Como Eu Vejo
Capítulo Dez – Luna e o Espelho Quebrado
"Since we talked alone
Come angels of unknown...
Come angels of unknown…"
O abraço com que Harry me apertou foi tão repentino que eu ainda estava com os pensamentos no pobre Sr. Dursley, agora estava sem família... Por um momento ele me apertou tão forte que as minhas costas doeram, mas no momento seguinte eu pensei em como ele estava abalado, e pior, pensei em Ginny. Isso me fez não retribuir o gesto. Ele me soltou e eu desviei o olhar.
-Acho que temos que voltar para a Ordem. – ele falou, hesitante. Ou eu queria ouvi-lo como se ele hesitasse?
Eu normalmente perguntaria se ele queria mesmo voltar... Ter que encarar todos os outros membros e dizer que tínhamos chegado tarde demais com certeza significaria admitir uma derrota, coisa que não toma grande parte da rotina de Harry.
Ao mesmo tempo, se eu perguntasse se ele queria fazer um desvio e se sentar num banco de um parquinho poderia sugerir que eu queria ficar a sós com o namorado-quase-noivo da minha amiga. E eu não podia fazer isso; seria perseguida por diabretes rosados de Afrodite durante todos os sonhos de toda a minha vida. A magia pune traição de uma forma rígida demais, eu diria.
No fim, permaneci calada.
-Luna? – Harry estava me fitando.
Virei a cabeça lentamente, sem fitá-lo nos olhos.
-Tem algo errado?
Sacudi a cabeça.
-Claro que não. – me apressei a dizer. – É normal que você esteja triste, não eu... Eu me lembro da minha mãe ainda, sabe, e eu me lembro como dói. Nós apenas perdemos a família uma vez...
Foi a vez dele baixar a cabeça.
-É, só uma vez. – ele repetiu, em voz muito baixa.
Foi a primeira vez, em toda a minha vida, que eu percebi que estava sendo inconveniente. Ficar lembrando que ele tinha acabado de ver os corpos da tia e do primo... Como eu era insensível, vejam só.
-Eu e a Tia Petúnia... Não nos dávamos muito bem. – ele confessou, passando a mão pelo cabelo, que ficou em pé como se tivesse recebido um choque. – Mas mesmo assim...
-Ela meio que ligava você com o mundo – eu acrescentei, tentando me colocar no lugar dele.
-É. – ele concordou depressa.
Ficamos em silêncio. Havia uma mecha de cabelo entre os meus dedos que ficava escapando o tempo todo. Parecia até que eu estava mexendo em Harry, não em mim mesma. E mexer em cabelos alheios... Principalmente em cabelos alheios que tenham namorada... Não é uma boa idéia.
-Vamos voltar para a Ordem da Fênix. – murmurei, depois de um instante desconfortável.
-Harry! – um segundo e Hermione estava pendurada no pescoço dele.
Ron Weasley estava encostado no batente da porta da sala; Tonks, que estivera dormindo com a cabeça no ombro de Lupin, acordou de súbito com o ruído da nossa chegada e bateu com tudo no queixo do professor. Agora, várias coisas aconteciam ao mesmo tempo: Hermione, na ponta dos pés, fazia uma dezena de perguntas que Harry não conseguia responder, porque tudo que via era o cabelo dela e um fraco vislumbre de Ron com o cenho franzido. Não era ciúme, pensei eu, já que ele fazia exatamente a mesma expressão quando chegava de alguma missão na rua. Tonks estava se desmanchando em desculpas e Lupin massageava o queixo, ao mesmo tempo que tentava se levantar para ouvir as novidades de Harry.
Ginny? Ela estava parada com os braços cruzados, do outro lado da sala, no caminho para a cozinha. Não parecia muito feliz, mas dava pra ver que estivera preocupada.
Eu? Eu fiquei ali parada, do jeito que tinha chegado, e esperei que todos contassem todos os dedos das mãos e dos pés de Harry, de modo que pudéssemos ouvir menos gritos de Hermione.
-Ele está inteiro sim, Mione – Ron foi o primeiro a perder a paciência. Depois ergueu a cabeça quando a namorada fechou a cara, voltou-se e olhou-o, emburrada. – Ei, cara. Como foi lá? – arriscou.
Olhei para Harry e o vi soltar um suspiro de cansaço.
-Bem... – ele começou, mas Neville chegou tropeçando do porão. Harry pigarreou, fechou os olhos e disse: - Chegamos tarde demais.
Um silêncio tumular encheu a sala enquanto todos nós o víamos dar meia dúzia de passos e se jogar no sofá ao lado daquele ocupado ainda por Tonks e Lupin.
Só então, uns cinco minutos depois de nossa chegada, ou ainda mais, eles perceberam que eu estava ali parada.
-Luna... – começou Hermione.
-Não... Não tinha ninguém mais lá quando chegamos, só o tio de Harry. – murmurei, surpresa com o tom cuidadoso que ela dispensara a mim. Geralmente Hermione não se dava ao trabalho de me ouvir...
-Vamos para a sala de reuniões – falou ela, apressada, vendo a gravidade da situação.
-Hermione – disse Lupin. – São duas e meia da manhã. Você acha realmente necessário irmos para a sala de reuniões? – ele depois se voltou para mim. – Sente-se, Luna.
