Tá. Eu meio que me lembro de ter dito que iria postar no sábado, mas de qualquer forma... aqui está.

Gisllaine, parece que você é minha única companheira por aqui, e que bom que você entendeu sobre o NC, rsrs

Agnes, pensei que você tinha me abandonado!

Bem, esse capítulo de hoje vai mudar TUDO!

Divirtam-se

Capítulo 10

James Potter vai embora hoje.

Graças a Deus. Graças a Deus. Porque eu realmente não agüento mais. Se eu puder manter a cabeça baixa e evitá-lo até as cinco horas e depois sair correndo pela porta, tudo ficará bem. A vida vai voltar ao normal e eu vou parar de me sentir como se meu radar estivesse estragado por alguma força magnética invisível.

Não sei porque estou num humor tão sobressaltado, irritadiço. Porque, apesar de quase ter morrido de vergonha ontem, as coisas estão indo bastante bem. Em primeiro lugar, não parece que Amos e eu vamos ser demitidos por ter feito sexo no trabalho, o que era meu medo imediato. E em segundo, meu plano brilhante deu certo, Assim que voltamos às nossas mesas, Amos começou a me mandar e-mails pedindo desculpas. E à noite fizemos sexo. Duas vezes. Com velas perfumadas.

Acho que Amos leu em algum lugar que as mulheres gostam de velas perfumadas durante o sexo. Talvez Cosmopolitan. Porque cada vez que ele pega as velas, me dá um olhar do tipo "eu não sou atencioso?" e eu tenho de elogiar "Ah! Velas perfumadas! Que lindo!"

Quer dizer, não me entenda mal. Eu não me incomodo com velas perfumadas. Mas elas não fazem nada, fazem? Só ficam ali queimando. E nos momentos cruciais eu me pego pensando: "Tomara que a vela perfumada não caia", o que distrai um pouco.

Bom. Então nós fizemos sexo.

E esta noite vamos olhar um apartamento juntos. Ele não tem piso de madeira em postigos – mas tem banheira de hidromassagem, o que é bem legal. De modo que minha vida está tomando jeito. Não sei porque estou me sentindo tão irritada. Não sei o que...

Eu não quero morar com Amos, diz uma voz minúscula no meu cérebro, antes que eu possa impedir.

Não. Não pode estar certo. Isso não pode estar certo. Amos é perfeito. Todo mundo sabe.

Mas eu não quero...

Cala a boca. Nós somos o Casal Perfeito. Fazemos sexo com velas perfumadas. E fazemos passeios juntos ao rio. E lemos os jornais de domingo tomando café, de pijama. É o que os casais perfeitos fazem.

Mas...

Pára!

Engulo em seco. Amos é a única coisa boa na minha vida. Se eu não tivesse Amos, o que teria?

O telefone toca na minha mesa, interrompendo os pensamentos, e eu atendo.

- Alô, Lily? – diz uma voz familiar e rouca. – Aqui é James Potter.

Meu coração dá um salto de pânico, e quase derramo o café. Não o vejo desde o acidente da mão no sutiã. E realmente não quero vê-lo novamente.

Não deveria ter atendido o telefone.

Na verdade, não deveria ter vindo trabalhar hoje.

- Ah – respondo. – É... oi!

- Poderia vir à minha sala um momento?

- O quê... eu? – falo, nervosa.

- É, você.

Pigarreio.

- Eu preciso... levar alguma coisa?

- Não, só você mesma.

Ele desliga e eu olho o telefone durante alguns instantes, sentindo um frio na coluna. Deveria saber que estava bom demais para ser verdade. Ele vai me demitir, afinal de contas. Foi uma tremenda... negligência... uma negligência obscena.

Quero dizer, é obsceno ser apanhada no trabalho com a mão do namorado dentro da blusa.

Certo. Bem, agora não posso fazer nada.

Respiro fundo, levanto-me e subo até o décimo primeiro andar. Há uma mesa do lado de fora da porta, mas não há nenhuma secretária ali, por isso vou direto e bato na porta.

- Entre.

