DO JEITO CERTO
Capítulo 10. Delírio?
A consciência veio sem pressa para Uruha. Sentindo-se aquecido, e confortável, mexeu um pouco a cabeça, parecendo sem vontade de acordar mas cedendo à vontade de seu corpo. Abriu os olhos lentamente, tomando conhecimento da pouca luz que havia no quarto. Nada que ofuscasse sua visão e pudesse cegá-lo, como acontecera no hospital, e agradecera mentalmente por isso.
Aliás, surpreendentemente havia dormido bem. Quer dizer, apesar de tudo: o cansaço que sentia, o mal estar, a presença imposta de Aoi. Ele realmente estava se esforçando, não podia negar. Tanto que já se sentia melhor, apenas a cabeça ainda parecia pesada – nada comparado a como se sentia há pouco - e talvez já pudesse ir embora.
Estranho ainda era ter sonhado. Quer dizer, ouviu palavras bonitas, sentiu que alguém o aquecia, lhe fazia carinho, e ter aquilo nem que fosse por alguns minutos pareceu muito confortante. Com certeza isso era um sonho, e mesmo sabendo que era um delírio seu, entregou-se, relaxando com a carícia, sentindo os pensamentos ruins indo embora enquanto o cansaço o fazia esquecer aos poucos do que estava acontecendo. Mais estranho ainda era ouvir tudo isso na voz de Aoi. Mais uma coisa que lhe dava a certeza de que só podia mesmo ser um sonho.
Quis mexer-se, sentar para descobrir que horas eram e coisas do gênero, mas o ímpeto foi interrompido ao sentir algo prendendo a sua mão. Sem saber o que era aquilo, virou o rosto para o lado e descobriu Yuu, sentado no chão com a cabeça apoiada na cama e segurando a sua mão. Parecia dormir, ou apenas cochilando como se estivesse em alerta, pronto para pular dali a qualquer momento.
Ver aquela cena o surpreendeu. Queria mexer os dedos, sair dali, mas seu sono parecia tão leve que um movimento mínimo de sua parte poderia acordá-lo. A posição de Yuu era extremamente desconfortável, mas ele parecia estar ali há horas.
Será?
As perguntas vinham em sua mente, sem parecerem ter respostas plausíveis ou razoáveis. Na verdade, nada do que poderia pensar se encaixava em sua realidade. Claro que era sonho. Yuu nunca diria nada daquele gênero. Nunca mesmo... só que por mais que a razão lhe dissesse que era impossível, algo parecia contrário.
Aquele toque em seus cabelos, um beijo em seu rosto... tudo parecia tão... real.
Seria? Seria mesmo? Não poderia ser sua imaginação pregando uma peça? Não poderia ser o seu desejo fazendo aquilo parecer verdade? Claro que sim! Óbvio! Não poderia ser outra coisa. Mas que bobagem a sua, pensar que isso pudesse acontecer...
Aquilo poderia ser sonho, mas a presença de Yuu era bem real. A mão dele continuava repousando sobre a sua, como se um simples movimento pudesse servir de alarme. Pele morna, do mesmo modo que sentira o afago...
"Pare de pensar nisso!" Ordenou a si mesmo, irritado com a perspectiva de ceder a sonhos que não o levariam a lugar nenhum. Será que a decepção não tinha sido suficiente? Ainda precisava de mais uma pra aprender?
Fechou os olhos e respirou fundo, absorvendo a própria bronca. Uma dose de realidade por conta própria. Desnecessária? Talvez não. Ter Yuu sentado ali, como se estivesse velando por seu sono poderia fazer com que sustentasse idéias erradas... muito erradas.
Então, querendo sair dali, ou pelo menos poder mudar de posição, tentou soltar sua mão da dele, sem acordá-lo, mas falhou miseravelmente. Por mais delicado que tivesse tentado ser, Aoi sentiu seu movimento, despertando num salto, assustado.
– Kou...? – parecia desorientado, nervoso de uma forma que não conseguiu entender, mas logo sua expressão mudou para algo semelhante a alívio. – Você acordou... como se sente?
Piscou os olhos, sem responder ou entender aquela pergunta e muito menos reação efusiva da parte dele. Entendeu menos ainda ao sentir a mão em sua testa e ver sua expressão de dúvida, abrindo a gaveta e pegando um termômetro.
– Só por precaução, ok? – ouviu-o dizer, provavelmente percebendo sua confusão.
– Precaução pelo quê?
– Você ardeu em febre. – explicou, levantando-lhe o braço sem parecer se dar conta de que o loiro estava acordado e Kouyou estranhou aquele gesto. - Sua temperatura chegou a quarenta graus. Ficou muito agitado e delirou uma boa parte do tempo.
"Delirei?" pensou, desesperançoso. Então era realmente um sonho... pior ainda: delírio.
Perdido em seus próprios pensamentos não percebeu que Aoi o observava atentamente.
– Como se sente, Kou?
– Hã?
– Você está sentindo alguma coisa?
Kouyou não respondeu, apenas esfregou os olhos, massageando discretamente as têmporas, sem olhar para Aoi. Um gesto que não passou despercebido.
