Capitulo

Turles estreitou os olhos, não devido à excessiva claridade, mas por pura irritação. Mesmo daquela distância podia perceber que Nappa não poderia mais lutar: o soco de Goku provavelmente deslocara algumas vértebras. Em um ser comum, teria partido a espinha.

Aquele idiotaresmungou em voz altaSeu orgulho ferido o impediu de ceder seu lugar a mim porque não queria correr o risco de que um soldado de classe baixa vencesse aonde ele, o pretenso guerreiro de elite, fracassou. Bem feito.

Falava apenas para si mesmo, pois dificilmente os outros ali presentes prestariam atenção as atenções estavam voltadas para o Saiyajin alto e vestido de laranja, que segurava o corpo agora imóvel de Nappa com apenas uma das mãos.

A luta de Nappa contra Goku fora um fiasco; mesmo os seus melhores golpes haviam sido rebatidos facilmente pelo lutador mais jovem, menos experiente e, pior que tudo, de uma categoria muito abaixo da sua. Humilhado e além da fúria, Nappa decidiu que, se não podia vencer o inimigo, ao menos o faria sofrer, e mergulhou na direção de Kuririn e Gohan, a boca já escancarada para pulverizá-los com seu raio bucal. Não ouviu o grito desesperado atrás dele, nem viu as chamas vermelhas explodindo em torno do corpo de seu adversário, aumentando sua força e velocidade; apenas sentiu, tarde demais, a dor violenta em suas costas, que pareceu engolir toda a sua capacidade de se mover.

Com movimentos tão rápidos que mesmo Turles teve dificuldade em perceber, Goku voou para baixo de Nappa e aparou-o com uma das mãos, antes que o imenso Saiyajin batesse no chão. Aterrissou bem na frente de Gohan e Kuririn, que se abraçavam, ainda sem poder acreditar que haviam escapado da morte; depois atirouo corpo quebrado aos pés de Turles, num gesto ostensivamente desdenhoso:

Parece que ele não pode mais lutar. Pegue seu amigo e vá embora da Terra antes que seja tarde demais.

Turles não se moveu. Seus olhos estavam fitos no sósia, que parecia já ter se esquecido dele. Estava entretido explicando suas técnicas àqueles dois baixinhos irritantes... bah! Poderia dizer a ele que não se desse a esse trabalho. Os gemidos insistentes de Nappa finalmente atraíram a sua atenção:

T... Turles... não está me ouvindo? Estou pedindo que me ajude... a levantar...

De má vontade, Turles olhou para baixo e para a mão estendida. Alguma coisa em seu olhar devia ter advertido Nappa, pois este mudou de tom:

Por favor... Eu... não consigo me mexer.

O Saiyajin vestido de azul pareceu se divertir com aquela mudança de atitude:

Mas Nappa... você não está com medo de que eu suje a sua mãozinha? Não quero contaminá-lo com meus germes de terceira classe.

Nappa engoliu em seco:

Todas aquelas coisas... que eu falei, não foram por mal. Foi só brincadeira. Por favor, me perdoe...

Ansiosamente, os três últimos guerreiros da Terra aguardaram para ver se Turles aceitaria aquelas desculpas, mesmo que não fossem sinceras. PrincipalmenteGoku. Perturbava-o ver um homem idêntico a ele fisicamente, e no entanto completamente diferente na alma. Torcia para que pelo menos com seu companheiro, Turles tivesse um pouco de compaixão. "Por favor..." pensou "Mostre que você é mais do que um reflexo maligno de mim mesmo."

Turles hesitou um pouco, depois estendeu a mão. O gigante deu um sorriso fraco:

Obrigado...

Os ombros de Goku relaxaram sutilmente.

Apenas por alguns segundos.

Antes que os ossos da mão de Nappa estalassem num aperto cheio de ódio.O grito do imenso Saiyajin ecoou pelo vale deserto, fazendo Gohan encolher-se, agarrado às pernas do pai. Nappa se debateu tentando se livrar, porém Turles pisou em seu peito, machucando suas costelas:

Desde que Radditz nos apresentou, eu nunca fui com a sua cara. Vocês dois precisavam da minha ajuda porque ficaram desorientados depois que seu valioso príncipe desapareceu. Príncipe Vegeta, um guerreiro tão genial que recebeu o nome de seu planeta... não passava de um idiota!—Nappa abriu a boca para protestar contra os insultos ao seu príncipe, porém Turles silenciou-o com sua bota—Um grande idiota sim. Alguém tão tolo a ponto de não saber esconder seus planinhos sujos de Freeza merece mesmo estar morto.E você e Radditz eram ainda mais patéticos. Levaram cinco anos até se decidirem a seguir as sugestões de Vegeta e vir atrás de meus homens. O que fariam se não tivessem descoberto que havia um Saiyajin comandando os piratas que Freeza tanto queria encontrar, hein? Deixe me adivinhar: continuariam lambendo os dedos do pé daquele lagarto até que ele também descartasse os dois! E ainda assim, você nunca perdeu uma chance de jogar na minha cara que eu era um soldado de terceira classe e você, um guerreiro de elite, porque não foi enviado a outro planeta ao nascer!—enfatizou suas últimas palavras torcendo o pulso de Nappa, como se quisesse arrancar seu braço; o pé firmemente plantado sobre a boca do gigante ferido abafava seus gemidos de dor.