Pisquei e depois me movi lentamente para uma poltrona. Ron e Hermione sentaram-se dos lados de Harry, e Ginny continuou encostada à parede, ao lado de Neville, sem dizer nada.
Harry estava com o rosto virado para o chão, com as mãos no cabelo. Ele estava evitando os olhos de todos nós, de novo, e eu me entristeci. Achei que ele não fizesse mais aquilo. Lupin, vendo o estado dele, decidiu liderar a discussão.
-A primeira pergunta é... Quantos foram até lá?
Ele sacudiu a cabeça.
-Não sei. – ele disse. – Não perguntei.
-Não perguntou? – Hermione repetiu.
-NÃO PERGUNTEI! – gritou ele, finalmente explodindo. Ele ergueu a cabeça e quem não agüentou vê-lo fui eu, porque ele tinha lágrimas que avermelhavam os olhos, brilhantes como se fossem de vidro. Todos ficaram em silêncio quando ele desabafou. – Meu tio mal acordou e começou a berrar sobre como deveria ter me trancado num reformatório! Ele estava ocupado demais para me fazer um relatório, eu suponho!
Seguiu-se a isso um momento no qual todos trocamos olhares. Lupin ergueu as sobrancelhas pra mim, suspirando.
-Luna?
-Eu... Acho que foram muitos. – ela disse. – Porque os móveis estavam revirados, para abrir caminho... Quando foram só dois deles na minha casa, eles se ocuparam quebrando coisas, mas esses quiseram passar e cumprir a... a tarefa deles, eu acho.
-Então Voldemort não estava lá, não é? – perguntou Ron, que até hoje estremece um pouco ao dizer o nome dele.
Sacudi a cabeça, mas sem ter muita certeza.
-Eu duvido. – Harry cortou a pausa. – Ele não correria o risco de matar alguém da minha família pessoalmente de novo.
-Precisamos ajudar o seu tio, Harry – Tonks murmurou. – Ele ficou sozinho numa casa revirada... De manhã os trouxas vão querer saber o que foi. Sem falar que, bem... A maldição não deixa marcas, e...
-Acho que nós podemos mandar alguém da Ordem que tenha jeito com os trouxas. – Hermione disse. – Kingsley, ou quem sabe McGonagall...
-Minerva está ocupada. – falou Lupin. – Vou chamar Kingsley – e levantou-se. Parou, olhou em volta e suspirou mais uma vez. – Desculpe por não acreditarmos logo em você, Harry.
Ron e Hermione trocaram olhares culpados, Neville seguiu Lupin – com certeza para pedir alguma explicação para o que estava acontecendo – e eu troquei um olhar com Ginny. Ela parecia cansada e, de certa forma, magoada. Estava guardando algo pra dizer, mas eu não sabia o que era.
-Vamos dormir – concluiu Tonks, quando Lupin passou pela porta da cozinha.
Eu me prometi não olhar mais para Harry e me levantei. Ginny parecia determinada a ficar a sós com ele, já que foi a única a não se mexer no minuto seguinte. Ron e Hermione subiram as escadas na direção dos quartos, Tonks com eles, e eu fui até a cozinha, sem muita pressa.
Condenável, mas eu queria ouvir o que Ginny queria falar com Harry. Na maior parte das vezes, eu conseguia saber o que ela estava pensando, apenas em olhar para ela. Mas Ginny estava tão séria e tão estática naquela noite que eu não podia me conformar em não compreendê-la. De qualquer forma, fui até a cozinha e encontrei Neville e Lupin na cozinha.
-... E a tia de Harry já estava morta quando eles... Ah, Luna – Lupin se virou depressa quando eu fechei a porta. – Tudo bem com você?
Assenti, devagar. No fundo queria que eles terminassem de conversar depressa para que eu ficasse sozinha ali. Neville arregalou os olhos para mim e sentou-se numa das cadeiras.
-Ficar com ele num momento como aquele não deve ter sido fácil – Neville comentou, erguendo os olhos. – Harry pode ser muito explosivo quando o provocam através de outras pessoas.
-Sim, ele gritou com o tio dele, e não foi a coisa certa a fazer, eu acho. – me ouvi murmurando. Lupin pôs a mão no queixo e se encostou à parede. –O tio dele estava muito triste, e eles discutiram. Harry continua pensando que ele terá culpa se nós tomos morrermos.
-Enfim – disse Neville. – Não sei... Se ele é o único que pode matar Você-Sabe... – ele parou e olhou para Lupin de relance. – Voldemort... Todos estaremos condenados se ele morrer... Não é?
Sacudi a cabeça e Lupin endireitou-se, surpreso.
-Já não é fardo demais ser responsável pela vida da gente? Quero dizer, a gente pode ser tanta coisa, não é? Se eu duelasse com um Comensal da Morte e ele me vencesse, mesmo depois que Harry tivesse morrido, a culpa da minha morte seria minha... Não é?
Eu estava me sentindo insegura. Estava falando coisas tolas, e no fundo só queria saber o que Harry estaria falando com Ginny. Eu tinha que retomar o meu controle, mas não conseguia me concentrar mais!
