Iori não sabia o que fazer, nem o que pensar.

Aliás, saber de algo era um luxo do qual não tinha direito. Era assim que estava se sentindo. Algo recorrente desde o dia daquela burrada e que piorara muito nas últimas horas, quando Kyo lhe rejeitou. E não era só isso. Não uma rejeição comum de quem está apenas zangado. Ele tirara suas coisas de casa, rejeitara seu pedido de desculpas, seu abraço... seu beijo.

Ouvir as palavras do moreno lhe causou dor. Não reconheceu Kyo. Aquele não parecia o seu namorado. Não era o mesmo que estivera em seus braços. Esse Kyo, conhecia de cor e salteado: gestos, manias, olhares... Iori sabia de tudo. Que ele gostava de chá, videogame, sol e praia. Um grande apetite, muita preguiça, um coração enorme e jeito de criança.

Altivo, orgulhoso, distraído e muito atraente. Despertava olhares por todos os lugares onde passava: de homens e mulheres, de cobiça ou de admiração. Alguns, carregados de luxúria, tão gritantes que chegavam a assustar, mas fora da arena Kyo era tão distraído que seus adversários mal poderiam reconhece-lo. Isso era algo que fazia o ruivo rir.

- Como alguém podia ser tão tapado?

Com o passar do tempo, tapado foi sendo substituído por adjetivos mais suaves. Assim como as piadas foram ficando para trás, dando lugar a uma preocupação sincera pela segurança dele. Alguém poderia ataca-lo na saída de uma boate... não dava pra duvidar da intenção de alguns, cuja cobiça era maior. E Kyo sequer notava.

Iori nunca entendeu o desprendimento do moreno. Assim como era o caso do ruivo, se Kusanagi quisesse poderia ter qualquer um ao seu lado. Muita gente se estapearia para estar ao lado de alguém famoso, e o ruivo se aproveitava... mas Kyo parecia ignorar isso. Antes até podia compreender, afinal ele tinha namorada: Yuki, uma garota sem sal. Porém, mesmo quando terminou o namoro, sua atitude era a mesma.

Era estranho, mas com o passar do tempo o ruivo passou a interpretar aquilo como destino. Eles se pertenciam de qualquer forma, tanto no ódio quanto no amor. A entrega era muito clara, fosse na arena ou na cama.

Descobriu também que Kyo era teimoso, ou pelo menos alguém que não se deixava levar por qualquer conversa. Iori teve muito trabalho em convence-lo de que era mais que um ódio sem sentido. Aceitar que via seu inimigo com outros olhos fora complicado para o ruivo, mas pior ainda foi conquista-lo.

Morarem juntos foi um passo arriscado. Houve turbulências e muitos problemas. Kyo deixara muito para trás: a família rompeu os laços. O preço que o moreno havia pago mostrava sua confiança naquela história nova e naquele afeto torto.

Viveram ali dias e noites intensas. Iori o conheceu mais que a qualquer um em sua vida. Sabia ler seus gestos e seu corpo. Efeitos de uma convivência marcada por sarcamo, ciúme e luxúria. A luxúria vinha de ambos, enquanto sarcasmo e ciúmes eram atributos natos de Yagami, da mesma forma como a arrogância e o mau humor.

Era difícil deixar os velhos hábitos, especialmente os da vida toda. Kyo sabia disso e relevava, e talvez por essa atitude paciente, Iori não se importasse o bastante em mudar.

Mas tinha terminado. A última discussão fora, como sempre por ciúmes e sem motivos, acusando por um monte de coisas. A mágoa fora demais para que o moreno passasse por cima. Paciência tinha limite.

Yagami jogara tudo fora por muito pouco. Não contava que ele pudesse simplesmente viajar e se afastar. Muito menos que pudesse passar tanto tempo longe. Quase enlouqueceu pela falta de notícias. Nem mesmo Benimaru, que era o melhor amigo sabia onde ele estava, e isso foi tão espantoso que até mesmo a família tentava descobrir seu paradeiro.

Tentou acreditar que esse tempo serviria para o outro esfriar a cabeça, que poderiam conversar direito quando voltasse. Era uma possibilidade remota, mas tinha de se apegar a alguma esperança. Porém tudo se desfez quando Kyo terminou de arrumar sua mala e disse aquelas palavras.

Kyo tirara tudo que era seu daquela casa. Não deixou vestígios. E Iori mal pôde reconhecê-lo. O moreno acreditara em todas as bobagens que ouviu naquela tarde. Agora, tinha de lidar com as conseqüências. Consertar tudo aquilo e traze-lo de volta.

