Dianna sentiu a consciência lhe voltando com vagar, o mundo de sonhos ao que ela havia sido conduzida sendo deixado para trás aos poucos, se sentia acordar aos poucos. Sem sobressaltos, sem celulares, sem sonhos ruins. A cabeça não doía, mas estava um pouco mais pesada que o normal, estava sonolenta. Provavelmente ainda era muito cedo e também por culpa da quantidade de álcool ingerida na noite anterior. Ainda semidesperta, ela se espreguiçou em sua cama, fechando os olhos novamente, se virando de lado e acariciando o colchão com a palma da mão direita, alisando o lençol cheia de preguiça. Então o colchão suspirou... e se mexeu. Dianna abriu os olhos, franzindo o cenho e de imediato se erguendo no cotovelo para espiar. Lea ainda dormia, de bruços, ao seu lado. O rosto virado para o outro lado, a respiração calma, muito pausada, obviamente ainda adormecida e não, aquela não era a cama de Dianna. Só então ela olhou para si. O edredon branco a cobria quase por inteiro, mas ela claramente estava nua. Suspirou, voltando a se virar para Lea. Não, ela não tinha sonhado. Sentiu-se corar de imediato quando as lembranças da noite anterior se fizeram um pouco mais lúcidas. Sorriu outra vez, voltando a se deitar de costas na cama e levando as duas mãos até o rosto "o que foi que eu fiz?". O sorriso se estendeu ainda mais, em contraste à crise de consciência que o bom senso lhe impunha. Que o bom senso fosse beber um pouco também. Ela se virou de lado outra vez. Se permitiu observar Lea assim, tão de perto, tão serena. Suspirou, sem conseguir se conter. Ergueu a mão para tocá-la outra vez... e então Lea se virou, fazendo com que Dianna prendesse a respiração por uma fração de segundos. Não queria que Lea acordasse. Não agora. Ela mesma não queria acordar. Não agora... Mas Lea continuou adormecida... se ela tivesse alguma sorte, ainda poderia desfrutar de alguns minutos daquela observação silenciosa, agora numa visão muito mais privilegiada. Lea ainda estava de bruços, mas o rosto virado para Dianna. Uma das mãos estava debaixo do travesseiro, numa espécie de abraço, a outra estava junto ao corpo, descansava fechada próxima ao pescoço e Dianna não pode deixar de pensar que aquela era uma das cenas mais adoráveis que ela já tinha presenciado.

Levou a mão direita até os cabelos escuros que se espalhavam pelo rosto perfeito, levou-os para trás da orelha e suspirou de novo... a iluminação era muito pouca, apenas a luz que entrava pela pequena abertura na janela do quarto, mas o suficiente para Dianna pensar que Lea a mulher mais linda que ela conhecera. Por dentro e por fora. E de repente, ela simplesmente precisava que Lea soubesse disso... precisava falar... então se inclinou. Deixou que os lábios deslizassem pelo braço de Lea, subindo em direção ao ombro delicado que ela beijou sem pressa nenhuma. Lea suspirou, puxando o ar com um pouco mais de intensidade.

- Hum... – murmurou muito baixinho, ainda de olhos fechados, um sorriso preguiçoso se desenhando nos lábios.

Dianna não respondeu, só se deixou chegar mais perto, por baixo das cobertas. O contato extremamente suave de pele contra pele a fez suspirar também enquanto jogava uma das pernas sobre Lea, tentando puxa-la para mais juto de seu corpo. A boca então ganhou a bochecha de Lea, onde ela beijou também, cheia de carinho, os lábios roçando a pele recém beijada com vagar. Tocou o nariz de Lea com o seu, um carinho também extremamente suave.

- Você é linda...

Murmurou também muito baixinho, só então que os lábios buscassem os de Lea para um beijo tão sutil quanto os outros carinhos.

Lea suspirou, gemendo muito baixinho outra vez, ainda meio embriagada de sono. Dianna ergueu a mão direita, que ganhou a face da outra mulher ainda de olhos fechados. Tocou-lhe a bochecha apenas com a ponta dos dedos, as costas do dedo indicador substituindo-as logo em seguida. Lea simplesmente se recusava a abrir os olhos, gemeu outra vez, dessa vez num tom de ligeiro protesto.

Dianna riu, voltando a beijar-lhe os lábios.

- Preguiçosa...

Foi a vez de Lea rir, não evitando um outro gemido antes de finalmente abrir os olhos.

- Mais cinco minutinhos, mom...

- Sem mais minutinhos...

Dianna se projetou contra Lea, cujo corpo cedeu ao peso dela e rolou na cama. No instante seguinte, Dianna estava sobre Lea, uma das pernas enfiadas entre as coxas grossas, as duas mãos na cintura de Lea e o rosto enfiado entre os cabelos no vão do pescoço delicado. Lea gemeu uma última vez, enfiando as duas mãos nos cabelos loiros e puxando-a um pouco mais para si, em completo abandono. Dianna beijou-lhe o pescoço, sem pressa, se permitindo sentir o cheiro de rosas e que ela descobriu vir dos cabelos escuros.

