Quando um dos assistentes de Pepper informou-a que o jato havia pousado há poucos minutos no aeroporto de LAX, ela teve que se controlar para não deixar que a ansiedade e a expectativa tomassem conta dela de uma forma negativa. Desde que o Extremis foi injetado em seu organismo, coisas ruins aconteciam quando seus nervos ficavam à flor da pele. Ela inspirou profundamente e lembrou que havia tomado o suplemento estabilizador que Tony preparou para ela naquela manhã. Ele ainda estava trabalhando em uma solução definitiva e tudo iria ficar bem. Ela se recompôs e pegou o telefone.

— Bruce chegou — ela disse. — Eu pedi para Rhod ir buscá-lo, estou muito atarefada agora. Eu não posso ir embora ainda.

— Tudo bem. Vou distrair ele até você chegar em casa — Tony respondeu.

— Nós não temos casa — Pepper retrucou, sua voz com um tom ácido de provocação. — Você deixou um terrorista explodir a nossa casa.

— Ei, lembra de quando você estava tão aliviada porque descobriu que eu ainda estava vivo que nem passava pela sua cabeça me culpar? — ele disse. — Que época boa...

Pepper suspirou. Ela ainda estava aliviada.

— Você adorou ter mais um argumento para ganhar discussões — ele continuou. — Confessa.

— Como se eu já não tivesse o suficiente.

— Mas este é diferente. Você vai usar ele pelos próximos quarenta anos. Estaremos com oitenta anos, você vai querer um harém de novinhos na sua volta, eu vou dizer não e você vai dizer "lembra daquela vez em que você deixou um terrorista explodir nossa casa?", então eu vou ficar quieto e deixar.

Ela riu. Não pôde conter. Então ela se recuperou e perguntou:

— Como está o Hogan?

— Estável — ele disse, sério. — Disseram que ele está se recuperando bem rápido.

— Já acharam Dummy e Butterfingers?

— A equipe de resgate ainda está movendo os escombros — ele respondeu.

Ela suspirou e decidiu mudar o rumo daquela conversa. Aqueles assuntos eram como uma ferida ainda exposta.

— Bem, tente não ser estranho com Bruce. Não o entretenha demais, não queremos que ele fuja de novo — ela disse.

Tony bufou.

— Não se preocupe. Ele deixou bem claro que não está interessado nesse tipo de entretenimento quando atravessou o país.

— Na verdade, Coulson me contou que Barton encontrou-o em Maine.

— Nossa, no estado vizinho? Que bom que você tenha compartilhado isso comigo, estou me sentindo muito melhor... Obrigado, querida.

— Tony... Pega leve com ele. Tente não deixá-lo desconfortável. Muita coisa aconteceu... Não o sobrecarregue — Ela disse. Alguém estava na porta, esperando uma deixa para falar com ela. Ela acenou para que saísse.

— Claro. Eu vou contar para ele como eu deixei que um terrorista explodisse nossa casa, então ele vai saber quem realmente tem problemas.

— Isso não é um jogo, Tony. Ninguém está contando o placar.

— Disse a mulher que falou que eu estava ganhando mesmo antes da explosão acontecer.

Pepper riu novamente.

— E o meu coelho gigante está soterrado — ela disse em um tom de falsa lamentação.

— Eu posso te dar outro — ele respondeu.

— Não se atreva!

— Vinte deles! Todos te encarando com aqueles enormes olhos parados. Nossa, eu vou colocar um em cada cômodo.

— Tony — ela chamou-o com a voz mais suave. — Tente não morrer ou ser dado como morto durante um ano, isso seria o melhor presente que você poderia me dar.

Tony suspirou. O tom brincalhão já não se destacava em sua voz.

— É. Claro. Eu... hã, sem promessas.

— Eu te amo — ela disse.

— Eu também te amo, Virgínia — ele respondeu. — Volte ao trabalho antes que minha empresa vire um bagunça novamente.

— Isso só aconteceu porque você ameaçou um terrorista e depois morreu — ela retrucou.