Tinha de pensar em algo. Não tinha terminado. Não poderia perde-lo desse jeito.

ooOOoo

Kyo abriu a porta do apartamento, dando espaço para a entrada de seu novo hóspede. O francês pareceu hesitante, mas fez esforço para não demonstrar nada. Era hesitação frente ao que havia conseguido.

- Ei? Vai ficar parado na porta? Pode entrar!

Obedeceu, e ouviu a porta ser fechada.

- Vem, vamos deixar as suas malas no quarto e aí te mostro o lugar.

Acompanhou-o até o quarto. Um lugar limpo, com espaço razoável e prático. Diferente do hotel, mas nem pretendia fazer esse tipo de comparação.

Simpático, como se espera de todo anfitrião, Kyo lhe mostrou o espaço e os lugares onde estavam remédios e outros itens que ele pudesse precisar.

- Bom, não tem muita coisa no armário e na geladeira, mas eu juro que vou criar vergonha na cara e fazer compras.

- Não precisa se preocupar. Eu me viro.

- E deixar o hóspede morrer de inanição? Não seria legal da minha parte. Tudo bem que não dá pra comparar com um hotel quatro ou cinco estrelas, mas também não precisa esculhambar.

Riram. Olivier gostou de ver um sorriso no rosto daquele moreno. Fazia-o lembrar do homem que conhecera, ainda que não representasse um décimo da energia que ele irradiava meses antes.

- Aliás, falando em compras acho que vou fazer isso agora.

- Não precisa ter pressa...

- Pressa? Se eu não comprar nada, vai acabar desmaiando antes da primeira noite. Preciso ter pelo menos o básico dentro do armário.

- Tem tão pouco assim?

- Nem queira saber! – disse, mudando o tom logo em seguida. – O supermercado fica aqui perto, não vou demorar muito. Enquanto isso você pode arrumar suas coisas, conhecer melhor o apartamento... não tem muita coisa pra conhecer, mas enfim, fique à vontade.

Não demorou para vê-lo saindo, mas ainda assim quase não se moveu. Ficou mais tranqüilo ao ouvir o som da porta e se dar conta de que estava sozinho.

Teria um tempo razoável, mesmo que ele não demorasse. Queria pensar naquilo que estava fazendo. Era estranho se dar conta de seus próprios atos. Era diferente de tudo que já havia feito.

Imprudência? Talvez. Era arriscar demais. Kyo Kusanagi era uma pessoa desconhecida. Não dava pra ignorar isso. Não podia... mas foi o que fez naquele momento. Esqueceu das regras de segurança, pois obtivera dele mais do que esperava. Agora, queria saber até onde aquilo poderia chegar. Saciar uma curiosidade tão repentina que surgira a esse respeito.

Quando Kyo voltou, o quarto já estava arrumado. Martel foi vê-lo assim que ouviu o barulho na porta e viu-o entrando com um número de sacolas que considerou excessivo. Ofereceu ajuda para guardar as compras, e ao ajuda-lo nessa tarefa descobriu que o moreno não cometera exagero nas compras, e que muito provavelmente o seu anfitrião mal estivesse se alimentando.

- Conseguiu se acomodar no quarto?

- Ah sim, já está tudo arrumado. – respondeu, enquanto guardava alguns itens no armário – Me diz uma coisa: o que há pra se fazer em Tóquio?

- O que há pra fazer? Tudo o que possa imaginar! Há muito o que fazer pra quem gosta de festa, badalação e coisas assim.

- E o que você costuma fazer?

- As vezes eu ia pra algum barzinho beber. Aliás, não faço isso há séculos... e você? O que costuma fazer?

- Quase a mesma coisa. Não gosto de muita badalação, mas saio pra beber de vez em quando. Claro que tenho os meus dias, em que faço algo diferente, mas na maior parte do tempo sou um "intelectual introspectivo". Acho que vou seguir essa linha por aqui.

- É uma boa linha pra se seguir. O "intelectual" te garante um bom leque de opções, sem contar a reputação.

- As opções são boas, mas a fama de intelectual não é só flores. E de qualquer forma, nunca me importei muito com a minha reputação. Não sou famoso, então intelectual é apenas uma forma dos outros me classificarem, uma forma de me definirem de forma superficial. – disse – Falando em fama, pelo que percebi por aí você tem alguma fama, não?

- Mais ou menos.

- O que você é? Uma espécie de celebridade?

- Hum, o que você andou ouvindo por aí?

- Não ouvi muita coisa, mas é que o seu nome provocou reações estranhas na recepcionista que me atendeu no telefone.

- Que tipo de reação?

