Capítulo Dez

Of Mice And Men

(De Ratos e Homens)

— Oi, Draco! Olhe! — Hydrus gritou ao passar voando em sua vassoura.

— Sim, você é muito rápido — Draco respondeu, revirando os olhos ao voltar-se para seu livro.

— Mais rápido que você!

— Não é! — Draco disse, indignado.

Hydrus espantou um dos pavões, que guinchou ao fugir com as penas amassadas.

— Pássaro idiota.

— A mãe já te falou para não fazer isso — Draco disse, ajeitando-se contra a árvore.

— Vamos apostar corrida — Hydrus propôs, ignorando o último comentário.

— Minha vassoura está lá em cima.

— Então vá pegar, idiota — Hydrus estava apenas flutuando agora, apesar de estar bem mais alto que Draco, uma mão apoiada no tronco da árvore.

— O pai disse para não usar essa palavra — Hydrus ignorou isso também e esperou por uma resposta apropriada. — Estou lendo — Draco disse ao virar uma página. — Cale a boca e me deixe em paz.

— Eu quero apostar corrida — Hydrus disse com um franzir de cenho.

— Já falei que estou lendo — Draco repetiu.

— Só está com medo de perder — Hydrus provocou.

— Não estou! Só não estou com vontade!

— Póóó, pópó, póó — Hydrus disse. — Franguinho!

— É você quem está balançando os braços como um — Draco comentou.

Hydrus parou na mesma hora.

— Venha apostar corrida comigo — choramingou.

— Não — Draco respondeu, adotando um tom igualmente choroso.

— Vou contar ao pai!

— Não se atreveria a incomodá-lo — Draco virou outra página.

Hydrus pousou ao seu lado.

— Vou contar — insistiu.

— Está bem — ele estava blefando e os dois sabiam disso. Fora por estar ocupado que seu pai os mandara para o lado de fora e tinha sido muito específico ao instrui-los que não o incomodassem.

— Venha apostar corrida — Hydrus disse, batendo o pé.

— Não — Draco desviou quando seu irmão jogou um pedaço de grama em sua direção; e, depois, folhas e, por fim, um tênis. — Já disse que não! — Draco gritou, levantando-se. Desviou do outro tênis, jogou-o de volta a Hydrus, que jogou a vassoura. Foi quando Draco saiu correndo, antes que ele pudesse encontrar algo mais pesado, e encontrou um refúgio nos galhos de uma árvore do pátio. Hydrus apareceu em seguida, depois de ter recuperado sua vassoura, mas não os tênis; as meias estavam cobertas de lama.

Espero que ele esqueça e deixe uma trilha de lama na Mansão inteira, Draco pensou de mau-humor, olhando para seu irmão com desprezo. Hydrus espiou pelas portas duplas que levavam para o interior da mansão, antes de dar de ombros, montar em sua vassoura e sair do pátio em direção ao centro do terreno. Graças a Merlin, Draco pensou, apesar de não ter feito menção de descer da árvore. Acho que vou ficar por aqui mesmo, abriu o livro e folheou-o, tentando encontrar a página onde tinha parado — tinha fechado o livro muito rapidamente. Tinha acabado de se acomodar melhor contra o tronco quando um som estridente soou pelas portas do pátio. Brilhante, Draco pensou com irritação.

A janela do corredor do andar de cima, que estava apenas a trinta centímetros para cima de onde ele estava, foi aberta violentamente e bateu na parede com um baque surdo que quase fez Draco cair da árvore.

— Meninos! — sua mãe chamou. Draco ficou imóvel. — Draco? Eu te vi entrar. Onde você está?

Draco engoliu em seco.

— Aqui — respondeu.

Sua mãe o olhou com surpresa.

— O que está fazendo em uma árvore?

— Lendo — Draco disse com a voz fraca, erguendo o livro.

A mãe o observou por um momento, antes de sorrir levemente.

— Dobby está ocupado aqui em cima — ela disse. — Pode atender a porta, por favor?

— Sim, mãe — Draco respondeu, obediente, tentando não parecer aborrecido. Dobby idiota. Ele deveria poder deixar a mãe por alguns minutos e fazer o que tem que ser feito. Desceu da árvore, entrou pelas portas duplas e, então, foi até o saguão de entrada. — Por que simplesmente não usaram o flu? — resmungou. Mas sabia a resposta. Não era possível usar o flu para entrar ou sair da Mansão sem a autorização do pai; a lareira tinha sido enfeitiçada para rejeitar todas as pessoas que não tivessem a senha correta. Tal senha mudava de acordo com os caprichos de seu pai, o que irritava muito sua mãe; no último ano, Draco vira sua mãe usar uma senha desatualizada e ser cuspida pela lareira. O pai dormira no quarto de hóspedes naquelas noites.

O sino soou mais uma vez quando passava pelo retrato de seu tataravô Casius Malfoy. Draco abriu a porta.

— Sim? — disse. Severus Snape estava parado na porta, pronto para voltar a balançar a corda do sino. Draco arregalou os olhos ao ver seu padrinho. — Desculpe! Eu não sabia que era você, senhor, ou eu não teria... Desculpe!

— Um pedido de desculpas é o bastante — Severus disse ao passar por ele para entrar no saguão de entrada.

— Sim, senhor. Obrigado, senhor — Draco balbuciou, fechando a porta.

— O que está lendo? — Severus perguntou, indicando o livro de Draco com uma mão.

Teoria Mágica — respondeu, mostrando-o.

— O livro de Waffling?

— Sim, senhor.

— Um bom livro — Severus disse, assentindo em aprovação. — Informativo, mas nada muito cansativo se me lembro bem.

— Sim, senhor.

— Lucius está em casa?

— Sim, senhor.

Severus o olhou com o que podia ser diversão.

— Seu vocabulário parece estar um pouco limitado hoje, Draco.

— Sim... Erm... Eu... — Draco sentiu as bochechas esquentarem. — Desculpe.

