Edward estacionou o carro no acostamento da estrada, desli gou o motor e recostou a cabeça, suspirando. A sua frente, um raro sol de outono se refletia no oceano, a areia prisca se estendendo ao encontro da água. Sem dúvida, aquele era seu lugar favorito, não importava a estação do ano. Ia a Culloden para meditar, mas procurava a praia para ficar em paz. Havia algo na vastidão do mar, no movimento hipnótico das ondas que lhe sussurrava a respeito de coisas muito maiores do que ele mesmo. Ajudava-o, mais ou menos, a se colocar em pers pectiva.

Ou talvez apenas apreciasse molhar os pés na água salgada, de vez em quando.

Pois deveria fazê-lo com maior frequência. Era o único lugar que podia chamar de seu, um paraíso no qual se refugiava.

O que levantava a questão. Por que cargas d'água levara companhia?

Com certeza, Kate jamais estivera ali.

Olhou à esquerda. Talvez houvesse imaginado que a acom panhante iria cochilar durante todo o passeio. De fato, Bella dormia havia mais de meia hora. Acordara só uma vez, mur murando algo sobre ele dirigir em velocidade alta demais. Era a segunda vez que ela o repreendia em menos de uma semana.

Teria a atitude um significado mais profundo?

Melhor não saber.

E melhor não saber por quê, dentre todos os lugares da Es cócia para os quais poderia tê-la levado, escolhera seu santuário particular.

Bem de leve, tocou na mão dela. A mesma corrente elétrica da primeira vez voltou a percorrê-lo. Havia algo entre os dois, não podia mais negar. Mais aquela sensação de já ter vivido uma experiência idêntica. Não conhecia aquela mulher, não sabia nada sobre ela. Entretanto, era como se a conhecesse desde sempre.

Recolheu a mão e cerrou o punho. Não queria isso. Era o momento errado.

E qual seria o momento certo?, questionou seu coração.

Qualquer um, menos o presente. Fechou os olhos por um segundo. Ainda era jovem o bastante para ser vulnerável, jo vem o bastante para formar uma família, jovem o bastante para amar tão desesperadamente que a mera possibilidade de ter de enfrentar outra perda era demais para suportar. A perda da mulher a seu lado...

Isabella abriu os olhos e o focalizou.

Ela reteve o fôlego.

Ele não conseguia desviar o rosto.

Sem pensar, Edward se inclinou sobre ela, segurou-a pela nuca e apertou os lábios contra os dela. Não queria fechar os olhos, mas o senso de destino avassalador não lhe deixava alternativa. Enquanto a beijava, primeiro gentil, depois impe tuoso, sentiu o afago dela em seu rosto.

Por todos os santos, não queria aquilo!

Não pedira nada parecido.

Que diabo deveria fazer agora?

Ergueu o rosto e se recostou na poltrona, ofegante. Encarou Isabella. Ela parecia tão estupefata quanto ele. Pensou em algo espirituoso para dizer, mas só conseguiu ficar lá, olhando para ela, mudo.

Como não percebera sua beleza de imediato? Como não notara sua imaculada pele de porcelana? Como deixara de re parar no brilho daqueles olhos, no gracioso nariz ligeiramente aquilino, no belo*desenho da boca?

Jacob era mesmo um cretino!

Assim como ele. Porque não era isso o que queria. Levara-a ali só por cortesia, e por nenhum outro motivo. Virou o rosto bruscamente para o mar. Precisava era de uma boa rajada de vento frio para incutir algum juízo em seu cérebro fraco. Saltou do carro antes que dissesse algo idiota.

Bateu a porta, fechou os olhos e respirou fundo várias vezes. Quando achou que já restabelecera algum controle sobre o pró prio corpo, contornou o veículo e abriu a porta de Isabella. Ela não saiu logo. Ele se inclinou para dentro.

— Precisa de ajuda?

Ela o fitou meio apreensiva.

— Sabe... não precisava fazer isso.

— Fazer o quê? — retrucou Edward. Beijá-la? Desejá-la? Não querer mais se separar dela?

— Trazer-me aqui — explicou Bella. Ele respirou fundo.

— Eu quis.

Ela continuou a fitá-lo por mais alguns instantes, e então sorriu.

— Tem um mapa?

Aliviado pela distração, Edward foi ao porta-malas e voltou com uma grande folha de papel estampado dobrado várias vezes.

— Pronto. É todo seu.

— Obrigada. — Tirando da bolsa caneta e bloco de anota ções, Bella desdobrou o mapa.

Após um minuto, ele concluiu que ela não pretendia sair do automóvel.

— Não gostaria de se sentar na areia?

— Pode ser — concordou, indiferente. Concen trada no mapa, levantou-se da poltrona ignorando a mão es tendida.

