Disclaimer: Saint Seiya não pertence, mas sim à Masami Kurumada, Toei e Cia.
Baseado em fatos que me aconteceram recentemente (e em parte, ainda têm acontecido, infelizmente). Esse leva o nome de Bridge Of Time, inspirada na música Bridge Of Time de Ng Aik Pin e outra parte inspirada em We Killed Some Kids, da Trilha Sonora de A Troca (The Changeling), vocês entenderão porque no final...
Nocturnal Storm
Bridge Of Time
Uma coisa que não contei sobre Victorius...
Meu querido marido sempre nutrira um grande amor por algo em comum a mim...
Livros...
Tanto eu, quanto ele, amamos livros. Eu desde pequena, sempre os amei... minhas aquisições; que, diga-se de passagem, durante minha vida mortal não foram muitas, ao menos, comparado ao número de aquisições em minha vida imortal; sempre tratei bem, com muito cuidado e carinho, quase como se fossem meus próprios filhos.
Eu sei que isso parece ser exagero... mas eu sinceramente, amo meus livros, com tamanha devoção, que eles chegam a ser sagrados para mim.
Sabendo disso, e ouvindo-me confessar-lhe que meu sonho era ter uma enorme biblioteca particular, só minha, com estantes de madeira escura cujas prateleiras eu abarrotaria com numerosos livros, de capas das mais diversas cores, dos mais variados tamanhos, de toda sorte de assuntos que me interessam, cobrindo inteiramente as paredes, após nos casarmos, ele me permitiu montar a minha própria biblioteca. Exatamente do jeito que eu sempre sonhei.
Não...
Devo corrigir-me... não exatamente do jeito que eu sempre sonhei... mas... ainda melhor...
Então, eu ganhei essa enorme biblioteca que montei, com inúmeras aquisições novas... com grandes e pesadas estantes de madeira escura, polida e envernizada, revestindo as paredes do alto até o chão, com poltronas macias e confortáveis para sentar, tanto no térreo quanto no mezanino, com mesinhas de canto feitas com a mesma madeira das estantes, onde posso apoiar os livros, ou uma taça de cristal... ou xícaras de chá, embora não seja chá propriamente dito o que eu tomo nessas xícaras... com cortinas leves de tecido num tom quase branco, sob outras cortinas pesadas, de veludo vermelho, ornadas com franjas douradas... sobre enormes janelas de vidro transparente e límpido... e uma grande lareira de mármore... muito bonita, apesar de eu não precisar muito... digo precisar muito, porque, mesmo sendo uma vampira, mesmo tendo recebido a herança do sangue de Victorius, eu ainda sentia frio em certas noites do ano... justamente naquelas noites mais frias, eu precisava da lareira...
Por mais que eu tentasse deixá-la para trás, ainda mantinha algum resquício de minha vida mortal... mas eu não acho que isso fosse de todo ruim... isso mantinha em mim, a bondade... me impedia de tornar-me uma vampira como tantos outros... que matavam apenas por prazer... seres que já não tinham nada mais, exceto a aparência vaga, de um ser humano.
Eu costumava passar horas nessa biblioteca... lendo... saboreando aqueles momentos tão prazerosos para mim, sentada naquelas poltronas, observando a noite pela janela, apreciando as minhas leituras...
Eu não tenho, nem nunca tive palavras para mostrar a Victorius o quão grata eu era e sempre fui... e ainda sou, a ele... por tudo o que ele fez por mim... tudo o que ele fez para mim... sempre atento para atender meus desejos... mas não por puro capricho meu... muitas vezes eu me recusei a aceitar certos mimos dele... não queria que ele ficasse atendendo a todos os meus desejos... mas ainda assim, ele insistia... e eu não tinha outra escolha a não ser aceitar, mesmo a contragosto...
Não haverá ninguém, jamais... nenhuma pessoa, que amará mais alguém como ele me amou... com tanta dedicação... com tanta devoção... com tanta admiração... com tanto carinho...
Não haverá... nunca houve... alguém como Victorius... especialmente para mim...
Foi em uma dessas noites, em que eu estava lendo em nossa biblioteca, pois eu havia pedido que esta biblioteca não fosse somente minha e de meu uso apenas... e ele atendera ao meu pedido, mantendo seus livros juntos aos meus naquele enorme salão de dois ou três ambientes... foi em uma noite dessas que encontrei uma porta que me revelou certos segredos...
