Sr. Jennings — respondeu Hinata, tensa.
— Preciso disso imediatamente!
— Se me dá licença — interrompeu Sasuke com seu jeito autoritário — eu estava conversando com a jovem.
— Escute aqui... — começou o patrão de Hinata indignado, virando-se para Sasuke, mas assim que o viu mudou de expressão e de atitude. — O senhor não é...
— Sasuke Uchiha, sim senhor! — completou ele.
— Ora, mas é claro! Eu o reconheci logo. — O Sr. Jennings sorriu e seus olhos baços se iluminaram ao ouvir aquele nome. — Em que lhe posso ser útil?
— Gostaria de falar em particular com a Srta. Hyuuga. O senhor tem algum lugar onde possamos ficar a sós? — respondeu Sasuke de imediato, sem tomar conhecimento da cara de espanto de Hinata.
— A Srta. Hyuuga?! — repetiu o homem, confuso, só então olhando para Hinata, como se tivesse esquecido que ela estava lá. — Ah, sim. É claro! — disse ele, pondo-se a caminho. — Há uma sala logo ali que o senhor pode usar.
Sasuke pousou o olhar em Hinata, desafiando-a a recusar acompanhá-lo. E era isso que ela devia fazer! Mas tantos meses de sofrimento longe dele, pensando que nunca mais o veria, tinham abalado suas defesas. Ele leu em seu olhar a indecisão.
— Ou será que prefere que conversemos aqui mesmo? — perguntou Sasuke, abrangendo com o olhar toda a sala cheia de mulheres. — Diante dessa platéia toda?
Ainda relutante Hinata ergueu-se, sentindo as pernas bambas, e seguiu o Sr. Jennings que os conduziu até a sala que ficava um pouco adiante do salão de datilografia. Sasuke foi atrás, como se estivesse bloqueando uma possível fuga. Hinata parecia estar escoltada, entre os dois.
Assim que entraram na sala, Sasuke fechou a porta e Hinata olhou para ele, aflita. Não pôde deixar de notar que a expressão dele parecia mais cínica e retraída. Com passos largos ele foi até a janela e ficou contra a luz, seu rosto mergulhado na sombra.
— Você pensou mesmo que eu não a encontraria, Hinata? — perguntou ele com insolência.
— Não pensei que você fosse tentar, que se preocupasse em me procurar...
— Não mesmo? Então por que teve tanto trabalho em não deixar pistas?
— Não foi assim, eu não fiz de propósito... — disse ela, pouco convincente. — Voltei diretamente ao apartamento e então descobri que Hanabi havia se mudado. Eu não tinha dinheiro, por isso quando Tom me ofereceu um quarto na casa dele e da mulher, eu aceitei.
— E fez com que ele prometesse não dizer a ninguém onde você estava, não é? Só que o outro porteiro, o Jenkins, não é tão calado nem tão reservado assim. Seus tios estavam quase ficando loucos de preocupação por você!
— Isso é mentira! Tia Hikari disse-me que não pusesse mais os pés na... — Ela se interrompeu bruscamente, captando um brilho nos olhos de Sasuke. — Ora, isso não importa mais, agora! Deixe para lá. — Ela deu de ombros, depois cruzou os braços sobre o estômago, como se assim pudesse acalmar o tumulto interior que a agitava. — Por que você teve que vir me procurar? Por que não me deixou me paz?
— Você é minha noiva — disse ele apenas, sem nenhuma emoção na voz.
— Agora não sou mais — negou Hinata com veemência, erguendo a mão que já não usava o anel de safira. — Estou sem o seu anel. Eu o coloquei em meu dedo e eu mesma o tirei e devolvi a você. Não há mais noivado algum.
— Isso é o que você pensa! Você deixou minha tia pensando que você estava cuidando de sua mãe acidentada, não falou nada sobre rompimento de noivado algum. Para ela continuamos noivos — disse-ele em tom de provocação.
— E como é que eu poderia falar? O que você queria que eu fizesse? Que dissesse a ela que eu odeio o sobrinho dela?
