Nota: a música que Kevin fica cantarolando se chama Killswitch Engage – The End of Heartache.
Capítulo 09 – Engano
Meses depois...
Kevin subiu as escadas pulando três degraus de cada vez, suas pernas eram longas e musculosas o suficiente para isso. Quando chegou ao apartamento, sua respiração era ofegante e descompassada.
Depois que abriu a porta, caminhou diretamente até o seu quarto e abriu o armário de roupas. Lembrou onde estava o que procurava e puxou uma das gavetas do lado esquerdo.
Lá no canto, sua toca preta com uma listra cinza estava sendo engolida por um mar de meias e cuecas box de diversas cores. Assim que pegou a toca, recordou que Ben lhe deu de Natal no ano passado.
"Isso é para você não reclamar mais de frio na cabeça quando estiver perto de mim." Ben disse animado, jogando um embrulho no colo do amigo.
"Por acaso você virou um Papai Noel alienígena que distribui presentes?" Kevin comentou com ironia, abrindo o pacote. "Uma toca da Billabong!"
"Não gostou?" o mais novo ficou sério, olhando para o semblante assustado do outro.
"Claro que eu gostei..." ele corou muito rápido, mas Ben conseguiu notar. "Nossa, valeu."
Após esse flashback repentino, ele vestiu o gorro e saiu novamente de casa, agora mais tranqüilo. Havia sido surpreendido pela neve que começou a cair.
Kevin odiava sentir frio, se irritava facilmente quando não usava seu casaco reforçado e a toca preta. Desceu as escadas lentamente e entrou no carro despreocupado. O cd de sua banda favorita ainda tocava quando se sentou no banco.
Ligou o motor e se dirigiu para o , iria encontrar com Ben. Estacionou o Camaro na frente na lanchonete, enquanto aguardava pelo surgimento do amigo, ficou cantando junto com a música...
"This distance, this dissolution, I climb into memories, while falling..."
Como o pára-brisa tinha uma película protetora e escura, ninguém do lado de fora podia ver que Kevin tamborilava os dedos no volante seguindo o ritmo da música.
"Sleep brings release, and hope of a new day. Waking the misery of being without you..."
Ele fechou os olhos e deixou que o ritmo o levasse para bem longe dali, parecia que nem estava mais na Terra. Era apenas Kevin ouvindo o vocalista cantar e os instrumentos tocando em harmonia.
"Surrender, I give in. Another moment is another eternity. Seek me for comfort, call me for solace, for the end of my broken heart…"
Neste momento, Ben abriu a porta do carro e sentou-se rapidamente no banco do carona, enquanto esfregava as mãos para espantar o frio. Quando olhou para a reação do amigo, não conseguiu conter o riso.
-Que cara é essa, Kev? –ainda risonho.
-Você podia ter batido na porta, né? Levei maior susto!–ele reclamou, baixando o volume do rádio.
-Olha só, Kevin levando sustinho! –Ben sacaneou, colocando o cinto de segurança. –Que horas é o jogo mesmo?
-Quatro horas... –Kevin ligou o carro. –Trouxe a comida?
-Como eu poderia esquecer? Assistir jogo sem Chilli Fries não tem graça...
Em poucos minutos, estavam subindo as escadas e entrando no apartamento. O lugar estava quente e aconchegante, bem melhor do que a neve que cobria a paisagem de branco e a baixa temperatura.
-Vai tomar o que, Benjy? –o moreno perguntou da cozinha, enquanto abria o armário.
-Eu aceito um cappuccino. –respondeu da sala, sentando-se no sofá de couro e ligando a TV de plasma. –E com marshmellow!
-Já entendi... –comentou, preparando um café expresso para si mesmo e o cappuccino de Ben.
Kevin voltou para a sala segurando duas canecas grandes e fumegantes. Sentou-se no sofá, ao lado do amigo e bebericou levemente seu café. Ben segurou a xícara com cuidado, enquanto assoprava o liquido quente, fazendo os marshmellows dançarem no cappuccino.
-Já começou? –ele perguntou, não desgrudando o olho da tela.