— Não importa — Severus disse, dando um sorriso pequeno. — Pode me levar até seu pai, por favor?

— Sim, senhor — Severus estava sorrindo agora. — Acho que ele está no escritório — Draco o guiou por um corredor, por uma porta dupla à direita e, então, por outro corredor. — Pai? — chamou, batendo na elegante porta de madeira.

— Pensei ter dito para não me incomodar, Draco — foi a resposta impetuosa.

Draco olhou para Severus em um pedido de ajuda.

— Podemos conversar, Lucius? — Severus perguntou e a porta foi aberta.

— Deixe-nos, Draco — seu pai disse. Severus assentiu em forma de despedida e seguiu Lucius para dentro do escritório.

Fui eu quem abriu a porta para Severus, Draco pensou de mau-humor. Deveriam me deixar ouvir. Com um sorriso, Draco bateu os pés até o final do corredor, antes de voltar nas pontas dos pés e colar a orelha na porta.

— ... preso — Severus dizia.

— E suponho que esperam que eu pague a fiança — o pai parecia se sentir divertido. — Brandy?

— Não, obrigado.

Um tinido soou quando seu pai se serviu de outro copo, antes de falar:

— Não vou pagar nem um nuque. Aquela monstruosidade do Lupin pode apodrecer. Eu não ligo.

— Ele foi solto hoje cedo — Severus retorquiu com amargura. — As acusações foram retiradas.

— Duas semanas no cargo e Cornelius Fudge já cometeu um erro estúpido.

— Não gosto de Fudge, mas, dadas as circunstâncias, não diria que soltar Lupin tenha sido um erro estúpido.

— Circunstâncias? — seu pai perguntou num tom que fez Draco estremecer.

— Ele socou Rufus Scrimgeour. Eu me atrevo a dizer que a maioria das pessoas já teve vontade de reorganizar o rosto desse homem já que ele é absolutamente incorrigível. Mas, de acordo com as testemunhas, Lupin também teve a custódia do menino Potter.

— Teve?

— Estou certo de que viu o jornal de hoje.

— Eu vi que o menino foi visto n'O Caldeirão Furado. Ele fugiu...

— E foi encontrado por Lupin se formos acreditar em Dumbledore — Severus terminou.

— Mesmo? — Lucius perguntou tão suavemente que Draco quase não o ouviu.

— O Ministério está tentando abafar isso tudo.

— O que quer dizer que estará no Profeta de amanhã — o pai disse com a voz cheia de preocupação. Suspirou. — Assumo que Lupin perdeu o menino.

— Ele escapou e Black o pegou de volta.

— Não teríamos que depender de inconveniências como Lupin se o Ministério permitisse que os Dementadores procurassem, mas não podem fazer isso, é claro... Não quando podem acabar atacando o menino Potter — seu tom, que era bravo quando ele falou dos Dementadores, transformou-se em um suspiro quando ele falou sobre Potter. — Ele provavelmente não está seguro nem com Black e pelo menos os Dementadores conseguiriam dominar um menino de nove...

— Oito.

— Desculpe?

— O menino tem oito anos. Como Draco — Draco congelou ao ouvir seu nome. Seu pai ficou quieto por um longo tempo; o bastante para que Draco começasse a achar que tinha sido descoberto. Estava prestes a ir embora quando seu pai amaldiçoou.

— Esperava não precisar me envolver com Lupin — disse. Houve outro tinido. — Foi a razão para lhe dar controle da área muggle.

— Como você foi inteligente — Severus disse.

— Não posso reivindicar os créditos — seu pai disse. — Ele pediu por essa posição — Severus não respondeu. — Ainda assim, ele está determinado a encontrar o menino, o que serve aos meus propósitos. E ele prometeu trazer o menino para cá se conseguisse recuperá-lo.

— Pensei que ele o levaria para Dumbledore — Draco achou que Severus soara surpreso, mas não tinha certeza.

— Não vou permitir que o menino fique na custódia desse velho tolo — seu pai respondeu com desgosto. — Se Harry Potter for o que achamos que ele é, deixá-lo perto de Dumbledore será tão ruim quanto deixá-lo com Black... — sua mãe contara a seu pai o que a tinha Bella falara sobre Black não ter sido um servo do Lorde das Trevas e seu pai deixara de desgostar de Black para odiá-lo. — O Ministério também não é uma boa opção — ficou quieto por um tempo, antes de dizer: — Onde Lupin está?

— Em sua caverna ou qualquer que seja o lugar que ele chama de casa — Severus respondeu com veneno. Draco nunca ouvira seu padrinho falar assim e isso o assustou. — Até onde sabemos, os acontecimentos de ontem à noite foram planejados e ele foi se encontrar com Black.

— Ainda está falando disso, Severus? — seu pai perguntou.

— Lupin perdoaria a traição de Black em um piscar de olhos se achasse que isso lhe permitiria conhecer o filho de Potter — Severus respondeu de maneira fulminante.

— Pettigrew foi o traidor — seu tom era um bastante penetrante. — Mas, considerando como as coisas acabaram, eu quase acredito que ele tenha nos traído também.

— Talvez — Severus soou aborrecido. — Mas a traição de Black foi a que mais importou, no final. Ele deve ter passado informações ao Lorde das Trevas comigo e Pettigrew. E Black era o Fiel do Segredo. Potter era orgulhoso demais para confiar sua vida a um vermezinho inútil como Pettigrew...

— Inútil?! — uma voz aguda disse com irritação. Houve um baque alto, como o de uma cadeira sendo derrubada e um grito de dor. Draco apertou ainda mais a orelha contra a porta.

— Abaixe isso, Severus — seu pai disse com impaciência.

— Parece que você está com uma infestação de vermes — Severus comentou em um tom tenso.

— Agora — seu pai soara divertido. — Isso é jeito de falar com seus velhos amigos? Por que não lhe conta o que me contou?

Draco deu um pulo ao ouvir uma terceira voz.