Abro-a cautelosamente. A sala é gigantesca, clara e forrada de lambris, e James está sentado a uma mesa circular, com seis pessoas em volta, em cadeiras. Seis pessoas que eu nunca vi antes, percebo de súbito. Todas estão segurando pedaços de papel e bebericando água, e a atmosfera é meio tensa.

Será que eles se reuniram para me ver sendo demitida? Isso é algum tipo de treinamento sobre como demitir pessoas?

- Olá – saúdo, tentando me manter o mais composta possível. Mas meu rosto está quente e sei que estou vermelha.

- Oi. – O rosto de James se franze num sorriso. – Lily... relaxe. Não há com que se preocupar. Eu só queria perguntar uma coisa.

- Ah, certo – digo, perplexa.

Tudo bem. Agora estou totalmente confusa. O que, afinal, ele vai querer me perguntar?

James pega um pedaço de papel e levanta-o para que eu veja com clareza.

- Você acha que isso se parece com o quê?

Ah, porra do caralho.

Isso é o pior pesadelo que existe. É como quando eu fui fazer uma entrevista no Banco Laines e eles me mostraram um rabisco e eu disse que parecia um rabisco.

Todo mundo está me olhando. Eu quero acertar. Se ao menos eu soubesse o que é.

Olho a imagem, com o coração batendo depressa. É um gráfico com dois objetos redondos. De forma meio irregular. Não faço absolutamente qualquer idéia do que deve ser. Nenhuma. Eles parecem... eles parecem...

De repente eu vejo.

- São nozes! Duas nozes!

James explode numa gargalhada, e duas pessoas dão risinhos abafados que reprimem depressa.

- Bem, acho que isso prova o meu argumento – conclui James.

- Não são nozes?- Olho desamparada as pessoas em volta da mesa.

- Deveriam ser ovários – esclarece um homem de óculos sem aro, tenso.

- Ovários? - Olho para o papel. – Ah, certo! Bem, sim. Agora que o senhor falou, dá para ver um...

- Uma noz que lembra um ovário. – James enxuga os olhos.

- Eu expliquei, os ovários são simplesmente parte de uma gama de representações simbólicas da mulher – levanta a voz um sujeito magro, na defensiva. – Os ovários representam a fertilidade, o olho representa sabedoria, esta árvore significa a mãe terra...

- O fato é que as imagens podem ser usadas em toda a gama dos produtos – manifesta-se uma mulher de cabelo preto, inclinando-se para a frente. – A bebida saudável, as roupas, uma fragrância...

- O mercado-alvo reage bem a imagens abstratas – acrescenta o cara de óculos sem aro. – A pesquisa mostrou...

- Lily. – James me olha de novo. – Você compraria uma bebida com ovários desenhados?

- Hrm... – pigarreio, consciente de alguns rostos hostis virados para mim. – Bem... acho que não.

Algumas pessoas trocam olhares.

- Isso é totalmente irrelevante – murmura alguém.

- James, três equipes de criação trabalharam nisso – argumenta séria a mulher de cabelo preto. – Não podemos começar do zero. Simplesmente não podemos.

James toma um gole d'água de uma garrafa Evian, enxuga a boca e olha para ela.

- Você sabe que eu bolei o slogan "Não Pare" em dois minutos, num guardanapo de bar?

- Sim, nós sabemos – responde o cara de óculos sem aro.

- Nós não vamos vender uma bebida com ovários desenhados. – Ele solta o ar com força e passa a mão pelos cabelos desgrenhados. Depois empurra a cadeira para trás. – Certo, vamos dar uma parada. Lily, poderia fazer a gentileza de me ajudar a levar umas pastas à sala do Remus?

Meu Deus, fico imaginando de que será que se tratava isso tudo. Mas não ouso perguntar. James marcha comigo pelo corredor, entra num elevador e aperta o botão do nono andar, sem dizer nada. Depois de termos descido por uns dois segundos ele aperta o botão de emergência e nós paramos. Então, finalmente, ele me olha.

- Você e eu somos as únicas pessoas sãs aqui neste prédio?

- Hmm...