-Ainda não, estão comentando que Collins e Michaels podem não jogar essa partida. -respondeu comendo os marshmellows parcialmente derretidos.
-É, o Collins teve uma torção de joelho e o Michaels espancou um jogador do outro time semana passada. –Kevin comentou, abrindo o embrulho de Chilli Fries.
Assim que ouviram o apito, os dois ficaram mudos, prestando total atenção no jogo. Afinal, não era todo dia que Canadá e Estados Unidos se enfrentavam no hockey. Ambos eram ótimos times e por isso a partida parecia prometer muitas surpresas.
Durante os dois primeiros tempos, permaneceu no zero a zero. Durante o pequeno intervalo para a segunda fase do jogo, Ben resolveu conversar sobre algo que vinha incomodando-o desde que voltou das férias no Caribe, há seis meses.
-Você e a Gwen ficaram enquanto eu viajava. –ele foi direto, sabia que seria melhor dessa forma.
-É... Digamos que sim. –Kevin esperava por aquilo, mas continuava olhando para sua xícara de café.
-Como assim? –Ben ficou intrigado, comendo o resto das Chilli Fries.
-Acho que você deve saber que eu não abandonei o contrabando. –levantou seu olhar, encarando seu amigo. –Eu menti para você.
-Eu já sabia disso. –deu um leve sorriso. –Você é assim e não há nada o que eu possa fazer. Sempre soube que não conseguiria ser "politicamente correto".
-Achei que você ia me dar um esporro e brigar comigo. –o moreno comentou sinceramente, surpreso.
-E por que eu faria isso? –o mais novo passou os dedos pelo cabelo. –Seria a mesma que se me impedissem de comer, faz parte de mim.
-Pelo menos você me entende. –Kevin girou os olhos, colocando os pés na mesinha de centro do meio da sala. –A Gwen ficou super chateada comigo, dando a entender que eu traí sua confiança e que estava cometendo um erro...
-Quando vocês conversaram sobre isso? –Ben esqueceu completamente o jogo e prestou atenção no amigo.
Kevin contou detalhadamente tudo o que aconteceu durante o tempo em que o Ben esteve fora. Conforme ouvia o relato, o dono do Omnitrix não sabia que as coisas tinham sido tão agitadas por aqui.
Aquelas perseguições e trocas de tiros eram realmente cenas de cinema. Ficou imaginando se estivesse no lugar de sua prima como teria reagido. E chegou à conclusão de que tudo seria completamente diferente...
"Kev..."ela sussurrou, enquanto era empresada contra a parede.
"Hhhmmm... "o moreno gemeu em resposta, beijando o pescoço dela.
"Vamos parar aqui."
"O que? "afastou o rosto do pescoço e a encarou. "Você está falando sério?"
"Nunca falei tão sério em toda minha vida." ela franziu as sobrancelhas.
"Por acaso eu fiz alguma coisa que você não gostou?" estava preocupado, até hoje nenhuma das meninas com quem tinha saído teve uma reação dessas.
"Não é isso... Você sabe fazer uma menina perder o controle..." Gwen se afastou, ajeitando o cabelo e se recompondo. "Mas eu não consigo."
"Todo mundo já foi virgem um dia." Kevin brincou, tentando aliviar o peso do ambiente.
"Não é isso. Sabe, achei que você tinha mudado, se afastado desse mundo do contrabando." ficou séria, encarando-o.
"Como assim, Gwen?" ele pareceu não acreditar no que ouvia, sentia que as palavras dela eram como um balde de água gelada.
"Você sabe que isso não vai te levar a lugar nenhum. Pelo contrário, só vai te trazer sofrimento e problemas." a ruiva parecia determinada.
"Eu nunca enganei você ou Ben. Eu falei que tinha parado de roubar, mas em nenhum momento disse que tinha parado de contrabandear." Kevin sentiu o gosto amargo da raiva na boca, não queria se irritar com ela. "Só escondi o fato de vocês."
"E por que isso? Não confia em mim?" ela pareceu magoada.