-Sabem – disse Lupin, com um sorriso saudoso. – Muita coisa teria deixado de acontecer nas duas guerras, se as pessoas se responsabilizassem por sua própria vida. Dumbledore foi o único, o tempo todo, que não colocou a vida dele nas mãos do Harry. Ele dizia... Que nós nunca conseguiríamos vencer completamente as Artes das Trevas.
Ficamos em silêncio, e ele se sentou.
-James estava comigo, e Sirius também... – Ele fez uma pausa. – E eles brigaram com Dumbledore quando ele disse isso. James falou que não era justo, e que se fosse assim não valeria a pena lutar pela Ordem da Fênix. Sirius chutou a mesa, porque tinha acabado de chegar de uma missão fracassada comigo e estava nervoso... Então Dumbledore apenas sorriu e falou que nós devíamos continuar lutando, e que as Artes das Trevas apenas venceriam quando nós nos recusássemos a lutar.
Ergui os olhos, e vi que Neville tinha os dele marejados. Eu também, mas estava tão fora de mim que não me dei conta. Dumbledore era um bruxo legal, no fundo. Eu sempre gostei dele, porque tinha a sensação estranha de que ele se parecia um pouco comigo. Quando ele falava coisas absurdas, eu era a única que ria e toda a mesa da Corvinal se virava para mim.
-Eu vou me deitar – Lupin disse, erguendo-se. – Boa noite, para vocês dois.
Ele saiu e nós ficamos ali, em silêncio, sem querer conversar.
-Naquela missão – começou Neville, e eu ergui a cabeça. – Foi naquela noite em que os Comensais pegaram os meus pais.
Desde que eu chegara à sede da Ordem da Fênix, já tinha ouvido uma série de histórias. Dois dias a menos e eu não saberia de todo o conto sobre o feitiço que protegeu os pais de Harry e o próprio Harry, e sobre como ele e Neville nasceram no mesmo dia. Fazia sentido, Lupin e Sirius Black poderiam perfeitamente ter estado lá para defendê-los. Lupin apenas não quisera dizer nada na minha frente.
-Eu sinto muito – falei, observando aquela expressão que misturava saudade e raiva, que Neville deixava transparecer às vezes.
Ele assentiu.
-Teve notícias do seu pai? – ele perguntou.
-Meu pai? Ah, na verdade não. Mas sabe de uma coisa? – parei por um minuto e olhei em volta. – Ele está vivo...
-Como você sabe?
-Porque eu estaria sozinha sem ele... Assim como o Harry não tem mais parentes de sangue, agora. Mas quando ele me falou, perto da casa do tio dele, que estava sozinho no mundo, eu tive a impressão de entender o que ele dizia, embora não estivesse na mesma... Ou quem sabe eu apenas me acostumei a pensar que nós vamos resgatá-lo? – concluí, sentindo-me tranqüila de uma forma estranha quando disse aquilo.
Neville suspirou, me desejou boa noite e foi tomando o rumo dos porões. Quando eu perguntei o motivo, disse que preferia passar a noite lá, porque havia uma safra de plantas que poderiam maturar a qualquer instante, e deviam ser colhidas no momento exato em que gritassem em soprano.
Eu já tinha me distraído de tal forma que apenas parei de andar até a porta quando ouvi as vozes de Harry e Ginny do outro lado.
-Ginny, seja razoável! – Harry falou, num tom muito próximo do grito.
-Eu, ser razoável? – ela replicou, e sua voz estava meio quebrada, como se estivesse chorando. – Você passa anos fechado, fugindo de mim, para quase morrer e depois me dizer que me ama... E eu aqui, acreditando em tudo... E mesmo agora, que pelo menos suporta que eu chegue perto de você, insiste em não me dizer o que se passa na sua cabeça!
-Você está sempre duvidando – ele acusou, num tom meio amargurado. – O tempo todo quer que eu prove que eu te amo... Como se eu fizesse um favor a cada vez que digo isso!
Uma sensação extremamente desconfortável passou por mim, quando ele disse aquilo. Uma conversa que eu não devia ouvir, sobre coisas que eu não deveria saber, mas que ao mesmo tempo não me deixava mexer um dedo sequer. Eu...
Por um bom tempo, que foi na verdade aquele tempo no qual fiquei fechada em meu novo quarto, jurando para mim mesma nunca mais sair, fiquei me perguntando se eu poderia, realmente, estar traindo Ginny de tal maneira. Eu não sei se normalmente as pessoas consideram pensamentos como traições, mas eu não tinha mais paz desde que comecei a olhar para Harry... Bem, do mesmo modo como Hermione olha para Ron. Eu não tenho idéia do que fazem namorados, já que nunca namorei. Quero dizer, é claro que eu sei que eles se beijam e que fazem outras coisas além de apenas dormirem na mesma cama, tendo crescido na Corvinal, onde esses assuntos são discutidos tão abertamente.
Mas a questão que me tirou o sono foi: como será um beijo?
As bocas se encontram, essa parte eu já sei porque qualquer um de fora pode ver. Parece que as línguas se misturam também, mas isso deve ser nojento, não é? O que será que existe de tão hipnótico nessa coisa de beijo que faz com que as pessoas passem dias a fio, apenas pensando nisso? Eu vi meninas se debulhando em lágrimas na sala comunal, porque seus namoros haviam acabado... E às vezes eu nem mesmo sabia se elas sentiam falta do namorado ou do beijo, porque enquanto soluçavam, não clamavam pela bondade, ou pela compreensão que o garoto tinha com elas.
