Capítulo IX

Na manhã seguinte, Harry encontrou Pansy colhendo ervi lhas com a ajuda enérgica e entusiasmada de James. Suspirou cobrindo os olhos por causa do sol e deduziu que alimentar os famintos da propriedade continuaria a ser, por tempo indeterminado, a esfera de ação da ex-senhora de Goodview. Bem, não discutiria mais sobre o assunto. Sua mãe, quando chegasse, poderia retomar aquelas funções, se desejasse. No momento, estava mais interessado em saber se Pansy se recuperara desde a noite anterior.

Ela se endireitou ao perceber-lhe a aproximação e recebeu-o com um sorriso pálido. Harry pegou o cesto e estendeu-o para James depositar ali a última contribuição antes de sair cor rendo atrás de uma borboleta.

Harry sorriu com simpatia e acompanhou-a até a cozinha.

— Parece mesmo disposta a alimentar até o último faminto de Goodview.

— Não é bem isso. Secaremos as ervilhas para usá-las no inverno.

— Bem previdente, mas posso garantir que os arrendatários verão boa parte delas. Como está se sentindo hoje?

— Uma estúpida, por ter sido dominada por um sonho. — Pansy estremeceu. — Mas foi tão horrível e real. Eu não havia entendido como me sentia sobre isso... Minerva disse que era seu espírito... seu fantasma. Minerva disse que eu o atraí, por continuar nesta casa com o senhor.

Pansy curvou-se para colher uma flor murcha do canteiro por onde passavam.

— Ela afirmou que ele veio porque estava com ciúme de milorde.

Harry deu risada. Para sua vergonha, o ciúme de um espí rito ou de um humano não eram nada apropriados. Sua vin gança não seguira as expectativas. Nenhuma prisão e nem po breza. Não havia cavalos e nem ao menos um bote. E muito menos levara sua esposa para a cama.

— O ciúme dele é um pouco prematuro.

Harry permitiu a si mesmo tocar em uma madeixa de cabelos que escapara da touca. Pansy tropeçou e Harry segu rou-a pelo braço. Era indiscutível que a atração entre eles era mútua. Talvez mais para a frente...

Harry soltou-lhe o braço com diplomacia.

— E o que me diz? Concorda com as ideias de Minerva?

— Não com tudo. Sei que fantasmas não existem, mas é difícil não acreditar neles...

— Quando aparecem nos sonhos, não é?

Pansy anuiu, sem maiores comentários.

Harry segurou-a pelo cotovelo, até chegarem ao castelo.

— Minerva fala inglês?

— Claro! Por quê?

— Não me lembro de tê-la ouvido dirigir-me a palavra. Tal vez seja por não gostar de mim.

Pansy corou, mas não o contradisse.

— Ela se sente insegura... assim como eu. Por falar nisso... o senhor sabe de alguém que esteja precisando de um jardinei ro? Poderemos trabalhar e morar na cabana normalmente des tinada a um horteleiro.

— Nem um pouco adequado para uma lady.

— Eu sei. — Ela suspirou. — Mas não sei mais em que pensar.

— Levarei o assunto em consideração.

Harry chamou James e foram para o castelo. Na verdade, teria até o final do verão para encontrar um lugar adequado para Pansy Malfoy e Minerva.

Momentos depois Harry caminhava impaciente. Instruíra pessoalmente o capitão para comprar o ta pete na Turquia. As cores eram as que pedira, o desenho era magnífico e a peça tinha um brilho próprio, mas não combinava com a biblioteca.

Harry afastou os cabelos da testa. O que es tava acontecendo? Ficou em pé, cruzou os braços, fulminou o pobre tapete com olhar malévolo e cutucou a franja com a ponta da bota. Nisso, ouviu passos atrás de si. Voltou-se, furioso.

— Milorde, James quer... — Pansy hesitou na entrada. — Perdão. Estou interrompendo?

— O quê? Não. Estou apenas observando minha última aqui sição. Não combinou nada. Entre!

Cautelosa, Pansy obedeceu e fitou a fonte do aborrecimento de milorde.

— Bonito... — O comentário foi morno.

— Trata-se de uma peça oriental muito fina. — A réplica foi contundente.

— Ah, sim. Maravilhoso. — Pansy não pareceu convincente.

— Não precisa ser tão educada. O que há de errado com ele?

— Nada, milorde. E um tapete muito bonito. Voltarei mais tarde...

— Não pense que vai embora. — Harry interrompeu-lhe a passagem. — Por que não gostou dele?

Pansy afastou-se.

— Eu acho, milorde, que deveria pedir a opinião de milady, sua mãe. Agora, se me permite, James...

Então era isso. Pansy levara as recomendações dele ao pé da letra e afastara-se da restauração do castelo. Mas no mo mento ele queria a opinião dela, por que ela simplesmente não fazia o que lhe era solicitado?

— Por que insiste em atirar-me no rosto as minhas palavras? — Encostou-se na porta, com um sor riso malicioso e os braços cruzados.

— Nada disso, milorde. Eu apenas acho que está certo em pedir a opinião da senhora sua mãe. Este será o lar dela, e não o meu...

Pansy ergueu a mão em protesto. Harry segurou-lhe os de dos e beijou-os.

— Sei o que eu disse, mas agora quero a sua opinião. — Harry encostou os lábios no pulso delicado.

Pansy deu um leve puxão, porém Harry não a soltou. Pelo contrário. Puxou-a de encontro a ele com mãos fortes, apesar de esguias. Mãos quentes... Tão diferentes...

Pansy fitou-o. Milorde cravava-lhe os olhos verdes com calor crescente. Ele acariciou-lhe o queixo com o polegar, e ela se arrepiou. O prazo do bom comportamento expirara. Pansy ensaiou uma expressão sisuda.

— Por favor, milorde. Deixe-me passar.

— Não até dar-me a sua opinião ou um beijo.

O patife a provocava. Pansy fitou-o com maior severidade. Harry relaxou o abraço e ela tornou a avaliar o objeto que cobria parte do piso.

— Ele é muito bonito, milorde. — Pansy afastou-se um pouco. — E não acho que o problema seja o tapete.

— Então o que é? — Harry seguiu-a até o centro da biblio teca, enquanto ela avaliava os móveis.

— As cadeiras e as cortinas. Estão desbotadas e o castanho-avermelhado jamais combinaria com ele.

Harry estreitou os olhos.

— Acho que tem razão. Terão de ser refeitas. Mas com que tipo de tecido?

— Essa decisão... — Pansy olhou para as mãos.

— Não, senhora — Harry interrompeu-a, rindo. — Lem bre-se do acordo.

Pansy mirou-o com o canto dos olhos e não conteve uma ri sada. Ela sempre gostara daquele recinto. Adoraria redecorá-lo.

— Talvez cor de vinho para combinar com o colorido do ta pete. As cortinas em tom mais claro, listradas. — Pansy imagi nou tudo. O brilho da peça oriental refletída no almofadado das portas e nas estantes. — Ou, se milorde preferir...

Harry ergueu a mão.

— Escreverei sua ideia para minha mãe e pedirei a ela que mande um tapeceiro com o mostruário. Assim poderemos escolher.

— Está bem. Como queira, milorde. Mas agora tenho de levar James para um passeio, conforme prometi a ele. Até o jantar.

Harry observou-lhe o balanço dos quadris ao afastar-se e considerou os insondáveis mistérios das atitudes das mulheres.