Eu estava absorta em minha leitura, concentrada nas páginas de um livro que eu lia há alguns dias e que estava ansiosa para terminar... Victorius estava sentado em uma poltrona no piso debaixo, lendo compenetradamente um livro de capa grossa, de aspecto muito velho, cujas páginas já se encontravam finas e frágeis... creio que passei um longo tempo lendo absorta, que perdi a noção de tempo... quando em um dado momento, Victorius fechou seu livro, e ficou imóvel durante uns instantes antes de olhar pelas janelas cujas cortinas estavam abertas, revelando que por trás do vidro, a noite já ia alta, e o céu começava a clarear-se, para logo começar o amanhecer, tingindo o céu gradativamente de púrpura suave, vermelho, alaranjado, depois rosado, para finalmente clarear-se e os primeiros raios de sol despontarem no horizonte...
- Minha querida... vou me deitar... – disse ele colocando o livro de volta a uma prateleira. – Logo irá amanhecer... não demore muito para ir se deitar, sim?
- Não se preocupe, meu bem... logo já irei deitar... – respondi com um sorriso afável, marcando a página em que estava com os dedos.
Victorius subiu as escadas, e retirou algumas mechas finas de cabelo que estavam caindo em meu rosto, passando-as para detrás de minhas orelhas... ele abaixou e depositou um terno beijo em minha testa, acariciando minha face com as pontas dos dedos...
- Não tarde muito a deitar... Boa Noite, meu amor...
Ele desceu as escadas, tão graciosamente como havia subido, deixando-me a sós com meus livros.
Passei mais algum tempo lendo... quanto, não sei dizer... quando resolvi ir deitar-me, fechei meu livro, marcando cuidadosamente com uma fita, a página em que eu estava, e coloquei-o sobre uma mesa, em quem costumávamos deixar os livros que estávamos lendo, e desci as escadas. Estava passando a frente de uma das prateleiras, quando vi um livro deslocado...
Victorius não havia voltado-o direito pensei... e o arrumei na prateleira corretamente. Porém, não consegui arrumá-lo adequadamente, pois parecia que havia algo no fundo da prateleira que o impedia de ficar corretamente colocado na estante... retirei então o livro e coloquei a mão no espaço vazio que ele havia deixado. Tateei a madeira, e percebi que ela parecia solta... toquei uma fresta entre uma madeira e outra, e senti a estante se deslocar em minha direção... me assustei, e quase caí, me desequilibrando. Notei que por trás da estante, vinha um ar fresco e úmido, como se houvesse um vácuo, um vazio, ou um túnel... Minha curiosidade foi maior e me impediu de apenas voltar tudo em seu devido lugar e ir dormir... Eu segurei a estante com os dedos e a puxei. Pude sentir pela madeira, a estante aparentemente se soltando da parede, como se houvesse uma camada de poeira e sujeira incrustada entre a estante e um vão na parede... A estante enfim se afastou da parede, revelando um vão nela, que parecia ser a entrada de um túnel escuro...
Observei aquilo com espanto, imóvel, por uns instantes. Não conseguia entender o porque disso na casa em que eu e Victorius morávamos. Dei dois passos adiante e fiquei parada no vão, como que esperando alguém aparecer e me guiar por dentro daquela escuridão, quebrada pela luz que era jogada para dentro do túnel pelo lustre pendurado na abóbada da biblioteca.
Tomei coragem e desci os degraus, alcançando o chão rebaixado em aproximadamente meio metro. Ali, o ar era frio, úmido e pesado... como se houvesse muito tempo que ninguém abria aquela porta... Apesar do escuro, eu consegui ver uma tocha presa a um suporte na parede de pedra... tudo ali era feito de pedra... o chão, o teto, as paredes... peguei a tocha, com cuidado, e procurei onde eu poderia acendê-la... voltei a biblioteca e olhei ao redor... havia um candelabro sobre uma mesa, e em cima da lenha da lareira, havia um recipiente com óleo... corri até lá e molhei a ponta da tocha no óleo, para depois passá-la sobre as chamas das velas do candelabro. A tocha inflamou subitamente, com o rugido do fogo se acendendo.
Voltei ao túnel, e desci vagarosamente os degraus para não incendiar acidentalmente as estantes... caminhei devagar, segurando a tocha adiante, e iluminando o enorme corredor, que tinha nas paredes, algumas figuras em relevo, esculpidas na pedra... eram figuras semelhantes àquelas clássicas, com guerreiros empunhando lanças, vestidos com armaduras, e guiando bigas... Apesar de ser uma vampira, e não precisar temer nada, um arrepio correu minha espinha, e uma ansiedade tomou conta do meu já, há muito, paralisado coração... Meus órgãos internos pareceram esfriar-se ainda mais, contraindo-se...
Eu finalmente cheguei a uma sala, inicialmente, a luz da tocha não conseguia iluminar muito o local... eu podia ver o que havia ali... mas ainda resguardando um jeito humano no meu ser, eu queria... eu precisava de luz, para ver tudo... ver com detalhes que somente a luz poderia me dar...