Quando Ginny gritou, fui arrancada das minhas divagações.
-Sabe de uma coisa, Harry? – ela dizia, aparentemente desistindo de qualquer auto controle. – Desde que você me abandonou no quinto ano, eu estive correndo atrás de um herói, e não mais de um homem! Talvez, Harry, você seja tão elevado com seus ideais e suas responsabilidades, que algo tão fútil e passageiro como um namoro não signifique tanto pra você!
Passos ressoaram no outro extremo da sala, e eu decidi ser seguro abrir um pouquinho a porta, para ver as expressões deles. Harry era quem tinha andado, e até Ginny. Ela estava de costas e ele a girava pelos ombros.
-Se você soubesse, Ginny – ele murmurou, com uma dor contida na voz, e com um tremor cheio de mágoa – Quanto medo eu tive por você. Quando os Comensais da Morte me perseguiam, quando eu não tinha onde ficar nem o que comer, nos meus pesadelos apenas aparecia aquela imagem maldita deles te encontrando, te levando com eles...
E soltou os ombros dela.
-Eu te protegi, Ginny! – ele exclamou, tão sentido que o meu próprio coração ficou pequeno por ele. – Eu achava que não tinha chance de encontrar Horcrux alguma... E que logo Voldemort me alcançaria e descobriria o que eu estava tentando fazer, e tudo que eu sabia... Mas eu só conseguia pensar em ir pra longe de você, para atraí-lo para bem longe de Ottery Saint Catchpole!
Ela se sentou no sofá, e suas mãos tremiam. Harry estava em pé, de costas para ela.
-Eu não sou feita de louça...
-Eu sei que não! – ele devolveu, afastando-se dela. – Mas eu não queria te ver no meio daquilo. Eu...
Ele ficou quieto.
-Eu quis guardar você, Ginny – ele murmurou, tão baixo que eu mal pude ouvir -, como se fosse uma caixinha de música, que eu fecho na hora do terremoto, porque não posso ouvir a música. Eu quis acabar com tudo, para depois retomar de onde nós havíamos parado...
Poucas coisas que Harry disse na vida foram tão bonitas, tão tristes e, para mim, tão cruéis. Ele a amava... De verdade... E era tão bonito...
-Eu quis ficar do seu lado, Harry, e você nunca aceitou. – ela sussurrou, tentando controlar a voz.
Ele não disse nada. Será que ela não entendia que ele a amava, apesar de tudo?
-Você quer atenção. – ele falou. – E eu não posso...
Eles não terminavam mais as frases. Aparentemente, pensei, a briga estava chegando ao fim.
-Ginny Potter não me soa mais tão bem como antes. – ela disse, amarga. – Vou ficar no quarto do fim do corredor.
Levantou-se e, a passos lentos e de cabeça baixa, ela foi andando até as escadas, e depois até os andares superiores.
Havia tantas lágrimas correndo pelo meu rosto naquele momento que eu mal podia enxergar. Harry não se moveu por uns minutos, e eu saí da porta. Por Merlin, que ele não venha até a cozinha... Eu não quero que ele me veja agora...
Logo eu ouvi passos mais vagarosos ainda se movendo até lá em cima.
De repente todos os sentidos tinham se invertido. De repente não parecia mais claro como água que meu pai estava vivo e bem, porque eu me senti sozinha como nunca. Ginny, que eu considerava minha amiga, eu havia traído. De Harry eu não poderia mais me aproximar sem sentir coisas inadequadas, entre elas uma pena insensível de mim mesma. Eu sei que não devia... Só podiam ser aqueles malditos bichinhos, os Cianetes de Tétis, agindo sobre mim de novo. Os Cianetes de Tétis atingem todas as pessoas apaixonadas, e esses espíritos ficam voando dentro da cabeça dessas pessoas, rindo de seus pensamentos, cortando uns e colando em outros... É por isso que nós sonhamos acordados, sabia?
E mesmo conhecendo satisfatoriamente os ângulos daquela questão, eu não conseguia deixar de ver Ginny como se fosse a cruel da fábula. Harry só quisera protegê-la... Eu ficaria tão feliz se ele quisesse me proteger...
Mas Ginny era a caçula de meia dúzia de irmãos ruivos, e devia estar cansada de ser protegida. Ela queria que as pessoas vissem que ela não era frágil com tanta ferocidade que vejam só o que acabou fazendo.
De qualquer maneira, eles não estavam mais juntos, idéia essa que eu considero até hoje muito difícil de conceber, porque Harry e Ginny sempre pareceram tão certos que ninguém duvidaria de uma vida longa em comum. Quando o herói e a mocinha resolvem se separar, as coisas simplesmente parecem sair dos eixos... Se nem mesmo Harry e Ginny estavam juntos agora, que se poderia dizer do amor?
Afinal, o que podia dizer eu do amor?
De qualquer maneira, até agora minha única posição foi de espectadora, sabem, e isso me faz ver com clareza que foi Ginny quem terminou. Harry ainda gosta dela, e neste momento deve estar se sentindo pior ainda do que quando viu seus últimos parentes mortos...
