Capítulo IX

~Segundo baile de debutante – Parte I~

Eu nunca vou me esquecer daquele dia, foi o dia que o meu coração pesou muito nas mãos da Sakura… foi o dia em que a história desses lenços começaram…

Quinta-feira, 3 de abril de 200X (nunca vou me esquecer dessa data, desses números!). O dia tinha chegado. Era uma manhã linda de primavera. Despertei às oito da manhã. Tinha tido uma noite muito tranquila, não me lembro de ficar preocupada com nada, mas as preocupações só apareceram quando eu comecei a viver aquele dia… desci pra tomar o café da manhã e encontrei a mesa posta pra mim na cozinha. A sala de jantar tava ocupada porque minha mãe ainda tava preparando tudo. Quando terminei o café, minha mãe me chamou para ver a sala de jantar. Meu primeiro "friozinho na barriga". Confesso que eu não sou lá muito chegada a surpresas, gosto mais de surpreender, eu fico toda inibida, eu nem me solto muito, mas quando eu vi a sala de jantar não teve como eu me espantar de susto e de surpresa.

A mesa não era a de sempre. Estava no estilo tradicional, baixinha, fazia com que nossos convidados se ajoelhassem pra comer. Mas o que mais me impressionou foram as cortinas. Todas na cor marrom com detalhes em roxo. Minha mãe falou que por serem as minhas cores favoritas não tinha como não acertar, mas o que me surpreendeu mesmo foram os retratos na parede. Ela tinha substituído tudo por retratos meus, só meus; e pintados a óleo ainda por cima! Tinha fotos minhas que ela transformou em quadros, comigo no clube de música, me apresentando no coral, com as minhas amigas na escola, gravando no estúdio, costurando, com o uniforme da escola Tomoeda, com o da Seiju, com roupa de banho… não faltou fôlego pra minha mãe me homenagear, e nem dinheiro! A imagem que ela mais gostou foi um quadro meu… com a Sakura. Foi baseado em uma foto nossa no festival de ano novo no templo Tsukimine desse ano; ela gostou tanto da foto que mandou fazer um quadro. Ela ficava na outra ponta da mesa, porque na cabeceira da mesa, que seria o meu lugar como minha mãe mesma disse, ficou um grande retrato meu, usando um quimono roxo. Eu nunca tinha tirado aquela foto, mas minha mãe me disse que o artista fez uma obra original, baseado no que ele já tinha pintado de mim. Foi o último quadro e o que mais deu trabalho pra fazer. Eu nunca tinha usado aquele quimono roxo, eu usaria ela naquela noite…

Depois de me mostrar tudo minha mãe me deu um abração, me disse que ficava muito feliz por mim e muito triste por me afastar das minhas amigas. Eu fiquei sem jeito com o abraço dela, mais sem jeito ainda em imaginar tudo aquilo, como seria aquele jantar, aquela festa que ela daria na mansão só pra mim… como eu iria me portar na frente daquela gente importante que ela tinha convidado? Não sabia, falei pra mim mesma que ficaria tímida na hora, mas depois me soltaria. Na lista de convidados, além das nossas amigas, tinham os executivos da empresa da minha mãe e os seus familiares, sabe, as esposas, maridos e os filhos deles (que já tinham a minha idade ou já estavam na faculdade) pra animar a festa um pouco. Tudo gente que eu não conhecia, mas passaria a conhecer. O jantar foi feito pra umas 25 pessoas, era o bastante, afinal a minha mãe também usaria aquilo como reunião de negócios dela, pra fazer negócios, discutir sobre trabalho, tudo o que ela sabia conversar… mas sem se esquecer que a festa era pra mim, esse era o principal motivo de tudo aquilo.

Então chegou a hora de eu me arrumar. Depois do almoço, eu tive o meu festival particular de "banho de beleza" que nem eu tinha feito com a Sakura. Fora o pessoal que a minha mãe arranjou pra preparar o jantar e decorar a casa, ela arranjou um pessoal só pra cuidar de mim. Eu sorri com aquilo tudo porque eu também tinha feito aquilo tudo antes com a Sakura, umas duas vezes, agora era a minha vez de sofrer um pouco agora. Quando eu saí daquilo tudo foi que eu tive a surpresa…. Com a decoração da minha casa! Com as minhas amigas.