— Sirius não traiu ninguém. Eu era o Fiel do Segredo — foi a voz aguda que respondeu.

Você? — Severus zombou.

— Severus, sente-se — seu pai ralhou. — Ainda não está chateado pela sangue-ruim de Potter, não é?

— É claro que não — Severus respondeu friamente. — Só estou surpreso. Não é sempre que um homem morto aparece. Se é que você se qualifica como homem — houve uma exclamação de horror, presumidamente do terceiro homem.

— Severus — Lucius usou um tom de aviso.

— Desculpe-me, Pettigrew — Draco sentiu que essas eram palavras dolorosas para seu padrinho dizer.

O outro homem voltou a falar.

— Você sempre foi um bast—Ai!

— James não está mais por perto para te proteger — Severus disse suavemente. — E parece que é sua culpa — o terceiro homem murmurou algo que Draco não ouviu. — Foi muito esperto ao convencer Potter a trocar.

— Peter não merece o crédito — seu pai disse com uma risada. — Foi Black quem sugeriu!

— Então, Black não é completamente inocente — Severus murmurou.

— Sim, sim — seu pai disse com impaciência. — Pode continuar a odiá-lo. O que me interessa é como você ainda está vivo, Peter. Ele estava prestes a explicar isso quando você chegou, Severus.

— F-foi fácil, de verdade — o homem (Peter) guinchou.

— Obviamente, se você conseguiu — Snape murmurou.

— Não irei contar se você vai ser grosseiro — Peter disse e houve uma pausa.

— Continue — Severus disse suscintamente.

— Eu combinei algumas coisas com o Lorde das Trevas — Draco ouviu, ansioso. — para que assim que Lily e James morressem, ele fosse até minha casa e m-matasse Sirius quando ele fosse ver como eu estava. Tínhamos planejado usar a Poção Polissuco... O Lorde das Trevas usaria um fio de cabelo de Sirius e procuraria Dumbledore, enlouquecido, e o mataria. Eu lidaria com Remus... F-faria parecer um acidente, como se ele houvesse se cortado até a morte.

— Inteligente — seu pai comentou em tom de aprovação. Draco assentiu arrogantemente do outro lado da porta; se seu pai estava impressionado, então ele também tinha de estar.

— Eu estava e-esperando por seu retorno quando meu braço ficou gelado. Vocês sabem do que estou falando. Fui direto para Godric's Hollow e descobri que Lily e James estavam mortos, mas Harry não. Eu me dei conta do que aconteceu e estava prestes a acabar com a vida do menino...

— E por que — seu pai perguntou em um tom que fez Draco estremecer — você faria isso, Peter?

— Porque o Lorde das Trevas...

— O Lorde das Trevas já tinha sido destruído — o pai disse um pouco tristemente. Peter choramingou. — Por que destruiria seu sucessor?

— O-o quê?

Houve um som de tapa, como se alguém houvesse batido uma mão na mesa.

— Harry Potter será o próximo defensor dos sangues-puro — seu pai disse. — Ele tem que ser. Ele tem um pouco de sangue muggle por causa da podridão de sua mãe... — Severus rosnou, claramente por causa de seu ódio por sangue muggle. — Mas há feitiços que podem ser feitos para reverter isso...

— D-defensor? — Peter guinchou.

— E de que outro modo ele poderia ter vencido o Lorde das Trevas com um ano de vida, se não com magia negra? — seu pai perguntou. Um farfalhar soou, como o som de vestes ao redor de tornozelos, e Draco supôs que seu pai ou Severus estava andando de um lado para o outro; esse Peter não parecia ser alguém que fazia isso.

— Eu n-não...

— E por que outro motivo Dumbledore o tiraria da comunidade mágica? — seu pai continuou.

— E-eu n-não...

— Medo, Peter, é por isso. Se o menino Potter conseguiu destruir o maior bruxo de todos os tempos, quais as chances de um velho tolo como Dumbledore?

— Dumbledore é considerando um dos maiores... — Severus começou.

— Ele não pode te ouvir nesse momento, Severus, não há necessidade de defendê-lo — seu pai disse com impaciência. — Bem, Peter?

— N-nenhuma.

— Isso mesmo — seu pai retorquiu em um tom condescendente. — Se o que você disse for verdade e Black não for das trevas, então ele certamente pegou o Potter para tentar deixá-lo "bom". Não é preciso dizer que o menino Potter precisa ser salvo de Black antes que ele cause muito dano.

— Você já está o servindo — Severus disse em um tom surpreso.

— O Lorde das Trevas sempre recompensou muito bem a lealdade — seu pai disse. — Certamente Potter fará o mesmo quando for velho o bastante — houve um momento de silêncio dentro do escritório. — Continue a sua história, Peter — seu pai pediu por fim.

— B-bem, eu ia matar Harry... Mas isso foi muito errado... — apressou-se a dizer. — quando Sirius apareceu. Eu daria conta dele, mas aí Hagrid também apareceu...

— O ogro de estimação de Dumbledore — seu pai disse.

— E-eu me transformei e fugi — ele estava gaguejando bastante, mas Draco não achava que ele estava assustado; parecia mais que era por animação. — Eu não sabia o que fazer. Eu sabia que Sirius iria me procurar, mas, pelo cheiro, eu soube que ele já tinha passado pela minha casa, então sabia que estaria seguro lá, pelo menos por um tempo. Pela manhã, Dumbledore apareceu.

"Nós nos encontramos com Remus e fomos conversar no escritório de Dumbledore; ele nos contou o que tinha acontecido. Sirius passou os próximos dias me procurando; não que ele tivesse muita escolha. Sem mim, ele não poderia provar que houve uma troca. Nem mesmo Dumbledore sabia. Ele acabou me encontrando, o que ia acabar acontecendo de qualquer jeito, eu acho"

"Eu o levei até uma rua movimentada, gritei que ele havia traído Lily e James e, então, enquanto ele pegava a varinha, eu explodi tudo. Infelizmente, minha varinha também se perdeu, mas eu tinha que deixar tudo o mais autêntico possível. Esperava que Sirius também morresse, m-mas o bastardo conseguiu erguer um feitiço escudo a tempo. Arranquei meu dedo para fazer parecer que eu tinha morrido e, durante a confusão, me transformei e me escondi no esgoto" Ele riu, ofegante. "Fiquei observando enquanto ele era arrastado para Azkaban"

— E, ainda assim, essa é a primeira vez que você é visto em sete anos — Severus disse.

