Capítulo 9 – A Seleção

1 de Setembro de 1991

Harry colocou a gaiola de Hedwig sobre o baú e pegou o bilhete de comboio que Hagrid lhe estendeu. Harry olhou para o papel atentamente.

― Nove e três quartos? ― disse Harry confuso ― Hagrid! Deve haver um erro. Aqui diz Plataforma Nove e Três Quartos, mas não existe uma plataforma nove e três quartos. ― O menino virou-se para falar com o homem e viu que estava a falar sozinho, o semi-gigante já desaparecera há muito.

Sem ter como tirar a dúvida, Harry começou a empurrar o carrinho com os seus pertences. Ainda tentou pedir ajuda a um dos guardas, mas foi tomado por um fedelho a tentar pregar uma partida de mau gosto. Quando ouviu uma voz aguda a falar, olhou e avistou um grupo de ruivos. De seguida viu um dos rapazes, Percy, segundo pôde escutar entre as palavras ditas, pela que supôs seria a sua mãe, correr em direção ao pilar entre as placas dez e nove para logo atravessar a parede sólida.

Harry ficou admirado e olhou à sua volta para averiguar se tinha sido o único a testemunhar aquele evento tão incomum. Quando voltou a escutar a voz da mulher.

― Vá! É a tua vez, Fred. ― Apontando para um dos gémeos, que chamaram a sua atenção para o facto de que os havia confundido, perguntando aparentemente indignados como é que se podia chamar a si mesma mãe deles. Os gémeos correram e atravessaram a parede, tal como fizera o ruivo anteriormente, mas não sem admitir primeiro que estavam a brincar e que a sua mãe havia chamado o gémeo pelo nome correto.

Harry balançou a cabeça estupefacto com os olhos arregalados e a boca aberta. E avançou até à mulher para pedir assistência.

― Oh! Querido, não há problema nenhum. Também é a primeira vez do Ron em Hogwarts. Só corre diretamente em direção à parede entre o dez e o nove e chegarás à plataforma. Não há nada a temer. Podes fechar os olhos se estiveres com medo e quando os abrires, verás que já chegaste ― disse Molly com um falso tom maternal ao reconhecer aqueles rasgos tão característicos e identificar aquela tonalidade de verde que só vira anteriormente numa outra única pessoa.

Não tinha por onde errar. Era Harry Potter e este tinha-lhe caído praticamente nos braços. Parecia que o seu plano ia pelo bom caminho. Molly lançou um olhar a Ginny para que esta dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. Mas que fizesse notar a sua presença.

― Boa sorte! ― desejou Ginny, sorrindo para Harry.

Harry colocou-se em frente da parede, respirou fundo, fechou os olhos e correu. Quando sentiu que os barulhos à sua volta eram diferentes aos que podia escutar antes, abriu os olhos e constatou que tinha conseguido chegar à plataforma, são e salvo. Deu meia volta e viu a parede de tijolos atrás de si.

À medida que avançava, um novo mundo surgia diante de si. Foi, então, quando viu um comboio de um brilhante tom escarlate, entre os vapores e fumos que rodeavam o interior da plataforma.

oOo

Harry sentou-se no assento do compartimento e olhou pela janela. Realmente estava a acontecer. Estava livre dos seus terríveis familiares. Harry suspirou ao pensar quão bom seria se não tivesse de regressar a casa no final do Ano Letivo.

O menino de olhos esmeralda foi arrancado das suas divagações, ao sentir uma rajada de ar entrar pela porta, que havia sido aberta sem aviso. Levantou a cabeça com curiosidade e viu Ron, que perguntou se podia ficar ali, pois todos os outros compartimentos já se encontravam lotados. Harry assentiu em acordo e voltou a perder-se nos seus pensamentos. Desta vez sobre o loirinho que conhecera na loja de Madame Malkin. Ignorando no ato as tentativas por parte do ruivo de iniciar uma linha de diálogo.