Goku não podia aguentar mais:

—Já chega, Turles!Entendo que esteja com raiva porque Nappa humilhou você, mas ele já teve o que merecia. Não precisa torturá-lo!

Turles ergueu a cabeça e olhou para a versão benevolente de si mesmo. Por um momento hesitou, depois soltou o braço de Nappa e recuou alguns passos.

—Tem razão. É hora de acabar com isso.

Afastou as duas mãos, mantendo as palmas em posição vertical. Um grosso anel de energia amarela surgiu entre elas.

—Aceite este humilde presente de um soldado de terceira classe— e atirou o anel.

—NÃÂÃOOOO!— Goku gritou, percebendo tarde demais o que ia acontecer. Ele estendeu a mão num gesto tão instintivo quanto impotente; então, agarrou Kuririn e Gohan pelos braços e subiu para o céu, antes que o clarão cegante chegasse até eles.

Do alto, os três assistiram, horrorizados, enquanto a fumaça e poeira se dispersava, revelando uma profunda cratera onde antes estivera o corpo de Nappa. A poucos passos dela, Turles estava de pé, ileso.

—E.. Esse homem é um monstro!—Kuririn exclamou—Ele matou o próprio amigo!

—Nappa nunca foi amigo dele—Goku afirmou friamente. Sua mão fechou-se devagar, enquanto prosseguia—Kuririn,pegue Gohan e vá para a casa do Kame...

Foi um custo convencer Gohan a deixar o pai, mas finalmente Kuririn levou-o dali e Goku desceu para enfrentar seu novo oponente. Os dois se encararam, separados por poucos metros de distância, com as pernas separadas, em poses quase idênticas. Dois pólos opostos, um, em cores quentes, a pele clara e rosada, os tons de laranja; o outro em cores frias, trajando um uniforme em tons de azul. Até mesmo a pele de Turles era acinzentada. Não havia mesmo nada em comum entre eles além da semelhança de rosto, Goku concluiu. Estranhamente, em vez de decepção, sentia-se até aliviado. Não teria pena de atacar aquele monstro com todas as suas forças.

—Finalmente. Pensei que você nunca se livraria daqueles dois pirralhos—Turles comentou, com escárnio..

—Vamos lutar em outro lugar—Goku foi direto ao ponto—Onde não possamos causar dano a ninguém.

—Não precisamos lutar, Kakaroto. Nunca foi essa a minha intenção.

—O quê?— a boca de Goku escancarou-se, em incredulidade.

O homem de pé do outro lado da sala era completamente diferente do que Bulma, Gohan e Kuririn haviam imaginado. A imagem que os dois rapazes tinham era a de um monstro horrendo e peludo, parecido com o ogro em que Oolong se transformara para assustá-los, mas segurando uma clava ou algum outro instrumento primitivo. Já Bulma havia idealizado um Tarzan bonitão, alto e musculoso, com uma cabeleira longa e ondulada, como a de Yamcha. Mas o famoso "selvagem" tinha a mesma altura que ela - pelo menos até onde Bulma podia perceber, com aquela montanha de cabelo embaraçado e opaco cobrindo a cabeça dele. "Pelo menos acertei que ele era musculoso", ela pensou.

Os quatro ficaram se olhando, sem saber o que fazer. Apesar do arrogante discurso inicial, Vegeta se sentia perdido e não gostava disso. Ele nunca tivera muita imaginação; sempre se orgulhara de ser frio, prático e objetivo. Durante seus anos de exílio acreditara que escaparia em alguma nave que pousasse no planeta para reparos ou em busca de suprimentos. Dependendo da situação, iria como clandestino ou barganharia uma carona com os tripulantes, em troca de seus serviços. Ou, melhor ainda, se fossem muito fracos, acabaria com eles e tomaria sua nave. Isso era o mais longe que seus parcos devaneios conseguiam chegar. Porém, mesmo se ele fosse o maior sonhador do universo, jamais teria imaginado que sua salvação dependeria de um grupo tão bizarro: uma mulher de cabelo verde, um anão careca e um garotinho! Sem falar no animal covarde, que devia ter se escondido em alguma parte da casa. Para disfarçar seu embaraço, Vegeta mordeu um pedaço do peixe que havia roubado na cozinha e começou a mastigá-lo, enquanto esperava ansiosamente que um dos três estranhos desse o próximo passo.

Que não demorou a chegar:

—Você é um Saiyajin!— o garoto exclamou, em tom acusador.