— Sirius estava fora do caminho — Peter disse. — Mas se eu aparecesse no Beco Diagonal, as pessoas iriam me reconhecer...

— Você tem uma boa opinião de si mesmo — Severus disse. — Você é incrivelmente esquecível.

— Eu tenho um Ordem de Merlin...

— Por morrer — seu pai disse. — E nem isso conseguiu. Eu acho que Severus tem razão. Por que agora, Peter?

— C-com Sirius solto, não é mais seguro para mim. Certamente ele contou ao menino o que realmente aconteceu. N-ninguém vai dar ouvidos a Sirius, não agora, mas podem acreditar em H-Harry.

— Você não respondeu à pergunta. Por que agora?

— O irmão do menino com quem eu moro conheceu Harry ontem. Passou muito perto.

— Você está morando com os Weasley? — o pai perguntou. Draco sabia que ele estava ridicularizando. — De todo os lugares, Peter...

— Que escolha eu tive? Eu sei que eles são traidores de sague, mas isso não é novidade para mim. Se eu aparecesse aqui, você teria me a-afogado!

Seu pai riu; Severus, não.

— Espero que saiba que Arthur Weasley vai querer saber como um dos filhos está sem um bichinho. E se isso chegar a Black...

— Não sou idiota! — Peter guinchou. — Eu me substituí. Eu até arranquei um dos d-dedos.

— Então, o que quer comigo? — o pai perguntou.

— Proteção — Peter disse pateticamente. — N...

— O que o mestre está fazendo entreouvindo? — Dobby perguntou, apesar de ter tido o bom senso de sussurrar.

Draco mordeu a língua para não gritar. Segurou o pulso de Dobby e arrastou-o pelo corredor; passou pelo banheiro e parou em frente à enorme janela que dava uma bela visão do pátio.

— Eu te proíbo de contar a alguém sobre isso — Draco murmurou fervorosamente. — Isso nunca aconteceu.

— Sim, jovem mestre — o Elfo guinchou, parecendo aterrorizado.

— Bom — Draco disse. — Agora... Vá fazer algo para eu comer.

-x-

Severus não se permitiu tempo para pensar. Colocou tudo o que descobrira na última hora num caldeirão dum dos cômodos nos corredores mais remotos de sua mente, do mesmo jeito que adicionaria ingredientes à uma poção. Deixou tudo ali para ser processado. E ali ficaria até que estivesse pronto para lidar com tudo. Por ora, tinha uma tarefa.

Graças a Merlin é sábado, pensou ao sair de sua lareira. Olhou para a pilha de redações a serem corrigidas em sua mesa. Infelizmente, não serão corrigidas hoje. Suspirou; esperara poder se livrar das redações.

Tirou Misturas Medicinais da estante, convocou seu caldeirão e seu kit de poção e acomodou-se para preparar a poção na sala ao lado. Conseguiria Esquelesce com Madame Pomfrey — um dos pequenos frascos de viagem, acredito —, mas ele mesmo teria de fazer o Tônico Revigorante e a Essência de Lagartixas.

Nenhuma dessas Poções era difícil — estariam prontas pela manhã —, mas elas demandavam certa atenção à detalhes. Severus começou a trabalhar, cortando, apertando, amassando, derramando e misturando. Principalmente misturando.

E uma pitada de língua de lagartixa seca. Misturou três vezes — em sentido horário, em sentido anti-horário e, então, mais uma vez em sentido horário antes de a Poção adotar um tom verde musgo. Finalmente. Severus olhou para o céu, que começava a clarear.

Conjurou um frasco, encheu-o e colocou-o ao lado do frasco com o Tônico Revigorante.

Evanesco — murmurou, apontando a varinha para o caldeirão. Arrumou suas coisas, guardou os dois frascos num pequeno baú de madeira e foi ao seu quarto. Jogou-se direito em sua cama sem se dar ao trabalho de trocar de roupa ou de tirar os sapatos.

Lucius deve achar que sou um tolo, pensou friamente. Um frasco de Esquelesce, um de Essência de Largatixas e um de Tônico Revigorante. Não um tônico para os nervos, ele dissera, mas um tônico para consertar nervos danificados. Mas acredito que Pettigrew poderá ser útil mesmo com todo aquele nervosismo. E Lucius também queria uma Poção de Redução de Dor... Severus deu um sorriso maldoso. Pettigrew vai ter que dar um jeito sem ela.

Pettigrew... Relutante, Severus acessou as memórias daquela tarde. Descobrir que ele estava vivo era uma coisa. Mas descobrir que ele fora o Fiel do Segredo...

Severus soubera desde o início que Pettigrew havia se juntado à causa do Lorde das Trevas. Ele fazia o tipo; faminto por poder e um pouco assustado. Todos nós éramos assim. Até mesmo Lucius. Havia parecido algo divertido, como um jogo, e, então, seus colegas de escola também começaram a escolher lados.

Potter e sua turma tinham se juntado a Dumbledore durante o sétimo ano. Lily também. Era terrivelmente típico dela — e, honestamente, sendo uma nascida muggle, que escolha ela tivera? —, apesar de Snape ter sempre esperado que ela não o fizesse. Naquela época, avisara a Potter que Pettigrew era o espião; não abertamente, nunca abertamente — isso seria o fim de sua vida e ele não ia morrer por Potter —, mas ou Potter fora estúpido demais para conseguir entender suas dicas ou fora orgulhoso demais para acreditar qualquer coisa que não fosse o melhor de seu amigo gordinho e traidor.

