Noites

Adriana Swan

Capítulo 09 – Sentimento de culpa

- Fique quieta e nada de choramingo dessa vez! Já nos basta a vergonha que nos fez ontem. – A governanta ralhou enquanto arrumava a manta sobre meus ombros.

Estávamos sozinhas nos aposentes do Rei Peter enquanto ele estava tomando banho. Havia chegado de volta ao castelo há alguns minutos, tomei um banho e fui conduzida a seus aposentos. Chegando aqui tirei a roupa e fui envolvida com um novo manto de renda, dessa vez vermelho com bordas douradas que também pouco escondia de meu corpo, mas nem me preocupei tanto dessa vez.

O quarto estava pouco iluminado e a noite já caíra. A cama bem forrada com cobertas fofas e confortáveis me parecia estranhamente convidativa e acabei lembrando do quanto foi agradável acordar ali. A sensação de calor, o macio, o quentinho. O cheiro de Peter nos lençóis.

Na verdade, estava confusa com meus próprios sentimentos. Havia o receio de estar ali, sendo sub-julgada, destinada a servidão sem escolha alguma. Havia uma dorzinha nas lembranças de meu pai e Clipse preocupados comigo, e havia (ah, como havia) ansiedade. Estava ansiosa para rever o rei.

- E não me vá falar na frente do rei de novo, senão juro que dessa vez te dou uma surra para aprenderes a se calar diante de homens – ela ralhou se afastando para olhar o resultado da manta em mim. Fez uma careta de desagrado – Deve servir assim. – Falou com desagrado. Senti-me horrorosa.

A porta do banheiro se abriu de repente e o Rei entrou.

Por Aslan! Eu já havia esquecido o quanto era bonito. À noite e com as fracas luzes dos poucos archotes acesos no quarto, o cabelo molhado não parecia tão loiro, os olhos não eram tão azuis. Sua expressão naquele momento também não parecia tão bondosa e ele parecia tenso. Vestia um longo e fofo roupão branco e gotas de água pingavam de seu cabelo. Olhou para mim de cima a baixo, sério, e senti um pouco de receio. Não parecia nada feliz (embora algo me dissesse que o motivo de seu desagrado não tivesse nada haver comigo). Olhou para a governanta que fez uma espalhafatosa reverência diante de meu Rei.

Entendi porque apesar do receio, estava ansiosa por vê-lo. Ele me fazia bem. Fazia o medo passar.

- Alteza! – ela começou de cabeça baixa diante dele – Mais uma vez lhe ofertamos nossa mais bela jovem para servir-lhe de concubina, majestade.

Agora eu era a "mais bela jovem", é? Eu estava começando a nutrir um ódio mortal por aquela mulher curvada entre ele e eu, mas fiquei quieta. Ele deve ter percebido meu desagrado.

- Está tudo bem, Liz?- o Rei perguntou olhando diretamente para mim.

A governanta não mudou de posição, continuando estática diante dele. Senti que ela ficava tensa e lembrei de suas duras palavras. Mordi o lábio e a dor me fez lembrar que estava machucado. Eu devia perder aquela chata mania ou terminaria cheia de marcas.

Fiquei calada.

- Liz? – o Rei insistiu.

Continuei calada.

- Não se preocupe com as bobagens da garota, majestade – a governanta se adiantou em explicar – ela está devidamente orientada a servir o senhor da forma que melhor lhe agradar.

A mulher terminou a frase dando uma risadinha maliciosa que me fez sentir vergonha. Muita vergonha. Na verdade, me fez sentir uma meretriz. Minhas faces coraram e baixei a cabeça diante dele também.

- Humm... – ele soltou um longo suspiro me observando, antes de continuar com a voz levemente irritada. – Muito bem, se veio deixar a concubina em meus aposentos, já pode sair e deixá-la aí.

- Certamente, majestade – ela concordou, fazendo mais uma referência.

- Agora. – Ele falou frisando bem a palavra.

- Claro, claro – ela respondeu, já se dirigindo sorrateiramente para a porta antes de falar com o rei pela última vez, já quase da porta do quarto enquanto continuava a se desfazer em reverências – Desejo-lhe uma ótima noite, majestade.

A malícia transbordando de sua voz melosa me fez querer me esconder de tanta vergonha. Em um instante a porta se fechou, ela havia ido embora.

Estava sozinha com o rei de novo.

- Liz? – ele falou meu nome me chamando a atenção para ele. Me olhava atento, talvez um pouco preocupado, mas não parecia irritado como segundos antes – Você vai falar comigo, não vai?

Engoli em seco, sem saber se devia ou não ser sincera. Decidi que valia a pena tentar. Não queria esconder nada do rei.