A palavra "saiyajin" fez a mulher estremecer e recuar mais para trás dos dois rapazes; já o careca arregalou os olhos, por um momento, depois estreitou-os e endureceu os punhos, com ódio evidente. Vegeta ergueu uma sobrancelha. Obviamente, os Saiyajins continuavam famosos no universo afora, mas a reação daqueles três era causada por bem mais do que ouvir falar. Seriam sobreviventes de planetas arrasados por Turles, Radditz ou Nappa? E como haviam descoberto quem ele era? Havia muitas raças humanoides no universo. Sentiu sua cauda roçando naquela coisa macia que cobria o chão e olhou para baixo: é claro, só podia ser isso. "Sou um idiota... esqueci de enrolar meu rabo na cintura por causa desta merda de cinto. Não poderei me aproveitar da compaixão dessa gente, como fiz com Garana."

Fingindo indiferença à reação deles, terminou de comer o peixe e atirou a espinha com rabo por cima do ombro:

—Se já sabem disso, me pouparam tempo. Meu nome é Vegeta...

Seu nome causou uma reação ainda mais histérica do que a revelação de sua raça:

—O...O príncipe dos Saiyajins! —gaguejou o garoto.

—AQUELE príncipe dos Saiyajins?—espantou-se o careca —Não pode ser. Radditz disse que você estava morto!

Aquela gente era mesmo cheia de surpresas!

— Vocês conh... de onde vocês conhecem Radditz?—Vegeta reformulou rápido a pergunta que estava fazendo( que eles já conheciam Radditz era óbvio).

—Ele invadiu nosso planeta — explicou o careca, em tom agressivo —Somos da Terra.

Vegeta se calou. Terra... já ouvira esse nome, mas onde? Levou alguns segundos rebuscando suas memórias; sua antiga vida estava tão longe dele que parecia as lembranças de outra pessoa:

—Agora me lembro. Era o planeta insignificante para onde o irmão dele, Kakaroto, foi enviado. Então Radditz finalmente se lembrou do irmãozinho —deu um meio sorriso desagradável —E vocês estão procurando outro planeta para morar porque eles destruíram o seu?

—Nada disso!—contestou o garoto ferozmente—Meu papai não quis nada com aquele cabeludo malvado e mandou ele embora, mas Radditz me raptou. O meu pai e... um dos nossos amigos mataram ele pra me salvar.

Gohan terminou o relato com a voz rouca. Ainda lhe custava lembrar aquele momento horrível em que Piccolo lhe contara friamente que seu pai havia morrido, mesmo que ele estivesse vivo agora. Lembranças de Radditz e da terrível batalha que tiveram contra Nappa e Turles passaram por sua mente em segundos, aumentando sua desfonfiança do estranho. Diferente dos Saiyajins que Gohan havia visto antes, aquele era bem mais baixo, mas tinha o mesmo olhar perverso e jeito arrogante. Saber que fora tal criatura quem revelara a ele e Kuririn aquela seiva que provavelmente salvara sua vida só aumentava sua raiva; tivera certeza de que alguma boa alma estava velando por eles, e no final era apenas um bandido com segundas intenções.

A reação de Vegeta, no entanto, não foi tão fria quanto sua atitude inicial. Suas sobrancelhas em V se curvaram, tomando a forma exata de um pássaro voando:

—Seu... seu pai? VOCÊ é filho do Kakaroto?— avançou na direção de Gohan—Isso é mentira! Você não pode ser filho dele! Não zombe de mim!

—É claro que eu sou filho do meu pai! —Gohan estava mesmo tempo confuso e furioso, com aquele despropositado ataque verbal —E o nome dele não é Kakaroto, é Son Goku!

Vegeta agarrou-o pelos ombros, sacudindo-o:

—Não me interessa o nome que Kakaroto adotou na Terra! Eu deveria saber que você era um Saiyajin... só isso explica que um moleque como você tenha tanto poder! Mas não me ofenda tentando me fazer acreditar que é filho de um guerreiro de terceira classe! Um lixo como Kakaroto nunca seria capaz de gerar um filho tão poderoso!

—MEU PAI É MUITO MAIS PODEROSO DO QUE EU!

Vegeta arregalou os olhos. Por alguns segundos, os dois se encararam; era quase possível ver faíscas no ar entre eles. Então Kuririn meteu-se entre eles e afastou Vegeta com um empurrão; o Saiyajin só não caiu sentado porque se apoiou na própria cauda, mas sua humilhação era evidente, pois fitou Kuririn com olhos cheios de ódio.

—É a nossa vez de fazer algumas perguntas—o monge exigiu—O que é que VOCÊ está fazendo neste planeta e porque os seus amigos pensaram que estava morto? E onde foi que aprendeu a suprimir o seu ki dessa maneira?

—"Suprimir meu ki"?—Vegeta ergueu uma sobrancelha—É assim que chamam esse seu truque de esconder o poder de luta?

—Acho que ele não tá suprimindo—Gohan interveio. Ver o Saiyajin humilhado diminuiu um pouco sua raiva, e ele sentiu que precisava ser justo—Tem alguma coisa estranha n...