"Eu confio! Não contei porque não queria que você me olhasse da maneira como está fazendo agora." olhou para o lado, irritado.
"Roubar ou revender mercadoria roubada não é muito diferente." Gwen colocou as mãos na cintura.
O moreno respirou fundo e fechou os olhos. Justamente agora, naquele momento não queria arranjar confusão. Há poucos minutos estava praticamente indo para a cama com a única menina que tinha despertado um desejo fora do comum nele. E então brigavam sobre o que ele fazia ou deixava de fazer se era errado ou não.
"É errado no seu ponto de vista. Sim, eu revendo mercadoria roubada, mas o que as pessoas vão fazer com isso é problemas delas, apenas arranjo o comprador e o vendedor." tentou explicar, para fazê-la entender seu lado.
"Como você pode deitar sua cabeça no travesseiro todas as noites, sabendo que vendeu coisas que pertenciam a outras pessoas para novos compradores?" ela parecia irredutível e não queria ceder.
"Eu não me importo com isso! Os compradores que me procuram sabem do risco que correm, isso já não é problema meu." passou a mão nos cabelos negros, tirando as mechas que caiam sobre os olhos. "É assim que ganho minha vida."
"É, pelo visto temos opiniões diferentes." Gwen respirou fundo e sua expressão pareceu cansada. "Olha, Kev... Não quero brigar com você..."
"Isso me lembra a conversa que tive com o Ben cinco anos atrás." Kevin olhou para o horizonte, a cena repassando em sua mente. "Naquela época, não conseguimos ficar juntos porque pertencíamos a mundos diferentes."
"E o que isso tem haver com a gente agora?" levantou uma das sobrancelhas, sem entender a comparação.
"É a mesma coisa. Não posso ficar ao seu lado porque pertencemos a mundos completamente diferentes." esboçou um sorriso triste. "Desculpe Gwen, mas eu não sou o cara que você tanto procura."
Ben sentiu-se identificado nas palavras de Kevin. Sabia exatamente como ele se sentia naquele momento. Enfrentava a mesma coisa com seus pais, eles nunca entenderiam o que significava para ele o Omnitrix.
"É arriscado, você pode morrer!" eles poderiam lhe dizer, tentando convencer o filho a largar essa vida. Mas seria em vão, porque Ben sempre soube que era aquilo que desejava e não mudaria isso por nada, nem por todo dinheiro do mundo.
Gwen via as situações ao seu redor de uma forma muito diferente de Kevin e por mais que se ame o outro, não se pode mudar as pessoas.
Ele sempre viveu por conta própria tendo que se virar e por isso criou uma visão muito realista da vida. Enquanto que ela sempre teve tudo de bom e do melhor, desconhecendo o que seria fome, frio e solidão.
Ben recebeu, de certa forma, a mesma educação que Gwen, mas sua visão de mundo era completamente diferente da prima. No momento em que o dispositivo alienígena grudou em seu punho, quando apenas era uma criança de dez anos, viu que as coisas não eram fáceis.
Teve que enfrentar problemas graves, numa idade onde deveria se preocupar com brincadeiras e jogos. Apenas ele sabia que teve que de enfrentar. Mesmo com todas as dificuldades que passou, quando teve que escolher se voltaria a usar o Omnitrix, não pensou duas vezes e o colocou no punho esquerdo mais uma vez.
-Eu sei como você se sente. –ele disse, colocando a mão no ombro do amigo. –Mas saiba que sempre terá meu apoio.
-Quem diria... –Kevin comentou com um sorriso leve no rosto. –É Benjy... As coisas mudam.
O grito do narrador fez com que eles voltassem à realidade e lembrassem que estavam assistindo ao jogo. Estados Unidos haviam acabado de fazer um belíssimo gol, atravessando a equipe adversária e marcando o ponto.
Os dois viram o resto da partida de bom humor, comentando sobre a atuação dos jogadores dos dois times, xingando o juiz e vibrando com cada movimento na pista de gelo.