— Pois é, eu também não falei nada. Kurenai pensa que ainda estamos noivos. — Ele riu, irônico. — E agora, para consertar isso?
— Foi por isso que veio tão longe e teve tanto trabalho para me encontrar? Só para me jogar na cara a confusão que eu criei assumindo uma falsa identidade?! Você não tem idéia do quanto eu me arrependo por ter ido a Mobile! — A última frase terminou com um soluço de choro.
— E talvez vá se arrepender do mesmo jeito de ter que voltar para lá.
— Eu não vou voltar! — retrucou Hinata.
— Ah, vai sim — disse Sasuke, severo. — Kurenai quer que você esteja presente no casamento dela.
— Casamento? Quer dizer que... ela e o juiz vão se casar? — Um brilho de felicidade passou por seus olhos.
— Vão. E é natural que ela queira que minha noiva compareça.
Houve uma pequena pausa. Hinata queria ir, por amizade a Kurenai, mas não devia ir.
— É impossível — disse ela, sabendo que não poderia ficar perto de Sasuke sem deixar que ele descobrisse quanto ela o amava. — Por que você não leva Hanabi? Afinal, já está na hora de ela conhecer sua família!
— Estou pouco ligando para Hanabi! É você que Kurenai quer.
— Invente uma desculpa, ou então conte a verdade — pediu Hinata, aproximando-se dele sem querer. — Nós não podemos continuar com essa mentira por mais tempo! Até quando vamos ficar fingindo? Ela tem de saber, um dia.
— Não houve fingimento nenhum, nem mentira! — Agora o rosto dele não estava mais na sombra e ela via bem o olhar penetrante dele que a inquietava. — Eu pedi você em casamento.
— Eu sei, mas seria um casamento sem amor entre nós — protestou ela. E nesse momento percebeu que tinha chegado bem perto dele e colocara as mãos no peito dele. Na mesma hora afastou as mãos e fez-se um silêncio em que ela só ouvia as fortes batidas de seu coração.
— Sempre houve algo entre nós. — Ele lançou um olhar perscrutante a Hinata e os olhos deles se encontraram. Ela ficou perturbada com o magnetismo que sentiu e procurou afastar-se dele.
— Não... — protestou fracamente.
Sasuke segurou-a com força pela nuca e puxou-a para si, apertando-a contra seu corpo esguio e rijo. Mas Hinata não sentiu medo, apenas olhou-o com um desejo ardente brilhando no olhar.
— Ah, eu devia matar você pelo que me fez sofrer. Minha vida virou um inferno! — murmurou Sasuke. Seu olhar percorria o rosto dela devagar e a mão que segurava a nuca ficou mais leve e começou a acariciar o pescoço de Hinata de um jeito tão sensual que ela baixou o olhar para esconder o desejo. — Você tomou conta de mim completamente. Dia e noite era só em você que eu pensava... quase fiquei louco de tanto querer você — confessou ele com voz gutural. — E você ainda me diz que não há nada entre nós!
Os lábios dele se apossaram dos seus e Hinata, com aquelas palavras maravilhosas ecoando em seus ouvidos, entregou-se ao beijo sem reservas, com ardor, liberando afinal o que reprimira durante tanto tempo. Depois aninhou-se no peito dele, enquanto Sasuke lhe beijava os cabelos.
— Não vou deixar mais você fugir de mim, Hinata — jurou ele com voz quente. — Não posso ficar sem você... meu Deus do céu, não posso mais viver sem você, Hinata!
— Sasuke, Sasuke... — murmurou ela, arrepiada de emoção, sentindo a mais profunda felicidade, enquanto beijava o rosto dele, esquecida do resto do mundo. — Por acaso está dizendo que me ama?
— É... estou sim — confessou ele, afinal. — Eu amo você, eu adoro você. Naquele primeiro dia em que a abracei, na beira da piscina, pensando que você fosse Hanabi, algo estranho aconteceu comigo. Achei que era raiva por você ter me enganado com sua falsa identidade. Mas não conseguia deixar de querer tocar em você de novo, de abraçá-la e cobri-la de beijos... e eu ficava revoltado porque não queria admitir...