Vi que na sala haviam outros archotes como o que eu segurava, e uma espécie de lustre de ferro em forma de vaso acima. Levantei-me na ponta dos pés e ergui a tocha de modo que o fogo desceu para dentro do lustre, levei a tocha aos archotes e eles se acenderam um a um... e o que eu vi me deixou chocada...
No meio desta sala, sobre um móvel de madeira, havia uma armadura brilhante da época do Império Romano... completa... o elmo com o penacho vermelho pendendo do alto, as ombreiras, o saiote, o peitoral, uma capa vermelha... a frente da armadura, sobre a madeira, repousavam uma espada de cabo ricamente trabalhado e ornado e cuja lâmina faiscava sob o fogo, assim como dois braceletes de couro resistente... uma lança mantinha-se em pé ao lado da armadura...
Os orifícios dos olhos do elmo pareciam conter uma fúria há muito tempo guardada... me hipnotizavam e eu mal conseguia tirar os olhos deles... então, eu percebi que havia muito mais coisas ali...
Como se para tornar meu assombro mais profundo e denso, encostadas nas paredes haviam estantes e mais estantes com rolos de pergaminhos, alguns realmente grandes, livros encadernados em capas de couro gasto pelo tempo, totalmente fragilizado, quase se desfazendo...
Eram numerosos pergaminhos, documentos, livros, relatórios, diários...
Todos envelhecidos pelo tempo, extremamente frágeis...
Caminhei mais em direção ao fundo da sala, notando que ela era maior do que parecia... joguei luz sobre as estantes, e vi mais livros... mais documentos...
Vi placas de madeiras com ilustrações diversas... algumas mostravam demônios, pessoas que se contorciam, seres malévolos...
Vi jarros e vasos antigos, fechados, lacrados...
Vi, em móveis de madeira, punhais, facas, adagas, espadas curtas... vi estacas de metal, uma besta, flechas e um arco...
Vi um grande escudo romano, vermelho com detalhes em prata, usados nas colunas e nas formações de casco de tartaruga de seu exército... vi alguns outros escudos, diferentes do primeiro...
Vi quase um arsenal inteiro dentro daquela sala, antes que Victorius chegasse, com os olhos faiscando, um olhar pontiagudo, e quase selvagem... o semblante feroz...
Porém, ao me ver segurando um punhal decorado com muito cuidado e trabalho, e perceber que era apenas eu que estava ali, o que durou tudo somente um segundo, seu olhar se acalmou, o rosto suave voltou, mas seu semblante permaneceu completamente sério, guardando ainda poucos vestígios de uma ferocidade que durara segundos.
- O que você está fazendo aqui, minha querida? – ele indagou num tom calmo, suave, porém pesado e cansado... senti, na verdade, que sua voz demonstrava uma tristeza profunda e leve desapontamento...
Eu não consegui responder... Meus lábios se moveram confusos, querendo dizer algo, mas a única coisa que consegui foi murmurar algo e derrubar o punhal de minhas mãos.
Victorius me fitou, calado. E não fez nada mais... me permitindo olhar e analisar cada coisa guardada ali dentro... como se precisasse de um julgamento meu sobre aquelas peças todas...
Ele se demorou um bom tempo ali... com as mãos apoiadas sobre um móvel de madeira escura, já um pouco envelhecido... a cabeça baixa, os olhos tristes e distantes, como se estivesse parados num tempo remoto...
Eu olhava tudo com olhos curiosos, mas principalmente com assombro... tudo aquilo me parecia tão... tão sombrio...
- Eu não queria que você viesse aqui... – a voz dele soou baixa, muito entristecida. – São coisas... detalhes do meu passado... que eu quero esquecer...
- Seu passado... Victorius... você... nunca me contou sobre nada disso antes... eu... eu não entendo... porquê?
- Vallerya... meu passado não é algo do qual eu me orgulho... por favor... não são coisas que eu quero lembrar... prefiro enterrar tudo isto debaixo destas pedras... são coisas que eu quero esquecer... é um passado tão remoto, que se eu deixar tudo aqui, debaixo de todas essas pedras, eu posso quase esquecer... eu quase consigo esquecer...
- Victorius... o que você era? O que você foi, quando mortal?
Aquela pergunta pareceu pegá-lo de surpresa...
- Eu... Vallerya... eu nunca fui um mortal... não fui transformado em um vampiro... eu nasci vampiro... na época em que nasci, existiam vampiros que nasciam já assim, como somos... nosso corpo não é como o de um mortal que foi transformado em vampiro... nosso corpo, nossas células, não estão mortos... porém, nós somos capazes de nos regenerar constantemente, quando somos feridos... isso impede nosso envelhecimento, e nos permite sermos imortais...