Por que ela teria feito aquilo, justamente naquela noite? Por que tinha esperado que ele chegasse, independentemente das notícias que trouxesse, para romper a relação com ele? A única mudança que ocorrera nela naqueles últimos tempos era a de aparência, que a fazia virar a famigerada Diana Higgs...
E tudo se encaixou. Por um momento insano eu experimentei a idéia de Ginny apaixonada por Draco Malfoy. E no momento seguinte o meu riso ecoou no quarto vazio. Só quando eu ri dessa maneira me dei conta, mais uma vez, da minha solidão. Eu não conseguia me sentir tão triste assim, porque estava ocupada me lamentando por Harry. Como ele devia estar mal naquele instante!
Eu não era assim, pensei comigo mesma, apertando um travesseiro contra o meu rosto. Eu não tomava partidos dessa maneira em assuntos entre os meus amigos. Eu estava me tornando egoísta, e não queria isso. Eu via Ginny como uma vilã porque queria que Harry continuasse parecendo perfeito para mim mesma, o que é ridículo, porque ele é uma pessoa normal... Eu sei que ele é uma pessoa normal...
Eu queria que ele me abraçasse daquele jeito de novo, se querem mesmo que eu confesse.
Na manhã seguinte eu tinha olheiras, e não eram das delicadas. Tinha dormido mal e sonhado coisas desconexas, que levaram o dia todo para voltarem para a minha mente. Meu cabelo estava mais esquisito ainda do que de costume, e eu perdi minha varinha em algum lugar no meio dos lençóis. Quando finalmente a encontrei, desci para a sala a passos curtos, olhando os quadros e tentando rir das coisas que eles diziam...
Assim que me sentei no sofá, Kingsley Shacklebolt entrou, tirou uma capa de chuva imensa e olhou para mim.
-Olá, Luna. – ele disse.
-Olá – respondi, sem saber se perguntava se estava tudo bem com ele ou não.
-Remus está por aí? – ele perguntou, parecendo entender o meu dilema.
-Ah, deve estar – resmunguei, porque ainda não tinha visto ninguém. O que era estranho, já que já estava bem tarde.
Kingsley virou os olhos.
-Muito bem, eu vou dar uma olhada.
Tão logo ele disse isso, a porta se abriu com um baque alto, a chuva e o vento vieram com força do hall de entrada, e eu me arrepiei. Kingsley se virou e viu Tonks.
Ou pelo menos eu achava que era Tonks, porque não é fácil ter certeza.
-Ah! – exclamou ela, e acho que falava sozinha. – Que tempo azarado! Será que tinha que chover desse jeito justamente hoje? Veja só o estado desse cabelo... – E tirou também uma capa, guardou uma vassoura no armário e sacudiu a cabeça como um cachorro molhado. Os fios, curtos e pintados de rosa-chiclete (era o tom que eu mais gostava de ver nela), jogaram gotas d´água no chão.
Ia continuar falando sozinha e amaldiçoando a metereologia, quando Kingsley falou de novo.
-Ei, Tonks – e ela se assustou, erguendo a cabeça. – Você sabe do Remus?
-Ele saiu cedo com o Harry... – murmurou ela, ainda surpresa de nos ver ali. – Beleza, Luna? – acrescentou ela, pra mim. Eu assenti e ela ficou séria. – Eu não sei aonde eles foram, estou chegando agora do Ministério... Aliás, conheço um certo chefe de departamento que não apareceu lá...
-Foi por isso que eu vim. – ele ribombou de volta, passando uma mão pelo cabelo. – Dursley teve outro ataque quando eu cheguei lá. Eu fiz o possível. Levei alguns obliviadores e, bem, nós tivemos que disfarçar as mortes.
Pus a mão na boca.
-O que vocês fizeram? – perguntei, inocentemente.
-Bem – ele não parecia confortável em responder – Nós fomos forçados a pegar um daqueles revólveres trouxas e dar uns tiros na mulher e no menino. Foi por isso que o homem ficou tão possesso, ele não queria nem que chegássemos perto.
Não era nada difícil imaginar o Sr. Dursley mais uma vez gritando a plenos pulmões que os corpos de sua família deveriam permanecer intocados. De certa forma, eu também não deixaria, a não ser que não houvesse outra alternativa...
-Inventamos uma história trouxa de assalto. – Kingsley continuou, depois que Tonks pediu. – E você, Nymphadora? Estava no Ministério?
-Nem brinca! – ela suspirou, ainda remexendo no cabelo. Depois tentou conjurar uma toalha, mas como só conseguiu convocar um jogo de jantar, Kingsley fez isso para ela. – Eu estava lá, mas bem longe da seção dos Aurores.
-Missão muito secreta? – perguntei, para saber se eu devia sair ou não.
Outra interrupção impediu que ela respondesse, mas não foi a chegada de ninguém; eram apenas risos, vindos da cozinha. Não eram vozes difíceis de reconhecer, inclusive.
-Ron! – Hermione exclamou, abrindo a porta.
E o riso bobo que ela tinha no rosto sumiu assim que nos viu. Ron esbarrou nela, nos viu e também ficou quieto.
-Apesar de tudo, a noite foi divertida, não? – Tonks caçoou, quando ambos enrubesceram.
-É legal ver as pessoas felizes assim. – comentei, quase pra mim mesma.