– Dor de cabeça... eu sabia.
Levantou-se num salto, saindo do quarto. Sem entender aquilo, Uruha também levantou, saindo da cama. De pé, sentiu seus passos bem mais firmes, embora ainda fraquejasse. Chegou até a porta, meio que se apoiando na parede, num primeiro instante e logo chegou ao corredor, mas deparou-se com Aoi, quase num esbarrão.
– Ei? O que está fazendo fora da cama?
– Já estou bem. Posso ir pra casa agora.
– Não, não pode! - ouviu-o falar num tom de voz mais alto. Nada ríspido ou que servisse para intimidá-lo, mas suficiente para que Uruha se assustasse, fazendo-o estremecer de forma quase imperceptível – Você não pode sair daqui desse jeito... além disso o combinado era que passasse a noite aqui.
– Já fiquei mais tempo do que devia, Aoi. Já teve trabalho demais comigo.
– Não é trabalho. Nunca foi. - fez uma pequena pausa, analisando seu rosto de uma forma que o constrangeu – Ainda está muito fraco pra ficar por aí.
O mais velho permaneceu em seu caminho, imóvel, aparentemente sem pretensões de deixá-lo passar. Percebeu sua fisionomia abatida, mas ainda assim serena. Parecia confiante, mas não pretensioso.
– Onegai, Kou. - repetiu, de forma de acabou deixando-o sem alternativas senão dar meia volta e voltar para o quarto, sentando-se na cama.
Logo o mais velho voltou com mais uma bandeja. Chá e um sanduíche. Aoi esperou que ele colocasse os pés sobre a cama, indicando que aceitara ficar, e a pôs em seu colo. Novamente sentiu a mão de Aoi sobre sua testa, e encarou isso com estranheza.
– Você tirou o termômetro. - explicou Yuu – E eu acho que ainda está com febre. - explicou, pegando o objeto que estava sobre o criado mudo e colocando-o debaixo do braço de Kouyou, ignorando-o solenemente.
De súbito, sentiu um gosto amargo na boca. Pensou que pudesse ser enjôo, ou algo parecido. Devia ter franzido o rosto, porque Yuu também percebeu.
– Bebe esse chá que o gosto some. Esse aqui é bem mais doce que o outro. - fez uma pausa, esperando que o outro dissesse alguma coisa, qualquer coisa, mas Uruha permaneceu em silêncio. - É que eu te dei um chá com um gosto amargo... e tinha um anti-térmico dissolvido e isso deve ter feito a coisa ficar pior ainda. - deu uma risadinha tímida, constrangido pela seriedade do loiro – Esse aí eu sei que você gosta. E esse sanduíche é mais leve que o outro, pensei em trazer outra sopa, mas achei que precisava de uma coisa mais sólida.
Kouyou olhou para Yuu como se estivesse vendo um desconhecido. Era como se não o reconhecesse. Preocupado, parecendo carinhoso... uma atenção que não se lembrava de ter recebido de sua parte. Quer dizer, Aoi sempre fora muito fechado. Enquanto estiveram juntos... se é que algum dia estiveram, não demonstrava mais do que ciúmes, ou tentativas de agradá-lo. Nunca algo que fosse mais emocional, mais afetivo. Agora sabia a razão... mas aquilo soou muito estranho. Era quase como assistir um filme de Hollywood de tão irreal que aquilo lhe pareceu.
Não soube se ele chegou a perceber a sua estranheza, mas se acaso percebeu não demonstrou. Apenas puxou o termômetro, calculando que aquele tempo já bastava.
– Eu sabia... - disse Aoi, franzindo o cenho, mas aliviado com a confirmação de suas hipóteses. - Ainda está febril, mas bem melhor agora. - sorriu suavemente. - Por que não come? Vai se sentir melhor.
Olhou para a bandeja, desviando seus olhos do dele, mas não foi o suficiente para livrar-se do olhar observador do ex. Incomodou-se com isso. Por que ele tinha que olhá-lo desse jeito?
Sentiu-se corar, não exatamente por vergonha. Talvez raiva, mas não exatamente de Yuu e sim de si mesmo por ter essa reação, pela situação toda.
– Bem, eu vou te deixar comer em paz. Quer alguma coisa?
Moveu a cabeça em negativa. Ainda sem olhar em seus olhos, mas sentindo o peso dos de Aoi, observando-o.
– Qualquer coisa eu estarei por perto. - ouviu-o dizer, para em seguida vê-lo levantando e saindo, sem lhe dar as costas, encostando a porta sem fazer barulho.
Assim que se deu conta de que estava novamente sozinho, afastou a bandeja para o lado. Encolheu-se, abraçando as pernas, e abaixando a cabeça, sentindo as lágrimas em seus olhos, sentindo-se um idiota por sonhar com coisas impossíveis. Yuu não o amava! Aquilo era apenas sinais de preocupação! A carícia, o toque, as belas palavras... as palavras que sempre quisera ouvir! Aquilo não era para si! Eram apenas delírios de febre!
Por quê? Por que não podia ser real? Por que tudo tinha de acontecer daquele jeito? Por que não podia ser amor?