Antes que ele terminasse, no entanto, Vegeta moveu a cabeça, como se tivesse ouvido alguma coisa. Em seguida ele saltou para o lado, desviando-se por pouco de um tiro de pistola laser. Do corredor que dava para a sala, partiu um segundo tiro que teria acertado Bulma, se Gohan não a tivesse empurrado a tempo. Antes mesmo que isso acontecesse, Vegeta já havia saltado na direção do corredor com uma agilidade de matar de inveja uma pantera e um ruído nada sutil de tecido rasgado. Ouviu-se outro tiro, depois o som de um golpe e um grito.

Recuperando o uso das pernas, Kuririn e Gohan avançaram na direção onde Vegeta havia saltado. Ele estava de pé, segurando um Oolong aparentemente desmaiado pela camiseta e com um imenso galo na testa. Num canto, os restos esmagados da pistola que quase causara uma tragédia. Uma perna da calça roubada estava aberta nas costuras, exibindo alguns centímetros da parte interna da coxa. Do lado direito do torso do Saiyajin, um corte sangrava, mas ele nem parecia notar.

—Desgraçado... deveria matá-lo—resmungou para o porco inconsciente. Alguma coisa apertou seu rabo com força. Sem se perturbar, ele virou a cabeça devagarinho e olhou por cima do ombro.

Kuririn agarrava sua cauda com ambas as mãos:

—Largue ele. E me passe a sua pistola laser, senão eu quebro o seu rabo em pedacinhos.

—Idiota—Vegeta soltou Oolong no chão, como se este fosse uma trouxa de roupas—Se sabe que eu sou o príncipe dos Saiyajins também deve saber que sou um guerreiro de elite. Acha mesmo que se eu tivesse toda a minha força você conseguiria me dominar com esse truque infantil? Nós Saiyajins de classe alta treinamos nossos rabos para que fiquem insensíveis.

Kuririn hesitou um instante, lembrando o desastre que fora sua tentativa de vencer Nappa agarrando-o pelo não soltou a presa:

—Não vou cair nessa. Você pode estar fingindo!

Enquanto discutiam, Gohan aproximou-se, fazendo uma roda para não chegar perto de Vegeta, e examinou Oolong, que ficara esparramado onde Vegeta o largara:

—Ele tá bem. Deve ter desmaiado de susto.

—Está fingindo, isso sim. Se eu quisesse machucar de verdade esse imprestável, não sobraria tanto dele—Vegeta debochou —Deve ter sido difícil para ele decidir se queria atirar em mim ou na mulher...—deu uma risadinha, que foi cortada por um apertão mais forte em seu rabo.

—Cale a boca! Vamos ver se o seu rabo não sente nada mesmo—Kuririn ergueu uma das mãos e baixou outra, torcendo ligeiramente o apêndice felpudo.

Desta vez, Vegeta começou a sentir dor. Ele se debateu e puxou a cauda, tentando se soltar, mas não conseguiu. Um sorriso começou a aparecer no rosto de Kuririn, que começou a torcer com mais força. Vegeta respirou fundo, lutando contra a súbita fraqueza que sentia em suas pernas. Agarrou a pistola no coldre do cinto; como previa, viu o sorriso do homenzinho se alargar zombeteiramente, já que os disparos não poderiam feri-lo.

Num gesto rápido, Vegeta jogou a arma na cabeça de seu agressor.

Pego de surpresa, Kuririn saltou para o lado, afrouxando um pouco as mãos, mas não chegou a largar o rabo. Antes que Vegeta pudesse se aproveitar e puxar sua cauda, Kuririn voltou a apertá-la, enquanto chutava para longe a pistola:

—Me surpreendeu. Se eu não tivesse bons reflexos, poderia ter caído nessa.—admitiu— Mas e agora? Você não tem mais com que se defender.

Vegeta pensou em tentar se livrar com um chute, mas desistiu, desanimado. Estava exausto e com pouca energia, depois da longa viagem no alto das árvores, comendo pouco e dormindo ainda menos. "Devia ter roubado mais comida além daquele maldito peixe, mas não quis dar na vista... e mesmo se tivesse comido mais, de que adiantaria?" pensou, desanimado. Deixou-se ficar onde estava, com os braços caídos ao longo do corpo, cerrando os dentes e lutando para não cair de joelhos. Não daria àquele verme a satisfação de ouvi-lo gemer. Pelo canto do olho, percebeu que o garoto parecia preocupado mas apenas olhava, sem tentar interferir.

—Kuririn, pare com isso!—Bulma gritou atrás do monge —Vai quebrar o rabo dele!

Kuririn não respondeu. Parecia em transe. Ela voltou à carga:

—O que mais você precisa pra ter certeza de que ele não quer nos fazer mal? Ele podia ter matado o Oolong,mas não matou. E bem que Oolong merecia, depois que quase acabou comigo! —apontou um buraco ainda fumegante na parede, marcando a altura onde sua cabeça estivera segundos antes do tiro —Não entendo muito esse negócio de ki, mas até eu posso ver que ele não tem condições de lutar com você. Acha que um Saiyajin seria ferido por armas laser?