A Naoko foi a primeira a chegar e foi recebida pela minha mãe. Minha mãe falou pra ela ficar à vontade, comer o que quisesse, ver os livros da biblioteca de casa, jogar videogame… a Naoko preferiu ir pra biblioteca "bisbilhotar" os nossos livros. Depois veio a Chiharu, a Rika e por

fim a Sakura com a Meiling. A Naoko ficou orientando elas enquanto a minha mãe coordenava a arrumação da casa. A Meiling já estava de retorno pra Hong Kong, passou o mês inteiro recebendo a mudança do "rapaz" e arrumando a casa que ele ia ficar. O Wei, o mordomo da família dela, veio uns quinze dias depois, pra arrumar a papelada: visto de estudante na embaixada, matrícula na escola média de Tomoeda… enfim, tudo o que a Meiling não conseguia (ainda, por causa da idade) resolver. Ela voltaria no mesmo dia que eu entrei na Todai. Nesse tempo ela dormiu na casa da Sakura e a gente combinou de irmos juntas pra Tóquio. A Sakura queria me acompanhar na minha entrada na faculdade nesse meu primeiro dia de aulas, mas ela também entraria no segundo ano da escola. Ele propôs "matar a aula", mas eu não deixei ela fazer isso, "ameaçando" ela, dizendo que ela não seria uma médica que ficasse fazendo isso. A Sakura concordou, mas ficou muito encabulada…

O jantar estava marcado pras sete horas, os convidados da minha mãe chegariam meia hora antes. Todo mundo tava me esperando sair do meu "ritual" de beleza, minha mãe ficou segurando elas pra que não me vissem. A Sakura era a mais ansiosa, mas ficou falando como sempre que eu estava sofrendo agora tudo o que eu tinha feito ela sofrer e ficava fazendo piada de mim pras nossas amigas! Eu pude escutar um pouco da conversa dela lá de cima enquanto eu me arrumava, a Sakura fala alto quando está animada. Eu sorria só de ouvir a voz dela.

Finalmente a decoração tinha acabado, a sala tava toda arrumada, as comidas já estavam na cozinha, mas só seriam postas na mesa meia hora antes. O meu ritual tinha acabado. O pessoal se foi e os funcionários da mansão ficaram pra trabalhar na festa. Eu saí do quarto e vi a decoração da casa: na escada, faixas roxas preenchiam tudo junto com uma série de magnólias japonesas que encheram a casa, como se fosse em uma igreja decorada para o casamento, o lustre tinha sido mudado para a cor roxa, soltando uma luz amarela arroxeada no salão principal. Tinha colunas na sala com tecidos roxos dando a volta em espiral, com pétalas de magnólias coladas nelas. Na entrada uma grande faixa estava escrita o meu nome com as palavras "parabéns Tomoyo!", escritas com uma série de pétalas de flores que minha mãe tinha conseguido arrumar. Tudo muito simples e elegante como eu sempre quis que fosse naquele dia (E que eu nunca consegui fazer!). Parecia uma decoração de natal, mas era a decoração que a minha mãe escolheu para me emoldurar naquele quadro vivo que se tornou a minha casa, o quadro que faltava na parede da sala de jantar.

Eu desci as escadas e não encontrei ninguém. Depois eu descobri que tinha sido ideia da Sakura aquele "sumiço", ela queria me dar o susto que eu fiz ela tomar no aniversário dela, mas quando eu desci da escada e ela me viu, segurando aquela buzina de spray nas mãos pra me assustar, ela parou logo no primeiro olhar dela pra mim. A minha aparência estava mais espantosa pra ela do que o susto que ela pensou em me dar. Ela ficou congelada, com aqueles olhos verdes imensos, tremendo, segurando aquela buzina nas mãos. A reação das nossas amigas e da minha mãe não foi diferente. Eu fiquei vermelha com aquilo tudo. Depois elas soltaram a voz, as expressões de espanto, e por fim a Sakura soltou aquele "hoe" dela, tão estridente que deixou a buzina cair no chão. O que eu usava não era um quimono comum, que elas também estavam usando; eu usava um "juni-hitoe". O que é um "Juni-hitoe"? Hehehe! É um quimono especial, só usado por pessoas de classes sociais altas e pela família imperial, e é só usado em ocasiões especiais. É pra lembrar o monte Fuji dignificado! Ele tem várias partes: um kosode (é como se fosse um quimono, só que mais largo nas mangas e mais curto embaixo, não é muito visível) todo marrom, com estampas de flores, um nagabakama (uma calça gigante, que se arrasta pelo chão) marrom, um Uchiginu (a parte visível do quimono, que dá aquele efeito camada e fica se arrastando no chão com o nagabakama), todo branco e estampado, um kouchiki (a parte que dá pra ver do quimono) todo roxo, com estampas de flores (magnólias, cravos silvestres e cerejeiras, tudo escolha da minha mãe). Sabe aqueles chinelinhos de madeira? Eu tava usando um também, eles se chamam geta! Meus cabelos estavam impecavelmente trançados, uma trança dupla que dava a volta e se prendia na minha cabeça como um coque, seguradas por um pente e dois "pauzinhos". Ufa! Depois de toda essa arrumação, eu estava pronta para o jantar. Depois que eu vi a cara de espanto da Sakura, eu entendi o que significava ser uma "princesa imperial". E como eu amei aquele dia! A última vez que eu me vesti com aquilo foi no casamento da Sakura… e taí outra história que mais tarde eu conto.

