— Você sabia que o índice de divórcio em casamentos comutativos, como o nosso é chamado pelos cientistas, é cerca de quarenta por cento menor do que nos casamentos comuns?
— Oh, os pobres casais normais... Sinto pena deles... — James murmurou num tom teatral.
Virou a cabeça no travesseiro e olhou para Lily. Haviam feito amor há menos de quinze minutos, e ele ainda estava envolvido pelo clima romântico que sempre sentia depois de amá-la. Era como se estivesse de bem não apenas com Lily e consigo mesmo, mas também com o resto do mundo.
Olhou para o relógio de cabeceira. Quase onze e meia da manhã. O sol entrava pela janela, insinuando-se através das cortinas de renda cor de marfim. Mais parecia uma saudação da natureza aos amantes.
— James, não estou brincando — Lily objetou. — Eu li isso em uma revista respeitável.
— É mesmo, Dra. Potter? — perguntou ele, passando a mão por baixo da cintura dela, puxando-a para si. — Estou muito impressionado. E tem alguma idéia do motivo que levou os casamentos comutativos a adquirirem números tão significativos nos índices de pesquisa?
Lily se aninhou junto de James, deixando seus cabelos acariciarem o ombro dele.
— É que nos empenhamos mais para manter o casamento — ela respondeu, acariciando o peito dele com a ponta dos dedos. — Pelo menos é o que dizia o artigo. Sabemos que as cartas estão marcadas contra nós, por isso fazemos de tudo para não perdermos o jogo. De certa forma, isso faz sentido.
James levou a mão dela aos lábios, beijando-lhe a ponta dos dedos.
— É, suponho que sim — ele anuiu. — Talvez seja também porque nesse tipo de casamento os homens tenham o bom senso de se casar com mulheres inteligentes como você, que sabem que tal situação não durará para sempre e que os resultados finais justificam a inconveniência temporária.
— Inconveniência? — Lily virou de lado, apoiando-se sobre o cotovelo. — Então é assim que considera o fato de eu ir ao banheiro de manhã e às vezes me deparar com uma aranha enorme enquanto meu destemido marido está a milhares de quilômetros de distância, voando por um lindo céu com a Branca de Neve? Chama isso de inconveniência!
— Hei! Não vôo por um lindo céu; eu trabalho para a Lombard Airways. E quem diabos é Branca de Neve? Não me diga que é Alice?
— Não — Lily respondeu, revirando os olhos com ironia. — Estou me referindo a Sirius. Mas esqueça o que eu disse. Agora deixe-me lembrar o que eu estava dizendo antes, sobre nosso casamento.
— Oh, desculpe a interrupção — James disse, deslizando a mão por baixo do lençol e acariciando o seio firme de Lily. — Longe de mim fazê-la perder a linha do raciocínio — acrescentou, acariciando o mamilo rosado com o polegar. Com a outra mão, começou a acariciar as costas dela. — Por favor, Sra. Potter, continue sua dissertação.
Lily afastou a mão dele de seu seio, colocando-a em território neutro.
— Pretende continuar brincando, não é, James?
Ele deitou-a de costas, mordiscando-lhe o lóbulo da orelha.
— O que a faz pensar isso, Lily?
— Você consegue ser mais impossível do que meus alunos, incluindo os pequenos Fred e Jorge Weasley, que colocaram um sapo enorme na minha mesa ontem.
Lily sorria enquanto falava e James sabia que havia ganhado a batalha. Havia hora e lugar certo para conversas sérias, mas ele não considerava a manhã propícia para isso.
— Oh, coitadinha... — James brincou, mantendo os lábios a centímetros dos dela. — E o que você fez? Começou a gritar e saiu correndo?
Lily deslizou as mãos pelas costas dele.
— Muito engraçado! — ironizou. — Agora, por que não para de falar e vem aqui?
James estava a ponto de obedecê-la quando o telefone começou a tocar, interrompendo-os.
— Droga! — James xingou quando Lily esticou o braço para atendê-lo. — Deixe tocar — mandou. — Finja que não ouviu; desligue-o da tomada. Melhor: deixe que eu o jogue pela janela.
Lily riu, balançando a cabeça que não. Sentou-se na cama, puxando o lençol sobre os seios.