- O que aconteceu com os instintos? – O rosto dele está incrédulo. – Ninguém sabe mais diferenciar uma idéia boa de uma idéia terrível. Ovários. – Ele balança a cabeça. – Umas porras de uns ovários!

Não consigo evitar. Ele está tão ultrajado, e o modo como disse "ovários!" de repente parece a coisa mais engraçada do mundo, e antes que eu perceba comecei a rir. Por um instante James está perplexo, e então seu rosto meio que desmorona, e de repente ele está rindo também. Seu nariz franze para o alto quando ele ri, como o de um bebê, e de algum modo isso parece um milhão de vezes mais engraçado.

Ah meu Deus. Agora estou gargalhando de verdade. Estou dando fungadas, e minhas costelas doem, e toda vez que olho para ele dou outro gorgolejo. Meu nariz está escorrendo, e não tenho lenço... terei de assoar o nariz na imagem dos ovários...

- Lily, por que você está com aquele cara?

- O quê? – Levanto a cabeça, ainda rindo, até perceber que James parou. Ele me olha com uma expressão indecifrável.

Meus gorgolejos vão parando, e eu tiro o cabelo do rosto.

- Como assim? – digo tentando ganhar tempo.

- Amos Diggory. Ele não vai fazer você feliz. Não vai realizar você.

Encaro-o, apanhada no contrapé.

- Quem diz isso?

- Eu conheci Amos. Estive com ele em reuniões. Vi como a mente dele funciona. Ele é um cara legal... mas você precisa de mais do que um cara legal. – James me dá um olhar longo, maroto. – Eu acho que você realmente não quer morar com ele. Mas está com medo de recusar.

Sinto um jorro de indignação. Como ele ousa ler minha mente e entender tão... tão mal. Claro que eu quero morar com Amos.

- Na verdade, você está equivocado – digo em tom cortante. – Eu estou ansiosa para morar com ele. Na verdade... na verdade eu estava agora mesmo sentada à minha mesa pensando que mal posso esperar!

Pronto.

James está balançando a cabeça.

- Precisa de alguém criativo. Que empolgue você.

- Eu já falei, eu não disse aquilo no avião a sério. Amos me empolga! – Dou-lhe um olhar de desafio. – Quero dizer... quando você viu a gente da última vez, nós estávamos bem passionais, não é?

- Ah, aquilo. – James dá de ombros. – Eu presumi que fosse uma tentativa desesperada de colocar um tempero na sua vida amorosa.

Encaro-o furiosa.

- Não foi uma tentativa desesperada de colocar um tempero na minha vida amorosa! – Eu quase cuspo nele. – Foi simplesmente um... um ato espontâneo de paixão.

- Desculpe. – O tom de James é ameno. – Engano meu.

- De qualquer modo, por que você se importa? – Cruzo os braços. – O que importa se eu estarei feliz ou não?

Há um silêncio cortante, e percebo que estou respirando depressa. Encontro seus olhos castanhos e rapidamente desvio o olhar de novo.

- Eu me fiz essa mesma pergunta – conta James. Ele dá de ombros. – Talvez seja porque a gente passou por aquela viagem de avião extraordinária juntos. Talvez porque você seja a única pessoa em toda esta empresa que não veio com falsidade para cima de mim.

"Eu teria sido falsa!", sinto vontade de retrucar. "Se tivesse opção!"

- Acho que o que eu estou dizendo é... que eu sinto que você é uma amiga – revela ele. – E eu me preocupo com o que acontece com meus amigos.

- Ah – digo, e coço o nariz.

Estou para dizer educadamente que ele também parece um amigo, quando ele acrescenta:

- Além disso, qualquer um que recite os filmes do Woody Allen fala por fala tem de ser um fracassado.

Sinto um jorro de ultraje em defesa de Amos.

- Você não sabe de nada! – exclamo. – Sabe, eu gostaria de nunca ter sentado perto de você naquele avião! Você fica por aí dizendo todas essas coisas para me abalar, se comportando como se me conhecesse melhor do que todo mundo...

- Talvez conheça. – rebate ele, com os olhos brilhando.

- O quê?

- Talvez eu conheça você melhor do que todo mundo.