Uma senhora apareceu com um carrinho cheio de doces. Ron disse que já estava servido mostrando um saco com um lanche caseiro e Harry timidamente comprou um pouco de tudo o que lhe chamou a atenção, visto que não sabia o que lhe agradaria, sem se aperceber do olhar invejoso que se apossava do menino de olhos azuis.

Ron ao ver-se ignorado e ardendo mais de infantil cobiça do que inveja, começou a vangloriar-se de que os gémeos lhe haviam ensinado um feitiço para mudar a coloração do pelo de Scabbers, o seu rato de estimação. Harry virou-se para poder ver, ganhando um sorriso presunçoso por parte de Ron, quando a porta foi aberta de forma abrupta, deixando ver uma jovem de cabelos castanhos e volumosos.

― Algum de vocês viu um sapo?

Os garotos negaram com um gesto de cabeça.

― Um menino, Neville, perdeu um. Oh! Estás a fazer magia ― disse a menina erguendo a cabeça com arrogância na direção de Ron ―, vamos ver o que podes fazer!

Ron iniciou o "feitiço" que falhou miseravelmente. Ao que ambos os meninos olharam um para o outro, encolhendo os ombros levemente.

― Tens a certeza que esse é de facto um feitiço? Bom! Não é lá muito bom, pois não? ― perguntou a menina, que continuou a expor o facto de que ela também tinha experimentado alguns feitiços dos manuais escolares, mas que os dela funcionavam e realizou um feitiço para arranjar os óculos de Harry, que se haviam partido durante uma das tantas sovas que lhe dera o seu tio Vernon.

A menina reconheceu Harry e apresentou-se como sendo Hermione Granger. Ron apanhou a deixa e apresentou-se igualmente.

oOo

Num outro compartimento encontravam-se os filhos das famílias mais influentes do Mundo Mágico Europeu. Draco demonstrava o seu entusiasmo, falando sem parar sobre como mal podia esperar por finalmente chegar a Hogwarts. Pansy sorriu ternamente e acariciou os cabelos do loirinho com ternura.

― Pan! Não me trates como um bebé ― reclamou Draco, fazendo um beicinho.

― Mas, Draco, tu és um bebé! O meu bebé! ― respondeu a loira, fulminando Blaise, quando este se atrevera a tentar sentar-se ao lado do menor do grupo. E ai do pobre do coitado que ousasse afirmar o contrário.

― Pansy, acaso pretendes ser a mãe do nosso Dragão? ― perguntou Milly, encolhendo-se ao receber um olhar perfurante — Eu disse nosso? Queria dizer teu, obviamente… Todos nós sabemos que o Draco é todinho teu. ― Rindo constrangida. ― Assustadora! ― murmurou para Daphne.

Um gatito que havia estado a dormitar tranquilamente no regaço do Dragão, despertou gradualmente, deixando ver as belíssimas ametistas que tinha por olhos e ronronou buscando a atenção do seu dono. Mas sem deixar de prestar atenção ao seu redor.

― Mãe, não! Mas uma irmã mais velha muito sobre-protectora ― afirmou Pansy, para concluir com um tom atemorizante, encarando o menino de pele negra. ― Principalmente com tantas moscas a rondá-lo.

Lynx, que havia tomado Pansy como fiel aliada na sua missão de proteger o seu amo e manter afastados os sujeitos indesejáveis, tomou aquele olhar como um aviso de que não deveria subestimar o menino Zabini e para não deixá-lo chegar perto do loirinho. O que se seguiu a isso, ficou para sempre marcado na memória de todos os que ali se encontravam.

― Aiiii! Draco, tira a tua fera de cima de mim ― gritava Blaise em profunda agonia, com as garras do gato bem cravadas no seu rosto e chorando de dor.

― Lynx! Agora não só atacas outros animais, se não que começaste a atacar as pessoas ― disse Draco, segurando o gatito e erguendo-o para olhar diretamente naquelas gemas ametistas. Enquanto por trás dele, Pansy enchia o animalzinho de elogios e mimos sem que o dono deste se desse conta.

oOo

A Professora McGonagall explicou o processo de seleção, enquanto Harry buscava o seu Anjo por entre a multidão, constituída pelos estudantes do Primeiro Ano. Localizando-o em seguida no meio de um grupinho de meninos ao qual se tentou aproximar, mas foi interceptado pelo rapaz com o qual tropeçara em Diagon Alley, Neville, segundo recordava.

