- PARANÓIA -
PARTE I: TRATOS E TRUQUES
CAPÍTULO 3
Na tarde daquele mesmo dia, ele ouviu – completamente sem querer – algo sobre um plano para resgatar Harry Potter. Tinha ciência de que ninguém o tinha visto passado pelo corredor, quando estava a caminho do banheiro, mas de alguma forma ela percebeu que havia algo errado quando foi lhe levar um lanche mais ou menos no meio da tarde. Odiava admitir: a menina era perspicaz. Ela tentava captar as coisas que ele estava pescando aqui e ali, talvez por precaução – ou simplesmente por ter medo dele deixar escapar alguma informação no dia em que tivesse que sair d'A Toca.
"O que você ouviu?", questionou calmamente, colocando a bandeja sobre a cômoda e sentando na cama em seguida, sem pedir licença.
Draco a encarou com uma das sobrancelhas erguidas. Ela não podia estar falando sério.
"Sobre o quê? Algo com relação à loja imunda dos seus irmãos ou as tentativas frustradas do seu outro irmão com Granger-Sangue-Ruim?"
"Nada sobre isso", abanou a mão, descontraída, decidida a não perder tempo defendendo ninguém. Não era esse o objetivo. Depois sua face ficou muito séria: "Quero saber o que você ouviu sobre Harry".
"Ah... Isso", ele deixou escapar, como se não fosse nada de mais.
"Não querem me deixar ir, para variar. É frustrante", desabafou.
Draco ficou surpreso.
De todas as reações e palavras que esperaria de Ginny Weasley, aquelas eram as mais improváveis. Cogitou que ela iria azará-lo, fazê-lo confessar o que sabia sobre o assunto ou que iria dedurá-lo e pedir para que alguém o fizesse esquecer... Não: ela estava desabafando.
Um minuto inteiro se passou antes que ele decidisse exatamente o que pensava com relação àquela atitude: que liberdade ele tinha dado para que ela viesse até ele e despejasse seus sentimentos e pensamentos? Nenhuma. Disso ele lembrava perfeitamente. Mas ela não parecia se importar muito com o que ele achava, apenas sentava ali e falava, falava e falava de novo. Ela tinha algum problema... Ao menos o de não saber ouvir era um dos mais gritantes.
"Eu não estou interessado, Weasley", informou solenemente, enquanto ela continuava tagarelando.
"Quer jogar quadribol conosco?", questionou mudando de assunto drasticamente.
"Não".
"Precisamos de um apanhador. Seria eu contra você, o que acha?", continuou sem se importar com a resposta dele.
"Não".
"Se bem que eu teria que convencer meus irmãos a ficarem no seu time... Isso seria complicado...", ela continuou pensando em voz alta.
"Eu não quero jogar com vocês. Poderia, por favor, me deixar em paz?", questionou, educadamente – na medida do que era possível.
"Ah... Tudo bem. Se mudar de idéia é só ir para o jardim", comentou, sem parecer nem um pouco constrangida com a negativa de Malfoy.
Ela se levantou e saiu do quarto. Draco se perguntava o que raios ela comia para parecer sempre tão feliz, simpática e disposta a conversar com ele. Ela era a única que o tratava como se fosse uma pessoa qualquer, um convidado, e não um peso que deveriam suportar até que a guerra acabasse. Deitou na cama, sem se importar em terminar a sua refeição, e fitou o teto. Não queria dormir de novo, porque tudo o que tinha feito nos últimos dias era comer, dormir e espantar a menina ruiva do seu quarto – depois de passar minutos seguidos inteiros apenas ouvindo-a despejar informações inúteis.
"Então fica todo mundo de artilheiro, tentando acertar uma bola na cabeça de Ron", escutou um dos irmãos de Ginny falar, mas não sabia qual era o número que tinha dado a ele. Talvez nove ou o dez. Era difícil dar nomes a uma família que parecia se multiplicar infinitamente.
"Muito engraçado", esse, ele identificou. Era o amigo de Harry Potter.
