Capítulo X – Retorno
Sakura vê Tomoyo isolada nos jardins da escola; vai até a amiga enquanto que Chiharu, Naoko e Rika também se aproximam.
"Por que as pessoas vivem sempre juntas com um legado de amor e ódio?"
- Saint Seiya – Hana no kusari
O dia seguinte é difícil para Tomoyo. Desde que saiu do carro e entrou pelos portões da escola os olhares dos alunos eram outros em sua direção. Alguns eram de espanto, outros de admiração. A história tinha se espalhado como havia previsto, e isso afetava o modo como as pessoas reagiam à sua presença. Muitos meninos cochichavam sobre a "nova valentona" Tomoyo e deveriam ficar distantes dela ou seriam golpeados até o hospital. As meninas cochichavam de espanto diante de Tomoyo; não acreditavam que uma menina tão quieta pudesse agir de forma tão bruta como Tomoyo agiu, era indelicado, era antifeminino. Tomoyo não precisava ser valentona diante deles, ou não feminina, apenas havia uma pessoa no mundo na qual precisava ser forte e feminina: sua Sakura.
Quando estava na presença de Sakura, Tomoyo era tudo o que a cardcaptor queria, seja um anjo, um dinossauro, um príncipe ou uma empregada, somente existia o sorriso e a aprovação de Sakura no mundo e mais nada. Enquanto a amiga existisse seria feliz, se sentiria feliz, mesmo com um pedaço pequeno seu, como as orelhas de Touya, praticamente iguais às da amiga. Só de lembrar já estava feliz, estava hanyan, e as nuvens que cobriam o sol se dissipavam quando viu a aproximação de Sakura; não precisava buscar mais do sol, pois o sol já estava ali, na sua frente.
Sakura se aproximou da amiga, que estava sentada em um banco próximo de uma árvore, no mesmo local da luta de ontem. Tomoyo estava olhando para o chão, mas sentiu quando Sakura se aproximou, sentando ao seu lado. Não falaram nada durante alguns minutos; Sakura arrastou uma flor que estava caída ao chão com os pés em direção à amiga e começou a falar com ela:
– Tomoyo-chan, essa flor ficou caída porque não tinha nenhum sol pra ela ver, nenhuma luz para contemplar e se esquentar, você vai ficar igualzinha a essa flor se ficar aí parada.
– Não preciso ficar afastada do sol Sakura-chan, eu mesmo buscaria o sol quando eu sentisse falta, pois não sou nada sem ele, o sol já está aqui. - Disse Tomoyo, esboçando um leve sorriso com os lábios, mas ainda olhando para o chão.
– Eu disse pra você não ligar com as coisas que os outros falam; vou ter que te deixar de castigo uma semana sem me filmar, estamos conversadas senhorita Tomoyo?
– Sim senhorita Kinomoto! Uma semana e não se fala mais nisso! - respondeu Tomoyo, sorrindo cada vez mais com as palavras de Sakura.
– Sabe Tomoyo-chan, se eu não tivesse medo de fantasmas trataria de usar a carta "the illusion" neles para dar um baita de um susto, mas é uma pena usar magia diante dessa gente "trouxa", você não acha? O Harry diria o mesmo.Vão me queimar na fogueira Tomoyo-chan! Hoe!
– Hehehe, não se esqueça que você está falando com uma "trouxa" sua dinossaura!
– Uma trouxa que eu vou tratar de torturar com cócegas e mais cócegas, pois é uma menina muito mal criada!
– Não Sakura-chan, cócegas não!
Sakura saiu do seu lugar e começou a fazer cócegas na amiga, fazê-la sorrir, fazê-la ficar animada, sair daquela solidão toda. Ao ver que Tomoyo sorria com aquilo, Rika se aproximou das garotas, e resolveu entrar na animação também:
– Vejo Sakura-chan que você consegui fazer a Tomoyo-chan sorrir; que bom, já não aguentava vê-la assim, se importunando com comentários de quem não conhece ela, de quem não vive com ela; se eu pudesse Tomoyo-chan acabaria com isso de uma vez.
– Tudo bem Rika-chan, não ligo com o que eles dizem, só me preocupo com a Meiling-chan, se ela está bem ou não, quando ela vai voltar, mas confesso que voltar aqui de novo ainda me traz essas lembranças ruins de ontem...
– O que você fez foi errado Tomoyo-chan, você poderia ter se machucado feio, e talvez até mesmo estivesse no lugar onde está a Meiling-chan agora, já parou pra pensar?