— Também não acho que ele esteja fingindo—apoiou Gohan —Saiyajins são metidos demais pra fingir fraqueza. Não consigo imaginar o Nappa caindo pra trás com um empurrão. Além do mais... o senhor mesmo me disse que só Kamisamar e o senhor Piccolo conheciam a técnica da supressão de ki.

As mãos de Kuririn tremiam, mas ele soltou a cauda, assim como o ar que inconscientemente vinha segurando em seus pulmões. Mal o fez, recebeu uma violenta chicotada em sua mão direita:

—Nunca mais toque no meu rabo, ou arrumarei um jeito de matá-lo!—Vegeta rosnou; seus olhos brilhavam como os de uma fera enquanto sua cauda se enrolava na cintura por cima do cinto, parecendo uma estranha cobra peluda.

Kuririn recuou, segurando a mão dormente. Vegeta recuperou a pistola e começou a caminhar para a saída, deixando um rastro de pingos de sangue.

—Ei, ei!—chamou Bulma —Aonde é que você vai?

—Prefiro enfrentar Turles sozinho a ser espezinhado por vocês.—ele falou enquanto andava, os olhos voltados para a frente. Depois parou abruptamente, contraindo os ombros, e virou o rosto na direção dela —E não preciso da sua defesa... nem da sua nojenta piedade!

Bulma fitou-o, estupefata com tanta ingratidão. Kuririn, atrás dela, resmungou:

—É bem coisa de Saiyajin, manter a pose até quando não tá com nada...

—Cala essa boca que você já fez besteira demais por hoje!— Bulma deu um berro tão alto que "fulminou" todos os machos presentes em seus lugares, incluindo Vegeta. Até Oolong esqueceu de fingir que estava desmaiado e se sentou, com os olhos enormes.

Satisfeita com o silêncio, Bulma foi postar-se na frente de Vegeta:

—Não seja tão precipitado. É evidente que você precisa de ajuda: não tem roupas, a não ser a calça do Kuririn...

—Pode ficar. Não quero de volta depois que esse cara usou ela sem cueca—o monge resmungou baixinho.

—...está se escondendo do Turles e tem alguma coisa mantendo o seu ki baixo. E deve saber que também precisamos muito de ajuda. Podemos fazer uma troca—ela propôs.

Vegeta examinou-a com uma sobrancelha erguida, cruzou os braços e olhou para o lado, com um grunhido. Ao seguir Kuririn e Gohan pelo mato, havia pensado em oferecer uma aliança contra Turles, mas agora que o momento chegara, não sabia como fazê-lo sem se humilhar mais. Bulma olhou-o, frustrada, pensando no que mais poderia usar para convencê-lo; não podia contar com seus amigos cabeças-duras. Casualmente, seus olhos bateram nos pratos largados sobre as poltronas.

—Espere um pouco. Não saia daí! —ordenou para Vegeta enquanto corria até lá. Apanhou o próprio prato, que estava quase cheio - ela mal tocara na comida, com tantas coisas para se pensar e discutir - e, de passagem, o embrulhinho de seiva e folhas que Gohan deixara sobre a mesa no meio das poltronas. Depois, voltou rapidamente até onde o Saiyajin estava:

—Olhe só! Sinta esse cheiro! Aposto que nunca comeu lamen na vida— com satisfação, viu Vegeta mover ligeiramente o nariz, como um coelhinho —Já esfriou, mas está cozido e temperado, ao contrário do peixe que você estava comendo há pouco.

Vegeta hesitou, ainda desconfiado, depois enfiou um punhado de massa na boca. Bulma fazia um tremendo esforço para continuar sorrindo e não desviar os olhos. Pelo menos ele mastigava com a boca fechada, ao contrário do Goku.

—Bulma, o que você está fazendo? — quis saber Kuririn.

—Vocês comem isso quente?— Vegeta agarrou o resto da massa com uma só mão.

Ela confirmou, num tom exageradamente animado:

— E temos uma porção de sabores diferentes! O meu preferido é camarão, mas infelizmente acabou. Ah, e mais uma coisa —ofereceu o pacotinho de folhas, já aberto —Se quer mesmo ir embora, pelo menos leve isso; assim não vai poder dizer que o deixamos sangrar até a morte.

Vegeta hesitou um pouco, mas aceitou de má vontade. O ferimento em seu flanco estava doendo bastante.

—Você conhece bem as propriedades dessa seiva, não? — Bulma perguntou, um pouco amigavelmente demais.

Ele engoliu o resto da massa, antes de responder:

—Conheço a árvore que dá essa seiva e algumas outras plantas deste planeta—limpou a mão suja de molho na calça e começou a esfregar a seiva na ferida— Não muitas. Mas acha que pode me comprar com apenas uns punhados de comida pegajosa e o mesmo remédio que eu encontro em qualquer lugar da floresta?—enquanto falava, fez uma bolinha com o pacote vazio de folhas ressecadas e jogou-o fora; depois cruzou os braços com ar zombeteiro, esperando a resposta. Por mais desesperado que estivesse, não se deixaria levar tão facilmente.