Ao fundo ouviu as risadas da Granger e da menina tagarela. A voz dela nem era tão irritante, mas depois do décimo minuto de falácia contínua era impossível não implorar para que ela fechasse a boca. Não sabia dizer se era impressão sua, mas a voz dela parecia mais suave e menos estridente do que quando ela falava com ele. Balançou a cabeça e fechou os olhos, ouvindo os passos morrerem no corredor. Dois minutos depois o grupo já estava nos jardins, e Draco resolveu espiar pela janela e os viu correndo para algum lugar que certamente era o ponto em que sempre faziam seus jogos. Deitou-se e levou as mãos à cabeça. Suspirou, pensando novamente no convite e se aquilo não faria algum mal. Recordou que já ficara sozinho por bastante tempo e que continuar remoendo lembranças, dúvidas e compartilhando seus pesadelos apenas consigo mesmo não era muito agradável. Precisava de um pouco de diversão... Mesmo que fosse com eles.
"Eu estaria me humilhando?", perguntou-se em voz alta.
E logo pensou que não tanto. Talvez valesse a pena. Sentou-se na cama e olhou pela janela mais uma vez. O grupo já ia longe, mas seria facilmente alcançado. Levantou da cama e foi até a porta, abrindo-a devagar, ainda temeroso. Sua última tentativa de socializar com aquela família não tinha sido muito proveitosa. Em um ato de profunda coragem, saiu para o corredor e caminhou firmemente até as escadas – que desceu tentando não fazer barulho, mas era quase impossível. Na sala avistou Bill e Fleur, que conversavam e pareciam decidir as cores de alguma coisa para o casamento.
"Céus", Draco deixou escapar em voz alta. Tinha esquecido o tal casamento.
Os dois o encararam, mas ele apenas ignorou e saiu pela porta, apressadamente. Imaginou aquela casa lotada de gente ruiva e sem classe; sem contar com o sem número de membros da Ordem da Fênix e de pessoas que ele desprezava até no mais profundo cantinho da sua alma de puro-sangue.
"Ah, que beleza", resmungou, irônico, ao se deparar com o jardim mal cuidado dos Weasley. Havia gnomos e galinhas e mato demais.
Tinha se arrependido de ter saído do quarto. Não fora uma boa idéia.
"Definitivamente não foi", respondeu aos próprios pensamentos.
Atravessou o terreno quase correndo, chegando à trilha por onde viu os Weasley caminhando. Andou apressado por todo o caminho e logo chegou a uma clareira cercada por árvores altas, que garantiam a proteção e segurança deles.
"O que está fazendo aqui, Malfoy?", escutou um dos gêmeos perguntando, do alto de sua vassoura.
Granger, que estava sentada em uma toalha grande estendida no chão, debaixo de uma árvore próxima, olhou para trás e o encarou com olhos duvidosos, como se estivesse esperando algo acontecer. Ron desceu da vassoura e o outro gêmeo fez o mesmo.
"Calma, eu só vim porque ela me convidou", revelou apontando para Ginny, que se aproximava lentamente.
"Não fica inventando coisa, Malfoy", falou o gêmeo que tinha se aproximado junto com Ron.
"Não estou inventando", defendeu-se.
"Ginny!"
"Não precisa gritar, Fred. Não sou surda", reclamou, chegando perto do gêmeo e de Ron. Naquele momento o outro, George, desceu da vassoura e ficou perto de onde Granger estava. Ela tinha se levantado e se aproximava da cena. George já chegou acusado a irmã:
"Por que você chamou esse infeliz para participar?"
Ela ficou em silêncio, intimidada. Encarou os irmãos e depois Draco.
"Mas eu não chamei!", respondeu.
Draco a fulminou com o olhar, mas ela não se abalou.
"De qualquer forma, não vejo porque não deixá-lo participar. Vocês estão precisando de um apanhador, de qualquer forma", Granger se meteu.
"Você não perde a oportunidade de se meter onde não é chamada, não é mesmo?", Draco questionou irritado.
"O único não chamado aqui é você, Malfoy".
"OK", ele concordou com raiva, virando as costas. "Obrigado por nada, Weasley-Sapinho!", exclamou em voz alta, iniciando o retorno pela trilha.
"Sapinho?", Draco escutou um dos gêmeos questionando o apelido, confuso.
"Não sei do que ele está falando", Ginny respondeu.