-Cadê o Harry? – perguntou Ron. – E a Ginny?
-Ginny ainda está na cama. – Tonks replicou. – E Harry deve chegar a qualquer momento. Eu tenho novidades!
Todos olhamos com atenção redobrada para Tonks.
-Novidades? – Hermione repetiu, recuperando o ar sério.
-Sim! – Tonks exclamou, parecendo muito satisfeita consigo mesma. – Eu devia esperar que Harry chegasse, mas eu não agüento... Vejam só: eu estive ontem com a prima velhoca de Hepzibah Smith!
Para mim, tanto faria se ela tivesse conversado com uma irmã perdida, uma bruxa excepcional ou quem sabe o primeiro ministro da Inglaterra, porque eu nem fazia idéia do que ela estava falando.
Mas Hermione pareceu reconhecer o nome, bem como Ron.
-Tonks! – exclamou ela. – Como você conseguiu isso?
-Pois é! – ela riu da surpresa dos outros e da minha expressão quase nula. Kingsley se sentou, interessado, e Tonks começou sua historia.
-Vejam só, eu revirei todos aqueles registros antigos de objetos históricos das famílias bruxas, mas aquele arquivo estava uma tremenda zona, se querem saber. Tinha tanto pó que Arthur teve que me ajudar a limpar tudo para que eu parasse de tossir! – ela fez uma expressão indignada. – E realmente, os registros da taça de Hufflepuff estavam com o nome daquela velha Smith... Ela era sozinha, vocês sabem, a família achava que ela era meio doida... Sem falar daquela elfa, que acabou acusada de envenenar a coitada. A casa dela foi reformada todinha, e agora tem uns bruxos pomposos, acho que se chamam Purpleborn... Eles me olharam com uma cara quando eu entrei lá, cara, que vocês não acreditariam...
-Muito metidos? – grunhiu Ron, querendo apressar a narrativa.
-É! Por aí... E me disseram que conheciam uma filha de uns Smiths, por aí... E que o nome dela era Lucy. O problema é que não tinham idéia de onde ela morava! E então o que acontece? Lá vai a Tonks para o Ministério de novo, para o Controle de Mansões Mágicas...
A história de Tonks tinha tantos detalhes confusos que ficou difícil acompanhar. O que é importante, e que eu consigo me lembrar, é bem menos. Ela acabou descobrindo que a tal Lucy tinha se casado com um tal de Dalton, mas era neta de um primo daquela tal Hepzibah Smith...
Lucy Dalton era jovem e fútil, mas de um jeito que Tonks fez ficar engraçado.
-Oh, querida, sente-se aqui – ela gesticulou com um floreio na direção de um sofá, e Tonks se sentou, muito séria.
-Bem, Sra. Dalton, eu queria perguntar umas coisas...
-Posso lhe servir um chá, querida? – cortou Lucy Dalton, mexendo nas mechas loiras e com um olhar estranho para Tonks e seu cabelo nada comum.
-Não, obrigada – Tonks disse, olhando em volta. A mansão era bem grande, e Tonks passou alguns minutos longos, apenas descrevendo a sala. Acho que ela é meio amarga com essas coisas de mansões grandiosas, já que por direito deveria ter vivido em Grimmauld Place desde pequena, se seu pai não fosse trouxa.
-Então um bolo, eu suponho?
-Não, não quero anda – ela cortou depois de uns cinco minutos. – A senhora é neta de Josiah Smith, não é?
Só então a mulher parou e fitou Tonks de verdade.
-Sim, sou, por quê?
-Você sabe de alguma coisa sobre Hepzibah Smith, a prima dele?
-Ah! – Lucy soltou uma gargalhada estrondosa. – Aquela maluca! Meus avós falavam dela quando eu era pequena. Veja bem, senhorita...
-Tonks.
-Veja bem, senhorita Tonks... Oh, nossa, como eu posso ter te deixado entrar sem nem mesmo saber seu nome? De qualquer modo, aquela Hepzibah só trouxe desgraça para a nossa família! Ela deveria pelo menos cuidar dos tesouros... Meu avô conta que ela guardava tantas coisas valiosas! E todas estavam em nossa família desde a fundação de Hogwarts... Então aquela elfa doida acabou evenenando-a... E nós temos certeza de que entraram e levaram os nossos lindos tesouros! Nós nunca soubemos direito o que ela tinha... Imagine só!
-Mas e essa elfa? – Tonks insistiu. – Como se chamava mesmo?
-Ah, eu não faço idéia – Lucy respondeu. – Depois que a dona morreu, ficou louquinha... Falava sozinha e não prestava pra ninguém da família. Então nós demos roupas a ela, entende? Ela ficou vagando, e nunca mais soubemos dela.
Tonks suspirou quando terminou de contar.
-Pobre Hokey! – exclamou Hermione, com os olhos cheios de lágrimas. – Os elfos sempre são tratados como nada... Ela se sentia culpada pela morte da dona, e nem mesmo tinha sido ela!
Ron virou os olhos, mas Hermione não viu.
-De qualquer maneira, isso não nos leva a nada. – resmungou Ron. – Que rumo essa elfa levou depois que a velha morreu não tem importância, Voldemort já tinha conseguido a Horcrux dele...