Bulma sentiu um calor subindo por seu pescoço. Aquele homem era quase tão irritante quanto os sócios chauvinistas de seu pai, as únicas pessoas que ela costumava tratar com tanta paciência :

—Claro que não, seu bobo! Estou lhe oferecendo um lugar aqui conosco, com tudo a que tem direito!— explodiu. Enfatizava tanto as palavras com os braços que parecia querer arremessar o prato, como um atleta olímpico — Roupas, comida quente, uma cama limpa e o mais importante: uma carona pra fora deste planeta! Radditz nos falou que você desapareceu há quatro... cinco anos, não?—olhou para os amigos em busca de confirmação— É um bocado de tempo!

—Cinco—Gohan confirmou —Eu me lembro bem, porque apesar do medo que sentia, achei curioso que era só um ano antes de eu nascer... Como se passou um ano, agora já são seis...—parou de falar ao ver o olhar vidrado de Vegeta.

Ele estava pálido, os lábios entreabertos, movendo-se como a boca de um peixe tentando respirar fora da água; toda a postura arrogante de há pouco fora demolida com duas simples palavras. Até Oolong sentiu uma pontinha de pena dele:

—Ele tá ficando branco. Acho que vai desmaiar.

—Vegeta?—Bulma chamou, suavemente.

—Cinco... seis anos?—ele balbuciou —Eu não fazia ideia. Claro, imaginava que houvesse passado alguns anos, mas é difícil marcar o tempo aqui. Este planeta não tem lua nem estações. Todos os dias são iguais, longos e abominavelmente quentes. Quando minhas roupas se gastaram, não pude nem substitui-las por peles...

—Podia usar uma sainha de capim —Oolong brincou, mas Gohan cutucou-lhe o braço.

Vegeta não ouviu. Mal tinha consciência do ambiente ao seu redor, quanto mais das pessoas irritantes que o cercavam. Estava de volta à estreita cabine da nave que o trouxera à sua prisão, da voz de Freeza no vídeo zombando dele, da nave que explodiu poucos minutos depois que Vegeta saiu, atirando-o contra as árvores. Do desespero de quando acordou e descobriu que não conseguia voar nem usar energia...Dos dias que passara plantado naquele lugar, gritando e lutando contra o que havia lhe tomado a única coisa que lhe importava, até que a exaustão, a fome e as dores em sua cabeça o faziam desmaiar, apenas para acordar horas depois e tentar de novo, acordar e tentar, acordar e tentar...

—MALDITO!—explodiu de repente, os punhos cerrados —Seis anos neste buraco do Inferno? Seis anos... sem o meu poder? Freeza, seu DESGRAÇAAAAAAADOO!

—Gohan, você está sentindo?—Kuririn perguntou de repente.

—Sim—o menino balançou a cabeça, sem tirar os olhos do homem atormentado no meio da sala.

—O quê?—Bulma perguntou ( havia recuado prudentemente para perto dos amigos quando Vegeta explodiu).

—O ki de Vegeta começou a subir antes dele gritar, mas só um pouquinho, depois desceu de novo.—Gohan explicou — Subiu ... e está descendo de novo... Tem alguma coisa impedindo ele de aumentar seu poder de luta!

—AAAAAAAAAAAHHHHHHHHH! MALDITOOO! —Veias inchavam na larga testa de Vegeta enquanto ele gritava, tentando em vão explodir a sua energia.

Para qualquer um ali era evidente que, se ele pudesse, teria destruído a sala e todos que estavam nela. Mas nada acontecia, e ele apenas gritava de frustração. O latejar em sua cabeça foi ficando cada vez mais intenso, até que ele passou a gritar também de dor, as duas mãos crispadas sobre os cabelos. Caiu de joelhos sobre o tapete, a cauda abrindo sulcos no tecido felpudo.

—Vegeta!— Bulma correu na direção dele. Inconscientemente, suas mãos largaram o prato, que se estilhaçou à sua retirada. Gohan também correu para acudir o Saiyajin, mas ele afastou-os com empurrões.

—Afastem-se... me deixem... aahhh... ah... ah... — seu rosto se contraiu e ele apertou a palma da mão contra a boca.

—Não se atreva a vomitar no meu tapete!—Bulma protestou—Oolong, traga um copo d'água pra ele, rápido!

O porco apavorado não saiu do seu lugar. Felizmente, a ameaça não se cumpriu. Vegeta agora ofegava, apoiado sobre as mãos, o suor pingando de vários pontos do corpo sobre o tapete. Bulma e Gohan permaneceram agachados junto dele, evitando tocá-lo, mas prontos a oferecer apoio se Vegeta quisesse. Kuririn também se aproximou:

—Isso acontece sempre que você tenta usar seu poder de luta?—ele curvou-se sobre o Saiyajin, sem tocá-lo.

Vegeta levantou os olhos, lançou-lhe uma mirada de desprezo, depois voltou a fitar o tapete. Evitando as mãos caridosas que tentavam apoiá-lo, ele se sentou, com os pés voltados para dentro e as mãos molemente apoiadas nas coxas. Era o retrato perfeito do desespero.

—Isso é horrível —Gohan murmurou —Foi esse tal de "Friso" que fez isso com você?