— Não podemos fazer isso, James. Pode ser Lene. Não lembra que prometi sair com ela hoje?
James afundou no travesseiro, cobrindo os olhos com o braço. Foi como se alguém houvesse jogado um balde de água fria em sua cabeça. Talvez dois, ambos com cubos de gelo.
— Como eu poderia esquecer? Vá em frente, Lily, atenda-o. Ficarei bem, apesar de abandonado sobre essa cama.
— Seu bobo... — Lily riu, tirando o aparelho do gancho. — Alô? Lene! Eu ia mesmo ligar para você. O quê? Claro que não esqueci. Estarei pronta em meia hora. Sim, claro. Levaremos alguma fruta para comer no caminho. Tchau, ainda vou tomar um banho.
Lily desligou com um suspiro. Ficou de pé e se afastou em direção ao banheiro, levando consigo o lençol enrolado no corpo. James não pareceu nem um pouco constrangido em ter sido deixado nu e exposto sobre o colchão.
— Deixei alguns ingredientes para sanduíche na geladeira, querido — Lily avisou antes de sair. — O pão está no primeiro compartimento do armário. Espero que não se importe de comer sozinho hoje. O que pretende fazer à tarde? Lavar o carro?
James vestiu a bermuda.
— Sim, acho que farei isso mesmo. Vou lavar os dois carros. É por isso que eu estava com tanta pressa de voltar para casa, sabe —acrescentou, irônico. — Não via a hora de lavar os carros.
— James! — Lily olhou-o com ar de choro. — Já falamos sobre isso. Direi a Lene que você está em casa. Ela entenderá se eu cancelar os outros planos. Porém, não acho justo desmarcar a visita à feira de antigüidades, logo agora que ela já está pronta.
James balançou a cabeça, rindo de si mesmo. Reconhecia que sua reação fora muito infantil. Mas é que tinha tantos planos para ele e Lily no fim de semana!
—Desculpe, Lily— disse, lançando um último olhar para ela.
Lily estava simplesmente linda, com o lençol enrolado em torno do corpo e os cabelos ruivos caindo em ondas sedosas sobre os ombros alvos.
— Desejo um bom divertimento para você e Lene — afirmou, por fim. — Ficarei bem, prometo.
Esperou até que ela saísse e olhou para seu próprio reflexo ao espelho.
— Mentiroso! — disse a si mesmo, antes de ir para a cozinha, preparar seu desjejum solitário.
Lily entrou em casa após de despedir de Lene, que compreendera muito bem o fato de Lily ter de cancelar os outros compromissos, devido à inesperada visita de James.
Lene contou que conhecera um rapaz quando fora ao mercado pela manhã, fazer compras para sua mãe, e que ele a convidara para sair à noite. De fato, ela deu graças quando Lily desmarcou o compromisso que elas haviam marcado para a noite.
— Você tocou no assunto bem na hora certa, Lily — Lene comentou, feliz. — Eu também estava pensando em uma maneira de desmarcar nosso passeio, mas não sabia como. Estou muito otimista sobre esse encontro com Remus, sabe. E como se o destino de repente houvesse decidido intervir na minha vida. E já não era sem tempo! — ela riu. — Por acaso mencionei que ele tem olhos castanhos? Os mais lindos que já vi num homem!
Lily riu da empolgação da amiga. Depois que Lene partiu, ela deixou sobre a mesa a antiga bandeja de prata que comprara na exposição. Com certeza James riria quando visse a peça, mas fora uma barganha tão boa que ela não resistira ao impulso de comprá-la. Ficaria nova em folha depois de um bom polimento.
E por falar em James... onde estaria ele?, perguntou a si mesma. Apurou os ouvidos, tentando ouvir algum ruído pela casa. Tinha certeza de que ele não estava do lado de fora, embora os carros estivessem lavados e polidos. Também não estava tomando banho, caso contrário ela escutaria o barulho do chuveiro.
— James? Você está aí?
Percorreu a vista pela sala e começou a subir a escada. Um minuto depois estava de volta à cozinha, ainda sem saber onde seu marido se metera. Dando de ombros, abriu a geladeira para verificar se sobrara um pouco de presunto para ela preparar para o jantar, ou se James comera tudo, como da última vez em que estivera em casa. Abriu o congelador, para ver se pelo menos um pedaço de presunto sobreviverá ao almoço de James. Encontrou o presunto ao lado de uma embalagem esquisita.
