NEW GENESIS
Capítulo 10
Uma escura sala estava iluminada pela luz de diversos monitores que mostravam números e seqüências que não faziam aparente sentido. O silêncio era frio e incômodo. A luz verde das letras e números dos monitores se refletiam no rosto de um homem alto, de aparência muito severa; as sombras ocultavam parte dele. Sua voz soou controlada quando ele se dirigiu a outro homem, alguns passos á distância, sem tirar os olhos das telas.
— Algum sinal? — O homem perguntou, ainda fitando os monitores que piscavam.
— ...Não, senhor. — O segundo homem respondeu apreensivo, aparentemente com medo da figura que se projetava á frente dos vários computadores.
O medo do assistente era compreensível. Assim que ele terminou de falar, o homem mais alto virou seu rosto e a luz faiscou perigosamente como um reflexo em seus óculos de aro preto retangular. Sua expressão era furiosa e impaciente, e ele vociferou:
— Então andem logo e procurem melhor, seus incompetentes inúteis! — Alterando a voz, ele saiu da frente da mesa e avultou-se sobre o assistente. — Eu não tolero erros. E não espero. Não tenho tempo para desperdiçar.
— S-sim senhor...! Eu... Nós tentamos... Faremos de tudo! — Obviamente apavorado, o assistente tremia, encolhendo os ombros diante da ameaça de seu superior.
O homem de óculos de afastou, sem alterar sua expressão insatisfeita e voltou sua atenção para os monitores. Ele andou e se colocou na frente da mesa mais uma vez, cruzando os braços em silêncio. O silêncio na sala era terrível.
— Ótimo. Eu exijo resultados em breve. É imperativo que recuperemos o GE-001 o mais rápido possível. — Ele falou, sem sequer olhar para o assistente afastado ao lado.
Seu perfil era rigoroso e severo; e quando ele lentamente levantou o rosto sem retirar a atenção dos números que surgiam na tela em turbilhões, uma das lentes de seu óculos refletiram a luz assustadoramente.
Em uma casa toda de madeira, duas jovens conversavam animadamente enquanto faziam juntas a lição de casa. Exercícios de matemática e textos estavam espalhados pela grande mesa durante a conversa, e a ruiva se virou para a amiga após terminar de escrever a resposta de uma questão. Era terça-feira á tarde, 16:15, e o céu estava aberto e sem nuvens, enquanto a tarde passava tranquilamente.
— Nikki, acabei o exercício 6. Você precisa da fórmula?
Nicole olhou para o próprio exercício. — Não, esse eu consegui. Mas pulei a 4, você conseguiu fazer?
— Hm... — Mel pega seu caderno e o folheia. — Ah, esse eu também não consegui fazer...
Então o homem alto e loiro que era o professor e responsável da jovem Nicole espiou por um canto da sala, dizendo animadamente: — Eu posso ajudar, se vocês quiserem.
Nikki levantou os olhos e sorriu para ele, gentilmente. — Está tudo bem, professor... A gente dá um jeito!
— Tudo bem. Qualquer coisa estou aqui, certo? — E ele voltou para a sala menor onde estava. Ele havia mudado suas coisas para aquela pequena sala e feito dali um tipo de escritório, onde ficava constantemente absorto em anotações e estudos que Nicole tinha quase certeza que não tinham a ver com as aulas que ele dava.
Mel suspirou assim que o professor desapareceu na outra sala. — Eu não me acostumo com o fato de o professor William estar aqui com você, Nicole... — A ruiva de olhos castanhos sussurrou em tom sonhador. Já era do conhecimento de Nikki que ela tinha uma tipo de "queda" pelo belo professor. A jovem de cabelos castanhos mesmo costumava brincar com isso, concordando que ele era bonito; mas após passar mais tempo com ele desenvolveu uma amizade mais elevada do que só professor e aluna. Ela tinha muito respeito por ele, o professor que dava aulas para ela faziam mais de dois anos.
— Pare com isso e se concentre nos exercícios. Senão vou pedir pra ele corrigir aqui e mesmo e nós duas passamos vergonha.
— Ah não! — Mel exclamou e se apressou a continuar a lição enquanto a amiga ria.