— Bem, eu estou de volta. Faça com que todos fiquem sabendo.

Sua voz ainda estava pesada.

— Tchau, Tony — ela disse.

— Tchau, amor da minha vida — o tom despreocupado em sua voz soou forçado.

Ela suspirou. Tony ainda estava passando por algumas coisas. Pepper esperava que o retorno de Bruce pudesse ser algo bom para ele, que o ajudasse a superar alguns obstáculos. Ela sabia que Tony precisaria de todos seus amigos — os verdadeiros amigos — por perto naquele momento.

Tony encerrou a chamada e ela voltou sua atenção para o trabalho que precisava ser feito de imediato. Tony foi dado como desaparecido, provavelmente morto e então ela recebeu o mesmo rótulo. Havia muito a se fazer e ela não tinha tempo para ficar se lamentando. Ela precisava de foco, mas instintivamente seus pensamentos levavam-na até Bruce e Tony. Ela tinha a esperança de que não fosse tão ruim, ou estranho... ela pensou no que Tony havia dito — que Bruce deixou claro que não estava interessado em Tony, mas Pepper não tinha a mesma certeza. Tudo o que Bruce falou até então, tanto a conversa que ela ouviu sem querer quanto a mensagem de voz que ele gravou, deixou claro que a intenção dele era não ficar entre os dois. Sua maior preocupação era não estragar aquilo que já tinha e, principalmente, não machucar mais ninguém.

Isso sempre foi um dilema para o doutor, mas raramente ele era o responsável imediato por ferir as pessoas. Dessa vez era diferente. Pepper sabia que ele se culpava por que fora ele — Bruce Banner, não o Hulk — quem causou o dano. Mas não foi bem assim que as coisas aconteceram. Bruce chegou àquela conclusão sem saber dos detalhes.

Ela suspirou e inclinou a cabeça para trás. Ela tinha que manter sua mente no que estava fazendo agora, não no aconteceu ou no que pode acontecer. Ela tentou não pensar sobre as alterações químicas que estavam rolando em seu corpo. Tony disse que ia consertar isso e ele nunca falhou com ela antes.

Ok, ele falhou antes, mas isso não acontecer, não desta vez. E talvez com Bruce por perto para ajudá-lo, Tony consiga achar uma solução sem sentir toda pressão sobre seus ombros. Bruce não é um engenheiro, mas entende mais de biologia do que Tony entende de mecânica.

Ela baixou a cabeça e tentou se concentrar.

...

Depois de desligar o telefone, Anthony mal soube o que fazer consigo mesmo. Ele perambulava com passos curtos pelo apartamento (a cobertura de um prédio dele ou da empresa, ele já não fazia mais questão de se lembrar se na escritura havia o nome dele ou o de Virgínia) procurando coisas para fazer, uma cafeteira para desmontar, qualquer coisa que o fizesse parar de pensar daquela forma rápida, pessimista e aleatória... mas tanto suas ferramentas quanto o piano estavam agora no fundo do Oceano Pacífico.

Ele pensou sobre o que Pepper havia dito e sobre Bruce chegando a qualquer momento com Rhodes.

E esse pensamento desencadeava uma sensação insuportável para Tony. Era como se ele estivesse apertado demais dentro de sua pele e algo dentro dele queria fugir, estava ansioso para fugir. Não havia conforto dentro de si para aquele músculo em seu peito. Ele passou a mão pelo rosto e pelo cabelo até chegar à nuca, quase cedendo a vontade de gritar alguma coisa ou arrancar os pensamentos pela raiz do cabelo. Ele parou no meio da sala de estar e olhou para baixo, observando a camisa cinza desbotada e a calça de abrigo que usava. Ele decidiu tomar um banho e vestir outra coisa. Sua pele formigava e coçava. Tony serviu uma bebida.

