Décimo Tiro - Shut up and kiss me

Yo ho, yo ho, a pirate's life for me

We pillage, we plunder, we rifle, and loot

Drink up, me 'earties, yo ho

As pessoas pararam para olhar quando uma grande fragata ancorou em Port Royal. O nome estava lixado, da estátua de proa restava só a base e não tinham bandeira visível. O nível do mar batia bem abaixo da marca normal em um navio, o que dizia que a fragata estava leve e viera para reabastecer. Poucas pessoas desembarcaram, o que fez os observadores acreditarem que a maior parte ficara para trás. Na verdade, quase todos, menos os que se encontravam entre grades de metal e madeira, tinham descido até a cidade para tratar de seus assuntos.

Port Royal era conhecida como "Paraíso Pirata". Seu porto poderia suportar até quinhentas embarcações e a água era funda, que facilitava a ancoragem. Em 1670, Port Royal rivalizava com Boston em riqueza, sendo uma cidade de 7.000 habitantes e o coração das rotas comerciais das Índias Ocidentais. Era um prato cheio para pilhagens e saques. Também era conhecida por suas casas de jogos, bares e bordéis, ganhando ainda o apelido de "Sodoma¹ do Novo Mundo".

Foi em um desses bares, um de melhor reputação, que eram mais escassos, que Camus, acompanhado por Dohko, que era melhor em negociações, e Julian, que não tinha nada para fazer, entrou. Os dois mais novos deveriam esperar pacificamente, tarefa quase impossível para Camus, que estava tentado a arrancar o casaco devido ao calor, e Julian, que parecia sentado em formigas, entrando pela primeira vez, sóbrio, em um ambiente daqueles.

O capitão aproveitou para finalizar a carta que estava escrevendo para a Rainha. Como sabia que uma negociação podia demorar, tinha carregado consigo o papel, pena e um de seus últimos tinteiros restantes.

A carta dizia ter capturado o grupo de ladrões, que encontrava-se seguramente preso, e logo voltariam para o Continente, junto de Sua Nobre Presença. A mão de Camus tremeu ligeiramente ao escrever essas últimas palavras e elas ficaram borradas.

Julian, em um movimento nem tão discreto de apontar para algo que queria perguntar sobre a Camus, esbarrou no tinteiro, fazendo-o escorregar da mesa. O capitão, em um movimento rápido, alcançou-o e manteve o recipiente de vidro seguro em suas mãos, infelizmente, de cabeça para baixo. A tinta escorreu e molhou o chão, manchou uma das mangas da camisa de Camus e por pouco não respingou na carta à Rainha.

Um momento de silêncio se seguiu, quando Julian tentava começar a se desculpar e Camus massageava cuidadosamente as têmporas.

"Não diga nada", pediu o capitão. "Só me lembre de comprar outros três desses depois."


Depois de passarem em um grande armazém, onde compraram a comida necessária, esbarraram em Mu, que saía do boticário, e foram até o posto da marinha, despachar a carta no primeiro navio que partisse com destino à Inglaterra.

Camus se apresentou e, antes mesmo que dissesse por que estava lá, alguém o interrompeu dizendo que havia um envelope para ele.

Quebrou o lacre de cera com um olhar interrogativo crescente ao reparar no timbre da Rainha. Retirou a folha dobrada e leu, o rosto avermelhando conforme os olhos corriam pelas linhas. Leu mais algumas vezes, não era um texto muito extenso, mal passava de uma nota. Julian tentou tirar o papel de suas mãos, mas desistiu ao ver a expressão inflamada que ele tinha.

Quando finalmente acreditou no que estava escrito, empurrou a carta no peito de Mu, e saiu a passos largos, enquanto choviam olhares espantados em suas costas.


Capitaine Camus,

A Rainha manda seus cumprimentos pelos esforços dispensados na tão árdua tarefa que lhe foi dada. Também lamenta o atraso da missão e a falta que a Fragata Real Queen's Revenge faz, em tempos difíceis como o que a Inglaterra está passando.

Informamos que a embarcação que está sob seu comando é uma peça vital da Marinha Inglesa e é um desperdício estragá-la nos mares hostis do Caribe.

A Rainha pede que a missão seja imediatamente abortada e que seu retorno ao Continente seja o mais breve possível.

Atenciosamente,

Conselheiro Superior da Marinha Inglesa

Howel Davies


Sin of the Mermaid era uma estalagem cuja reputação não era tão boa assim. Mulheres dignas com decotes extravagantes sentavam-se entre as mesas, obviamente procurando os que tinham mais dinheiro, este que era perdido e ganhado rapidamente em jogos de azar.