E então, mais uma vez, Adele se fez notar. Dianna suspirou, descansando o rosto contra o ombro de Lea, que soltou-lhe os cabelos com cuidado.

- Eu não vou atender. Ele que morra de me ligar.

Lea engoliu em seco, soltando Dianna do semi-abraço que ela usava para prender-lhe. Dianna entendeu o recado... suspirou, rendida, saindo de cima de Lea, o corpo caindo novamente ao seu lado na cama. Fechou os olhos, esfregando-os com a mão direita. Maldito Alex. O celular parou de tocar... só pra recomeçar logo em seguida. Novamente foi ignorada. Lea não falou, sequer abriu os olhos... Só se pronunciou na terceira chamada.

- Se você não atender, eu vou.

Dianna suspirou, ainda esfregando os olhos, se levantou da cama, praguejando em alto e bom som, fazendo com que Lea pensasse que dona Mary ficaria pasma se soubesse as palavras que sua ovelhinha aprendeu em Hollywood.


Dianna's POV

Eu juro que qualquer dia desses eu mato esse infeliz. Mas mato mesmo, muito bem morto. Vou procurar na internet hoje mesmo as técnicas de tortura mais cruéis, pra por em prática quando ele voltar de Nova York.

E agora essa droga de trânsito infernal. Por Deus, como eu odeio segundas feiras. Como eu as odeio!

Se acalma também, né Dianna? O que ele fez demais? Pediu que você fosse vê-lo no aeroporto? Não foi isso que você prometeu que faria na quinta, quando disse que não iria poder ficar com ele no domingo?

Tá... certo... seus planos mudaram um pouco. Mas os dele não.

Alex não tem culpa. Você tem que se comportar, veja bem.

Lea fez aquela cara pra mim... Eu odeio quando ela faz aquela cara pra mim. E ela fez hoje de novo. Eu não tenho culpa, tenho? Ele é meu noivo...

Você sabe muito bem que é exatamente esse o problema... Ele é seu noivo.

Seu dia começou extremamente bem, Charlie. O cara com quem você vai se casar daqui a dois meses te ligou pedindo que você fosse vê-lo e agora você está aí, desse jeito.

Maldito trânsito... Eu já falei que odeio segundas feiras?

Barbeira é a senhora sua mamãezinha, meu caro senhor. E ao menos que você queira ver o quanto meu carro pode estragar o seu se eu enfiá-lo em sua traseira, acho muito bom continuar a dirigir.

Não, Agron, sem piadinha infame sobre enfiar na traseira hoje. Presta atenção no trânsito. Vamos voltar ao assunto que estava em pauta.

Ontem você bebeu um pouco demais, seduziu sua melhor amiga, transou com ela, dormiu na cama dela, acordou de extremo bom humor NA cama dela e... agora parece que tem uma nuvem negra em cima da sua cabeça porque teve que sair DA cama dela. Porque teve que sair... Entendeu onde quero chegar? Se Alex não tivesse tido a brilhante ideia de ligar para que você fosse vê-lo no aeroporto, você ainda estaria lá, Dianna. Você ainda estaria lá. Alex? Que Alex, né? Alex, aquele seu noivo, você se lembra?

Escuta, se você não queria ter vindo, porque veio? Porque ele é seu noivo? Você não parecia tão preocupada com esse detalhe básico ontem a noite, não é mesmo?

Droga... Você perdeu o retorno para o aeroporto. Tá vendo? Eu falei pra você se concentrar no trânsito. Agora você vai ter que pegar o retorno para o retorno.

E melhora essa cara. Como você vai explicar pra ele? Sabe que talvez vocês podem ter sido fotografados entrando na Trousdale ontem, não sabe? E sabe que ele vai ter um xilique quando souber, não sabe? Então ou você dá um jeito nessa cara ou manda ele ir pastar hoje mesmo.

Eu sei que sua mãe adora ele. Eu sei que você tem vontade de vomitar toda vez que vê ele falando pra ela que adora ir para o interior, porque você sabe que é mentira. Eu sei que você odeia desapontar sua mãe. Mas sinceramente, não vai ser ela quem vai ter que aguentar esse cara todos os dias sabe-se lá por quanto tempo ainda se vocês se casarem.

Confusa por saber que você quer terminar tudo com ele, Charlie? Eu sei que está. Mas está mais confusa ainda por se dar conta do motivo de você querer terminar. Você quer terminar com Alex pra ele não te atrapalhar mais enquanto estiver com Lea, porque sinceramente, ele parece ter posto um alarme em você e sabe exatamente quando ligar pra foder com a sua vida. Entende o que eu estou falando? Vou repetir: Você está com verdadeiro ódio do cara que você supostamente amava até três dias atrás porque ele te atrapalhou enquanto você tinha planos muito mais interessantes para você e sua melhor amiga. MELHOR AMIGA, DIANNA. Ouviu isso?