—Freeza —Vegeta corrigiu com voz rouca, sem olhar para o garoto —Vocês acham Turles um monstro porque nunca estiveram frente a frente com o verdadeiro mal. Nós, Saiyajins, éramos os servos mais fiéis de Freeza, e ele nos tratava pior do que lixo.

—Eu lembro desse nome agora— Kuririn disse secamente—Turles disse lá na Terra que Nappa e Radditz foram atrás dele porque você mandou... Parece que aqueles dois ficaram bem desorientados depois que você sumiu, porque só no ano passado tomaram coragem de entrar em contato com os piratas. Ele também disse que, se Radditz e Nappa não tivessem ido atrás dele, teriam continuado puxando o saco do Freeza pelo resto da vida.

—É bem provável—Vegeta não deu de ombros porque não costumava fazer isso, mas seu desprezo pelos antigos companheiros era evidente—Aqueles dois incompetentes nunca tiveram iniciativa. Não me admira que Radditz tenha sido morto. E Nappa, morreu também? Ele é um imbecil, mas deve ter dado trabalho ao Kakaroto —ironizou.

—Não deu trabalho nenhum— Gohan disse, com inegável prazer. A piedade que sentira desvaneceu-se um pouco diante da falta de sensibilidade de Vegeta. "Ele é igualzinho aos outros",pensou— Papai poderia ter derrotado aquele grandalhão com uma mão amarrada nas costas! Mas foi o Turles que acabou com ele, pra se vingar das coisas horríveis que Nappa vivia dizendo, só porque Turles era um soldado de terceira classe.

A cara de espanto de Vegeta era cômica; se não chegou a causar risadas, fez os dois pequenos guerreiros sorrirem. Era um desafogo depois do que haviam sofrido - e ainda sofriam - nas mãos das pessoas de sua raça.

—E agora ele quer pegar você —Kuririn acrescentou, encorajado —Isso é o que eu chamo de receber uma dose do próprio remédio.

—Bem feito, seu canalha!—Oolong exclamou do seu canto —Devíamos botar ele pra fora pra ser apanhado!

Bulma não estava gostando nada daquilo:

—Ô-ô, já chega! Vocês três parecem valentões atormentando uma criancinha no pátio da escola! Tratariam ele desse jeito se Vegeta ainda tivesse os seus poderes de Saiyajin?

Gohan e Oolong imediatamente se aquietaram - o primeiro, por estar sinceramente envergonhado e o segundo, para não levar um cascudo. Mas Kuririn insistiu:

—Bulma... é por culpa de Vegeta que estamos nessa fria! Por causa dele, os outros Saiyajins se juntaram, mataram nossos amigos, feriram o Yamcha e envenenaram a Ter...

—CALEM ESSAS MALDITAS BOCAS!

O berro de Vegeta não só silenciou todo mundo, como fez todos recuarem, abrindo espaço em torno dele. Vegeta aproveitou para se levantar, o mais rápido que podia; sentiu-se um pouco tonto ainda, mas a cauda o ajudou a equilibrar-se. Depois virou-se e encarou altivamente o bando de terráqueos:

—Vocês não passam de uns idiotas com cérebro de piolho! Não admira que estejam encrencados, já que não sabem usar o que tem nas mãos nem na cabeça! Pra começar que poderiam ter evitado toda essa situação, se tivessem escondido as suas valiosas esferas em OUTRO PLANETA antes de virem pra cá! Ou vão me dizer que, quando detectaram um grupo de esferas todas juntinhas aqui, não desconfiaram que alguém mais poderia estar coletando-as? Não acredito que sejam burros a esse ponto!

Silêncio constrangidíssimo.

—É fácil ficarem me julgando, mas o que vocês fariam, se estivessem nas garras de alguém como Freeza? Acabaram de ver o que ele fez comigo... e se eu lhes disser que ele fez coisas muito piores com outros que o enganaram?—viu a mulher e o porquinho arquejarem de medo —Eu passava cada dia da minha vida pensando num meio de me livrar dele... foi quando esses piratas começaram a atrapalhar os negócios dos Icejins - o povo de Freeza. Esses piratas atacavam os planetas e os vendiam, da mesma forma que nós. Também se vestiam e agiam da mesma forma, e viviam mudando de esconderijo, de modo que ninguém conseguia localizá-los... Freeza chegou a oferecer recompensas para quem fornecesse qualquer pista deles.

—Mas não adiantou —concluiu Kuririn —Levando em conta que o Turles é o chefe deles, dá pra entender que sejam tão cuidadosos.

—Claro que achei que eles seriam úteis, mesmo sem saber que havia um Saiyajin comandando esses piratas. Levei muito tempo investigando em segredo, até encontrar uma pequena pista —um pouco mais calmo, Vegeta andou até o círculo de poltronas enquanto falava. Apanhou um dos pratos abandonados, retirou com os dedos os restos de massa e saboreou-os, antes de prosseguir —Apesar de todos os nossos cuidados, nosso plano deve ter vazado de alguma forma. Um dia, fui designado para um planeta que já havia sido dominado - achei estranho, porém eram ordens expressas - e parti na nave que me destinaram. Eles haviam bagunçado o computador, de modo que não pude alterar a minha rota... e só tive tempo de descer, antes que a minha nave explodisse. Quando acordei...— o prato estalou em sua mão. Cacos caíram a seus pés, sem no entanto feri-lo.