Só sei que quando a Sakura ficou congelada, lá parada, e as minhas amigas ficaram comentando baixinho sobre a forma que eu estava vestida, eu peguei a buzina do chão, apontei para a cara dela e só depois que ela foi reagir, mas aí já era tarde! Eu acabei assuntando ela mais do que ela queria ter me assustado com a buzina! Hehehe! A Sakura ficou zonza, as nossas amigas e a minha mãe riram muito com a cena, ela quis discutir, mas só de me ver bonita daquele jeito não quis estragar "nadinha", ficou chorando e se lamentando pelo "azar" de eu ter ficado tão bonita que ela não era capaz de aprontar comigo naquele dia! Fui eu que aprontei com ela. Minha mãe ficou espantada, afinal ela e nem ninguém tinha me visto assim. Conforme a hora ia passando, eu e nossas amigas subimos pro meu quarto e fomos servidas até a chegada dos convidados pelos funcionários da mansão. Ficamos conversando muito até lá, as meninas não paravam de me fazer perguntas, de me pegar, de me cutucar, me perguntando sempre o que eu realmente estava sentindo com tudo aquilo…

Por fim chegaram os convidados. Eram dez executivos, todos eles com suas esposas e três com seus maridos. Um deles trouxe seus dois filhos, um menino e uma menina. Três dos executivos trouxeram um só filho, dois meninos e uma menina. Todos vestidos muito tradicionalmente, com seus quimonos e tudo mais, apesar de ser uma reunião de negócios. E por ser uma reunião de negócios não veio muita gente jovem como eu, veio apenas os filhos mais velhos que queriam ser executivos como o pai, muitos deles já estavam na faculdade ou já tinham se formado. Só um ainda estava no ensino superior. Mesmo assim, minha mãe fazia questão de que aquele dia fosse um dia especial pra mim, pra minha família, e fez questão de chamar minhas amigas para partilhar isso com elas.

A Meiling ficou toda agitada com aquilo, não sabia mais como se comportar. Só de ver os convidados chegando e a minha mãe recebendo eles ficou toda sem jeito e envergonhada e não queria descer tão cedo. Ficou com medo por ser uma coisa tão formal. Eu não tive medo de descer, eu só fiquei com medo quando eu entrei na sala de jantar. Nenhuma delas estava enganada, muito menos eu, mas minha mãe fez questão de transformar aquela reunião em uma coisa pra me homenagear, a herdeira da família Amamiya e Daidouji, diante daquela gente toda. As minhas amigas não quiseram perder a chance de ficar comigo, sabendo que aqueles instantes eram talvez os últimos, elas só queriam um pouco mais de animação. A conversa rendeu naquele quarto e como rendeu. Agora era a hora do jantar.

Depois que a minha mãe recebeu os convidados, ela tratou de chamar a gente no quarto. Eu só sairia de lá às sete horas, um pouco antes de começar o jantar. Como o meu "juni-hitoe" se arrastava pelo chão, a Sakura se ofereceu pra segurar ele. Nós duas fomos as últimas a entrar. Fora eles, tinham três advogados que também foram chamados pela minha mãe, afinal era uma reunião de negócios que começava com um jantar. Estava tudo pronto. Minha mãe se sentou a direita da mesa, do lado da cabeceira. Depois vinham a Sakura, a Meiling, a Chiharu, a Naoko, a Rika fazendo zigue-zague e o resto dos executivos, terminando com os advogados. 32 pessoas na mesa. Como eu fiquei nervosa só de pensar nisso. Quando deu cinco pras três a funcionária me chamou. Todos estavam me esperando. Senti meu coração pulsando no meu peito. Chegou a hora. Mas antes, a Sakura me deu uma palavrinha amiga pra me tranquilizar um pouco:

"– Tá pronta Tomoyo-chan pra encarar todos aqueles executivos?

– Sakura… eu tou um pouquinho nervosa…

– Não fica assim não Tomoyo, eu tou aqui com você hoje, vai tranquila que tudo vai ficar bem…

– Você e seu mantra né Sakura?

– Que nada! Tem coisas que a gente simplesmente faz Tomoyo!"

A Sakura sorriu pra mim e segurou na minha mão, como se fosse o pai da noiva levando ela pro altar… eu fiquei vermelha na hora. Eu saí pela porta e a Sakura veio atrás de mim, segurando meu nagabakama e meu uchiginu. Na mesa de jantar. Meiling não falava nada e tremia como vara verde, talvez pensando sobre como eram formais as reuniões no Japão. A Chiharu e a Naoko conversavam entre si, animadas e impressionadas com o nível dos nossos convidados. A Rika ficou conversando com a minha mãe. A comida começou a ser servida, e só quando todos os pratos foram postos eu entrei na sala:

– Sonomi-san, estou vendo que tem bastante gente jovem aqui nessa mesa; são as amigas da sua filha? – Perguntou o Sato, um homem já idoso, careca no topo da cabeça, com cabelos grisalhos.