- Algo entre admiração e ataque de fã.

- Então não mudou muita coisa. – Kyo riu, lembrando de algumas situações de assédio nas arenas.

Explicou a Olivier sobre o torneio e sobre sua carreira de lutador. Falou brevemente sobre os torneios serem uma tradição muito antiga da família e sobre a popularidade que as competições passaram a ter nos últimos anos. Falou pouco, apenas o básico para que o francês entendesse.

Nada de maldições ou da lendária rivalidade entre os clãs. Só tradição de família, algo pelo qual sentia-se pressionado. O suficiente para não se expor demais e nem deixar grandes lacunas. Francamente, preferia não falar no assunto, então não mencionou nada que pudesse lhe despertar lembranças inconvenientes.

- Puxa, lutador? Você é bom nisso?

- Modéstia a parte, era algo que eu fazia bem. Ganhei alguns desses torneios. – disse, sem citar a real importância da competição e nem quantas vezes o vencera.

- Sério? Mas por que fala disso no passado?

- Eu larguei a arena.

- Mas por que diz "eu era bom nisso"? Não é mais?

- Não. – respondeu sinceramente – Não que eu fosse bom, mas é simplesmente tudo o que sei fazer.

- Não sabe fazer mais nada?

- Estou completamente perdido.

Aquilo valeu para Olivier com resposta suficiente, embora soubesse que muito mais poderia ter sido dito.

- Estamos realmente bem arranjados... – disse o francês – Duas pessoas em crise. Vamos nos dar muito bem.

Podia haver mais da parte de Kusanagi, mas por hora, Martel contentou-se com o riso do moreno, que concordava plenamente com aquele raciocínio.

ooOOoo

O primeiro dia foi como era de se esperar. Simpatia mútua, hesitação, conversas amenas e testes de limite.

Foi um dia que passou rápido. Logo era noite e a ambos restou o tempo de ficarem sozinhos durante os minutos ou horas que antecediam o sono, dedicados à pensamentos aleatórios ou grandes reflexões.

Era o que Olivier precisava.

Deitado na cama, o francês tinha vários pensamentos. Alguns de alerta, outros de tranqüilidade, um pouco de ansiedade e um quê de angústia. Tudo isso de uma só vez.

"O que eu estou fazendo?"

O que tinha de fazer ali? Como tudo acontecera? Como tinha ido, da França parar praticamente do outro lado do mundo?

Como aquilo que deveria ter sido somente uma noite tornou-se uma busca incessante por um homem praticamente desconhecido?

Como uma noite poderia faze-lo perder o juízo? Afinal, não poderia colocar as coisas de outra forma. Estava em um outro país, onde mal conseguia se comunicar, passando uma temporada no apartamento de alguém que mal conhecia. De alguém que vira somente duas vezes na vida.

Juízo? Aparentemente esquecera o significado da palavra. Tudo bem que ele jamais fora o seu forte, mas era um parâmetro importante. Importante, mas esquecido, pois há meses o que lhe guiava era a intuição.

Essa intuição dava força aos seus atos. Ela lhe dizia que Kusanagi não oferecia perigo, por mais misterioso que parecesse. Sabia que ele não lhe dissera tudo, omitira certas coisas, mas não parecia haver maldade em seus atos. Era como se apenas quisesse evitar perguntas que lhe forçassem a lembrar de algo. Gestos de auto-defesa. Nada que fizesse Martel se sentir em perigo ao seu lado.

Kyo Kusanagi não era um assassino, estuprador ou golpista internacional. Uma conclusão que teve tanto ao olhar em seus olhos quanto naquela busca que empreendera atrás do moreno. Ele não representava ameaças. Sua intuição era muito boa e confiava nela.

O máximo que ela lhe indicara era alguém que devia ter passado por muitas coisas. Parecia triste, cabisbaixo, e pelo jeito estava desse jeito há um tempo considerável.

"É isso mesmo que estou fazendo? Tentando ler a mente de uma pessoa que mal conheço?" perguntou a si mesmo, sentindo-se um idiota. Era como se estivesse tentando adivinhar a sua história ou criar uma história para ele. Como se Kyo Kusanagi fosse uma de suas fantasias, um dos seus personagens que ficavam somente na imaginação porque ele lhe pertencia. Era particular demais, precioso demais para ser transposto no papel ou traduzido em palavras.

Não seria demais querer conhece-lo melhor? Descobri-lo? Podia esperar que algo assim acontecesse?

Quem sabe? Afinal conseguira bem mais do que esperava. A partir dali, tudo mais que acontecesse seria um bônus.

Quem sabe?