Nicole se sentia mal por ter de esconder um segredo da melhor amiga. As duas eram inseparáveis; estavam juntas desde a primeira série. Por mais estranho que pareça, quando as duas entraram na escola, Melanie era tímida e reservada, constantemente deixada de lado por ser quieta. Não tinha amigos. Mas Nicole deu-lhe uma chance, e desde então as duas ficaram sempre juntas. Pode-se até dizer que Nicole deu toda a confiança que Melanie possuía agora. Isso tinha um significado muito grande para as duas, e era difícil então para Nicole ser obrigada a não contar algo para ela; por mais que fosse por segurança das duas. Muitas vezes Nikki pensou em levar a amiga para o armazém e lhe mostrar Pan. Mas só de pensar na reação da amiga, muitas e muitas vezes ( uma acabando em um surto pior do que a outra ), ela desistiu da idéia.
Mesmo assim a garota de olhos verdes estava desconfortável, mas feliz que o professor também conseguia ser discreto. Ele havia mantido a promessa do segredo de Pan e o examinava diversas vezes, todos os dias. E entre esses dias mais tranqüilos, Nicole estava começando a ter uma idéia, uma idéia que em sua mente soava inofensiva...
Mas antes de fazer qualquer coisa, ela precisava discutir a idéia com outra pessoa; nem Melanie, nem o Prof. William. Mas sim com Matt.
Então, assim que terminou a lição, Nicole conversou mais um pouco com a amiga; mas eventualmente chegou a hora dela voltar para casa, e o professor se ofereceu pra levá-la de carro, se Nicole não se importasse. Claro que Melanie adorou a idéia, e Nikki não se importou. Achava mais seguro que a melhor amiga não ficasse sozinha ao anoitecer, então se despediu e observou pela janela o Civic prateado sair na rua em direção á casa da ruiva. Foi aí que Nikki considerou um bom momento para procurar a ajuda que ela queria.
Desejando que não estivesse fazendo uma besteira e com as mãos tremendo ligeiramente, ela pegou o celular, foi até seu quarto e se sentou na beira da cama. Dali pôde alcançar um pequeno pedaço de papel que tinha números escritos. O telefone dele. Relutante e mordendo o lábio inferior ela começou a discar.
Não demorou muito para o jovem atender.
— Alô? — Ele perguntou, pelo jeito sem saber que era ela quem ligava; soava simpático.
— Matt, sou eu.
— Ah, Nicole? — Ele perguntou, mudando o tom de voz ligeiramente. A garota abriu a boca para responder mas houve um aparente tumulto do outro lado da linha em que ela ouviu sons abafados e risos, assim como Matt soando aborrecido e sem jeito. — Calem a boca! — Ele berrou, mas não falava com a garota. Nikki encolheu os lábios confusa, sem saber se ria ou se ficava quieta. Mas logo ele voltou. — Desculpe. Os idiotas aqui do meu trabalho estavam... Tirando uma com a minha cara.
— Por quê? — Nikki perguntou ao estranhar o tom envergonhado dele.
— ...Por nada. — Ele hesitou e pareceu recuperar a firmeza na voz.
— Você ainda está na estação?
— Estou, mas é só até daqui a pouco. Meu turno logo acaba. Não está atrapalhando em nada. — Nicole ouviu o que parecia ser mais risos abafados e talvez Matt balançando o braço ameaçadoramente para afastar os outros. — Enfim... O que houve?
Ela pensou um pouco antes de dizer: — Nada de sério... É que eu estava pensando numa coisa.
— Que coisa? Tem a ver com o seu bichinho? — Matt perguntou cautelosamente, tomando o cuidado de chamar Pan apenas de "bichinho".
— ...Tem. É só uma coisa que eu pensei, mas não sei sé é uma boa idéia... Então pensei em te ligar.
— Pode falar. — O garoto falou sem hesitação.
Respirando fundo e dando um pequeno intervalo no qual Matt não interveio, ela pensou um pouco. Depois, disse baixo: — Estou pensando em levar o Pan pra dar uma volta.
Ela pode até imaginar Matt fazer um alvoroço do outro lado da linha quando o ouviu arquejar e sibilar, tentando ser discreto e falar baixo: — Você está doida?