- Vou sim, majestade, - respondi um pouco receosa do que dizia – mas se eu falasse com o senhor na frente da governanta... bem... as conseqüências poderiam ser ruins para mim.

Um leve sorriso bondoso se formou na face dele. Isso me fez notar que eu sentia... saudades. Naquele dia enquanto lembrava da noite que passei em seus braços, (apesar da vergonha e da consciência pesada por meus atos) pensava com carinho naquele sorriso, em como era agradável, em como fazia com que me sentisse querida.

- Liz, lamento tanto que tenha que ser submetida a esse tipo de humilhação por minha causa – ele comentou se aproximando e me envolvendo nos braços.

Os braços do rei pareciam um pouco frios e o cabelo molhado pingava em seu rosto e agora em meu corpo colado ao seu. O abraço não era possessivo ou forte, ele só me envolveu. Aquele gesto me fez sentir mais próxima a ele, mas protegida.

- Tudo bem, alteza – respondi já toda entregue. Depois de tudo que passara ontem em minha primeira vez, não via mais tanto motivo para tensão em estar nos braços dele – Eu não vou culpá-lo pela forma como a governanta me trata, ou pela forma que meu povo trata suas mulheres.

A última parte da frase eu falei lembrando que ele havia comentado que em Nárnia as mulheres eram diferentes, tinham direitos a sentir coisas proibidas (como prazer nos braços de um homem), coisas estas inconcebíveis aqui nas Ilhas Solitárias.

O rei ficou me encarando um minuto, parecendo preocupado, em seguida me soltou e deu as costas para mim, andando até a cama de cabeça baixa. Por um momento achei que tivesse dito algo errado, mas em seguida Peter sentou na cama, apoiou os cotovelos nos joelhos, a mão no queixo e assumiu uma expressão inocente, culpada. Naquele momento parecia bem mais jovem do que realmente era.

-É muito nobre de sua parte, Liz, reconhecer isso. Eu realmente não tenho culpa da forma que seu povo a trata, mas...- o rei falava com calma, medindo as palavras – mas...

Ele hesitou um pouco e eu franzi o cenho. Havia algo que ele não sabia como me dizer?

- Mas... o quê, alteza? – perguntei também hesitante, sem saber se podia ou não questioná-lo, mas curiosa sobre suas palavras.

- Mas... – ele continuou olhando para o chão, como se não quisesse me encarar – mas talvez eu tenha um pouco de culpa por seu sofrimento.

Franzi o cenho mais ainda. Não, eu não achava que houvesse nenhum fundo de verdade na afirmativa do rei de que podia ser o responsável por toda humilhação que eu estava passando. Durante o dia, em casa, repassei mentalmente tudo que havia acontecido comigo no castelo e cheguei a conclusão de que o Rei só havia me aceitado por cortesia, não é como se ele tivesse exigido uma virgem em sua viagem ou algo assim. Era um costume nosso, do meu povo. The High King Peter tinha apenas acompanhado nosso costumes como se era de esperar de uma rei em sua visita. A culpa não era dele.

Mas ele bem que me parecia o tipo de pessoa que assumiria as culpas para si só por se sentir mal por minha situação. Era um bom homem, assim como um bom rei.

- Tenho certeza que o senhor não tem culpa nenhuma por nossos costumes. – Respondi bondosa.

De alguma forma, minha resposta o desagradou. Ele fez uma leve careta em reprovação ao que eu disse e suspirou fundo.

- Você já havia voltado para casa, não é? – ele comentou como se quisesse mudar de assunto – Embora o normal é que as concubinas fiquem, eles te mandaram para casa.

Pisquei algumas vezes tentando entender aonde ele queria chegar com aquele assunto. Não me fazia bem pensar em "casa" e em tudo que ela implicava (como Clipse e meu pai) quando estava com ele.

- Sim, senhor, também achei um pouco estranho – minha voz era hesitante também. – Cheguei a pensar que já não serviria mais... mas não é culpa sua se me sujeitam a servi-lo de novo, alteza. Sou uma oferta de meu povo ao senhor.

- Na verdade, é minha culpa sim, Liz – ele respondeu levantando os olhos para me encarar. Seus olhos brilhavam, assim como eu imagino que estavam os meus. Cada palavra dele se gravando em minha mente – Já havia acabado para você.

Silêncio.

Fiquei calada diante dele, incapaz de compreender o que estava claro. Ele continuou.

- Eles iam me trazer outra virgem hoje, – ele falou, parecendo envergonhado de sua atitude – mas eu disse que queria você.

Então eu estava ali por culpa do rei.

O Rei me queria.

Não a todas as outras virgens jovens e lindas, mas a mim.

The High King Peter, de Nárnia, queria a mim, Liz.

Senti-me uma rainha naquele momento.