Fora da escola, Pettigrew continuara passando informações ao Lorde das Trevas. Datas, planos, localizações... Qualquer coisa que suas orelhinhas de rato conseguissem ouvir. Em retorno, ele nunca era ferido durante as batalhas; apenas estuporado. Mas, uma vez, Severus quebrara o braço dele. Falara a todos que tinha sido um acidente e tinham acreditado.

Severus se juntara a Dumbledore depois de entreouvir a Profecia e descobrir que o Lorde das Trevas queria matar Lily. Nunca falara nada sobre Pettigrew para que não suspeitassem de si; nunca gostara de Pettigrew — durante os anos escolares ele fora um completo covarde — e gostara menos ainda dele depois de ele ter se juntado aos Comensais da Morte porque isso significava que precisava aguentá-lo mais frequentemente e porque as ações dele colocavam Lily em perigo.

Ele teria sido o primeiro a ser questionado pelo Lorde das Trevas e sua traição significaria sua morte. Ao invés disso, frustrara os planos que conseguira e tentara desfazer os danos causados por Pettigrew. Nunca achara que Black pudesse ser o traidor apesar de seus outros — inúmeros — defeitos; pelo menos, não até ficar sabendo que Potter e Lily estavam mortos e que Black tinha sumido.

Apesar de tudo, Black nunca fora sútil, e Severus tinha dificuldades em acreditar que não notara que Black era um espião do Lorde das Trevas. Mas quais eram as outras opções? Black fora preso e levado a Azkaban, Pettigrew estava morto, assim como Lily... Tinha sido uma surpresa — e uma muito dolorosa; pior do que qualquer tortura a que fora submetido — descobrir que Lily estava morta.

Estranhamente, saber que Potter estava morto também doera, embora não o bastante para que Severus o perdoasse. Odiara James Potter morto mais do que o odiara vivo e estava feliz em deixar as coisas assim. Mas agora, como constatara, Severus nunca ouvira algo sobre Black ser um espião porque tal coisa nunca acontecera. Black não fora o traidor. Ele era culpado de milhares de coisas, é claro: fugir da prisão — era onde ele deveria estar, tivesse matado todos aqueles muggles e Pettigrew ou não —, sequestro e evasão da justiça eram apenas alguns. Mas Black não matara Lily.

Isso deixava Severus numa situação difícil. Gostava bastante de como as coisas estavam; Potter estava morto e Severus esperava que ele continuasse assim. Aceitara sua mágoa pela morte de Lily, apesar de não ter superado sua culpa. Mas não achava que um dia pararia de tentar compensá-la e tinha feito sua paz com isso. Black — o popular, a estrela de Quadribol, o bonito — era odiado por todos e passara a maior parte de sua vida adulta atrás das grades com apenas os Dementadores lhe fazendo companhia.

Esse pensamento levou um sorriso ao rosto de Severus. Lupin continuara livre, mas certamente tinha sido punido; a última vez que Severus o vira, ele parecia velho e, apesar da ousadia conquistada com os Marotos, a maior parte dessa ousadia tinha sido destruída pelos últimos sete anos, os quais ele passara sozinho. Ele acreditava que Pettigrew estava morto, um destino que Severus achava que ele merecia.

Mas ele não estava morto. E fora ele quem matara Lily. E apenas Pettigrew, Lucius, Severus, Black e, possivelmente, o menino Potter sabiam. Black e Potter seriam apreendidos antes que tivessem a chance de falar, então apenas três pessoas realmente sabiam. Lucius obviamente tinha segundas intenções ao aceitar ajudar Pettigrew e, portanto, enquanto lhe fosse favorável, Lucius não contaria a ninguém. A vida de Pettigrew dependia do próprio silêncio, então ele também nunca contaria. Isso deixava apenas Severus. E se Severus contasse, eles saberiam que tinha sido ele.

Mas o que Dumbledore pensaria se Severus lhe escondesse algo tão importante? Devia sua vida ao homem, mas contar a ele significaria fazer um favor a Black e isso seria insuportável. Como sempre aconteceria quando estava indeciso, os pensamentos de Severus voltaram-se para Lily e consideraram o que ela faria ou o que ela gostaria que fosse feito. Como ele fora o responsável por tirar-lhe a capacidade de fazer ou falar qualquer coisa, ele o faria em seu nome.

Lily gostaria que seu filho estivesse seguro, Severus soube imediatamente. E Black, também. Ela... Gostava dele. O pensamento lhe embrulhou o estômago. Imagino o que ela diria dessa história de Lorde das Trevas... Balançou a cabeça; conseguia imaginar o que ela faria e não era agradável. Era completamente ridículo que alguém pudesse acreditar que o filho de — e Severus ainda odiava essa ideia — James Potter e Lily Evans fosse cruel. Certamente a criança era tão arrogante e mimada quanto seu santificado pai, mas não cruel.

E se Black é inocente, não acredito que o filho de Potter esteja em perigo de qualquer coisa que não a falta de maturidade de Black. E onde quer que estejam se escondendo, ainda não foram encontrados. Ontem foi uma exceção, é claro, mas Lupin era o único lá e Black não precisa de muito para tê-lo ao seu lado.

Os pensamentos de Severus passaram a ser amargurados. Parece que estava errado sobre isso, também. Ou Lupin é um ótimo ator ou ele não sabe a verdade. Suspirou pesadamente e afundou-se ainda mais em seu travesseiro. E mais uma vez, o filho de Potter e seus amigos estão se metendo em minha vida!

-x-

— Hydrus! Draco! Desçam. Tenho presentes para vocês — o pai chamou.

Draco e Hydrus olharam para sua mãe.

— Podem ir — ela disse com um suspiro. Ela fechou o livro que estivera lendo com eles. Os dois meninos se levantaram e correram pelo corredor e desceram para onde o pai estava esperando. Ele franziu o cenho.

— Malfoys não correm — ele os repreendeu friamente.