Foi exatamente esse lugar que Saga, Kanon, Aioros e Aioria, arrastando dois aturdidos grumetes, Shun e Hyoga, escolheram para passar um dos poucos dias em terra.

Procuraram uma mesa estrategicamente perto do bar e abanaram a fumaça de tabaco concentrada sobre suas cabeças.

Antes que alguém pudesse dizer "rum", Kanon tirou um baralho do casaco e distribuiu as cartas para quatro. Aioria foi buscar uma rodada de bebidas e Aioros aproveitou para empurrar o nariz de um dos gêmeos com o indicador em riste.

"Nada de trapaças", ameaçou.

"Nunca seríamos capazes de tamanha desonra", disse Saga.

"Somos pessoas dignas e honestas", falou Kanon.

Hyoga engasgou em seu copo, e não foi por causa da bebida.

Eles começaram a jogar. Sem trapaças o dinheiro que apostavam apenas mudava de mão e fazia os dedos rápidos de Kanon formigarem.

Algumas rodadas de bebida já tinham passado quando uma mulher tentou se aproximar de Aioria, balançando o vestido enquanto andava. Ele, entretido com uma boa mão de cartas, fez um gesto amplo para pegar seu copo e acertou um soco no estomago dela. Saga lançou uma piscadela para Aioros e os dois jogaram as cartas na mesa.

"Cansei de perder", reclamou Saga.

Aioria cutucou Shun entre as costelas e sussurrou: "Tenta aprender alguma coisa. Agora que tudo começa."

Kanon baixou as cartas e xingou o irmão de covarde, enquanto via ele e Aioros se afastarem para um canto escondido do bar.

As cadeiras vazias foram logo tomadas por dois homens, já ligeiramente trôpegos, que observavam há algum tempo quatro pessoas jogando. Deduziram que seria fácil ganhar algumas, já que eles faziam muito barulho, e os jogadores bons costumavam ser discretos. Era uma filosofia ligeiramente confusa, mas funcionava bem com meia garrafa de rum garganta abaixo.

Dez rodadas depois, os homens estavam esvaziando os bolsos, tentando recuperar o dinheiro que sumira debaixo da manga dos adversários.

Um deles levantou e bateu com o punho fechado na mesa, derrubando alguns copos vazios.

"Vocês estão trapaceando!"

Shun e Hyoga se entreolharam, vendo Kanon sacudir os ombros. Eles não tinham visto trapaça nenhuma, mesmo olhando com atenção para os dedos longos do gêmeo.

"Você deve ter bebido demais, meu caro", disse Aioria. "Pode turvar a visão."

"Roubaram, sim!", falou o outro, também se levantando.

"É a bebida", disse Kanon.

Saga surgiu de algum lugar e apoiou as mãos nos ombros do irmão. Aioros apareceu também e postou-se ao lado de Aioria.

"Faz você ver tudo em dobro", disse Saga.

Os homens piscaram, esfregando os olhos e saíram, conformados com a derrota. Talvez tivessem bebido demais mesmo.

Aioria recolheu o dinheiro e contou, dividindo em quatro partes iguais.

"Gostaram da aula, crianças?", perguntou Kanon.


Shaka estava terrivelmente entediado.

Já contara as madeiras do teto duas vezes e três o número de frascos na estante. Virava-se no catre improvisado, a visão de um dos olhos coberta pelo curativo.

O médico assegurara que nada além da pele tinha sofrido dano. A pancada fora forte e o deixara tonto por vários dias. Ainda sentia a cabeça rodar ao tentar levantar. Mas mesmo assim tinha tempo para reparar na presteza com que tinha sido tratado e na delicadeza das mãos que apertavam as ataduras.

Sentiu a mudança de ventos mais do que viu. Depois que tinham sido proibidos pelo médico de fazer visitas, mais por ciúme profissional do que por razões de saúde, os piratas pararam de passar por ali, evitando a fúria de Mu. Mas não precisava da falta de visitas para perceber que faltavam também piratas livres.

Pensou em um plano para libertar os companheiros, mas depois pensou que era um homem, sozinho e desarmado, ainda ferido e trancado em uma cabine sem possibilidade de escapar. Então gastou algum tempo imaginando onde estariam suas pistolas, mas logo se cansou. E, quando o Sol entrava pela janela aberta e aquecia a cabine, pensou se poderia render o médico, mas não sabia se agüentaria o próprio peso ou se conseguiria ferir alguém a quem devia tanto.