Ele girou o copo impacientemente, mexendo o uísque dentro dele antes e depois de colocar um cubo de gelo. O tilintar do gelo contra o vidro era o único som daquela casa... Jarvis estava ganhando algumas atualizações, ficaria em silêncio por mais algumas horas. Tony largou o copo e foi até a suíte. Ele ainda estava decidindo o que vestir quando a campainha tocou. Sem pensar muito, ele vestiu uma camisa sobre a que já estava usando e pegou o primeiro moletom que achou, vestindo-o a caminho da porta.

Ele abriu a porta e viu Rhodes com um sorriso de orelha a orelha e Bruce atrás dele, olhando para o corredor. O doutor parecia... Nossa... exausto, mas bem. Será que eu estou com essa cara também?, Tony se perguntou.

— Rhod! Bruce! Entrem — ele disse, esticando o braço para dentro da casa, indicando-os para a sala. Eles entraram. James com passos rápidos enquanto Bruce pairava ao lado da porta, com uma hesitação que deixou Tony pensando se ele iria correr para o elevador... Sorte que Banner realmente não gostava de elevadores.

— Vai ficar para uma bebida, um café? — Tony perguntou para Rhodes.

— Não posso, cara. Eu quebrei esse galho pra vocês, mas tenho que voltar ao trabalho... Não é todo mundo que pode explodir mansões no feriado e ficar de bobeira o resto do ano — ele respondeu.

— Até tu, Brutus? — Tony sentiu sua pele formigar, novamente. — Quando vocês vão esquecer isso?

— Não faz nem uma semana, Tony.

— É?

Tony deu um sorriso amarelo. Bruce estava mexendo com sua mochila e agarrando-a. A hesitação palpável dele estava criando uma ansiedade entorpecente em Tony. Ele desejou que Bruce parasse com aquilo.

— É — disse Rhodes, parecendo exasperado. Aquilo era bom. Ultimamente ele tem transparecido somente preocupação. Exasperação era melhor, mais familiar, historicamente falando.

— Então, você vai me dizer pra ficar na minha por um tempo? — Tony perguntou para Rhodes.

Então Tony fez uma careta e estendeu a mão até o doutor, pegando a mochila dele sem dizer uma palavra. Ele olhou de volta para Bruce com surpresa. Ele sentiu como se a mochila estivesse vazia, ele não carregava nada além da roupa do corpo e aquilo era revoltante. Bruce pegou a mochila de volta com um puxão leve.

— Exatamente — Rhodes concordou. — Enfim, eu tenho que ir — ele se virou para Bruce e apertou sua mão. — Doutor Banner. Não que ele te induza a explodir as coisas.

— Como faço isso? — Bruce perguntou com um pequeno e cansado sorriso.

— Simples: diga para ele pedir permissão para Pepper antes — James disse sorrindo. Ele se virou para Tony e bateu no ombro dele. — Apenas... fique em casa. Tente relaxar.

Tony acenou para ele distraidamente e se aproveitou da guarda baixa de Banner para recuperar a mochila.

— Claro, claro... Eu vou relaxar. Eu posso relaxar melhor do que você. Eu sou o mestre da arte de relaxar... — ele tagarelou enquanto abria o zíper da mochila de Bruce para olhar o interior. Bruce pareceu ofendido e pegou a mochila de volta. — Mais relaxado do que um maconheiro.

Tony olhou para Rhodes de novo, ele parecia preocupado. Hã? O que eu estou falando?

— Que seja... Te vejo amanhã? — Rhodes disse caminhando até a porta.

— Claro. Obrigado por trazer o gênio rebelde de volta — disse Tony.

— Deus. Que dupla. Vou indicar meu psiquiatra para Pepper — ele disse antes de sair.

Bruce parecia pequeno e cansado, como se seu peso fosse demais para seus pés. Ele agarrava a mochila vazia contra o peito.

— Ei, buddy — Tony disse assim que a porta se fechou por trás de Rhodes.

— Ei — respondeu Bruce.

— Vem, vou te mostrar seu quarto. Você pode deixar suas... nada — ele apontou para a mochila.