— Me escute! Eu sei que parece loucura! — A garota se apressou para dizer; não queria colocar o garoto em encrencas por surtar no trabalho. — Mas eu estava pensando em sair á noite, entende? Quando ninguém fosse ver, e talvez levá-lo para o Central Park...
Mas conforme contava a idéia para ele, a garota foi progressivamente ficando mais insegura, devido á reação dele.
O silêncio dele a deixou ainda mais insegura.
— ... Matt? — Ela chamou sem jeito no que ele não deu resposta.
— Escuta aqui. — Matt falou um pouco mais sério. E Nicole o ouviu suspirar. — Quando você o encontrou, teve a sorte de estar com o blecaute. Mas isso na vai acontecer de novo... — Ele deu um intervalo, em que Nicole engoliu em seco. — Mas... Quem sabe eu possa dar um jeito de dar certo?
— V-você poderia fazer isso? — Nicole perguntou surpresa.
— Não estou garantindo nada. É que dependendo da hora que for, eu podia traçar uma rota segura até o parque, na ida e na volta... Eu vou ver o que posso fazer.
— Obrigada... Obrigada mesmo. — Nikki arrumou a franja e suspirou. Por dentro sabia que se Matt a ajudasse, tudo daria certo.
Ele ficou em silêncio por mais um momento antes de dizer suavemente: — Tudo bem.
E mais alguns segundos silenciosos se passaram em que os dois não falaram nada.
— Está tudo bem aí? Mais nada de interessante? — O garoto perguntou por fim.
— Ah, não... Está tudo bem por aqui. Mel estava fazendo a lição comigo mas foi embora, e o professor William acabou de sair pra dar uma carona pra ela... — E á menção do nome do professor, Nicole escutou Matt bufar aborrecido. — Qual é o seu problema com ele? — Ela se viu perguntar.
— Nenhum problema. — Ele respondeu, sem parecer convincente.
— Sei — Nicole conseguiu sorrir.
Por um momento a adolescente até conseguiu imaginar que ele estava sorrindo de volta, daquele modo travesso e interessante de sempre; e logo depois repreendeu a si mesma por pensar nisso.
— Desculpe, mas... Eu preciso desligar. Tenho umas coisas pra acertar aqui antes de ir pra casa. — O jovem policial falou, quebrando o silêncio.
— Por "acertar" você não quer dizer acertar "alguém", não é? — Nikki perguntou cautelosamente, mesmo que sorrindo.
— Pff, não! — Ela o ouviu rir; o som foi tranqüilizador. — Se bem que seria até legal.
— Matt. — Ela o repreendeu.
— Estou brincando. Até a próxima, cara de boba.
— Até — Respondeu a jovem após ele se despedir. Mas ela foi inteligente o suficiente para manter o celular perto do rosto por mais uns momentos e escutou uma voz desconhecia brincar, dizendo algo como "Você chama sua namorada de cara de boba?" e a resposta irritada e envergonhada de Matt "Ela não é minha namorada!" antes dele desligar.
Quando o professor voltou, ele ajudou Nicole a juntar as frutas na cesta que levaria até Pan e a seguiu pelo jardim, adentrando no grande armazém conforme a noite caía. O animado cientista constantemente a lembrava de que ele nunca havia visto nada igual e que Pan era a criatura mais fascinando que ele já havia visto; assim como que ele também estava fascinado pelo comportamento dócil dele. A garota o assegurava que ele sempre foi dócil, desde o momento em que o encontrou. E as lembranças voltaram a ela como um míssil, a levando de volta para aquele dia em que estava voltando para casa debaixo da escuridão da noite e que literalmente esbarrou no enorme monstro amigável. Ela estava realmente alegre que tinha o encontrado. Pan era para ela um amigo muito amável e com que ela adorava passar o tempo.
E foi isso que aconteceu durante os próximos dois dias. Após as aulas, a garota voltava com seu professor para casa, sem preocupações alarmantes que a fariam perder o sono. Nicole só pensava na idéia que tinha tido de levar Pan ao Central Park; uma idéia que, depois de receber o apoio de Matt, se tornou muito mais agradável e possível. Ela esfregava o focinho enorme e cinzento do monstro dócil enquanto lhe contava histórias e o alimentava. Pan era um bom ouvinte, e muito comportado. Outro fato que assegurava a jovem que tudo daria certo no passeio que eles haviam planejado para aquela sexta-feira.
