Parte 10

No meio das poeiras adensantes, envolto pela morte e rios de sangue, ele estava lá.
No meio do campo de batalha, a espada a gotejar do liquido vermelho que estraíra a dezenas de inimigos, o vento a redemoinhar-lhe o cabelo, ele estava lá.
No meio das planícies outrora verdejantes, com o seu desejo de sangue finalmente saciado, entre centenas de corpos caídos no chão, ele estava lá. Ele observava aquela imobilidade total de tudo, como se o tempo tivesse parado, aqueles esgares de dor interminaveis na face dos mortos, Aqueles vultos enormes no chão que regavam a terra com o seu sangue, formando rios e vales, sustendo os campos vermelhos.
O sol levantava-se, desdobrando os lençois de névoas que se adensavam, conferindo-lhe um auréola vermelha, como se o próprio rei dos astros clamasse vitória após a sua dívida de sangue estar saciada. A lua apagava-se, levando consigo os fantasmas de legiões caídas até ao submundo, deixando resplandecer os vitoriosos aos primeiros raios da manhã.
"Alvorada negra." apesar de contraditório, este era o único pensamento que surgia na mente de Carlos. Tinham saído vitoriosos, contudo, a batalha levara-lhe um grande preço.
Estava fraco, o cansaço toldava-lhe a clareza de mente, ferido apenas ligeiramente com alguns arranhões e diversas esquimoses. Uma das suas ombreiras platinadas encontrava-se rachada e a outra trazia com ela as marcas de um machado, o sabre gotejava-lhe do sangue extraído de vários inimigos. O arco, que ceifara talvez uma centena de vidas, jazia no seu ombro, com a respectiva aljava vazia, as setas ou perdidas ou quebradas.
Já devido ao tempo que ali permanecera, pois desde que a batalha findara, na madrugada, deixara-se ficar a observar, formara-se uma poça vermelha a seus pés oriunda do fluído vital dos seus adversários quedados e talvez dos seus próprios ferimentos, ondulando a cada nova gota.
Com o cabelo a ondular suavemente ao vento, olhava e reflectia sobre tudo o que fizera, fixando a cara de um muito provável pai, ou avô de alguém. Um primo, um sobrinho, um parente querido de alguém. Lembrava-se de que as suas verdadeiras intenções não eram aquelas, sabia que muitos foram obrigados a escolher entre a morte ás mãos do inimigo ou do seu próprio general. Resultados do império de Seth.
Mas tudo isso não mudarao facto de que tivesse de os matar. Não por escolha própria. Não tivera opção.
Carlos batalhava consigo próprio agora, como que a desculpar-se a si mesmo pelas mortes que causara.
"Carlos..." Maachli aproximava-se em passo lento, receosa, os olhos azuis brilhavam, escondendo um emoção. Carlos pressentira-a, virando o olhar para ela, tentando findar o duelo mental.
"Carlos... Estás bem?" o tom tremia-lhe, ameaçando ficar fora de controlo. Ele acenou com a cabeça, aproximando-se dela e ajoelhou-se num afortunado tufo de erva ainda verde. Fixaram o olhar um no outro e Carlos percebeu que ela lhe queria dizer algo, algo grave. Com a expressão endurecida, acariciou-lhe o pescoço, passeando os dedos pelo macio pelo branco. Retirou-lhe uma pequena folha que jazia numa das sobrancelhas. A majestosa tigre fêmea soltou uma lágrima, desviando a cabeça para o lado, não querendo revelar a sua fraqueza.
"É sobre o john... ele ... ele está..."
"Morto."
Ela olhou-o, surpresa.
"Eu... vi-o morrer."
Ela manteve o porte digno e deixou que Carlos se reclinasse nela, tirando conforto para os dois.
"Agora temos de ir. O teu irmão espera-te." informou-o. No entanto, não o deixou. Também ela precisava dele.

-General, recolhemos um número reduzido de tropas inimigas feridas, alguns ligeiramente e outros em estado grave. Que lhes fazemos? - Kyle, o novo tenente após a morte de John, fazia um relatório. Miguel estava sentado no dossel, ligando ele próprio um golpe fundo no braço do escudo. A armadura branca com ornamentos dourados que envergava apresentava-se baça, sem brilho e com manchas vermelhas dispersas. Contudo, fizera o seu trabalho e protegera Miguel da aguilhoada mortal de uma seta. O manto vermelho encontrava-se deitado numa cadeira, com um pequeno rasgão.
-Qual é o estado dos nossos feridos? - Interrompeu ele, dando o ponto final no golpe.
-Dois dos homens morreram devido ás febres, os feridos ligeiros estão em recuperação e os graves...
-Estão curados! - O tenente foi de novo interrompido, mas desta vez por Carlos que entrava na tenda, seguido por Maachli de perto.
-Meu comandante. - Kyle logo se vergou, submisso a um amigo.
-Dispenso as vénias, obrigado.
-Tenente, mande os médicos responsáveis pelos feridos graves cuidar dos feridos de Lassari. Diz que tens a palavra do general. Podes sair.
-Mas, ...General! São inimigos!
-São pessoas! São homens como nós. É mais do que hora de lhes provar-mos que não somos como Seth, não somos tiranos. - Miguel mostrava agora o porte digno que herdara do pai.
-S-Sim, meu General! - Kyle inclinou-se numa vénia, talvez surpreso pela honra das palavras de Miguel. Com um breve aceno de cabeça e um "-comandante" a Carlos, saiu da tenda, apressando-se a cumprir a ordem.
-Arriscaste a vida. A nação deve-te muito. - Comentou Miguel, dirigindo-se ao irmão, enquanto preparava duas taças de água.
-Deve-te mais a ti! Eu não conseguiria comandar os homens como tu. Nunca me seguiriam. Não matariam por mim. - Ao aperceber-se que estava a voltar ao seu conflito interior, Carlos desviou o tema. - E tu? Estás bem?
-Não preciso que me cures. Não gastes mais energia, já fizeste mais que o suficiente, estou só um pouco cansado.
"Nunca fiz o suficiente" comentou interiormente Carlos para Maachli ao receber o copo com o líquido refrescante, hesitando por momentos.
Quando Miguel sorveu a água sentiu uma sensação de nova energia, um novo fulgor. Seria da água? Ao questionar-se, encontrou a resposta nos olhos do irmão.
Carlos tinha as pupilas raiadas de azul, a respiração ofegante.
-Não devias fazê-lo. Estás fraco.
-Eu estou bem! - forçou um sorriso. No entanto, quase caiu. Desfalecendo, cambaleou pelo chão, deixando cair a taça.
"Carlos!" Maachli correu em seu apoio, colocando os ombros por baixo do braço de Carlos, soerguendo-o até o por de joelhos.
-O teu confronto com o Seth deixou-se muito fraco. Tens de descansar.
Mas, no seu interior, Carlos pressentiu algo de estranho. Algo não estava bem.
De imediato dois guardas entraram na tenda.
-Meu general! - carregavam nos braços um corpo, um homem desmaiado.
Quando Carlos lhe pôs a vista em cima, não queria acreditar. Desmaiou com a imagem do causador de tudo aquilo nos olhos.
Escuridão envolveu-o, o último pensamento dirigido a Maachli.
"É ele...
...Seth.