Quando ele disse isso, a porta de abriu de novo, e Harry entrou com Lupin. Tão logo Harry voltou os olhos pra mim, me interessei pela almofada que segurava no meu colo.
-Olá, cara – disse Ron – Tudo bem com vocês?
-Aonde vocês foram? – perguntou Hermione, ansiosa.
Lupin olhou para ela com uma expressão de encerrar conversa, e todos fizemos de conta que ela não perguntara coisa alguma.
-Que bom que vocês chegaram – disse Kingsley – Tenho algumas coisas a reportar, Remus.
Os dois andaram devagar até Kingsley, e eu me levantei.
-Eu... Vou tomar um café.
Ninguém pareceu reclamar, então eu apenas fui para a cozinha. Assim que passei pela porta, encontrei Ginny sentada à mesa, com uma mão trêmula segurando um copo de leite.
-Ginny? – eu disse, antes que me contivesse.
-Eu estava vendo as plantas lá no porão com o Neville – ela explicou. – Por isso Ron e Hermione não me viram aqui.
-Ah, certo. Tem mais leite? – perguntei, como se não tivesse ouvido nada ontem à noite.
-Tem, é só pegar.
Antes que eu terminasse de encher o meu copo, Ginny suspirou.
-Eu e Harry terminamos.
E o leite escorreu alegremente pela pia e depois por boa parte do chão da cozinha.
Ela me disse que tinha sofrido demais durante tempo demais, e eu não disse nada. Apenas fiquei ouvindo. Com uma sensação fria de culpa, mas ouvi. Ela não me disse muito, na verdade. Apenas que achava que Harry não era, afinal, o tipo amoroso. Fazer o quê? Ele era o herói de todo o mundo bruxo e trouxa, não tinha tempo nem energia para namorar.
Até que eu não achei as palavras dela tão infantis, porque desconfiava que não eram verdadeiras. Aquela hipótese que incluía Ginny e Draco na mesma cama fazendo coisas que eu não podia imaginar ainda não fora esquecida.
Ah, é verdade, eles já estiveram na mesma cama.
Vejamos se estou certa.
-Vai ficar o dia todo na mansão hoje? – perguntei, depois de finalmente limpar toda a bagunça do leite.
Ginny tentou não sorrir, mas não conseguiu.
-Não, não vou.
Eu me senti aliviada de ver aquele sorriso. Diminuiu a minha culpa, e eu queria demais parar de me sentir uma traidora.
-Você gosta daquele Draco Malfoy, não é?
O rosto dela caiu da mão que o segurava.
-Gostar? – repetiu ela, os olhos castanhos bem arregalados. – Não seja absurda, Luna... Mas sabe, eu tenho que te confessar que essa missão está ficando engraçada.
Ficamos em silêncio por um momento. Ginny baixou a cabeça e encarou o fundo de seu copo.
-E não deve durar muito tempo. – ela confessou. – Vou acabar logo com isso e me livrar dele.
Escritos Negros a tarde toda. Lupin me disse que mandou um amigo dele ir até a redação do The Quibbler, mas não conseguira nenhuma informação de Carmichael. Quando o membro da Ordem mencionou o nome do meu pai, ele ficou gago de repente, com os olhos cheios d' água, e perguntou se ele sabia de alguma coisa. O Quibbler vinha agora com um editorial exaltando o meu pai, falando de seu espírito engajado, como se ele estivesse morto. Mas, de acordo com Lupin, Carmichael falava como se meu pai fosse voltar a qualquer momento; como se estivesse viajando e tivesse se esquecido de avisar na redação.
Carmichael perguntou de mim. O homem respondeu que não sabia de mim também, e falou, para deixar a coisa mais remota, que nem sabia que meu pai tinha filha, ou era casado. Carmichael ficou contando a história da morte da minha mãe até que ele foi embora.
-Então nada – Lupin concluiu. – Não tivemos nenhum avanço. – e passou a mão pela cabeça.
O desenho dos Escritos era cada vez mais familiar, pra mim. Eu ainda não havia dito nada nessas linhas para Lupin, porque seria lhe dar uma esperança que não era certa. Eu tinha que me lembrar...
O caso foi que no fim do dia, se você me perguntasse, eu nem me lembrava mais de quem era Hepzibah Smith, ou das palavras que Ginny usara para me dizer que não era mais namorada-quase-noiva de Harry. Eu estava com a cabeça cansada, e meio enevoada, como a gente fica depois de estudar muito para uma prova. Lupin tinha arrumado pergaminhos novos com histórias antigas sobre bruxos e os caracteres que inventavam como comunicação secreta, e nós juntamos tudo com mais contra feitiços descobertos por Ron e Hermione.
No fim do dia, claro, eu tive uma crise nervosa. Fui até o meu quarto para ficar triste, e consegui. Meia hora depois eu descobri o motivo principal, que explicava o choro. E não era Harry, nem meu pai, nem os caminhos que davam no início de novo: era a minha menstruação.
Aquilo não me animou, não. Pensar que eu era uma mulher fértil não me trazia muito consolo. Achar que eu era normal também não, e nem a seguinte meia hora diante do espelho, tentando me convencer de que nós conseguiríamos. Só fiquei olhando bem dentro dos meus olhos, por muito tempo. Vi que na verdade não sou tão alta quanto queria, e que se o Harry um dia quisesse ficar comigo eu pareceria pequena demais perto dele...