— Isso é comida de cachorro? — perguntou-se tirando a embalagem da geladeira. — Mas isso é ridículo. Não pode ser! — Voltou a ler o rótulo, incrédula — Comida de cachorro!
Fechou a porta da geladeira e percorreu a vista pelo chão, à procura do vestígio de algum cachorro. Encontrou a prova logo atrás da porta: dois pratinhos de metal, um com água e outro com um pouco do conteúdo da embalagem que ela tinha à mão.
— Um cachorro? —repetiu em voz alta, sentindo-se uma completa idiota. — James encontrou um cachorro? — Abaixando-se para olhar os pratinhos, corrigiu: — Não. James não encontrou um cachorro. Ele comprou um. Pelo menos é um cachorro pequeno, já que não comeu nem um pratinho inteiro de comida. Mesmo assim James só pode ter enlouquecido. Espero que ele também tenha comprado uma casa de cachorro suficientemente grande para os dois, porque ele não dormirá aqui esta noite! Isto é, se eu o deixar sobreviver até lá!
Lily ouviu uma movimentação do lado de fora da porta. Virou-se a tempo de ver James tentando controlar um cachorro tão grande que mais parecia um cavalo.
— Calma, Almofadinhas! Calma! — James o comandava, segurando a corrente presa à coleira.
Só que o animal negro não estava nem um pouco "calmo". Seguiu em frente até quase entrar pela cozinha adentro. As patas deslizaram pelo chão recém-encerado, fazendo-o praticamente deitar aos pés de Lily.
— Olá, Almofadinhas — ela disse da maneira mais calma que conseguiu. — Maneira um tanto inusitada de nos conhecermos, não?
Os movimentos bruscos do cachorro fizeram James cair no chão, indo parar dentro da cozinha. Ele forçou um sorriso para Lily enquanto tentava se equilibrar.
— Oi, Lily! Aposto que nunca irá adivinhar o que fiz hoje.
— Sim, eu irei, querido — replicou ela, afastando-se com cuidado do cachorro. — Você simplesmente enlouqueceu. Perdeu o controle de seu raciocínio. Comprou um cavalo!
James sentou-se ao lado do animal, acariciando-lhe as costas.
— Não exagere, Lily — disse sorrindo, como se ainda não houvesse se dado conta da seriedade da situação. — Almofadinhas ainda é praticamente um filhote.
— Oh, claro — Lily ironizou.
Almofadinhas esforçava-se para ficar de pé, mas caía, desajeitado, a cada tentativa.
— Comprei-o por um bom preço — James continuou, apesar de Lily não haver feito nenhuma pergunta.
Ela continuava de pé, punhos cerrados ao lado do corpo, como a mãe de James o olhara no dia em que ele levara um gato para casa, jurando que o animal o seguira desde a escola. Realmente poderia ter sido uma boa desculpa, se um gatinho com pouco mais de um mês de idade fosse capaz de andar sozinho doze quarteirões.
— Ele é manso — James prosseguiu —, foi treinado, tomou todas as vacinas e não tem nenhuma pulga.
Considerava o último detalhe importante, já que o gato levara consigo toda uma geração de pulgas para a casa de sua mãe. Tivera de abrir mão de sua mesada durante seis meses para pagar a dedetização.
— Hum-hum — Lily anuiu.
Ela arqueou as sobrancelhas quando Almofadinhas moveu sua grande cabeça e começou a puxar o cadarço do tênis de James.
— Pare com isso, Almofadinhas — James afastou a cabeça do cachorro. — Já comeu quase duas embalagens de comida. Não é possível que ainda esteja com fome!
Levantou a vista para Lily, sorrindo sem graça.
— Ele tem muito apetite, querida.
— Hum-hum.
James fez uma careta.
— Você o odeia, não é? — perguntou a ela.
— Não, James. Não odeio Almofadinhas.
— Então odeia a mim?,
— Não, James. Também não odeio você.
James afastou Almofadinhas e ficou de pé. Levara o cachorro para um passeio, embora Almofadinhas houvesse liderado o trajeto durante a maior parte do tempo. Notou que Lily estava irritada.