Ele se conformou. Fizera por merecer.

Estendeu na praia um cobertor e distribuiu em cima dele os comes e bebes que comprara em um mercadinho no caminho. Quando foi buscar Isabella, descobriu que ela não precisava de auxílio. E achou que fizera por merecer aquilo, também. Em parte, admirava a independência daquela americana, mas ao mesmo tempo se amaldiçoava por ter agido de modo a sus citar tal afastamento. Jamais deveria tê-la beijado.

Ou talvez não devesse ter interrompido o beijo...

Contemplando o oceano, desejou um vento forte. A brisa que soprava era leve demais para lhe clarear a cabeça.

Bella descalçou os sapatos e se sentou sozinha, mas en tão permaneceu bastante tempo imóvel, como se esperasse amainar a dor, o desconforto. Praguejando em silêncio, Edward se acomodou a seu lado. Não, não devia tê-la beijado. Quando aprenderia a não ceder a todos os impulsos que o acometiam?

Atenta ao mapa, Isabella elaborava listas e mais listas.

Ele pigarreou.

— É... vai fazer isso o dia todo?

Ela pôs de lado caneta, papel e mapa, encarando-o.

Foi quando Edward lamentou não ter ficado de boca fechada.

Jamais aprenderia?

— É o seguinte: — resumiu . — Estou sem dinhei ro, sem carro e sem lugar para ficar. Bem, tenho onde ficar, mas graças à caridade de um senhor bondoso a quem levarei um bom tempo para compensar. — Seus olhos se encheram de lágrimas, porém reprimiu-as corajosamente e retomou o discurso: — Estou num país estranho, onde não conheço ninguém, tentando aproveitar as férias com que sonhei a vida inteira. Mas acho que essas férias vão durar só mais umas quarenta e oito horas, porque o dinheiro que me resta dá apenas para che gar ao aeroporto... mas ao menos não pagarei por excesso de bagagem, porque não tenho bagagem nenhuma. Está visuali zando o quadro?

Edward chegou a abrir a boca para falar, mas percebeu que qualquer réplica sua seria dispensável.

— Vejo que não consegue se decidir entre continuar na mi nha companhia ou se livrar de mim — prosseguia . — Não pedi resgate, você ofereceu. Tampouco pedi que me beijasse. E detesto as coisas estranhas que sinto toda vez que olho para você e toco em você...

— Coisas do outro mundo? Ela o olhou brava.

Ele se calou.

— É pegar ou largar, companheiro. Tenho uma lista de lu gares para visitar e vou visitar.

Edward ficou boquiaberto.

— Pegar ou largar?!

Isabella levantou-se, não sem dificuldade.

— Decida-se. Vou dar um passeio na praia. Quando voltar, reassumo o controle da minha vida, com as listas que elaborei. Mas saiba que, se me largar aqui, eu o processarei por quebra de contrato.

Ele estava cada vez mais pasmo.

— Quebra de contrato?!

— Prover conforto. Atender a necessidades. Que memória curta, meu senhor!

Com isso, Bella iniciou sua caminhada rumo às águas espumosas.

Edward a acompanhou com o olhar. Observou-a até alcançar a faixa molhada. Felizmente, ela usava calças pescador, ou as teria ensopado, impossibilitada de se abaixar para arregaçá-las.

Esfregando a mão no rosto, ele respirou fundo e analisou os pontos críticos da questão. A americana o perturbava. Mas não precisava puni-la por isso. E não podia negar que fora à hos pedaria de Roddy naquela manhã só para vê-la, pronto para salvá-la quando descobrisse que o ex-noivo lhe aprontara outra. Tampouco fora obrigado a levá-la até a praia. Fizera-o de livre e espontânea vontade. E ninguém o forçara a beijá-la tão apai xonadamente. Fizera-o porque quisera, bolas!

Mas isso não significava que tinha de lhe propor casamento.

Claro que não.

Podia simplesmente usufruir a companhia de Bella du rante aquele dia, relegando o beijo ao recôndito de lembranças agradáveis.

Descalçou os sapatos, as meias, deixou o orgulho para trás e foi ao encontro da americana. Devia-lhe um pedido de des culpas, e não se furtaria. Com os pés mergulhados na água salgada, Isabella estava voltada para Oeste.

Chorando baixinho.

Chegando por trás, Edward pousou as mãos em seus ombros.

— Oh, não — rejeitou ela, entre soluços. — Você de novo, não...

Ele a fez se voltar e a apertou nos braços. Esperava since ramente que ela se entregasse e chorasse até não aguentar mais, mas não foi o que aconteceu. Após respirar fundo duas vezes, ela lhe deu dois tapinhas nas costas, desvencilhou-se e passou a manga da blusa no rosto.

— Obrigada. Ajudou muito.