— Sim, pai — Hydrus respondeu imediatamente, parecendo chocado.

— Desculpe — Draco completou.

O pai sorriu levemente.

— Eu decidi que vocês precisam aprender o que é ter o controle de outro ser vivo. Alguns chamariam de responsabilidade.

— Mas não você — Hydrus comentou.

O pai inclinou a cabeça.

— Não, eu não.

— Pai, é para isso que temos Dobby — Draco retorquiu com arrogância.

— Dobby é da família, não seu — o pai o lembrou. — Mas estes são seus — o pai mostrou duas formas pequenas e marrons.

— É um rato — Hydrus disse sem rodeios.

— É seu rato — o pai respondeu, entregando-lhe um dos dois animais. O seu era um pouco maior do que aquele que o pai deu a Draco e um pouco mais escuro. Porém, havia poucas diferenças entre eles fora isso. Draco pegou o seu com cuidado e usando as duas mãos. — Terão de ter cuidado. Eles não são brinquedos. Não apertem — o pai avisou quando Hydrus ergueu seu rato com curiosidade.

— Não ia fazer isso — Hydrus disse.

Draco olhou para seu rato com curiosidade. Não gostava muito de ratos; uma vez, quando era mais novo, perdera-se na adega e passara a noite ouvindo-os guinchar. No dia seguinte, o pai erguera proteções para evitar que eles entrassem, mas o dano já tinha sido feito. Esse parecia amigável; os bigodes dele foram de um lado para o outro quando ele cheirou seu dedo.

— Qual é o nome deles? — perguntou.

— Vocês que irão escolher.

Hydrus ficou quieto.

— Bosworth — disse por fim com um pequeno sorriso. — Como o queijo.

O rato guinchou.

— Acho que ele não gostou — Draco comentou.

— É um rato — o pai disse friamente. — É claro que ele gostou. E o seu, Draco?

— Roquefort. Assim, os dois podem ser como os queijos.

O rato de Draco também guinchou.

— O seu também não gostou — Hydrus provocou.

— Gostou, sim!

— Parem com essa besteira — o pai disse. — Os dois gostaram dos nomes e está decidido — olhou feio para os dois ratos como que tentando provar o que dizia. — Comportem-se.

— Eu vou te mostrar a casa — Hydrus decidiu, aninhando o rato em suas mãos com cuidado. — Esse lugar onde estamos — falou para Bosworth, enquanto Draco apenas o olhava. — é o saguão de entrada. Aquelas escadas ali levam ao corredor lá de cima, onde ficam os quartos dos meus pais, o de Draco e o meu, assim como a biblioteca e o quarto de hóspedes — Hydrus passou pelas portas duplas, indo para o corredor, e começou a explicar as regras do escritório do pai.

Roquefort guinchou para Draco.

— O quê? — perguntou. — Não vou te mostrar a casa — o rato voltou a guinchar como se perguntasse o motivo. — Porque você é um rato, idiota.

Quanto mais tempo Draco passava com o rato, menos gostava dele; tudo o que Roquefort queria fazer era dormir e ele tinha o péssimo hábito de morder as coisas de Draco e, se tentasse pará-lo, ele mordia os dedos de Draco. Por outro lado, Hydrus se recusava a se separar de Bosworth.

Hydrus decidira que o pequeno baú de madeira que Severus trouxera à Mansão no começo da semana era seu e enchera-o de cobertores; o pai ficara furioso ao descobrir que Hydrus planejara permitir que o rato dormisse em seu travesseiro. Roquefort também não podia ficar no travesseiro de Draco — seu pai o proibira de fazer isso, mas Draco não era muito favorável a essa ideia, de todo modo — e ele dormira em uma gaiola que Draco mandara Dobby ir comprar.

— Draco, olhe! — Hydrus chamou, passando com Bosworth sentado em seu ombro; no começo, o modo de andar de Hydrus era muito irregular e o rato frequentemente guinchava, antes de escorregar lentamente pelas costas dele, mas parecia que eles tinham dado um jeito.

Draco observou com inveja e cutucou o rato adormecido em seu bolso.

— Por que você não faz isso? — perguntou a Roquefort; ele também tentara ensinar a seu rato a ficar sentado em seu ombro, mas Roquefort caíra depois de alguns metros, mordera Draco quando o menino tentara pegá-lo e recusara-se a ser tocado pelo resto do dia.

-x-

Atacarei os Potter na semana que vem — o Lorde das Trevas disse em sua voz alta e fria. — Eu presumo que eles já terão retornado até lá.

Seus olhos vermelhos focaram-se em Pettigrew, que tremeu.

Está correto, meu Lorde. James disse que sairão de St. Mungo's amanhã.

Que é quando eles se sentirão mais vulneráveis — o Lorde das Trevas disse. — Deixe-os relaxar e ficarem confiantes novamente.

Sim, meu Lorde.

Você irá marcar um encontro com eles, Wormtail — mandou. — Será um horário que eles certamente estarão lá. E o menino. O menino tem que estar lá — Pettigrew curvou-se. — Saia — ele saiu. O Lorde das Trevas focou seus terríveis olhos em Severus. — Acredito que você esteja se perguntando o motivo de eu tê-lo chamado.

Estou certo de que meu Lorde tem seus motivos — Severus respondeu sem encontrar seus olhos. Sentiu uma leve pressão em sua mente e não tentou resistir. De fato, inclinou a cabeça e encontrou aqueles olhos vermelhos. A consciência do Lorde das Trevas esgueirou-se como uma cobra. Até conseguia sentir suas escamas (frias, lisas e um pouco grudentas) quando ele se esgueirou pelas masmorras em sua mente.

Havia milhares de corredores; frios, escuros e indesejados; e a maioria terminava em portas que levariam um intruso para fora de sua mente. Outros, simplesmente acabavam. Alguns nunca acabavam. Alguns tinham portas que levavam aos seus estoques de poções. Alguns estavam vazios. Apenas um caminho levava até as profundezas de sua mente e era uma longa viagem, com corredores que se misturavam e tantas bifurcações que era quase difícil demais para se dar ao trabalho.