Evidentemente o professor foi informado. Mas ele precisaria ficar em casa para cuidar das coisas na ausência dos dois adolescentes, por mais que tinha mostrado desapontamento quando a garota lhe disse que ele não poderia ir. Mas o adulto logo se recompôs, deixando o fato de lado. Não eram muitas as coisas que o abalavam.
Todos os dias após ter ligado a primeira vez para Matt ela o consultava e pedia ajuda, por mais que ele parecia gostar mais de a surpreender e aparecer debaixo da janela do quarto dela, a chamando em silêncio. A primeira vez que isso ocorreu foi na quinta-feira, uma dia antes do plano de "levar Pan pra passear". Nicole estava em seu quarto, perdida em seus pensamentos enquanto arrumava suas coisas, quando ouviu um sussurro.
— Nicole! Hey!
Ela levantou as sobrancelhas, olhando para a janela na parede, pensando: "Ah não. É brincadeira." E depois se aproximou da beirada, olhando para baixo; vendo ali o rapaz de uniforme azul marinho olhando direto para ela.
— O que você está fazendo? — Ela perguntou.
— Cortando a grama de graça. O que você acha? — Matt zombou, sério.
— Eu ainda não entendi. — Nicole disse entre uma risadinha.
— Me ajude a subir.
— O quê? Por quê? Não é mais fácil você entrar pela porta da frente?
Matt cerrou as sobrancelhas e olhou firme para ela.
— Não quero que o cientista maluco saiba que eu estou.
— Não o chame assim! — Nicole o repreendeu.
— Tanto faz! Vou subir nesta caixa e você me ajuda a subir.
— Ok — A jovem concordou meio hesitante, sem saber se cometeria a gafe de deixá-lo cair.
Matt fez o que disse. Subiu em uma caixa que tinha colocado debaixo da área da janela do segundo andar que dava ao quarto de Nicole e esticou um braço para ela. Receando que não fosse ser capaz de sustentar o peso dele, ela segurou no seu braço e puxou; mas o jovem fez quase todo o trabalho sozinho. Ele se sustentou com facilidade, apoiando-se na parede e logo, estava pulando o parapeito da janela para dentro do quarto dela. Tirando pó das vestes, ele olhou ao redor; o que deixou Nikki um pouco constrangida.
— Então aqui é o seu quarto? — Ele perguntou com indiferença.
Ela assentiu. E olhou ao redor para checar se nada estava bagunçado nos cantos.
— É legal — Matt disse simplesmente, olhando para a mesa-de-cabeceira que ficava do lado da cama arrumada dela. Ele sorriu muito brevemente, e Nikki não teve tempo de entender bem o por quê, pois logo ele continuou: — Feche a porta aí por favor, precisamos conversar.
— Tá bem... — Levantando uma sobrancelha, ela encostou a porta sem fazer barulho e se virou para ele, que já estava sentado na beirada da cama.
— Sobre o "passeio" — ele abriu aspas com dois dedos — de amanhã, eu acho que tenho boas notícias...
— Sério? — Ela se sentou do lado dele.
Ele concordou com o rosto e mirou os olhos azuis escuros nos dela. — Achei uma rota boa que é pouco iluminada, que nos levaria até uma entrada sideral do Central Park com poucas chances de sermos vistos.
Nicole engoliu em seco. — Pouco iluminada? Mas isso não seria um pouco.. perigoso? — Ela perguntou preocupadamente.
— Por favor... Esqueceu que eu vou estar ali do lado? — O garoto de cabelos castanhos até o pescoço disse, soando arrogante. — Ah, e o grandão também.
Nicole revirou os olhos, balançando o rosto, um pouco mais aliviada.
— Então você acha que esse é o melhor jeito?
— Sim. Tem poucas chances de alguém nos ver, vai ser bem tarde também... Mas, de novo, eu não garanto nada.
— Tudo bem... Você já fez muito. — E ela sorriu agradecida.
Matt retribuiu o sorriso e fez menção de dizer algo mais, mas Nicole escutou passos pela escadaria do corredor. Matt se retesou e sussurrou "O professor?" e Nicole fez que sim com o rosto.