— Ok — Bruce falou. Ele não soltou a mochila. Ele estava, de fato, mantendo-a entre ele e Tony, como se fosse um escudo. Porra, Tony pensou quase rindo, mas a vontade de praguejar era maior.

Tony passou a mão pelo rosto, de novo, enquanto caminhavam pelo corredor.

— Então, hm... o quê tem feito desde que fugiu da minha repulsiva presença? — Ele não estava olhando para Banner, não teve coragem para ver como ele reagiria à pergunta ou ao adjetivo.

— Nada interessante. Eu trabalhei numa colheita de maçãs por uma semana no fim da estação, depois plantei batatas, servi algumas mesas em um restaurante, lavei louça em outro...

Tony se virou para olhá-lo então.

— Eu não sei porque você faz toda essa merda — ele disse. — Olha pra você, uma mente brilhante, quinze línguas, lavando louça suja...

— Dezoito — Bruce corrigiu-o e encolheu os ombros. — Eu posso pensar sobre o que eu quero e o que eu sou, mas eu tenho que me virar como posso e nem sempre posso fazer aquilo que quero, Tony.

Tony assentiu.

— Mas não precisava. Não dessa vez.

Bruce ergueu a cabeça para encontrar os olhos de Tony por um breve momento antes de baixá-la novamente e encarar o piso do corredor.

— Olha, Tony, eu...

— Ei, esquece isso, ok? Eu nem era pra estar te incomodando. Você parece que foi arrastado na turbina do avião ao invés de estar dentro dele.

Bruce apertou os lábios e passou a mão pela camisa, alisando-a.

— Você vai dormir aqui. Quarto de hóspedes com banheiro privado. A vista não é tão boa quanto à da mansão, mas enfim, a vista foi a única coisa que sobrou da mansão então é... esse é melhor que o anterior.

Tony abriu a porta e deixou Bruce colocar sua mochila sobre a cama. Ele ficou parado na porta, se sentindo estranho ao observar Bruce parado no meio do quarto, também se sentindo estranho. Banner inspirou enquanto pensava que deveria dizer alguma coisa, mas Tony decidiu que não conseguiria ouvir o que quer que fosse, então ele abriu a boca e deixou qualquer coisa sair.

— Bem... Você quer uma bebida? Ou alguma coisa?

Bruce piscou.

— Claro. É, porque não...

Tony voltou para a sala de estar, cheirando seu uísque agora aquoso e decidiu despejá-lo fora. Ele serviu outro para si, dessa vez sem gelo, e apontou o copo na direção de Bruce.

— Tem algum suco? Ou um chá? — Bruce perguntou.

— Ah, é... Eu posso fazer isso — ele disse. Tony espremeu duas laranjas e entregou um copo de suco coado para Bruce. Tony levantou seu copo e olhou para o cientista. Bruce sorriu sem mostrar os dentes e brindou com Tony. — É bom te ver — Tony disse.

— É bom te ver também — respondeu Bruce, sua voz mais baixa do que ele pensou que sairia. Tony achou-o muito formal, como se ele estivesse em um júri.

— Pepper sentiu sua falta — Tony contou.

— Eu senti falta de vocês — declarou Bruce, seus olhos finalmente nos de Tony. — Estou muito feliz por você não estar morto.

— Cara, somos dois. Talvez três, depende da Pepper.

Tony riu e serviu outra dose.

— Então... O que aconteceu, exatamente?

— O que você não sabe? — Tony perguntou enquanto caminhava até uma das poltronas reclináveis. Bruce se acomodou no canto do sofá ao lado de Tony e começou a polir as lentes dos óculos.

— Eu vi o noticiário e, hm... a mansão caiu no mar e então, quando eu acordei, me disseram que tinham achado você...

— Quando acordou? — Tony olhou com confusão para Bruce.

— É que eu, bem... depois que eu voltei a ser eu mesmo — Bruce admitiu.

— Ah — ele exclamou. Bruce havia se transformado em Hulk... porque ele viu a casa ser explodida. Ele se transformou no Hulk porque pensou que Tony tinha morrido. Um fio de esperança começou a nascer dentro do peito de Tony. Ele terminou sua dose de uísque na intenção de matar aquilo antes que se espalhasse. — Então, é uma longa história.