Então lembrou do chute que levara e de como havia doído, e decidiu que tinha coragem suficiente para apontar uma arma para o rostinho sorridente responsável.

Só não tinha, concluiu, força de vontade.


Afrodite, alguns dias antes, tinha roubado a faca que Máscara da Morte guardava na bota e tentava girá-la, sem sucesso, na fechadura de sua cela. Alguns tinham se divertido observando, no começo, mas depois que perceberam que não daria certo procuraram outra coisa para olhar.

"Francamente", reclamava Afrodite para quem quisesse ouvir. "Aqueles gêmeos, sempre achei algo suspeito ao redor deles."

"Não dêem ouvidos", repetia Ikki.

"Mas é claro que sim!" A fechadura soltou um clique audível, mas nada além disso aconteceu. "Logo que vi um deles, o homem grudou na minha memória que nem bolacha velha gruda nos dentes."

Alguém soltou um suspiro e, do marinheiro que deveria estar vigiando, escapou um soluço alcoólico.

"Claro que eu não poderia imaginar que eram dois. Não se vê disso todo dia. Só pensei que talvez o cara fosse rápido para mudar de lugar, ou coisa assim", continuou. "Se eu dissesse alguma coisa, ninguém acreditaria. Quer dizer, todos têm muito mais o que fazer para pensar em me ouvir."

"Opa", disse Afrodite quando a fechadura estalou e abriu sob seus dedos.

Os piratas olharam espantados para a porta aberta. Máscara da Morte teve que se levantar e olhar mais de perto para acreditar.

"Eu não disse que conseguiria?"


Depois que os piratas colocaram nos ombros tudo que podiam carregar, Ikki voluntariou-se para levar Shaka, mas ele, com o recém adquirido orgulho ameaçou qualquer um que se aproximava com intenção de ajudar. Foi a contra gosto que viu Shura proibi-lo de levantar peso e tomou-lhe tudo que estava carregando.

Milo quase riu com a animação contagiante, mas um olhar apressado de Shion fez todos apertarem o passo e correrem para o convés.

Quando estavam desembarcando, o capitão lançou um olhar para o mastro, onde bandeira nenhuma aproveitava o vento que refrescava Port Royal naquele momento.

Milo deu um passo atrás e, quando perguntaram onde ele estava indo, apenas fez um gesto que dizia para não esperarem. Toda a tripulação sabia o que fazer, deveriam ficar em terra, escondidos, até sentirem-se seguros para ir a um lugar já estabelecido. Tinham um ponto de encontro marcado em cada grande cidade.

Milo andou calmamente pelo convés, ouvindo seus marinheiros desembarcarem. Ainda tinha algumas pendências na cabine do capitão.

Ele atravessou o curto corredor e chegou logo à maçaneta que queria, abrindo a porta.

A cabine tinha obviamente sofrido uma drástica organização. Uma pena. Preferia o lugar no caos. Apanhou um punhado de papéis e arremessou-o nos ares. Assim estava bem melhor.

Mas não era isso que viera fazer. Procurou o mapa que entregara a Camus quando fora capturado e encontrou-o em uma das gavetas do fundo. Achou naquele esconderijo excesso de confiança, mas resolveu ignorar. Jogou o mapa pela janela, fazendo-o bater no mar e afundar, com um pouco de dificuldade.

Não parou para ver o que tinha acontecido, logo se abaixou e esticou o braço, alcançando outro canudo de couro enrolado, sob a escrivaninha do capitão. Aquele era o mapa que tinha encontrado atrás do horrível quadro que, reparava agora, não estava mais visível em lugar algum.

Evitara guardar consigo pelo risco de ser revistado minuciosamente, então escondera na cabine, supondo que ninguém se daria ao trabalho de examinar o mapa que entregou a Camus sem oferecer resistência.

O fato era que os dois mapas eram muito parecidos, faltando em um deles, o falso, a rosa-dos-ventos². Uma obra de gênio, apressava-se em afirmar, já que tinha sido o próprio Milo a fazer a alteração.

Rapidamente escondeu-o sob o casaco e começou a revirar as coisas da mesa, buscando pena, tinta e papel.

Estava na última linha de seu pequeno bilhete, quando passos, vindos de fora da cabine, chamaram sua atenção em um ritmo furioso de andar.

Milo parou para ouvir.

Com a intuição que lhe dizia quem estava se aproximando pelo corredor, sacou e engatilhou a arma, o que fez os passos cessarem quase imediatamente.