– Sim Rika-chan, no momento em que ela entrou naquela ambulância me pus no lugar dela e já mandei o Terada-sensei levá-la a uma clínica credenciada com a empresa da minha mãe; o último boletim médico disse que ela está estável e já poderiam dar alta pra ela; só foi um corte na cabeça, se ela sentir algo mais estamos de prontidão.
– Sim Tomoyo-chan, só pelo fato de pagar as despesas médicas e se por no lugar dela já é uma mostra de que você não gostaria que isso tudo tivesse acontecido.
– Eu sei Rika-chan, estou arrependida; vou me controlar da próxima vez.
– É isso aí Rika-chan, dá uma lição de moral nessa garota! - disse Sakura para a amiga.
– Nem é tanto uma lição de moral, pois a Tomoyo-chan já sabe o que é certo e o que é errado, só peço como amiga dela pra ela não fazer essas coisas; sempre temos pessoas a quem amar e queremos muito proteger essas pessoas, mas não podemos perder a cabeça toda hora; é só um lembrete ouviu?
– Obrigado Rika-chan, suas palavras são um conforto para mim.
– E mais uma coisa: sorria. Mantenha a cabeça erguida acima de Tudo; você tem o direito de errar como todo mundo, pois não vivemos de acertos, pois só errando que aprendemos, mas consertar o erro e permanecer no erro são atitudes que diferenciam cada um de nós.
– Hoe! Que palavras bonitas Rika-chan, pelo visto está inspirada pra aula de hoje de japonês! Vamos ter poesia hoje!
– Que nada Sakura-chan, essas são palavras do Terada-sensei que ele falou pra Naoko outro dia; ela ainda precisa melhorar muito nos esportes e ela se esforça pra isso, no ritmo dela, mas se esforçando sempre.
– Alguém falou de mim aí? Que história interessante estão lendo agora pra ficarem assim animadas? Quero ler também! - disse Naoko, se aproximando das três.
– Ou que mentira o Yamasaki-kun inventou dessa vez? Se ele estiver espalhado esses boatos para os meninos pra deixar nossa amiga triste eu pego ele - disse Chiharu, se aproximando com Naoko.
– Obrigado pessoal; vocês realmente me deixam mais felizes. - disse Tomoyo.
– Tomoyo-chan, você é a nossa amiga e não queremos te ver assim; te conhecemos desde o ano passado, a Sakura-chan e a Rika-chan te conhece a mais tempo do que nós, sabemos o seu valor e não vamos te julgar por um fato à toa – disse Naoko.
– Essa sua cara de tristeza não combina com a sua alegria de todos os dias – disse Chiharu.
– E então pessoal, o que vocês acham de dar um ataque de cócegas nessa garota pra castigar ela por essa tristeza toda? - disse Sakura, incitando as amigas.
– Boa ideia Sakura-chan, vamos fazê-la morrer de rir como naquela história que vimos outro dia; a tristeza só morria com um ataque de risadas. - disse Naoko.
– Que os jogos comecem então! - disse Rika.
– Não gente, para! - disse Tomoyo, antevendo a ação das amigas, se contraindo no banco.
Todas avançaram em direção à Tomoyo para fazê-la sorrir. Tomoyo não estava triste pelas falas dos colegas, mas sim por ter que retornar àquele mesmo lugar, que a recordava da briga com a Meiling e do chute que levou na costela, que ainda doía, e que agora era palco das risadas e divertimentos das amigas. Tomoyo pensava consigo mesmo que era incrível a capacidade humana de transformar a dor em sorrisos, a tristeza em alegria, a guerra em paz, mas pensou consigo mesmo que isso já vem sendo feito há seculos na terra e continuará sendo feito pelos próximos anos, seja com ela ou não, e um dia as cicatrizes sempre se curam, o tempo resolvia tudo.
O ataque de risadas fez Tomoyo se alegrar ainda mais, pois sentia que nem todos pensavam da forma como os fofoqueiros de plantão pensavam, aina tinha as suas amigas, Rika, Naoko e Chiharu, que estavam ali, junto com Sakura lhe animando, lhe dando um ombro amigo, lhe ensinando o certo e o errado, enfim se importando com a garota.
– Então gente vocês sabiam que o ataque de risadas foram inventadas na Grécia antiga como uma homenagem à deusa Atena, deusa da Guerra? Os soldados sorriam antes das batalhas pra não chorarem de dor durante os combates.- disse Yamasaki, se aproximando das garotas.