– Sim Sato, são sim, elas vieram aqui só pra passar mais um bocado de tempo com a Tomoyo!

– Estou vendo Sonomi-san, a sala está recheada de quadros da Tomoyo; ela já vai aparecer? – Perguntou a Suzuki, uma mulher já idosa, cabelos também grisalhos com os dois filhos do lado.

– A Tomoyo ficou muito bonita Sonomi-san nos quadros! Fico imaginando como ela de estar agora! Faz tempo que não vejo ela! – Perguntou o Takahashi, um homem de uns quarenta anos com a filha do lado, cabelos pouco grisalhos.

– É mesmo, a Tomoyo parece que tem uma grande amiga, também muito bonita! Olha como elas se olham com tanto afeto naquele quadro do fundo! – Disse o Tanaka, um dos advogados da empresa.

– Que bom gente! Eu amo demais aquela menina! Ela é a filha da Nadeshiko, o nome dela é Sakura… Essa foto foi no ano novo…

– Quanto amor você tem pela Tomoyo, Sonomi-san! Fez questão de fazer quadro a óleo dos melhores momentos dela! – Disse o Watanabe, quarenta anos, com o filho do lado.

– É bom ter uma amizade assim tão antiga! – Disse a Ito, uma advogada!

– A Tomoyo é mesmo popular né gente? Parece que todo mundo já conhece ela! – Disse a Chiharu, mesma idade que eu, cabelos castanhos com dois rabos de cavalo do lado com mechas em espiral. – Não é Meiling!?

– Ela é uma amiga muito valiosa! – Disse a Meiling, a encrenqueira de cabelos pretos e muito longos, envergonhada, parecendo que tinha "desaprendido" o japonês.

– Com certeza menina! A Sonomi é muito orgulhosa da filha que ela tem, não tem como a gente não saber quem é a Tomoyo! – Disse a Yamamoto, cinquenta anos, com o filho do lado.

– Mas a Sonomi se lamenta direto que ela era muito nova pra entrar na faculdade; ela disse pra gente que a Sakura ficou muito triste com a notícia! – Disse a Nakamura, quarenta e cinco anos, cabelos curtos.

– A gente é famosa entre vocês hein? O que a Sonomi andou falando da gente? – Perguntou a Rika, cabelos castanhos escuros, quase vinhos, quase pretos, na altura do pescoço! Hehehe!

– Até demais! Ela enfatiza bastante nas nossas reuniões a importância de sermos amigos e unidos pra gente tocar a empesa pra frente, se não houver amizade não tem com haver negócios; por isso ela usa vocês como exemplo! – Disse o Kobayashi, sessenta anos, careca.

– Fora a Nadeshiko, a Sonomi adora usar a Sakura como exemplo de amizade; mesmo com a Tomoyo estudando muito, a Sakura nunca deixou de se preocupar com a Tomoyo. – Disse o Saito, um dos advogados da empresa.

– É mesmo, é por isso que a gente tá aqui com a Tomoyo hoje, não só porque ela é nossa amiga, mas porque a Tomoyo sempre soube unir a gente, o nosso grupo, mesmo tendo se afastado da gente nesses últimos dois anos; vamos sentir falta disso. – Disse a Naoko, cabelos curtos, castanhos e com um óculos de Harry Potter na cara e um crânio de Hermione!

– É muito chato se separar de amigos que a gente convive ha muito tempo, por isso a gente procura arranjar um meio de se comunicar, de manter a amizade apesar de tudo… – Disse o Kato, um dos mais jovens, acho que trinta e cinco anos. Cabelos pretos em forma de tigela.

– Por isso eu sempre procuro entrar em contato com os meus; depois que inventaram a internet, não tem como a gente ficar distante mais! – disse o Yoshida, um homem de uns cinquenta anos, com o cabelo um pouco grisalho.

– Então Sonomi-san, já são cinco pras sete, quando vamos rever a Tomoyo e conhecer finalmente a Sakura? – Pergunta o Yamada, um homem de trinta e poucos anos, com os cabelos longos e uma barba curta.

– Agorinha mesmo pessoal, elas já devem vir, eu vou abrir a porta da sala; olha elas lá! – Disse por fim a minha mãe.

Eu fiquei feliz de saber o que as meninas estavam conversando, fiquei feliz de saber que elas conversaram com os executivos, não tiveram medo e agiram de forma natural, mas o medo do inesperado ainda estava presente no meu corpo.