É claro que Severus não era tolo o bastante para frustrar o Lorde das Trevas. No momento em que o Lorde das Trevas entrou, sua mente tinha se reorganizado e, agora, era apenas uma das masmorras de Hogwarts. O Lorde das Trevas, um antigo sonserino, conhecia bem seu caminho. Severus fingiu sentir-se desapontado. O Lorde das Trevas parou em várias portas ao longo do caminho.

Numa das salas, ele olhou para as poções sem etiquetas com interesse e sua língua tremeluziu para sentir o gosto dos vapores de uma Poção de Euforia. Noutra, sua Legilimência assumiu uma forma humana e caminhou pela sala, estudando as prateleiras de ingredientes. Ele pegou uma jarra de raízes de margaridas e jogou-a no chão — o Lorde das Trevas podia ser gentil quando queria, mas gestos inesperados eram um bom jeito de testar as defesas de alguém. Severus recuou, sabendo que o Lorde das Trevas notaria, quando a jarra se tornou nada ao atingir o chão de pedra.

Satisfeito, o Lorde das Trevas entrou no escritório que Severus assumira há alguns dias, quando Slughorn saíra da escola. Severus remodelara o núcleo de sua mente para mostrar o escritório ao invés do Salão Comunal de Sonserina, puramente por segurança; aqueles que pudessem tentar invadir sua mente provavelmente não conheceriam tão bem o escritório do Chefe de Sonserina quanto conheciam o Salão Comunal.

Jarras revestiam as paredes assim como frascos de poções; cada um continha um pensamento, uma lembrança ou uma emoção. O Lorde das Trevas pegou uma pequena jarra de pólen de lírio asiático e abriu-a. Era uma lembrança de Severus e Lily caminhando pelo pequeno rio que cortava o bosque.

O Lorde das Trevas assistiu com interesse e, então, voltou a colocar a jarra na prateleira, antes de pegar um rolo de pele de cobra verde escuro. A voz do Chapéu Seletor gritando "SONSERINA!" soou pela sala de pedra. Outro objeto — dessa vez um frasco etiquetado "Veritaserum" — fora escolhido ao acaso e aberto. Severus ouviu sua voz de dezessete anos jurar lealdade ao Lorde das Trevas. Com um sorriso, o Lorde das Trevas foi até o caldeirão prateado que fumegava em um canto.

O Lorde das Trevas olhou com um pouco de diversão para um pano velho que estava ao lado do caldeirão.

Até aqui você pule os caldeirões, Severus? — Severus não respondeu por não confiar em sua voz.

O Lorde das Trevas colocou uma mão dentro do caldeirão — que continha uma parte dos pensamentos de Severus —, e Severus ouviu pedaços de sua voz: não lavou as mãos... A poção está imprestável agora... Encontrou meu escritório com tanta facilidade?... Mais seguro que isso... Poderoso demais... Meu Lorde... Parecendo satisfeito, o Lorde das Trevas saiu de sua cabeça.

Severus afundou-se em seus joelhos, os olhos fixos no chão. Sua mente já estava se reorganizando e voltando a ser o labirinto que costumava ser. Sua magia já estava limpando as superfícies e o chão em que o Lorde das Trevas tocara. As lembranças que tinham sido vistas ajeitaram-se e voltaram para seus lugares.

E tivera sucesso; o Lorde das Trevas tinha quebrado a jarra de raízes de margaridas — elas eram apenas criação de sua imaginação —, mas a jarra de pó de ferrão de abelhas na prateleira acima não era. A jarra continha os verdadeiros motivos para apoiar Dumbledore e ela não tinha sido tocada, assim como as bolas trouxas de veneno de rato que, na verdade, eram as lembranças dos avisos — ignorados — que dera a Potter sobre Pettigrew em seu sétimo ano.

Noutra sala, um pacote de espinhos de cactos, que era a lembrança de sua mãe — ela era como um cacto; não era necessariamente bonita, mas era flexível, previsível e irritadiça —, estava guardado inocentemente em uma gaveta a apenas alguns metros da Essência de Euforia que o Lorde das Trevas olhara, e estava cercado por diversos ingredientes de mentira. O pano velho sobre o qual o Lorde das Trevas questionara tinha a lembrança de sua conversa com o Chapéu Seletor, na qual implorara para ser sorteado para a Grifinória, com Lily.

Melhor que isso, a poção no caldeirão que continha seus pensamentos tinha duas camadas distintas, como água e óleo, e o Lorde das Trevas não suspeitara de nada ao correr a mão pela camada superior. Severus quase ficara tonto com o sucesso, mas não demonstrara; escondera essa lembrança em um pequeno frasco cheio por um líquido claro — que era álcool puro — que era por vezes usado em Poções de Confusão ou em Poções medicinais —, mas que parecia água e, por mais que desse uma sensação boa, se usasse demais, certamente seria morto.

Levante-se, Severus — o Lorde das Trevas disse e Severus obedeceu.

Meu Lorde — disse, inclinando a cabeça. — Encontrou o que procurava?

Ele ainda parecia satisfeito — Severus sabia que ele estava feliz por sua lembrança de tornar-se um Comensal da Morte ter sido guardada num frasco de "Veritaserum". É claro que não era Veritaserum. Era água — necessária se alguém quisesse sobreviver, nada mais —, mas a aparência era a mesma e não tinha nenhum cheiro que o nariz humano conseguisse sentir, então o Lorde das Trevas não notaria a diferença.

Encontrei.

Ficou feliz por lhe ter sido útil, meu Lorde.

Há outra coisa — o Lorde das Trevas disse suavemente.

Outra coisa, meu Lorde?

É referente ao seu... Afeto pela sangue-ruim de Potter.

Ela era uma boa amiga quando éramos crianças — Severus disse com cautela. — Nada mais.