As portas do Salão Principal foram abertas e a Seleção das Casas deu início. Vários alunos foram passando pela cerimónia e sendo selecionados sem interrupções.

― Bulstrode, Millicent!

A pequena morenita avançou a passo firme e elegante, ainda quando morria de medo por dentro. Mas a sua educação obrigava-a a manter-se impassível. Sentou-se num banquinho disposto para a cerimónia e sentiu o Chapéu Selecionador sobre a sua cabeça.

― Slytherin! ― gritou o chapéu em seguida, para alívio da garotinha, que tranquilamente se uniu aos membros da sua Casa.

― Crabbe, Vincent!

― Slytherin!

― Granger, Hermione!

A menina avançou, tremendo por todos os lados, em direção ao banquito e sentou-se. Uma voz surgiu na sua mente e Hermione pulou de surpresa, fazendo rir os alunos mais velhos.

― Gryffindor!

― Greengrass, Daphne!

― Slytherin!

― Goyle, Gregory!

― Slytherin!

― Longbottom, Neville!

O rapaz começa a caminhar trémula e timidamente, e vai que tropeça nos próprios pés e na capa e estatela-se de cara no chão. Causando que todos se rissem fortemente. Harry pensou em ajudá-lo, mas antes de poder sequer ponderar como fazê-lo, o seu Anjo já havia atuado. Draco aproximou-se a Neville e ajudou-o a levantar-se.

― O que é que vos causa tanta graça?! ― exclamou Draco, conseguindo calar toda a gente sem esforço ― Poderia ter acontecido a qualquer um. Nada vos dá o direito de rir das outras pessoas ― disse Draco para surpresa de alguns docentes, ao reconhecer aqueles cabelos como marca característica da Família Malfoy. É verdade que existiam várias famílias de magos com cabelos loiros, mas nenhuma outra possuidora daquele tom platinado. Nenhuma outra pessoa podia ter aquela tonalidade de loiro platinado quase branco. ― A próxima vez que se quiserem rir de alguém, pensem bem se gostariam que se rissem de vocês, se estivessem no lugar da pessoa da qual se desejam rir ― concluiu o Draco para orgulho do seu padrinho e ganhando assim o respeito de vários dos presentes, incluído alguns Gryffindors.

McGonagall sem saber como reagir clareou a garganta e repetiu a chamada.

― Longbottom, Neville!

Neville voltou a avançar, desta vez com mais confiança e sentou-se para proceder a ser selecionado. Uma voz surgiu na sua mente. "Tens valor e conquistaste a tua autoconfiança lá atrás. Se continuares neste caminho, estarás a um passo de concretizar grandes feitos." E antes de que Neville pudesse replicar, o Chapéu pronunciou-se.

― Gryffindor!

Neville levantou-se e dirigiu-se timidamente à mesa da Casa dos Leões, que pouco a pouco começavam a bater palmas como haviam feito com os novatos anteriores. O menino sorriu e sentou-se, sentindo mais confiança em si mesmo. Não sabia quem era o menino que o tinha ajudado, mas estava extremamente grato.

― Malfoy, Draco!

Draco sentiu os olhares sobre ele à medida que avançava e sentou-se. "Hum… Interessante! És poderoso, consigo sentir perfeitamente o teu potencial… e dotado de um intelecto formidável, pelo que posso constatar. Quase nem consigo acompanhar a velocidade dos teus pensamentos! Deverias acalmar o fluxo do teu raciocínio, estou a começar a sentir-me um pouco tonto… Mas poderia ser do vinho! Mudando de assunto: Por norma diria que o teu lugar é em Ravenclaw, mas a tua segurança parece ser uma preocupação maior para alguns dos estudantes que selecionei hoje, para não falar de certo Mestre de Poções que me prestou uma visita e tentou ameaçar-me e depois subornar-me com um firewhiskey de alta qualidade… devo dizer que estava uma delícia! Como tal, o melhor sítio e mais protegido é onde jazem os aliados".