— Ah, porcaria... — Então o jovem policial reclamou e olhou para os lados. — Me esconde!
— Como é que é? — Nikki perguntou arregalando os olhos.
— Vai logo, me esconde! — E ele ficou de pé, projetando-se sobre ela por um momento antes dela levantar e olhar para os lados, apressada.
Ela andou até a frente de seu armário e o abriu, o chamando com a mão. — Aqui, rápido!
— Aí? Você só pode estar brincando! — Reclamou ele; mas como os passos ficaram mais altos pelo corredor, a garota o puxou pela roupa e o atirou de costas para o interior do armário, o fechando com um estrépito; e correu para a beirada da cama, onde se sentou bem na hora que o professor batia levemente na porta.
— Nicole? Posso entrar por um segundinho? — Ela ouviu a voz dele vinda do outro lado.
— Pode! — Ela tentou responder o mais naturalmente possível.
Então o professor entrou, com uma prancheta em uma das mãos, sorridente como sempre.
— Eu queria te mostrar as anotações que eu fiz! Mesmo sem a amostra de sangue do Pan, consegui fazer exames ótimos e... — Ele parou por um momento. — Você estava falando com alguém? — O adulto de olhos azuis perguntou educadamente, sem parecer irritado nem desconfiado.
— Ah, sim... Eu estava no telefone com o... Matt — Logo após dizer ela se perguntou por quê não disse que estava falando com Melanie.
— Ah, compreendo. — Sorrindo travesso, o professor e cientista se aproximou e estendeu a prancheta para ela. — Veja! Tenho feito medidas de tamanho e outras coisas interessantes antes de passar para uma parte mais genética... Você sabia que as garras das patas dele tem cerca de 70 centímetros? Até mais! — Os olhos dele brilhavam por trás dos óculos de aros ovais cinza-escuro.
— Uau — Foi o que a garota conseguiu responder, mais uma vez agradecendo aos céus por Pan ser dócil.
— Sim, sim! Eu só queria te mostrar essas anotações, por que logo eu terei que fazer os exames genéticos, e preciso tirar o sangue dele. Quero que você esteja junto comigo quando eu fizer isso.
— Sem problema, professor. Só não se esqueça de que amanhã á noite não vai dar... Certo?
— Ahh sim, eu sei. — Ele sorriu sem preocupações. — Não se preocupe, posso fazer isso no fim de semana. Bom, era isso... Eu vou começar o jantar logo, você quer as sobras de ontem ou eu preparo alguma coisa?
— Na verdade, eu estava com vontade de comer pizza — Nicole falou sem perceber.
— Pedirei então! — Divertido, ele pegou a prancheta das mãos dela devagar e carinhosamente, e afastou-se até a porta. — Estarei lá embaixo, te chamo quando a pizza chegar!
E saiu. Nicole esperou os passos dele serem abafados com a distância e se adiantou na frente do armário. Ouviu um pequeno "caham" antes de abrir as portas e revelar o jovem ali semi-espremido entra as roupas dela. Era uma visão estranha que ela nunca pensou que veria. Quem diria o que os pais achariam se descobrissem que ela escondeu um garoto no armário. Mas, quem diria também que ela esconderia uma criatura de 6 metros e meio de altura no armazém, certo?
— Que bom que me deixou sair, pensei que ia ficar ali pra sempre. — Foi o que ele disse ao sair e esticar as costas e os braços.
— Haha, sem graça... — Nicole fechou as portas do armário depois que ele saiu.
— Bah.
— Sabe, ainda acho bobeira sua isso.
— Isso o quê?
— Isso de não gostar do Prof. William.
Matt deu de ombros e cruzou os braços, se inclinando e encostando as costas na parede.
— Não é que eu não goste. Não que eu goste, também. — Ele esfregou o próprio cabelo numa tentativa de arrumá-lo. — Ah, sei lá. Eu gosto de falar com você, e não com ele, tá bem?
Por mais que Nicole anotou mentalmente isso que ele disse, tentou soar natural quando continuou: — Tá bem...
— Você poderia ter dito outra coisa.
— Tá certo, não entendi nada dessa vez.
