Capítulo nove
Casados
- Sasuke, por favor, me perdoa – se a voz do meu irmão não tivesse sido tão pesada, juro que teria o mandado para o inferno. Não se liga para a casa de uma pessoa às três da manhã, da mesma forma que visitas em geral vão depois do almoço e partem antes do jantar. Dica para seu primo.
- O que aconteceu, Itachi? – e um tiro. Foi a única coisa que me fez acordar definitivamente naquela hora.
Nos meses que tinham passado, eu não tinha parado pra pensar de onde meu irmão tinha tirado o ecstasy que tinha me drogado. Eu apenas amaldiçoava a alma dele e o matava mentalmente. O fato é que de algum lugar aquilo tinha saído, e não era por intermédio de nenhum amigo. Era direto com o traficante. Não era a primeira vez que Itachi se metia com drogas ou encomendas ilegais e duvidosas, mas era algo que infelizmente, ninguém tinha controle. Denúncias não o paravam, por falta de provas. Avisos, conselhos e lágrimas maternas tratadas com desdém não impediram que o consumo continuasse e quando percebemos o vício quase acabou com sua vida, com uma bala alojada na traqueia.
Olho para o Aiko e penso em Itachi. Somos tão diferentes. Depois daquele telefonema, nunca mais tocamos no assunto. Nossas visitas são raras e telefonemas datados. Às vezes fica difícil entender o que ele fala, a rouquidão é extrema e tenho a impressão de que a cicatriz é tão funda que chega a incomodar, mas ele disse que nem a sente. Mesmo assim, nossos momentos juntos são tão espaçados que dá tempo do nosso filho esquecer que tem tio.
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Hospitais. Confessar estar enjoado da cor branca e do cheiro de luvas de látex seria irônico, pois na nossa área, essas clínicas são muito comuns, até viciam as retinas. Mas é que hospitais não me agradam, justamente pelo cheiro de látex. Desde que o pré-natal começou, nós íamos naquele lugar com aquele mesmo cheiro enjoado. Ir atrás de Amaya onde ela estagiava era como preparar meu nariz psicologicamente para o aroma. E depois, meu irmão. Nunca a cor pastel e o cheiro das luvas brancas sendo colocadas e retiradas, enroladas e jogadas fora me enjoaram tanto como naquele dia. Visitei pelo menos cinco hospitais diferentes até encontrar meu irmão, que estava passando por uma cirurgia, mesmo indigente. Até provar que ele era mesmo meu irmão, registrar a documentação necessária e convencer ao policial que, depois da cirurgia findada eu daria todas as explicações que ele pedia, levou um bom tempo, minha paciência e parte da sanidade. Três horas. Não sei pra quê levarem tanto tempo para dizer que ele tinha tido duas paradas cardíacas durante o procedimento, que havia perdido muito sangue, mas que agora estava num coma induzido sem poder receber visitas. Três horas para me dizer o que eu teria deduzido em cinco minutos, tirando a parte das paradas cardíacas, claro. O policial me bombardeou de perguntas na sala de espera mesmo, enquanto eu aguardava autorização do médico para entrar no quarto de Itachi. Nem mesmo telefonar para meus pais era possível. Como explicar que meu irmão tinha levado um tiro na garganta enquanto me pedia perdão pelo telefone? E que agora, ele estava sim fora de perigo, mas em coma induzido? Não interessa as palavras "fora de perigo" quando se existe a palavra "coma" na mesma frase. O mais legal de tudo, foi ver meu pai e ouvir mais uma vez como eu não prestava, como era um homem sem valor e como a culpa de tudo aquilo estar acontecendo era só minha. Não escrevi o diálogo aqui, porque não teve. Foi mais um monólogo da parte dele e eu nem fiquei para ouvir o resto. Tinha prova em duas horas, não era o momento para me estressar com coisas que não em diziam respeito. Sei que soa maldoso, mas ter contato com meu pai não é uma coisa que eu faça muita questão. Aiko sabe que tem dois avôs, mas se contenta em conhecer apenas Hiashi. Eu me contento com o fato dele apenas conhecer Hiashi.
- Uchiha! – gritou Tsunade quando me viu chegar atrasado – Perdeu a hora?
- Meu irmão foi internado.
- Hinata ligou contando – é mesmo, você estudava no período noturno agora – Sinto muito.
- Obrigado? – não sei, deve ser o tipo de coisa que se fala quando alguém tenta te consolar.
- Não vou poder ir ao seu casamento, mas eu mando o presente.
- Tudo bem. – não dá pra recusar um jogo de panelas de inox. Até quem não tem costume de cozinhar sabe disso.