— Está aborrecida por que não a consultei antes, não é, Lily? Não agi como um bom marido deveria agir, certo?
Lily assentiu.
— Pode até ter demorado um pouco, mas eu sabia que você deduziria isso mais cedo ou mais tarde — disse a ele. — Foi por isso que me casei com você; admiro seu maravilhoso senso de dedução.
— É, acho que eu merecia ouvir isso. Desculpe, Lily. Da próxima vez eu a consultarei primeiro, prometo. — Beijou-a no rosto e foi à geladeira, pegar chá gelado. — Minha nossa! Há algum animal morto aqui dentro?
— Não, querido. É apenas o "delicioso" aroma da comida de Almofadinhas, que você deixou aí.
James tirou o chá, fechando a geladeira rapidamente.
— Acho que terei de encontrar um lugar mais apropriado para estocá-la, não é?
— Outra brilhante dedução — Lily ironizou.
Observou quando Almofadinhas conseguiu ficar de pé. Ele se aproximou e farejou os joelhos de Lily, antes de se sentar aos pés dela. Levantou a vista para olhá-la, como se perguntasse: "Oi, você também mora aqui?"
James passou o braço pelos ombros dela.
— Peço desculpas por não havê-la consultado, Lily, mas é que quando saí com o carro e vi Almofadinhas na loja de animais, simpatizei com ele no mesmo instante e não resisti ao impulso. Disse-me que se sentia sozinha, lembra? Pensei que a companhia de Almofadinhas seria um bom meio de amenizar sua solidão. Você chegou até a falar que gostaria de ter um cachorro. Imaginei que Almofadinhas seria um bom começo.
— Hum-hum — Lily cerrou os dentes.
James abaixou a vista para Almofadinhas. O cachorro os olhava como se soubesse que sua presença na casa estava sendo questionada.
— Eu poderia ter comprado um filhote menor, mas imaginei que Almofadinhas também pudesse servir como segurança para você, quando eu não estiver em casa.
— Com toda essa mansidão? — Lily argumentou. — A única coisa assustadora nele é o tamanho.
James avistou a bandeja sobre a mesa.
— Bem, se Almofadinhas não amedrontar o possível ladrão, entregue isso a ele — apontou a peça antiga. — Deve valer pelo menos uns três dólares — acrescentou pegando-a na mão.
— Pelo menos o que eu comprei cabe no espaço dessa casa — ela retrucou.
Mais irritada consigo mesma do que com James, ela tirou a bandeja da mão dele. Só que não conseguiu segurar todo o peso com apenas uma mão e a peça caiu no chão com estardalhaço.
Almofadinhas começou a ganir, demonstrando que realmente não passava de um bebezão crescido. Tentou subir pela perna de James, mas as patas deslizaram sobre a cerâmica da cozinha, fazendo-o cair novamente aos pés de Lily.
— Oh, coitadinho! — Lily exclamou, abaixando-se para consolá-lo. — Aquela bandeja malvada assustou você? — Acariciou a cabeça dele. — Não deveria ter soltado a bandeja antes que eu a estivesse segurando com firmeza, James. Veja só o que fez. Almofadinhas está tremendo!
Sabendo bem aproveitar-se do momento, Almofadinhas começou a lamber a mão de Lily, fitando-a com olhar de adoração.
— Oh, droga — ela suspirou. Levantando a vista para James, acrescentou: — James Potter, acho que estou apaixonada.
À noite, depois de arranhar o lado de fora da porta do quarto e ganir alguns minutos, Almofadinhas dormiu no tapete, ao pé da cama de Lily e James, aceito como o mais novo membro da família.
Olá gente! Sim, eu estou viva, sei que fiquei mais de um mês sem postar, peço perdão pela demora. O último mês foi puxado, muitas provas e trabalhos na faculdade, além de alguns compromissos sociais, mas agora que as provas acabaram (a ultima foi ontem) e só restam alguns poucos trabalhos para fazer, tentarei postar da mesma forma que antes, quase todo dia, alternando entre uma fic e outra. Sei que sempre coloco a Lene como par de Sirius, mas desta vez ela conheceu o Remus *-* e de qualquer forma não daria para ter dois Almofadinhas por perto, um já é demais kkkk Um abração forte a Thaty, Nanda Soares e Joana Patricia. Beijos e até mais.