Girando a maçaneta, Camus entrou na própria cabine, o rosto retornando à cor normal e os cabelos bagunçados, retomando rapidamente a pose.

Milo segurou o queixo que queria cair, sua intuição estava certa afinal.

"Ah", disse ele, censurando-se depois.

"Por que eu não imaginei que algo assim poderia acontecer?", perguntou Camus. "Se você quer apontar uma arma para mim, pelo menos segure direito."

Milo apertou a coronha da pistola entre os dedos e pareceu recobrar os sentidos.

"Veio buscar o que esqueceu?"

"Sim. Não gosto de deixar nada para trás."

Camus apontou um dedo esticado para o baú onde guardava suas roupas. Milo acompanhou o olhar, mesmo sem entender.

"Tem algo seu lá." Milo relutou em se aproximar da arca e abaixar a guarda. "Ah, não ligue para mim. Eu ando desarmado", disse o capitão francês.

Ele abriu a tampa da arca com um chute e olhou dentro dela. Dobrada e fazendo um volume grande, sua bandeira o encarava, acusadora.

"Obrigado", disse, com um aceno irônico de cabeça. Ele enrolou o pano o máximo que conseguiu e jogou-o sobre os ombros, firmando a pistola na mão novamente.

Camus esboçou uma reverência, mas pareceu debochada, então parou.

"Bem", disse Milo. "Acho que agora eu lhe mato."

"Sim, seria o correto", concordou Camus. Sua expressão calma fez Milo encurtar o espaço entre eles e pressionar o cano da arma contra seu peito.

"Não duvide de mim", ameaçou. "Eu tenho coragem para fazer tudo que quiser."

"Nunca duvidei", disse Camus, sendo virado de costas e empurrado porta a fora. "Na verdade,-"

"Quieto."

Milo, que mantinha a arma entre as omoplatas do capitão, assistiu-o dar de ombros.

Pararam ao chegarem ao convés. Milo porque não sabia o que fazer, e Camus porque estava estudando a mancha na manga de sua camisa.

Finalmente decidido, Milo pegou uma corda solta ali perto e empurrou o francês contra o mastro.

"Ufh", disse Camus ao tirar uma das laçadas de seu pescoço.

A corda apareceu e sumiu em seu campo de visão, de costas para a madeira salgada do mastro principal.

"Chama isso de nó?", perguntou Camus, enquanto Milo estava apertando o laço, fora de sua vista. "Pensei que você soubesse fazer algo mais profissional."

Como resposta, o aperto ficou imediatamente mais forte e ele soltou o ar em uma risada.

"Muito melhor", disse.

Milo apareceu em sua frente e puxou a gola de seu casaco.

"Pare de me provocar, idiota", falou, os olhos ficando perigosamente estreitos.

Camus ergueu as sobrancelhas.

"Bem, que está amarrado aqui sou eu. Tecnicamente você não deveria-"

"Não me venha com conversa. Estou farto do seu jeito debochado."

"Ora, eu nunca-", começou Camus, mas foi interrompido novamente por Milo, que liquidou o vão entre eles e apertou a boca contra a sua.

No início, nenhum dos dois entendeu o que estava acontecendo realmente, mas assim que os lábios começaram a queimar com o contato, um pacto mudo foi feito, dizendo que ninguém perguntaria, afirmaria ou negaria.

O sorriso de escárnio sumiu na boca contraída de raiva. Camus tentou se aproximar, mas as cordas, tão fortemente amarradas devido à sua provocação, apertaram seu tronco e cortaram seus movimentos. Milo o segurava como se ele fosse uma bóia na tempestade, seus braços passados de qualquer jeito pelo pescoço e ombros.

Eles lutaram um pouco, um contra o outro em completo silêncio, mas, como não haveria vencedor, apenas continuaram nos movimentos sôfregos que faziam os joelhos falharem.

Milo puxava e forçava o casaco de Camus, até que finalmente conseguiu livrar um pedaço maior de pele branca e passou a arranhá-la, sentindo seus nervos em fogo.

Camus esticou o pescoço para sentir melhor o toque, o máximo que conseguia fazer em sua situação. Milo conseguira de alguma forma escorregar a mão por dentro da gola aberta de sua roupa e massageava a parte livre de suas costas.

Sentiram um peso enorme cair dos ombros e, se era possível, ficaram mais leves e mais atados ao chão.

Assim como o capitão pirata começara o beijo, ele o interrompeu, parecendo ligeiramente confuso. Camus o encarou com um olhar provocativo, como se o desafiasse a voltar atrás. Milo, que nunca estivera menos arrependido em sua vida fora-da-lei, puxou o cutelo cravejado de pedras e fincou-o no mastro, fazendo as cordas caírem em torvelinho.