Eu quis por alguns momentos interrompê-lo para tentar compreender, para perguntar outras coisas, mas ele não me permitiu... com um aceno das mãos, pediu para que eu deixasse ele prosseguir e eu o fiz... aquilo tudo estava sendo muito mais difícil de assimilar do que eu jamais imaginaria...
- Vallerya... Eu nasci em Roma... durante o Império Romano... No Império, era comum o exército recrutar vampiros para formar legiões especiais... eles se aproveitavam do fato de que podemos nos regenerar, de que possuímos mais força do que qualquer humano, para formar um exército invencível... e para aumentar nossos poderes de regeneração, eles diversas vezes, incentivavam o uso do sangue mortal por nós... isso tornou muitos como são agora... criaturas cruéis, vis, malévolas... que matam por prazer...
O ar pareceu se tornar mais pesado ao meu redor... Victorius era muito mais velho do que eu jamais ousara imaginar...
- Eu fazia parte de uma legião especial... uma das diversas legiões especiais e secretas, que o Império Romano havia criado... eu lutei em diversas batalhas... defendi diversas cidades e ataquei muitas outras... matei muitas pessoas... algumas vezes, fui obrigado a beber o sangue dessas pessoas... a matar pessoas inocentes e a beber todo o seu sangue, até que não restasse nenhuma gota em seus corpos... Eu cheguei a ser general de uma legião... Comandei numerosas fileiras de legionários... Fui o responsável pela destruição de um bom pedaço da Europa... e comigo, um outro general, também vampiro... Um general romano que se tornou um matador...
Ele pegou em suas mãos uma placa de metal, que tinha algumas marcas, que eu não consegui ler a princípio, mas depois, pude ver que haviam dois nomes gravados... e um pequeno texto abaixo, em latim... Um desses nomes era o de Victorius... o outro, não consegui ler...
- Este general perdeu totalmente seu controle... e passou a exterminar os vampiros de outras legiões... ele justificava para mim, dizendo que isso nos tornaria mais poderosos e teríamos glória, seríamos tidos como especiais... Isso tudo, claro, depois de um século mais ou menos, de vida... Então, o Império começou a se enfraquecer... os bárbaros invadiam Roma, e o Império começou a cair... nesse período, com alguns vampiros já fora de controle, a população passou a perseguir-nos, o cristianismo ganhou força... e aí, nós fomos condenados... fomos considerados condenados, e a nossa forma de vida, que durante tanto tempo teve prestígio... agora deveria fugir... eu fugi... vim para a Bretanha, vivi escondido durante um bom tempo... na Idade Média, eu quase não podia sair de meu esconderijo... que não foi um belo palácio, ou um castelo, ou como esta casa... tive de me esconder em lugares horríveis... até que o tempo passou... durante séculos eu vivi escondido... e depois destes séculos, eu pude sair a luz... sempre tomando os devidos cuidados para não chamar demais a atenção... com cautela para poder continuar vivendo normalmente... mas a mente das pessoas muda pouco com o tempo... enfim, quando finalmente a pressão da Igreja diminuiu, eu consegui viver livremente... mas você mesma sabe... ainda é difícil vivermos como pessoas comuns nestes tempos... talvez, no futuro, você e eu poderemos sair a rua, sem temer nada... mas eu já sofri muito com a crueldade do mundo... eu nunca quis fazer tudo o que tive de fazer... por mais que houvesse algo na minha natureza, algo em mim, que se sentia bem fazendo todas as coisas que eu fiz...esse é um passado que eu quero esquecer... e de tão longínquo, ele está quase apagado da minha mente... quase apagado das minhas memórias... por isso eu peço... não me faça ter de lembrá-lo... não volte mais aqui... por favor...
Sua voz saiu fraca... neste último momento, já estávamos deixando a sala e a biblioteca particular que eu descobrira, com numerosos documentos, pergaminhos, manuscritos, entre outros... somente no futuro, eu iria descobrir o que eles continham...
- E os outros vampiros?
- Com o declínio do Império Romano, os vampiros passaram a ser perseguidos... caçados... e exterminados... milhares de vampiros... por toda a Europa, foram exterminados depois da queda de Roma... que eu soube, somente pouquíssimos sobreviveram...
- E o outro general? Aquele seu amigo?
- Augustus não era propriamente dito meu amigo... mas do que eu tenho conhecimento... daquela época, só restaram eu... e ele...
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E aí, gente?
Gostaram do novo capítulo? Espero que sim...
Vocês viram só que coisa? Victorius é da época do Império Romano...
Aaaah, a única coisa que posso adiantar para vocês, é que todas as coisas que ele guardava serão importantes no futuro...
De resto, acho que vocês já podem imaginar... certo?
Bom, eu vou ficar por aqui...
Beijos,
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