—Mas você não deixou ordens pros seus... hã... parceiros atacarem a Terra, não foi?— Bulma insistiu.

A pergunta deveria ter irritado Vegeta; desta vez, entretanto, ele se sentiu grato à mulher pela distração:

—As minhas últimas instruções foram apenas para Nappa e Radditz entrarem em contato com... um ser que eu acreditava estar ligado aos piratas. O que eles decidiram fazer depois foi por conta própria— virou-se bruscamente na direção do grupo —Chega de falar no meu passado! Ponham a mulher, ou outra pessoa pra decifrar as mensagens dos scouteres. Enquanto ficam discutindo aqui, podemos estar perdendo alguma coisa importante!— agarrou outro prato e começou a limpá-lo, deixando claro de que a conversa estava encerrada.

—Nunca vi ninguém gostar tanto da comida da Bulma.—Oolong observou.

—"Podemos"?— Kuririn repetiu—Bem, nesse ponto ele tem razão. É melhor você voltar pro... descri-não-sei-o-quê, Bulma.

—Posso ir também? —Gohan ofereceu-se —Gostaria de ver como é que se faz.

Bulma aceitou na hora, pois a última coisa que queria aquele momento era voltar para o computador:

—É muito simples, você pode fazer sozinho! Primeiro ligue o computador e aperte no botão... —depois de algumas explicações apressadas, despachou o garoto para o terminal —Fique lá que eu já venho! Preciso resolver umas coisinhas primeiro —virou-se para Oolong —Já que não está fazendo nada, vá ferver um pouco de lamen. Faça também um sashimi.

—O quê? Por que eu?

—Se acha minha comida tão ruim, vamos ver se consegue fazer melhor. Mas antes limpe o sangue que Vegeta derramou no chão por culpa sua—apontou o rastro de pingos sangrentos no corredor.

Kuririn demorou alguns segundos para entender:

—Essa comida que você mandou fazer é... pro Vegeta?! Não pode estar falando sério, Bulma! Esse cara não é um daqueles cachorrinhos abandonados que seu pai pega na rua: é um Saiyajin mentalmente perturbado e que come feito um porco!

—Já se viu comendo, por acaso?—Oolong estrilou enquanto ia buscar um pano.

—E o que prefere fazer, expulsar Vegeta daqui, como Oolong sugeriu? Se ele for apanhado, os homens de Turles vão torturá-lo e ficarão sabendo que estamos interceptando as mensagens deles—Kuririn não soube responder a isso, e Bulma prosseguiu —Além disso, Vegeta é bem inteligente e sabe como sobreviver no mato. O que teria sido do Gohan se ele não tivesse mostrado a seiva pra vocês? — resolvido o assunto, ela marchou decidida até Vegeta, que tirava os restos de molho do último prato com a ponta do dedo.

—Se quer mesmo ficar com a gente, vai ter que seguir as nossas regras. Em primeiro lugar, não comemos os restos que os outros deixaram no prato. Já mandei fazer mais lamen, só pra você - mas antes de comer vai tomar um banho!

Vegeta parou de lamber o dedo e olhou para ela, chocado:

—Como é que é? Eu me lavei na cachoeira antes de entrar!

Caiu em si: por que estava dando satisfações àquela mulherzinha ridícula?

—Pois não se lavou direito. Esse seu cabelo parece um ninho de pterodátilos, aposto que ele nunca viu xampu na vida! E qual é o problema em tomar banho uma segunda vez? Não me diga que a pele dos Saiyajins é feita de açúcar!

Kuririn começou a rir, o que aumentou o desconcerto de Vegeta. Ele cerrou os dentes:

—Sua...

—Deixe de birra. Vai ganhar roupas limpas que não estão se fazendo em pedaços, como essa calça aí. Não quis dizer antes, mas o seu fundilho rasgou quando você pulou pra pegar o Oolong; e agora, quando você se abaixou pra filar esses pratos, o rombo aumentou. Mais um pouco e vai ficar com o bumbum todo de fora!— e começou a rir também.

Vegeta cobriu o traseiro com o prato.

Oolong e Gohan vieram correndo, atraídos pelas risadas; depois que Kuririn explicou (o melhor que podia,já que não conseguia parar de rir), eles caíram também na risada. A cara zangada de Vegeta, longe de assustá-los, só aumentou os risos; Kuririn chegou a perder o equilíbrio e caiu de costas, segurando a barriga. Não houve outro jeito senão o desmoralizadíssimo Saiyajin seguir Bulma até o banheiro, o prato firmemente apertado contra o traseiro que estivera exposto durante quase seis anos.

As gargalhadas os acompanharam, como um coro de ópera celebrando o retorno de Vegeta à civilização.