— Acho que eu não estou preparado para histórias longas, não agora — Bruce resmungou. Ele esfregou os olhos e bocejou, mas Tony já havia começado.

— Tudo se resume a uma coisa: Um homem famoso uma vez disse "nós criamos nossos próprios demônios". Quem disse isso? O que isso quer dizer? Não faz diferença..."

Tony se inclinou na poltrona. Ele fechou os olhos e deixou as palavras saírem. Todas as incertezas e medos que ele vivenciou nos últimos dias. Ali estava Bruce, pronto para ouvi-lo. Certamente aquilo era reconfortante de alguma forma que Tony não soube explicar a si mesmo. Bruce não o interrompeu, e Tony deixou a história fluir.

...

Há algo de diferente em pessoas decidas, uma força capaz de mover montanhas, uma delicadeza determinada ao sucesso de sua ideia. Pepper era uma mulher assim e quando ela decidia fazer algo, bem, não havia o que se questionar nem argumentos que mudassem seu pensamento.

Ele iria abrir o jogo para Bruce e pronto. Estava decido.

Planejamento é essencial para o sucesso e isso era uma lei vital para ela até então. Ela era ótima com planos, mas a vida... ela é curta demais para isso. A vida é uma coisa estranha e delicada que pode acabar em um estalar de dedos.

Frágil demais. Podia ser esmagada pelas mãos de um vilão ou por um desastre natural. Podia simplesmente acabar em uma invasão alienígena ou qualquer incidente aleatório, como engasgar-se com a própria saliva ou um ataque cardíaco. Era uma coisa incerta e cheia de possibilidades que poderia acabar a qualquer instante.

Ela não tinha ideia de quantas chances ainda lhe restavam. A anomalia vulcânica em suas veias poderia consumi-la de dentro para fora na próxima esquina, dentro do elevador ou enquanto dormia um sono perturbado por um pesadelo que a deixasse agitada... Não. Tony não iria deixar que isso acontecesse. Ele não falharia com ela de novo, não desta vez. Mesmo que ele tenha deixado-a cair uma vez... mas ele não deixaria isso se repetir.

Pepper sabia que contar a verdade para Bruce nesse momento poderia colocar tudo a perder, é claro. Mas havia uma pequena chance de que, talvez, não. De que talvez ele entendesse e então talvez ele aceitasse. É um passo no escuro, arriscado. Ela precisava se arriscar e exportar a verdade. Sem mais manipulações e joguinhos. Ela estava cansada de balançar na corda, trabalhar com o incerto diante de sua nova visão de realidade onde tudo era duvidoso. Ela queria coisas reais, palpáveis. A certeza de que Banner ainda queria ao menos a amizade dela ou a de Tony era um bom exemplo, mas ele ia precisar ver o conjunto antes de tomar sua decisão.

E Bruce, assim como Pepper, também é uma pessoa decidida — exceto quando não é ele que está tomando as decisões.

Ela queria saber se Bruce voltou porque realmente quis voltar ou se voltou apenas por culpa, pena ou, na pior das hipóteses, por não ter mais para onde ir... É claro que se este for o caso ela ficaria chateada, mas aceitaria. Tony provavelmente não saberia lidar com isso logo de cara, mas o tempo o ajudaria a engolir os fatos.

Tony provavelmente ficaria pior do que já estava.

Pepper ficou tensa durante todo o trajeto até o apartamento. O novo motorista – cujo nome ela vivia esquecendo – era quieto e dirigia de maneira firme e calma. Aquilo deveria ajudá-la a se acalmar, mas somente a fazia lembrar-se de Happy que ainda estava hospitalizado. Ela segurou uma angustia forte dentro de seu peito, tentando não chorar quando o rapaz abriu a porta do carro para ela após chegarem em frente ao prédio.

Ela agradeceu e acenou para o rapaz vagamente, caminhando devagar até a entrada.