- Vá logo para a sala, senão nem eu deixarei você fazer a prova! – bronqueou e eu tive que concordar silenciosamente e me apressar para entrar na sala. Uma coisa que eu reparei e fiquei lembrando a tarde inteira, foi que Naruto tinha ouvido a curta conversa com a diretora. Casamento. Aquela palavra estava na boca dos alunos de todos os turnos. Tinha quem dissesse que nenhum dos dois tinha vergonha na cara, ou que eu era um abusado que estava tentando apaziguar a situação para não responder nenhum processo – que se fossem parar pra pensar, depois de sete meses, era meio difícil que um processo viesse me pegar. Ah é, também tinha aquele pessoal que fazia questão de se mostrar penalizado por você ter que se casar comigo. Vontade de mandar para o inferno! Uma coisa que todos tinham em comum era o olhar de "desprezo infinito". Olharzinho esse que eu tenho trauma até hoje.
- E aí, Sasuke. – era Naruto, depois de meses de silêncio – Fiquei sabendo do casamento... – confesso, era muito estranho ouvir a voz do Naruto depois de tanto tempo. Até mesmo aquela raiva que eu sentia quando era criança e ele entrou na minha turma subitamente voltou.
- Pois é. Homem de família, então. – tentei esboçar um sorriso. Não sou nada bom nisso.
- E como é que tá a Hinata?
- Bem...
- ...redonda? – riu. É, ele não tinha mudado muita coisa
- Se ela te ouve...
- Menino ou menina?
- Menino. Aiko.
- Legal cara... – ele coçava a cabeça. – Eu vou indo. A gente se fala. – assenti com a cabeça.
"A gente se fala". Bom, depois de muito tempo sem nem uma olhada na cara, um "a gente se fala" foi animador e fez eu esquecer por um momento que meu irmão ainda estava internado. Acontece que o horário de visita era o mesmo que eu iria ao cartório marcar a data do casamento, então, sem chances. Quero dizer, sem chances de visitar meu irmão, significam chances do meu pai me xingar novamente e refazer a caveira para a família. Obrigado, pai, também amo você de todo meu coração.
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Na vida, nós temos que abrir mão de muitas coisas. Abri mão do pay-per-view por causa do canal em que passa aquele dinossauro roxo que canta e pula que o Aiko adora. Aquele dinossauro deve ter algum poder mental sobre as crianças, porque não é possível que elas gostem de ouvi-lo cantar "Amo você, você me ama!". Sinceramente...
Bom, uma das coisas que eu tive que abrir mão, por exemplo, foi de comprar roupa para mim para podermos casar. Tudo nessa vida tem um preço, o nosso casamento teve como valor duas calças e um agasalho. Acho que apenas mudar o status na rede social para "casado" sairiam mais barato, mas tudo bem. Amaya não me perdoaria se eu não fizesse tudo certinho e com direito a bolo e refrigerante depois da cerimônia, então, estava correndo atrás de tudo.
Uma das coisas mais maravilhosas que aconteceu naquela época foi o chá de bebê. A coisa melhor foi o chá de bebê NÃO TER acontecido no nosso apartamento. Uma porque o apartamento era muito pequeno, outra porque eu odeio bagunça. Mas foi uma ótima surpresa chegar em casa – depois de ficar sabendo que minhas visitas ao quarto setecentos e sete (leito do meu irmão) estavam proibidas. Retomando de onde havia parado: por trabalharem num hospital, era óbvio que as enfermeiras e médicas sabiam o que dar de presente para uma grávida. Fraldas de recém-nascidos não devem ser dadas em grande quantidade, porque você não chega a usar nem um pacote todo. Agora, pomadas de assadura e lenços umedecidos, esses sim são uma coisa ótima de se ganhar, porque são caros e você sempre gasta pelo menos, um tubo e meio de pomada por dia. Isso é, quando sou eu que troco as fraldas. Homens não tem agilidade com isso, em mulheres isso é mais simples, mesmo sendo mãe de primeira viagem, parece que mulheres já nascem sabendo encaixar um bebê nos braços. Ou talvez tenham treinado isso quando brincavam de casinha. Penso que eu deveria ter brincado disso...
- Eu vou dar um beijo naquelas enfermeiras... – esse sou eu, emocionado pela quantidade de pomadas e lenços umedecidos que tínhamos ganhado.
- Tem mais fraldas de tamanho M no meu quarto... – Amaya estava terminando de anotar qualquer coisa num bloquinho – Vocês tem coisas para mais ou menos três meses
- Só? – estava perplexo – Tudo isso vai em três meses?
- Pra você ver, porco-espinho...
- Crianças custam dinheiro... – era uma conclusão que eu tinha tirado há tempos.
- Hospitais também, agradeça por não ter desembolsado nenhum centavo pela internação de Itachi – é sempre bom ver o lado positivo, mesmo que ele esteja em cima da situação negativa.