Mentira, Severus. Eu vi as lembranças — Severus resistiu à vontade de rir; as lembranças mais significativas de Lily eram as mais bem protegidas, escondidas em cantos obscuros; numa jarra com as pétalas da flor que ela usara para assustar sua irmã quando eles se conheceram; numa poção do mesmo verde dos olhos dela; numa jarra de Heather, porque este era o nome da mãe dela; numa jarra de raízes de tojo porque fora onde se sentara depois de seu NOM em Defesa Contra As Artes das Trevas... O Lorde das Trevas não vira nada disso.

Perdoe-me, meu Lorde, mas eu tenho um pouco de talento com Legilimência e, por isso, entendo a futilidade de tentar enganar alguém que é muito mais talentoso do que eu.

O Lorde das Trevas pareceu pensar nisso por um momento.

Ainda assim, Severus — disse por fim. —, você ficará triste com a morte dela.

Seria... Possível... Poupá-la?

Ela deixou claro que é leal a Dumbledore — o Lorde das Trevas respondeu, observando-o com cautela. Severus assentiu. Estava num terreno perigoso e os dois sabiam disso. — Ela morrerá na semana que vem. Faça o que quiser com isso. Saia. Mande Lucius entrar.

Sim, meu Lorde — Severus inclinou-se e saiu da sala. — Lucius — disse com um assentir. Lucius passou por si com o rosto inexpressivo.

Faça o que quiser com isso... Severus repetiu as palavras em sua cabeça. Então ele sabe. Sabe, ou desconfia. É um teste. Lily ia morrer a não ser que fizesse algo sobre isso e, se o fizesse, ele era quem morreria. Prefiro um mestre estúpido a um inteligente, Severus pensou com amargura.

Más notícias?

Não são mais tão ruins... Um plano se formou na cabeça de Severus. E se tanto Lily quanto eu pudermos sobreviver a isso?

— Sev? Foi tão ruim assim? — quando Regulus Black se juntara durante seu sétimo ano (o que chocara Severus, que sempre achara que o mais jovem dos Black era um mero espectador na guerra), eles tinham virado amigos, apesar de Severus odiar o irmão de Regulus.

Ruim o bastante — respondeu.

Regulus acompanhou seu ritmo.

O que aconteceu?

Severus sabia que Regulus — apesar de eles estarem nos lados opostos da guerra — odiaria que Black ou seus amigos se machucassem e também sabia que se havia alguém que poderia alertá-los sem entregar o jogo, seria ele.

Outra morte sendo planejada — Severus disse, esforçando-se para parecer entediado.

De quem? — Regulus perguntou com os ombros tensos.

Potter e Lily — Severus retorquiu — E o filho deles.

Por que simplesmente não disse "Os Potter"? — Regulus perguntou em confusão. — Eles são casados.

Algo que eu tento esquecer. Regulus, é claro, lembraria com clareza já que ele tinha sido convidado.

Oh, sim.

Quando?

Quando o quê?

Quando é o ataque? — Regulus quis saber, seus olhos cinzentos estranhamente brilhantes.

Daqui uma semana. Pe... Planos — Severus disse suavemente. — foram feitos para certificar-se de que eles estarão lá na hora certa — pelo mesmo motivo para que isso funcionasse, Severus não podia revelar a verdadeira natureza de Pettigrew; Regulus vez ou outra parecia querer agir como herói (Severus supôs que isso era efeito de ser um Black) e se ele contasse a Black, o Lorde das Trevas o mataria. Como Regulus era o mais próximo a um amigo que Severus tivera desde Lily, não ia fazer isso... — Já chega — Severus disse e a lembrança em forma de sonho parou. Com um gesto de sua mão, o corredor escuro sumiu e levou Regulus consigo. — Acorde — mandou a si mesmo.

Severus abriu os olhos depois de sonhar sobre a guerra pela quinta vez, depois de ter visto Pettigrew há cinco noites. Fazia sentido, depois de ver o homem que traíra Lily, que Severus se visse lembrando-se de quando traíra o Lorde das Trevas para salvá-la. Não significava que precisava gostar.

Já era difícil de lidar com as lembranças da guerra em dias bons, particularmente quando elas vinham sem serem convidadas. Pelo menos, dessa vez, a lembrança tinha um final razoavelmente bom; Severus tinha ido visitar Draco — que tivera uns dois meses na noite do ataque — e Hydrus, que tinha quase dez meses.

Não fora apenas para conhecer a criança de quem era um guardião secundário — já tinha conhecido Hydrus antes —, mas também fora para estar na presença de Lucius e não poder ser culpado quando os planos fracassassem. E, de fato, tinham fracassado; mais tarde, Severus descobriu que Regulus tinha forçado uma briga com Black, o que fez que com que Potter, Lily, o filho de Potter e até mesmo Lupin fossem para o apartamento de seu irmão, ficando em segurança. A confiança em Severus tinha sido renovada, o que lhe deu maior liberdade e, com tal liberdade, ele servira à Ordem.

Além dessa memória, as coisas não eram felizes; Regulus morrera uma semana depois — e Severus não descobrira como e não achava que o Lorde das Trevas descobrira; a magia da Marca Negra de Regulus o informara — e Severus teve que dar a notícia a Walburga Black e aguentar a tristeza dela por uma hora.

E isso também trazia mais lembranças; o Elfo Doméstico ficara perturbado ao ouvir Severus falar da morte de seu mestre. Mesmo agora, Severus conseguia ouvir os urros de tristeza e ver seus olhos enormes e avermelhados...

Usou Oclumência para limpar sua mente, focando-se nas paredes de pedras cinzentas de sua mente, mas os pensamentos ainda estavam lá, só que escondidos. Suspirou e virou-se, tentando voltar a dormir, apesar de achar que seria uma tentativa vã.

Continua.

N/T: Obrigada pelos comentários no capítulo anterior! ;)

Não deixem de comentar o que acharam desse capítulo.

Até a próxima atualização!