– Sim, sim, sim, da mesma forma que os fofoqueiros foram inventados em Tomoeda... você já disse isso antes. - disse Chiharu.
– Não se preocupa Tomoyo-chan, vamos encontrar o fofoqueiro que anda espalhando boatos ao seu respeito e vamos comunicar à Mizuki-sensei. -disse Yamasaki.
– Obrigado pela gentileza Yamasaki-kun, vocês realmente sabem como me deixar feliz – respondeu Tomoyo.
– Ok, então estamos indo pra sala então, até mais Tomoyo-chan, Sakura-chan!
– Até Yamasaki-kun. - Respondeu Tomoyo.
O pessoal se distanciou. Apenas ficou no lugar Sakura e Tomoyo, conversando longamente sobre as suas impressões da noite de ontem:
– Sabe, Tomoyo-chan, a noite que tivemos ontem foi incrível, só você mesmo pra me deixar mais animada, mias envergonhada e isso também é magia, você sabia? - disse Sakura, encarando com vermelhidão no rosto para a amiga, e sem graça para falar com ela.
– Que nada Sakura-chan, então somos duas pois você me fez ficar melhor sem ajuda das cartas clow, e isso também é mágico – Respondeu Tomoyo, com a mesma vermelhidão no rosto da amiga.
– Tomoyo-chan, me desculpe pela despedida ontem; nem consigo olhar pra sua cara direito depois do que aconteceu, por isso fiquei aqui no banco sem falar uma palavra com você, nem sabia como falar e por isso fiz aquilo tudo. - respondeu Sakura.
– Você não me precisa pedir desculpas Sakura-chan, seria mais mágico ainda se tivéssemos completado a ação que começamos. - respondeu Tomoyo, deixando Sakura mais envergonhada.
– Tomoyo-chan, como você diz uma coisa dessas? Isso é meio estranho Tomoyo-chan, nem sei como reagir se eu beijasse você na frente de casa, isso é coisa de namorados, e somos amigas; não consigo pensar nisso Tomoyo-chan, e ainda mais você. Só de me pensar beijando com o Yukito-san eu já fico envergonhada imagina com você minha melhor amiga? Se não tenho nem cara pra te ver hoje imagina se isso acontecesse.
– Sakura-chan, isso é normal; é normal beijar alguém que se ama, abraçar, acariciar; o amor não tem limites. - respondeu Tomoyo.
– Tomoyo-chan... - disse Sakura, cada vez mais desconfortável
– Sabe o que eu pensaria se você me beijasse? Eu me sentiria a pessoa mais feliz do mundo! - respondeu Tomoyo, para espanto de Sakura.
– Tomoyo-chan, você teria coragem de me beijar? - perguntou Sakura, atônita
– Sakura-chan, se você me pedir a lua eu vou dar um jeito de conseguir pra você, nem que seja um pedaço – disse Tomoyo, olhando fixamente para Sakura, com a mão direita no rosto da menina.
– HOE! Tomoyo-chan, que amor é esse que você sente por mim?- Respondeu Sakura, confusa com tudo o que a amiga disse.
– Eu já te disse que eu te amo Sakura-chan, e você finge que não acredita.
– Eu já disse que te amo também Tomoyo-chan, mas essas coisas que você me diz me deixam mais confusa ainda.
– Bem Sakura-chan, não tenho vergonha de falar o que eu sinto por você, eu só fico meio desconfortável dizendo isso, mas não precisa ficar confusa, o amor é meio sem lógica; antes de mais nada você é minha melhor amiga e eu te respeito muito. - Respondeu Tomoyo. - segurando as mãos da menina, lhe transmitindo segurança.
– Tomoyo-chan, vamos para a Sala de aula então, já vai começar. - respodeu Sakura.
– Sim... Então, você me acompanha senhorita Kinomoto? - pergunta Tomoyo, fazendo uma alça com seu braço esquerdo.
– Só se você me prometer que não vai ficar triste senhorita Daidouji – respondeu Sakura, aceitando o convite da amiga, apoiando o braço direito na amiga.
As duas se deslocaram até a sala de aula, juntas, como se não houvesse mais nada no mundo, apenas elas. Durante o caminho, Sakura, confusa, se perguntava perguntas difíceis de responder "será que o que a Tomoyo-chan sente por mim é mais do que amor? Será que a Tomoyo-chan não me ama como uma amiga, mas sim como uma mulher?".
Ao longe uma voz familiar gritava:
– Vamos Syaoran, não vê que vamos chegar atrasados?