— Ah, Sasuke! — Mas ele colocou a mão sobre seus lábios, impedindo-a de falar.
— Isso não deixa você contente? — disse ele em tom cínico. — Está se sentindo vitoriosa, não é? Você conseguiu, afinal.
Ela balançou a cabeça em silêncio, negando.
Sasuke largou-a e deu-lhe as costas, olhando para a janela enquanto esfregava a nuca, meio sem jeito.
— Você vai para Mobile comigo? — perguntou com brandura.
— Eu vou até o Pólo Norte com você, se quiser, meu amor — respondeu ela no mesmo tom.
Houve um momento de silêncio, depois Sasuke virou-se num movimento rápido e fitou-a, incrédulo.
— O que foi que você disse? — perguntou, tentando se controlar, mas os olhos negros refletiam ansiedade.
— Eu disse que amo você, Sasuke — respondeu Hinata, deixando que ele lesse em seus olhos toda a emoção e sentimento que ela sempre procurara esconder.
Depois correu para os braços dele, que a envolveram num abraço de posse e os dois se beijaram com paixão, revelando-se um ao outro inteiramente, afinal.
Quando, a muito custo, eles se separaram, depois de algum tempo, Sasuke acendeu um cigarro com mãos trêmulas.
— Acho melhor nos casarmos antes de voltarmos a Móbile — disse ele — embora eu gostasse de vê-la toda de branco caminhando para mim no altar...
— Também acho, Sasuke — concordou Hinata, aquecida pela maravilhosa sensação de se sentir amada. — Não quero cerimônias, nem festas, nem nada. Só quero você.
— Hinata, por que você fugiu? — Ele a contemplava, feliz por ver no rosto dela o amor que Hinata sentia por ele.
— Porque pensei que você não me amasse — respondeu ela com sinceridade, só agora percebendo quanto estivera enganada. — Você vivia repetindo que eu devia me casar com você, mas não dizia mais nada. Depois, aquela noite, praticamente jogou-me nos braços de Naruto... Se você me amava, Sasuke, por que me forçou a ir ao baile com ele?
Ele respirou fundo antes de responder.
— Lembra-se daquele dia à beira da piscina... antes do telefonema de Naruto? — Hinata enrubesceu ao lembrar-se de como se abandonara às carícias de Sasuke e com que intensidade correspondera. — Pois é, você pode não acreditar, mas aquela foi a primeira vez que uma mulher me fez perder o controle. O que eu senti naquele momento nunca sentira antes fazendo amor com outras mulheres. Se Denton não tivesse aparecido para me chamar, não sei o que teria acontecido... — Ele a contemplou por instantes. — Quando minha cabeça esfriou, depois da interrupção, eu percebi o quanto estava envolvido e daí fiquei com medo. Não queria me sentir dominado, não queria ficar à mercê de uma mulher... por isso tentei fugir...
Hinata riu. Como se Sasuke fosse do tipo que alguém pudesse dominar!
— E o que significa aquela foto de você com Hanabi que saiu no jornal? Pensei que tivesse voltado para ela.
— Estava tentando encontrar você, meu amor. Foi só por isso que eu procurei Hanabi. Mas sei como o ciúme é terrível. Naquela noite eu quis que você saísse com Naruto para provar a mim mesmo que você não significava nada para mim. Foi a noite mais horrível que já passei em toda a minha vida. Você não imagina a agonia que eu sofri! A não ser, é claro, o que eu passei nestes meses em que não sabia onde você estava. Quase enlouqueci!
— Nunca mais vou fugir de você, Sasuke — jurou ela, aconchegando-se no calor de seu abraço. — Nunca mais.
— E eu nunca mais vou deixar isso acontecer — murmurou Sasuke, roçando os lábios dela antes do beijo que selaria as promessas de amor.
FIM
É uma história linda, na minha opnião poderia ter um final melhor, mas não fui eu quem escrevi ;( haha
Espero que tenham gostado, obrigada por acompanharem! Beijoss