Draco deu uma última olhada para trás e viu que eles retomavam o caminho para o jogo. Suspirou. Ninguém poderia dizer que ele não estava tentando fazer parte daquilo. Contra a sua vontade, quase que usando todo o seu instinto de sobrevivência para conseguir engolir o orgulho e tentar uma aproximação, mas eles não deixavam. E quando finalmente aparecia alguém disposta a fazê-lo se sentir à vontade, estava apenas usando mais uma oportunidade para diminuí-lo.
Griffyndors eram a raça mais hipócrita que havia conhecido em toda a sua vida: condenavam o elitismo dos puros de sangue, pregavam coragem, lealdade e muitos diziam não ter preconceitos, mas o que era que estavam fazendo afinal? Como podiam julgá-lo daquela forma, como se fosse inferior, se eles mesmos pregavam que isso não existia? Eram preconceituosos na mesma medida, mas com pontos de vista diferentes. Quem eram para condenar tudo o que ele tinha feito pela sua família? Draco se perguntava se cada um daqueles ruivos não teria feito exatamente a mesma coisa para salvar a deles.
Avistou a casa torta, atravessou o jardim e entrou pela porta da cozinha. Não havia ninguém lá e nem se perguntou o que estaria acontecendo. Não queria abusar da sorte.
Passou pelo aposento, e também pela sala. Subiu as escadas e se trancou novamente em sua solidão no quarto temporário-quase-permanente. Sentou-se no chão e encarou a parede, tentando impedir que lembranças ruins aflorassem em sua mente, mas era quase impossível. Levantou uma das mangas da camisa e olhou para a marca escura e com as formas de um crânio com uma serpente tatuada em seu braço... A dor que sentiu quando ela tinha sido feita não se comparava a dor de estar sozinho e ao vazio que sua vida se tornara.
A dor física, a muito, havia passado.
Ele não lutaria mais por nada, não salvaria a sua família e não passava de um ser da espécie que desprezava: um traidor fugitivo. Covarde. Escondido. Dependendo da boa fé do lado inimigo para sobreviver porque não tivera coragem de matar uma pessoa.
"Sou um idiota", murmurou.
"Disso ninguém duvida", Ginny falou colocando a cabeça para dentro da janela do quarto.
Ela estava montada na vassoura e já ensaiava entrar pelo quarto.
"O que pensa que está fazendo?", Draco se levantou rapidamente, no susto, por puro reflexo.
"Pedindo desculpas", revelou, entrando pela janela silenciosamente e de forma quase graciosa se não fosse tão inapropriada para uma garota.
"Por me fazer de idiota? Nem se preocupe, já estou começando a me acostumar com a idéia que vocês têm de diversão", reclamou.
"Eu tinha prometido para eles que não iria tentar conversar com você, enquanto estávamos indo para clareira. Eu já tinha te convidado, eu sei, poderia ter tentado avisar, mas-"
"Esqueça isso, Weasley. Só me deixa em paz".
"Não consigo ver você assim e não fazer nada. Já passei por algo parecido, já me senti deslocada, eu sei como é não ser bem vinda, ou querida, ou tratada como se não estivesse ali".
"Ah, claro. Com a quantidade de irmãos que você tem é fácil não ser notada", provocou.
"Não é disso que estou falando, apesar de que essa também é a verdade. Mas eu gosto deles. De todos eles. Nunca foi um problema ter família grande", confessou.
"Poderia me deixar sozinho?", ele pediu, mas ela balançou a cabeça e negou.
"Não. Você precisa ocupar a sua mente, ou vai enlouquecer. Posso entrar pela sua janela todos os dias, se quiser", falou sorrindo.
"A porta funciona muito bem, para uma casa caindo aos pedaços, se você não percebeu", alfinetou.
"Mas meus irmãos ficam de olho e eu não quero ninguém se metendo na minha vida".
"Você costumava entrar pela janela do Potter também?", questionou, com intenção de deixá-la sem graça.
"Não tivemos muito tempo para ser um casal", revelou, com as bochechas corando.
Draco não falou mais nada depois disso. Apenas voltou a se sentar e a encarar a parede à sua frente. Vários minutos se passaram desde então e ele ouviu um barulho, mas quando olhou para a janela Ginny já tinha ido, voando em sua vassoura, provavelmente para se juntar novamente aos irmãos.
Pensou que talvez pudessem ser amigos e que seria interessante ter alguém para conversar que não fosse ele mesmo.
"Eu não preciso ser tão sozinho, afinal".
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