Ao final da partida, Estados Unidos ganhou de 8 a 7 do Canadá, que ficou em segundo lugar. Já estava escuro lá fora e Ben resolveu ligar para sua mãe, pedir para que fosse buscá-lo. Enquanto estava distraído com o jogo, não percebeu que nevou além do esperado e as ruas estavam interditadas.
-Minha mãe acabou de dizer que as estradas estão bloqueadas. –Ben disse, ainda segurando o celular.
-Tá, você dorme aqui em casa então. Amanhã de manhã eu te levo. –Kevin comentou, levando a louça suja para a cozinha.
-Mãe, eu vou dormir aqui no Kevin mesmo. –ele disse, andando pela sala. –Amanhã eu pego uma carona com ele...
No momento em que conversava com sua mãe, dizendo que ficaria tudo bem e que nada ruim aconteceria, Ben pôde ouvir o amigo gritar por ajuda. Sem pensar duas vezes, inventou uma desculpa qualquer e desligou o celular.
Saiu correndo na direção da cozinha, quando chegou encontrou Kevin e outros dois alienígenas da raça do Spider Monkey discutindo.
-O que está acontecendo aqui?! –Ben perguntou, se aproximando e ficando ao lado do amigo.
-Eles se teletransportaram no meio da minha cozinha! –o moreno reclamou, encarando os aliens desconfiado. –O que vocês querem aqui?
-Somos Encanadores... –eles eram gêmeos e falavam ao mesmo tempo, mostrando seus distintivos. –O Grão Mestre solicita ajuda imediatamente.
-Com o que? –Kevin levantou uma das sobrancelhas, ainda desconfiado.
-Vocês saberão no caminho. –os Simeons disseram juntos.
Antes que o moreno tivesse tempo para absorver qualquer material que estivesse por perto, ou que Ben ativasse o Omnitrix, a cozinha foi inundada por uma forte luz branca. Os humanos protegeram seus rostos e quando sentiram que a luz se apagou, encontravam-se no interior de uma nave.
Eles olharam ao redor, não entendo o motivo de tudo ter acontecido tão rápido. Quando se preparavam para reclamar, o Grão Mestre se aproximou do grupo e os Spider Mokeys gêmeos os deixaram sozinhos.
-Quanto tempo, não? –ele acenou com a cabeça.
-Por que nos raptou? –Kevin perguntou, estressado com toda aquela palhaçada.
-Calma, rapaz. Pelo visto continua agindo antes de pensar... –o Grão Mestre voltou sua atenção para o moreno. –Me deixe explicar a situação primeiro, depois você reclama.
Realmente as coisas pareciam mais complicadas do que eles poderiam prever. Os Encanadores liderados pelo Grão Mestre acharam o esconderijo de traficantes de escravos, no planeta Plutão.
Sua péssima fama era conhecida pelo Sistema Solar inteiro, por invadir planetas aleatórios e retirar um grupo de habitantes saudáveis para que trabalhassem como escravos.
Não existia distinção entre homens e mulheres, crianças e adultos, desde que fossem saudáveis e que pudessem trabalhar em condições extremas. Além disso, também invadiam pequenos planetas, que possuíam alguma riqueza e drenavam tudo que podiam, deixando o planeta morto.
-E por que não chamamos a Gwen? –Ben questionou, andando ao lado do Grão Mestre, que se dirigia até os controles da nave.
-Não temos tempo suficiente, até localizarmos sua posição, o grupo já terá deixado Plutão. –o Encanador respondeu, apertando uma série de botões no painel.
-Então quer dizer que eles estão se preparando para sair e faremos uma emboscada? –Kevin encostou-se na parede ao lado do painel.
-Exatamente, agora vão se preparar porque estamos quase chegando. –O Grão Mestre não desviou o olhar dos controles, parecendo preocupado.
Ben e Kevin entreolharam-se e deixaram a sala de comando. Os Spider Monkeys ajudaram os dois a colocarem as roupas especiais para enfrentarem a atmosfera extremamente gelada de Plutão.
Seus olhos se arregalaram de surpresa ao verem que o planeta estava cada vez mais próximo, um vácuo na barriga se fez presente quando começaram a especular sobre o que poderiam enfrentar...