Encaro-o de volta, sentindo uma mistura ofegante de raiva e empolgação. De repente parece que estamos jogando tênis. Ou dançando.

- Você não me conhece melhor do que todo mundo! – respondo no tom mais desprezível que consigo.

- Eu sei que você não vai ficar com Amos Diggory.

- Não sabe.

- Sei sim.

- Não sabe não.

- Sei.

Ele está começando a rir.

- Não sabe! Se quer saber, eu acho que vou acabar me casando com Amos.

- Casando com Amos? – exclama James, como se fosse a piada mais engraçada que já tivesse ouvido.

- É! Por que não? Ele é alto, é bonito, é gentil e é muito... é... – Estou derrapando ligeiramente. – E, de qualquer modo, essa é a minha vida pessoal. Você é o meu chefe e só me conheceu na semana passada, e, francamente, isso não é da sua conta!

O riso de James desaparece, e parece que eu lhe dei um tapa. Por alguns instantes ele me encara, sem dizer nada. Depois dá um passo para trás, e libera o botão do elevador.

- Você está certa – diz ele numa voz totalmente diferente. – Sua vida pessoal não é da minha conta. Eu passei do ponto e peço desculpas.

Sinto um espasmo de consternação.

- Eu... eu não quis dizer...

- Não. Você está certa. – Ele olha para o chão durante alguns instantes, depois levanta a cabeça. – Bom, eu viajo amanhã para os Estados Unidos. Foi uma estadia muito agradável, e eu gostaria de agradecer sua ajuda. Vou ver você na festa desta noite?

- Eu... eu não sei.

A atmosfera se desintegrou.

Isso é medonho. É horrível. Quero dizer alguma coisa, quero fazer com que seja como antes, tudo fácil e cheio de brincadeiras. Mas não consigo achar as palavras.

Chegamos ao nono andar e a porta se abre.

- Acho que consigo levar sozinho, daqui – diz James. – Eu só convidei você pela companhia.

Sem jeito, transfiro as pastas para seus braços.

- Bem, Lily – continua ele na mesma voz formal. – Se a gente não se vir mais... foi bom conhecê-la. – Seu olhar encontra o meu e um brilho da velha expressão calorosa retorna. – Estou falando sério.

- Foi bom conhecer você também – respondo, com a garganta apertada. Não quero que ele vá embora. Não quero que isso seja o fim. Tenho vontade de sugerir uma bebida rápida. Sinto vontade de agarrar a mão dele e dizer: não vá.

Meu deus, o que há de errado comigo?

- Boa viagem – consigo dizer enquanto ele aperta minha mão. Então ele se afasta pelo corredor.

Abro a boca duas vezes para chamá-lo – mas o que eu diria? Não há o que dizer. Amanhã de manhã ele estará num avião de volta à sua vida. E eu vou ser deixada aqui, na minha.

Sinto um peso de chumbo pelo resto do dia. Todo mundo está falando da festa de despedida de James Potter, mas eu saio do trabalho meia hora antes do fim do expediente. Vou direto para casa, faço um pouco de chocolate quente e estou sentada no sofá, olhando para o espaço, quando Amos entra no apartamento.

Ergo os olhos enquanto ele entra na sala e sei de imediato que há algo diferente. Não com ele. Ele não mudou nem um pouco.

Mas eu sim. Eu mudei.

- Oi – exclama ele, e me dá um beijo de leve na cabeça. – Vamos?

- Vamos?

- Olhar o apartamento na Edith Road. Temos de correr se quisermos chegar a tempo para a festa. Ah, minha mãe me deu um presente para a casa nova. Foi entregue no trabalho.

Ele me dá uma caixa de papelão. Tiro de dentro um bule de chá, de vidro, e olho para ele, inexpressiva.

- Você pode manter as folhas de chá separadas da água. Mamãe diz que o chá fica bem melhor.

- Amos – ouço-me dizendo. – Eu não posso fazer isso.

- É bem fácil. Você só tem de levantar a...

- Não. – Fecho os olhos, tentando juntar coragem, depois abro de novo. – Eu não posso fazer isso. Não posso ir morar com você.