Lembra aquilo que você me disse sobre estar apenas ouvindo o corpo quando sente a pele queimando de vontade de tocá-la? Eu não tenho boas notícias. Ou essa mulher te transformou em uma viciada em sexo, daquelas o mais doente possível, ou não é só o corpo que você anda ouvindo. Porque acredita em mim, esse desejo todo definitivamente não é uma coisa normal.


A Mercedes estacionou em uma das inúmeras vagas no estacionamento do aeroporto de Las Vegas. Dianna colocou os óculos escuros antes de sair do carro. Definitivamente, a última coisa que ela queria agora era uma multidão em volta de si. Ela sabia onde ele estava. Tinham combinado... e sem delongas, seguiu para o café onde tinham conversado pela primeira vez. Ela sabia que Alex não era assim tão mau. O único problema era que ele não tinha mais os limites saudáveis das outras pessoas quando o assunto era ela. O ciúme tão fofo no início do namoro tinha se transformado em um dos maiores problemas do relacionamento agora. O pedido de casamento tinha sido feito em desespero, depois de (mais) uma crise terrível por culpa de uma foto que ela tinha postado em seu twitter na companhia de Kevin.

- Eu não aguento mais essa situação. Não aguento mais... simplesmente não aguento mais, Dianna.

Ele confessou, enterrando o rosto nas mãos, sentado em completo abandono na sala de seu apartamento. Dianna tinha os braços cruzados ao redor do corpo, os olhos ligeiramente avermelhados. Ele tinha uma capacidade incrível para fazê-la chorar.

- Não aguenta mais... – Ela concordou amargurada, concordando com um gesto de cabeça – certo. Eu vou sair daqui.

Só então ele ergueu a cabeça, atordoado.

- Você... Você vai o que?

- Eu vou embora...

- Não! – Ele gritou, socando o sofá e ela se encolheu, assustada. – Me... Me desculpa... Dianna, eu... Dianna... – Ele ganhou o chão com um único movimento, no segundo seguinte estava ajoelhado à sua frente – Por favor... não... não faz isso comigo. Fica comigo, vai... pra sempre dessa vez. Casa comigo, Di! Casa comigo...

Dianna meneou a cabeça, tentando voltar para a realidade. Tinha chego ao café já... Sentou-se à mesa de sempre. Pediu o café de sempre... e ele não demorou a aparecer, carrancudo, irritado.

- Eu não acredito que você não ia vir.

Ela não respondeu, se recusando a encara-lo, mesmo que ele estivesse sentado exatamente à sua frente.

- Dianna, eu estou falando com você.

Ela suspirou, só então olhando para Alex.

- Eu não vou me desculpar outra vez.

- Ah, não vai? Olha o que você está fazendo! É a terceira pisada na bola que você dá em um único fim de semana, Dianna! Eu já te falei que eu não sou um moleque.

Outro suspiro. Ela apoiou a cabeça nas mãos, esfregando os olhos cansados por baixo dos óculos.

- Não, Alex. Você não é um moleque.

Se levantou para ir embora. A cota de paciência com Alex pro resto do mês já estava esgotada. Ela simplesmente não conseguia sequer ficar no mesmo lugar que ele.

- Onde você vai?

- Pra onde você acha? Para qualquer lugar do mundo que eu não tenha que escutar a sua adorável voz. – Disse já se virando, dando as costas para ele.

- Não fale assim comigo! Eu sou teu marido! – Ele gritou e Dianna conteu a vontade de acertar aquele rosto tão prepotente com o máximo de força que conseguisse. Ela voltou a se virar para Alex, agora também de pé, encarando-a com olhos arregalados, os pulsos cerrados. Olhou em volta... todos os outros clientes do café pareciam olha-los agora. Ela se obrigou a respirar fundo, pra não responder-lhe à altura. Fechou os olhos, numa tentativa de se acalmar. A mão esquerda alcançando o anel colocado no dedo dos noivos. E com toda a calma do mundo, ela voltou a se aproximar da mesa de Alex.

- Não... você não é meu marido. E nem vai ser.

Falou extremamente baixo, colocando o anel sobre a mesa.

A expressão de Alex passou de raiva para desespero no intervalo de poucas frações de segundo.

- Dianna... – Chamou, visivelmente abalado, mas ela simplesmente se virou, dando-lhe as costas outra vez, enquanto caminhava na direção da porta.

- Dianna! – Ela ainda o ouviu gritar uma ultima vez, quando ganhou o saguão do aeroporto, caminhando de volta para o estacionamento se sentindo pelo menos uns vinte quilos mais leve.