— Ô cabeça-oca, estou dizendo daquela hora. Você poderia ter dito que estava falando com sua amiga Melanie.
Aah, isso era pra ser uma tentativa de vingança? Por ele ter deixado escapar que queria falar somente com ela? Nicole fez um biquinho irritado e cruzou os braços, jogando um pouco dos cabelos sobre o ombro.
— É, mas eu pensei melhor e achei que fazia mais sentido eu estar falando com você.
Um tanto surpreso pela resposta, Matt move o peso do corpo de um pé para o outro, sem dizer nada. O quarto ficou em silêncio e os dois só ficaram ali, por minutos se encarando nos olhos. Mas depois de um tempo, o rapaz quebrou o silêncio dizendo:
— De qualquer jeito, não vá esquecer de amanhã. 22:30. Vou estar ali na frente da casa.
— Não vou esquecer. O Pan vai ficar muito feliz. — A garota respondeu, descruzando os braços e deixando com que a alegria de poder soltar Pan para dar uma volta tomasse conta dela. Ela estava muito ansiosa.
— Hm. Tomara mesmo que isso tudo valha a pena. — Ele resmungou antes de dar uma pequena volta pela área do quarto. — Mas é melhor eu ir.
— Não quer ficar mais um pouco? — Novamente as palavras saíram dos lábios dela antes que Nicole percebesse.
— Nah... Preciso voltar pra estação... Vão dar minha falta por lá. Mas guarde um pedaço de Pizza pra mim. — Ele sorriu para ela daquele jeito que sempre a fazia se sentir estranha.
E pensando nisso, Nicole ficou com uma sensação estranha no estômago ao se lembrar da cena da última vez que Matt esteve em sua casa. Antes de ir embora, ele havia esticado o braço e tocado no rosto dela de um jeito que fez o rosto dela se aquecer; assim como ele estava ficando naquele momento. Olhando para o rosto e o sorriso dele ela entreabriu a boca e sorriu levemente. Mas oras... Por que ela estava pensando naquilo?
— Ah meu Deus, devo parecer uma débil. — Ela pensou e depois disse: — Seu folgado.
Ele riu de novo e se preparou para pular da janela. — Sou mesmo, não é?
E pulou.
Levou pelo menos três segundos até Nicole se der conta de que ele pulou da janela do quarto dela. — Matt! — A garota correu até a beira e olhou para baixo, mas o jovem já estava dando a volta na casa, correndo, sem parecer ferido nem nada grave.
Pensando na frase "garotos são estranhos" repetidamente em sua cabeça, Nicole foi se deitar mais tarde naquele dia com grandes esperanças de que o dia seguinte seria ótimo. Ela estava muito ansiosa para ver o olhar de Pan ao poder sair e ver as coisas ao redor; ela queria ver a alegria brilhar nos olhos laranjas dele e poder dizer a ele: "Vamos dar uma volta?". Queria ver ele reagir ao verde da grama, ás árvores ( menores que ele, mas mesmo assim belas ), á água reluzente e transparente... Simplesmente queria alegrá-lo.
Mas o sorriso que estava em seu rosto foi progressivamente diminuindo conforme ela pensou como seria triste ter de tirá-lo de um lugar tão belo. Ela queria que Pan ficasse sempre com ela, mas mesmo assim... Queria que ele fosse feliz, e que houvesse espaço para se divertir. Ela sabia que Pan adorava ver a lua, pois muitas vezes enquanto estava com ele, ele espiava por uma fresta na parede, procurando olhar para o céu.
Mas por fim a garota prometeu a si mesma que não importava o que acontecesse, ela ia mostrar as luas e as estrelas para Pan.
Nicole já estava dormindo quando o adulto responsável por ela apagava as luzes da casa. Ele sorriu contente quando a viu dormir tranquilamente e se aproximou para arrumar o cobertor sobre seus ombros. Ao se afastar, o professor olhou mais uma vez por sobre o ombro para a garota, e esfregou o próprio cabelo, sorrindo sem jeito enquanto pensava que cuidar da aluna era quase tão interessante quanto fazer pesquisas genéticas. E ele também se lembrou de separar um pedaço de pizza que havia sobrado, como ela havia pedido.
Por que, se fosse a fazer feliz, o faria feliz também.