- O quê? – Amos me encara. – Aconteceu alguma coisa?

- É. Não. – Engulo em seco. – Eu estou em dúvida há um tempo. Com relação a nós. E recentemente elas... elas se confirmaram. Se continuarmos, eu vou ser hipócrita. Não é justo com nenhum de nós.

- O quê? – Amos esfrega o rosto. – Lily, você está dizendo que quer... que quer...

- Quero terminar – digo, olhando o tapete.

- Você está brincando!

- Não estou brincando! – exclamo, numa angústia súbita. – Não estou brincando, certo?

- Mas... isso é ridículo! É ridículo!

Amos fica andando de um lado para o outro como um leão enjaulado. De repente olha para mim.

- Foi aquela viagem de avião.

- O quê? – Pulo como se tivesse sido escaldada. – O que você quer dizer?

- Você está diferente desde aquela viagem de avião da Escócia.

- Não estou!

- Está! Está irritada, tensa... – Amos se agacha na minha frente e segura minhas mãos. – Lily, acho que você ainda está sofrendo algum tipo de trauma. Você poderia fazer terapia.

- Amos, eu não preciso de terapia! – Puxo as mãos. – Mas talvez você esteja certo. Talvez a viagem de avião tenha... – Engulo em seco. –...me afetado. Talvez tenha posto minha vida em perspectiva e me feito perceber algumas coisas. E uma das coisas que eu percebi foi que nós não somos feitos um para o outro.

Lentamente Amos se deixa cair no tapete, o rosto pasmo.

- Mas tudo estava tão bem! Nós temos feito muito sexo...

- Eu sei.

- É outra pessoa?

- Não! – respondo rapidamente. – Claro que não! – Esfrego o dedo com força na capa do sofá.

- Você não está bem – decide Amos, de repente. – Você só está de mau humor. Vou preparar um belo banho quente, acender umas velas perfumadas...

- Amos, por favor! Chega de velas perfumadas! Você precisa me ouvir. E precisa acreditar. – Olho direto em seus olhos. – Eu quero terminar o namoro.

- Não acredito – afirma ele, balançando a cabeça. – Eu conheço você, Lily! Você não é esse tipo de pessoa. Você não jogaria fora uma coisa dessas. Você não...

Amos pára chocado quando, sem aviso, eu jogo o bule de vidro no chão.

Nós dois olhamos para ele, perplexos.

- Tinha que quebrar – explico depois de uma pausa. – E isso significa que, sim, eu jogaria fora uma coisa dessas. Se eu soubesse que não era certa para mim.

- Acho que quebrou – comenta Amos, pegando o bule e examinando-o. – Pelo menos tem uma rachadura bem fina.

- É isso aí.

- A gente ainda pode usá-lo...

- Não. Não pode.

- A gente pode colar.

- Mas nunca funcionaria direito. – Aperto os punhos ao lado do corpo. – Não... não daria certo.

- Sei – responde Amos depois de uma pausa.

E acho que finalmente ele sabe.

- Bem... então vou indo – resolve ele por fim. – Vou telefonar ao pessoal do apartamento e dizer que nós... – Ele pára e enxuga rapidamente o nariz.

- Certo – digo numa voz que não parece minha. – Podemos não contar a ninguém do trabalho? – acrescento. – Só por enquanto.

- Claro – concorda ele, carrancudo. – Não vou contar nada.

Amos está passando pela porta quando se vira abruptamente de volta, enfiando a mão no bolso.

- Lily, aqui estão os ingressos para o festival de jazz – diz com a voz embargando um pouco. – Pode ficar com eles.

- O quê? – Encaro-os, horrorizada. – Não! Amos,fique com eles! São seus!

- Fique você com eles. Eu sei o quanto você estava querendo ouvir o Quarteto Dennisson. – Amos aperta os ingressos coloridos na minha mão e fecha meus dedos sobre eles.

- Eu... eu... – engulo em seco. – Amos... eu... não sei o que dizer.

- Nós sempre teremos o jazz – afirma Amos numa voz embargada, e fecha a porta depois de sair.