Mas que espécie de sonhos eram aqueles? "Se Harry um dia quisesse ficar comigo"? Eu nunca me subordinei a ficar devaneando sobre nenhum menino de Hogwarts, e pretendia continuar daquela maneira, por mais, erm, apaixonada que eu pudesse estar. Eu só queria que de vez em quando ele saísse da minha cabeça. Porque doía pensar nele, e doía lembrar do quanto ele devia estar sofrendo com o abandono de Ginny.
O ruído do espelho se quebrando foi a única coisa capaz de me consolar. Era o grito que eu não podia soltar, era o chamado que eu não podia fazer. Os homens é que costumam ter esse hábito de quebrar coisas quando estão com raiva; as mulheres escrevem poesia. Mas como eu não escrevo muito bem e como não tenho que me preocupar em ser feminina, acho que posso me dar ao luxo de quebrar coisas, sabe.
Eu estava sentada na minha cama, chorando sem saber qual era o motivo da vez, quando Harry entrou desabalado.
-Luna! – exclamou ele. – O que houve aqui?
Virei o rosto, porque não queria que ele me visse com os olhos mais inchados ainda, e nem queria explicar por que estava chorando.
-Nada. – murmurei, mas ele percebeu pelo tom da minha voz que 'nada' não descrevia o meu quarto e nem a minha aparência.
Ele foi até os cacos do espelho, xingou quando cortou um dedo e se virou de volta para mim.
-O que aconteceu, Luna? – ele repetiu, com mais urgência.
-Eu menstruei, só isso. – falei, e não me importei se ele estranhou. Eu não esperava que ele entendesse dos dramas femininos e suas relações com a natureza, mas não era essa a minha preocupação.
Eu não sei se ele estava mais chocado por eu ter dito que estava menstruada, ou por me ver chorando. Um segundo e ele estava ajoelhado na minha frente. Pôs uma mão no meu ombro e me forçou a erguer a cabeça.
-Luna! Olhe pra mim, Luna. – ele falou com firmeza, pregando os olhos verdes nos meus.
Fiquei parada um segundo, tentando não olhar para ele, mas depois desisti. Ficamos parados, em silêncio.
-Eu achei que você não chorava. – ele disse, tirando o braço do meu ombro.
Eu pisquei, repetindo internamente o que ele dissera.
-Nunca? – eu murmurei. E tentei rir, esfregando os olhos. – Ora, é claro que eu choro, Harry, não seja tolo. Eu sou mulher... Por mais que você se esqueça.
E me calei, imediatamente arrependida do que tinha dito. Luna má.
Ele ficou parado, sem saber o que dizer. Depois piscou, respirou fundo, e sentou-se do meu lado na cama.
-Eu não sei por que as mulheres choram – ele disse. – Portanto eu não sei como consolar você.
E eu ri de novo, apesar de mim mesma.
-Estou me sentindo pequena – falei, e nem mesmo eu sei qual sentido eu tinha em mente naquela hora.
E foi ele que riu.
-Se você soubesse como eu sou pequeno, não viria falar isso pra mim.
Silêncio.
Desconfortável.
Desconfortável pra valer.
-Luna – ele falou de novo. – Você toparia outra partida de Snap Explosivo? Estou precisando de um pouco de companhia essa noite.
Sorri de volta.
N/A: Bem, essa crise da Luna aí em cima é baseada em fatos reais, portanto... Inclusive algumas falas, das quais eu me arrependo bastante. E a música no começo se chama "Interlude", do My Chemical Romance.Respondendo reviews!
Miri: Eu humilho a Ginny, eu sei disso. Só pisa no tomate essa menina! O Draco realmente é o que ela precisa, você vai ver. Imagina uma menina destrambelhada que nem ela solta por aí... E realmente, não tinha pensando! Mas já tenho um plano,hahaha... Obrigada!
Matt McGregor: Se o Draco percebeu? Bem, homens têm vários graus de "querer", quando são mulheres de que estamos falando... Espero que tenha gostado desse capítulo E obrigada!
Anna Weasley: Pois é, a Ginny às vezes dá pena também... E todos os personagens estão surtando, se você olhar bem de perto. Primeiro o Draco, agora a Luna. Estamos caminhando! Ahah. Obrigada por comentar!
Marília Lívia: Sim, o Draco amadureceu... Finalmente. Parece inacreditável, né? Mas também, se você pensar em tudo que ele passou, um dia o cérebro teria que sair do ponto morto... E quanto a Harry e Luna, bem, eu estou sentindo que estou judiando muito de vocês! Obrigada!
Scila: Oh meu Merlin! Nunca achei que viveria pra ver você ler uma fic minha, estou morrendo de orgulho aqui! Puxa, que bom que você gostou da Luna, isso é muito importante pra mim, haha. E sabe quando você escreve algo contra o seu gosto e acaba se convencendo? Foi o que aconteceu naquela cena HG no capítulo dois... E aquele começo do cap. 4 também foi algo... Inspirado, muito Draco mesmo. Não teria graça nenhuma se ele não soubesse que era ela desde o começo, né? E muuuuito obrigada por todos os comentários, Scila, espero continuar te agradando!