- Mas nem ir ver ele eu posso... Quem meu pai pensa que é? Foi para mim que o Itachi ligou! – sim, eu estava puto com tudo aquilo. Certo que até hoje eu não tenho "aquela" amizade com o meu irmão, mas, por favor, ele tinha quase morrido!
- Se o Itachi quiser, ele te procura depois. Não adianta ficar se estressando por isso...
- Tem razão – resmunguei. Já citei que odeio quem tem razão sobre mim.
- Foi no cartório?
- No primeiro sábado de outubro nos casamos.
- Ai que lindo! – batia palmas comemorando.
Eu sinto muito a falta dela, Hinata. Fiquei uma vida toda sem conhecer minha irmã, e quando isso aconteceu, foi por tão pouco tempo. Ela nem me conhecia e mesmo tendo tantos problemas me apoiou. Preferiu dedicar os últimos meses de sua vida numa relação conturbada que nem tinha começado a tentar lutar por sua vida. Eu queria tanto que ela estivesse conosco hoje. Ela sentiria orgulho da casa que compramos, do escritório que consegui montar e, principalmente, de Gaara, o maior sucesso da clínica de reabilitação e um dos professores de artes dos projetos de Hinata para recuperação de narcóticos, pessoas com depressão e pessoas que precisam recuperar os movimentos mais simples das mãos. A Fisioterapia aliada à pintura teve uma porcentagem de recuperação maior do que com apenas fisioterapia, ainda não consigo acreditar! Mas Amaya certamente nos diria que ela já sabia desde o princípio, afinal de contas, o que é que ela não sabia? Parecia saber antes do que todo mundo o que iria acontecer, qual a capacidade que cada um tem guardada dentro de si, enfim... Não quero falar mais sobre isso. Revelar sentimentos ainda me constrange um pouco, então vamos pular essa parte. Mesmo assim, você sabe que eu te amo, não é?
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- Sasuke, pelo amor de Deus, anda logo!
- Não é você quem vai se casar, Amaya – aquele foi um dia que alguém PRECISAVA acalmar minha irmã.
- Mas tem horário no cartório, não dá pra chegar atrasado!
- Meu pai vem nos buscar, Amaya, não se preocupe, ainda falta meia-hora... – você sorriu, numa tentativa inútil de acalma-la – Sasuke, temos que buscar o bolo na panificadora na volta.
- A Ino disse que pega pra nós. – avisei, antes que Amaya ficasse neurótica com isso também.
E, eu juro, se seu pai tivesse demorado meio segundo a mais, eu teria arremessado minha querida irmã pela janela. O sentimento amoroso e meloso que havia escrito momentos atrás acabaram de se perder com a lembrança de que ela estava pior que Aiko em véspera de Páscoa/Natal/Aniversário. Enquanto nosso filho quica de vontade de abrir os presentes e/ou chocolates, Amaya quicava de nervoso e isso me deixou possesso! Vamos orar mais uma vez em agradecimento ao sogro por ter salvado o nosso dia.
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Mesmo chegando vinte minutos antes do horário marcado – duas da tarde – ainda tínhamos que esperar outro casamento que estava acontecendo e que tinha vinte testemunhas que estavam se revezando para assinar o documento. VINTE testemunhas é demais para a minha cabeça e eu tinha ido respirar ar puro do lado de fora quando o inesperado aconteceu. Primeiro achei que aquela cabeleira loira era qualquer outra pessoa, menos Naruto. Acontece que nenhuma outra pessoa loira do universo usaria blazer laranja:
- Oi, Sasuke.
- Parece um cafetão – foi a única coisa que eu consegui dizer – Desculpe.
- Eu sei disso – riu – Mas eu gosto me emagrece! – amigo, roupas não emagrecem quem já é magro
- Claro...
- Casando, né? – riu sem graça. Só agora eu tinha reparado que ele trazia uma sacola daquelas chiques, que você encontra em lojas de renome maior – Sei que não fui convidado, mas eu devo um pedido de desculpas pra você. Você tá tentando levar sua vida, mesmo depois de tudo o que aconteceu.
- Ótimo, mais um sabendo que fui deserdado...
- Sei que deve estar sendo difícil e, cara, a gente era amigo... Espero que ainda dê para retomar isso. – uma coisa que Naruto sabe fazer bem é falar sério, mesmo sendo um completo babaca.
- Você não sabe como eu fico feliz em ouvir que tenho um amigo. – ele não parecia acreditar – Sério, eu posso estar sério, mas estou sorrindo por dentro – ele gargalhou como só mesmo os Uzumaki sabem gargalhar.
- Cara, você tá casando de jeans!