Edward cogitou se perdia o jeito com as mulheres, ou se era só aquela americana que não se rendia a seus encantos.

— Não precisa ter receio de me molhar — retrucou. — Minha roupa é de lã. Seca rápido.

— Mas estou bem! — afirmou, com falso vigor.

— Verdade. Foi só um lapso momentâneo de... de sei lá o quê.

já estou ótima.

— Não parece.

— Estou ótima!

— Mas...

Ela o encarou.

— Escute aqui, se eu não me controlar agora, sou capaz de desmoronar mesmo. Sou como vidro: duro, mas quebrável.

Ele continuava com as mãos nos ombros dela. E, já que estavam lá, não havia por que não erguer uma delas só um pouco, e enganchar uma mecha daquela cabeleira castanha na orelha tão graciosa.

E, feito isso, não havia por que não inclinar o rosto sobre o dela e lhe enxugar as lágrimas dos olhos com beijinhos.

Algum tempo depois, Edward ergueu o rosto e fitou Isabella. Entreolharam-se, e então ela baixou a cabeça. Desta vez, quando ele a tomou nos braços, ela não resistiu.

— Não quero desmoronar.

— Não vai.

— Mas estou no limite.

— Eu a seguro pela roupa. Você não vai cair.

Mesclando soluço e riso, se afastou um pouco para se entreolharem.

— Não sei como ver você. Nem se devo ver de alguma forma.

— Deixe comigo.

— O que vamos fazer?

Ele lhe enxugou mais lágrimas do rosto com os polegares.

— Vamos passear na areia até você se cansar. Depois, va mos almoçar. Você dá uma olhada no seu mapa. Podemos tirar uma soneca, também.

— Não é disso que estou falando.

Edward lhe pegou a mão.

— Eu sei. O que quer que a gente faça, então? Isabella desviou o olhar.

— Não sei. Mais listas, acho.

Apenas tocá-la já era tortura. Jamais experimentara algo se melhante na vida. Tudo começara em Culloden, um débil eco de consciência, tão perturbador.

— Sabe, também gosto de listas. Faço uma atrás da outra. — Mentira. Nunca elaborara nenhuma. Mas diria qualquer coi sa para agradar Isabella.

Ela sorriu.

— Não acredito.

Ela era tão linda que ele ficou sem fôlego- Ao menos, assim ficava impedido de agarrá-la. Firmou a mão dela em seu braço e iniciou a caminhada.

— Por que não?

— Tenho faro para o perjúrio. E sempre acerto. Mas não se trata apenas de você mentir mal. Acho que você não faz listas porque já tem suas prioridades.

Edward ergueu a sobrancelha.

— E quais seriam?

— Dirigir em alta velocidade. Boa comida. Nenhuma be bida.

Ele se assustou.

— Talvez tenha razão — admitiu.

— Só não sei quanto a mulheres... — Bella estacou, puxando-o para trás. — Você não é casado, é?

Edward se retraiu.

— Não mais.

— Divorciado?

Ele estava cada vez mais constrangido.

— Você é mesmo implacável, hein?

— Quando se trata de sofrer, é melhor superar logo.

Edward contemplou as ondas.

— Ela queria se divorciar. Mas morreu antes.

Isabella refletiu.

— Lamento.

— Ela estava grávida.

— Oh, Edward...

Ora, não seria ele a chorar agora! Endireitou os ombros.

— Já faz muitos anos.

— Mas ainda sente falta dela.

Surpreso, ele a encarou.

— Não. Dela, não.

Retomaram o passeio. Edward estava eufórico com a sensa ção de paz. Falara de Kate, do bebê, e continuava de pé. Talvez Isabella estivesse certa. Quando se tratava de sofrer, o melhor era superar logo, em vez de fugir, ignorar, tentar contornar. Passara os últimos anos acalentando o sofrimento.

Já perdera tempo demais.

Mude, instigava o coração.

Sim, precisava mudar. Mudar de ocupação, de atitude, de aparência...

— Vamos cumprir a sua lista — propôs à acompanhante vinda de tão longe. — Minha oferta de ser chofer continua valendo.

— Aceito. Vou ficar só mais uns dois dias mesmo... Pode passar esse tempo sem massacrar seus servos, não é mesmo?

— Creio que sim.

— Quanto vai custar? Edward a encarou.

— O quê? Acaba de me livrar do inferno, minha senhora! Será tudo grátis.

Isabella o olhou de esguelha.

— Eu assusto você?

— Perturba — explicitou ele. De repente, lembrou-se dela tocando na lápide dos MacLeod em Culloden. — Muito.

Ela inclinou o rosto para o lado.

— Ainda está disposto a me assistir?

— Em tudo.

— Então, combinado. Como fora fácil!

— À lista! — exclamou Bella.