Camus sacudiu os braços e, antes que Milo parasse para olhar melhor, envolveu seu corpo, apertando com toda a força que tinha, e voltou a beijá-lo. As faíscas elétricas que os envolvia há pouco voltaram com força, fazendo-os tropeçar nos próprios pés e cair de qualquer jeito no chão.

Eles rolaram, atrapalhados em não afastar os corpos, brigando com um pedaço de corda remanescente.

Milo conseguiu finalmente abrir toda a camisa manchada de tinta, mas teve que interromper o que estava planejando fazer porque Camus prendeu seu lábio inferior entre os dentes e lambeu-o, fazendo o corpo de Milo tremer.

A mão de Camus correu pelo pescoço moreno em direção ao cabelo macio, mas um de seus dedos acabou enroscado em uma argola dourada, escondida atrás dos cachos cheios. Milo deu uma risada ao sentir sua orelha puxada.

"Uhm", ronronou. "Tem um do outro lado também."

Camus esticou as costas e apoiou-se nos cotovelos. Empurrou o cabelo que cobria o lado esquerdo do rosto redondo, os dedos mal roçando na pele bronzeada. Um rubi vermelho, nem um pouco discreto, estava preso por uma forte base de ouro.

"Gosta?", perguntou, o lábio se dobrando infantilmente.

"Combina", disse Camus.

"Então é seu." Milo levou as mãos até o brinco, não sem antes passá-las pelo abdômen e peito descobertos sobre si.

Aquela visão, o outro acomodado sob seu corpo, os cachos espalhados atrás da cabeça, os lábios rubros e o rosto em fogo, fez Camus sentir a garganta subitamente seca.

Milo estendeu-lhe o rubi, que foi guardado em um dos bolsos do casaco aberto.

Camus acariciou sua bochecha e tentou formular algumas palavras, até descobrir que não conseguiria e que elas eram desnecessárias.

Outro beijo começou, de maior ou igual paixão. Eles tinham um mundo independente do mar azul, longe da madeira úmida onde estavam deitados, mas não separado.

Quando um barulho se fez ouvir fora do navio, na prancha que o ligava ao cais, eles rapidamente separaram-se, a boca implorando pelo contato cessado.

Camus puxou a pistola de uma dobra escondida do casaco e encostou o cano frio no peito de Milo.

"Você disse que não andava armado", disse, o rosto ficando mais vermelho.

"Eu menti." Camus puxou-o para cima, e tentaram se equilibrar sobre dois pés.

Milo pensou no metal frio encostado em seu peito e em como não conseguia odiar o rosto fino que o encarava.

Fixou os olhos azuis que brilhavam e Milo se espantou ao perceber que conseguia lê-los. Corra, eles gritavam.

Camus mirou o céu e atirou, a bala fez um furo em uma das velas e Milo entendeu o recado.

Enquanto recolhia sua bandeira enrolada do chão, discretamente verificou se o mapa ainda estava seguro em seu casaco. Tentou puxar sua espada, que ficara presa na madeira do mastro, mas, assim que os passos na passarela aumentaram, tanto em número quando em velocidade, teve que abandoná-la e correr para a amurada.

Assim que Milo agarrou uma corda, com o olhar fixo no rosto de Camus, e pulou, sumindo de vista, algumas pessoas chegavam correndo ao convés, tropeçando e procurando o autor do tiro.


¹Sodoma e Gomorra, segundo o Antigo Testamento, duas antigas cidades próximas ao mar Morto. Diz-se que foram destruídas por uma chuva de enxofre e fogo, talvez acompanhada por um terremoto, devido à indecência e às perversas práticas sexuais de seus habitantes.

²Rosa-dos-ventos, para quem cabulou as aulas de geografia da 5ª série, mostrador da agulha de navegação, constituído de um círculo de papel, onde aparecem marcados os pontos cardeais e colaterais.

Olá para quem sentiu minha falta!

Faz muito tempo, não?

Viu como eu posso me tornar uma pessoa mais responsável se tentar?

Agora ninguém mais pode tentar me matar! Não gostaram da cena final?

Muito obrigada a todos que leram e ajudaram, e a ladainha de sempre. Os agradecimentos decentes, comentários e prováveis devaneios virão nas respostas às maravilhosas reviews.

(E, ei, chegarei à 100ª!)

Gracias a todos e, Isaak, feliz aniversário!

17 de fevereiro de 2006

Saga