- Melhor que casar só de cueca, não acha? – eu estava chateado sim, não queria me casar de jeans.
- A Ino contou, por isso quero saber se se incomoda de pegar uma minha emprestada... – ele tirou da sacola uma calça social preta.
- Acho que ainda dá tempo.
E foi assim mesmo que eu casei: usando uma calça emprestada que ficou um pouco justa demais pro meu gosto, mas foi bem melhor que a jeans. O sapato engraxado, a camisa social era uma coringa que eu usava no estágio com seu pai e, pelo menos cueca, era nova. Mães tem uma mania surpreendente de apenas nos dar meias e cuecas. Eu me lembro de você: ainda tem o vestido que, não era branco, mas era bege, na altura dos joelhos, mas que com aquela barriga, ficava um palmo para cima dos mesmos. Tinha feito uma trança no cabelo e até tinha bancado a manicure no dia anterior, levando uma hora e meia para pintar a mão direita – ser destra é desastroso nessas horas, não? Sapatilhas baixas e um mini buquê de lírios. Ino chorou horrores e até hoje me amaldiçoa por ter metade das fotos do casamento com ela de olhos inchados. Foi uma das sortes de voltar a falar com Naruto: ele é fotógrafo por hobby e isso foi proveitoso naquele momento.
- Eu atendo – me pronunciei ao ouvir a campainha. Todos conversavam animadamente enquanto comiam bolo de abacaxi e tomavam refrigerante de guaraná – o único que na época não te causava indigestão. Acontece que eu fiquei mudo quando vi quem estava parado, com uma caixa de presentes.
- E aí, irmãozinho – disse muito rouco, Itachi.
- Quer entrar? – perguntei ainda em choque. Bem que queria, mas naquele momento eu não conseguiria dizer como eu queria ter ido visita-lo todos os dias no hospital, mas que nosso pai não autorizou.
- Só vim deixar o presente. – disse me entregando o embrulho – Parabéns e boa sorte – tossiu um pouco.
- Tem certeza que não quer entrar, Itachi? – era você se aproximando. Seu pai, Hanabi, Neji, Ino, Amaya e Naruto estavam olhando para a porta, esperando qualquer reação.
- Tenho – deu um meio sorriso e foi embora. O elevador estava sendo segurado por uma moça que o acompanhava, que eu fui descobrir mais tarde ser uma antiga namorada e que haviam reatado.
O clima estava um pouco tenso, eu ainda pensava no meu irmão. Que falta um irmão de verdade fez enquanto eu crescia... Itachi uma vez tinha sido tudo o que eu desejava ser e, depois dos acontecimentos, eu via que agora, estampados nos olhos tristes do meu irmão, eu era o que ele desejava ter sido. A conversa tinha recomeçado, o presente era um jogo de oito copos – dos quais restaram apenas um – e Ino ainda bronqueava com, Naruto pelas fotos. Mesmo assim, era como se eu não conseguisse ouvir som algum. É estranho falar, mas meus ouvidos tem dessas às vezes: se fecham para o mundo. A única coisa que eu conseguia ouvir era o coração do nosso filho, quando você pegou minha mão e colocou sobre sua barriga. Consegui sorrir. Olhei para você, que me sorria docemente e, com medo de parar de ouvir o som daquele coraçãozinho tão agitado, mexi os lábios num "obrigado" silencioso, tendo depois os mesmos beijados delicadamente por você. Mais uma vez, Hinata, obrigado.
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Olá, pessoas! Para quem acompanha a FIC, uma notícia: esse foi o penúltimo capítulo! Espero que a demora e imprevistos que atrasaram o post não tenha afastado os poucos leitores da trama. São poucos, mas tenham certeza, se vocês não fossem importantes para mim, eu não teria escrito ela com tanto empenho! – mesmo que o empenho não seja visível /corre
Espero que o capítulo agrade e desejo a todos uma boa leitura.
Grata pelo apoio
Natália
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Olá pessoinhas. Nerak Arishima aqui de novo invadindo o espaço aqui. Pra quem ainda não me conhece sou uma das betas da Nat, e eu, mais a Arishima Niina estamos ajudando a Nat a atualizar as Fics atrasadas. Obrigada pela atenção... E não se esqueçam de dar uma olhadinha na nova Fic da Nat, Colega de Apartamento, pra quem ainda não foi la ver, estamos experimentando uma nova maneira de escrever e queremos a opinião de vocês para saber se gostam ou não. Obrigada pessoinhas!
Arishima Nerak
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Olá, Povãaao. Niina aqui, novamente enchendo o saco. Como elas já disseram acima, estamos tentando colocar a bagunça em ordem. Thaanks' pela a atenção e Come Back FOREVER AQUI. Beeijos. E a Casa Agradeçe ;D
Arishima Niina