― Slytherin!

Draco ergueu-se elegantemente e sentou-se entre Milly e Daphne, que fizeram um espaço para ele assim que o Chapéu gritou a sua decisão.

Harry viu o enorme sorriso que o loiro ofereceu às meninas e desejou estar aí e poder compartilhar esse momento com Draco.

― Parkinson, Pasifae!

Pansy fez uma careta ao ouvir o seu nome, mas igualmente foi sentar-se para poder ser selecionada.

― Slytherin!

Pansy levantou-se e ao chegar ao pé da mesa da Casa das Serpentes fulminou as suas amigas, batendo o pé com impaciência e cruzando os braços. Milly, assustada pela ferocidade do seu olhar deslizou-se para o lado, para espanto de alguns dos estudantes mais velhos, permitindo que Pansy se sentasse ao lado do Dragão Albino.

― Pansy, se continuares com essa atitude, um dia destes vais fazer com que Milly chore ― ralhou Draco.

― Mas, Draquinho, todos sabem que eu me sento sempre ao teu lado.

Draco suspirou e assentiu, enviando uma mirada de desculpa a Millicent.

Os alunos que os viam pela primeira vez, tentavam entender a relação entre aqueles dois. Era óbvio que Draco Malfoy tomaria o posto de Príncipe de Slytherin, como o fizera Lucius Malfoy na sua época… mas acaso, era essa rapariga arrepiante a sua futura Princesa? Os presentes tremeram ante a mera hipótese de se submeter à vontade de uma tirana, como o parecia ser Pansy Parkinson. Já podiam imaginar o seu sofrimento às mãos dessa menina que mais parecia o Diabo disfarçado de Anjo.

― Potter, Harry!

Os sussurros tomaram conta do Salão Principal, fazendo com que a criança se sentisse coibida. Já com o Chapéu Selecionador colocado sobre a sua cabeça, Harry não pôde evitar pensar em quanto gostaria de estar com o seu Pequeno Querubim. Recebendo uma risada na sua cabeça como resposta. "Que precoce resultaste ser, Harry Potter!", Harry admirou-se e pensou se o chapéu tinha escutado os seus pensamentos. "Todo e cada um deles!", respondeu o chapéu. Harry corou ante a perspectiva de ter sido apanhado a pensar em Draco. "Assim que desejas ser um Slytherin?", Harry assentiu, ainda sabendo que o chapéu não o podia ver. "Nada me faria mais feliz, acredita em mim, mas não é seguro! Tens mais inimigos do que pensas e um deles está muito mais perto do que sequer possas imaginar", disse o chapéu referindo-se ao Diretor, "pelo que não deves chamar demasiada atenção".

Harry queria estar com o Pequeno Dragão, mas se havia alguém atrás dele, não queria que Draco fosse ferido por sua culpa, assim que resignou-se a aceitar a escolha do chapéu.

― Gryffindor!

Dumbledore sorriu perante o sucesso iminente daquela etapa do plano, sem se aperceber de que tal não tinha passado despercebido para certo Professor de Poções.

― Weasley, Ronald!

― Gryffindor!

― Zabini, Blaise!

O italiano avançou com toda a dignidade que o seu rosto inflamado e com arranhões visivelmente dolorosos lhe permitia. Severus pensou que aquilo era, sem dúvida alguma, obra de Lynx e sorriu com satisfação para trauma de vários presentes, que pensavam estar a sofrer alucinações coletivas e juravam que iam sofrer um ataque de coração. Outros tantos pensavam que aquele tinha de ser definitivamente um impostor. Afinal não era possível que houvesse força alguma neste ou em qualquer outro mundo, que pudesse causar uma reação sequer semelhante a contentamento naquele frígido homem, quanto mais fazê-lo sorrir.

― Slytherin!