Depois que o elevador deixou-a na cobertura, ela entrou no apartamento e ouviu a voz de Tony. Ela viu Bruce assim que entrou na sala, cabeça baixa, braços cruzados. Ele parecia exaurido de forças para sequer erguer a cabeça. Pepper tirou os sapatos e se aproximou para observar a cena: Tony, de olhos fechados, deitado na poltrona como se estivesse em uma sessão de terapia e Bruce ouvindo-o, mas sofrendo um black out atrás do outro, erguendo minimamente a cabeça apenas para constatar que Tony ainda estava disperso em seu monólogo.

Ela entrou devagar, quase na ponta dos pés. Ultimamente ela tem andado muito na ponta dos pés, só para constar.

O fogo ainda queimava dentro dela. Era estranho porque não doía nem a queimava, mas ela tinha tanto receio de machucar alguém que até o fato de se mover muito rápido deixava-a em alerta. O Extremis transformou-a em uma arma que, por todas as discussões e dilemas que teve com Tony, ela nunca quis ser.

Ela caminhou pela sala, pé ante pé, até chegar por trás da poltrona em que Tony estava.

— Querido? — ela sussurrou e então colocou as mãos nos ombros dele. — Acho que você perdeu o Bruce.

— Quê? Porra. De novo? — ele cuspiu as palavras ao abrir os olhos e direcioná-los primeiramente para o doutor. Tony olhou para cima e encontrou os olhos azuis de Pepper. — Olá, a propósito. Bem vinda à estadia temporária da futura Sra. Stark.

Ele pôs sua mão sobre os dedos dela e Pepper bufou indelicadamente.

— Obrigada — ela disse. Pepper se inclinou para beijá-lo. — Você estava bebendo.

— Sim. Um pouco — ele respondeu, mesmo sabendo que não fora uma pergunta. — Mais que um pouco, talvez. Não tenho certeza... Comecei antes de Bruce chegar.

— Há quanto tempo você está falando com ele? — Pepper indagou.

— Não faço ideia. Desde que ele chegou? Tempo o suficiente para ele cair no sono... duas vezes, aparentemente — Tony respondeu com um tom amargurado.

— Coitado. Deve estar exausto — ela disse e olhou para o doutor. — Normalmente ele te escuta por horas sem nem piscar.

— Fiquei sabendo que o trouxeram direto de um código verde — ele revelou. — Ele fica acabado quando volta a si. É muita energia gasta e para repor ele precisa de comida e descanso. Muita comida e muitas horas...

— Código verde? Aconteceu alguma coisa na viagem? — Pepper interrompeu-o com a pergunta.

— Não, é... Ele se transformou no Hulk quando viu o que aconteceu com a mansão pela TV.

Ela refletiu em silêncio por alguns segundos, olhando de Bruce para Tony.

— Acho melhor acordar ele e levá-lo até o quarto.

— Qual o propósito de acordá-lo para que ele vá dormir?

— Porque se ele dormir assim, sentado, não vai se sentir muito bem quando acordar — ela disse e suspirou.

Pepper se aproximou do sofá e segurou o braço de Banner com cautela, pois queria despertá-lo, não assustá-lo.

— Bruce? — ela falou em um tom mais alto, porém com a mesma calma com a qual chegará até Tony.

— Hmm... ouvi. Estou aqui ainda — Bruce murmurou.

— Bem, é bom saber que você está aqui. Porque não se deita na cama, então? — ela disse.

Banner olhou para cima, surpreso por reconhecer a voz dela.

— Pepper? — ele falou um pouco mais ativo. Então ele concordou com o que ela havia proposto. — Ok. Cama é uma ótima ideia.

Tony se servia uma dose de uísque enquanto Bruce se arrastava para fora do sofá.

— Até amanhã, bela adormecida — Tony disse.

Bruce acenou vagamente para ele. Ele parecia desligado e um pouco fora de si aos olhos de Pepper, talvez pelo cansaço. Ele parecia ainda mais perdido do que quando ela o conheceu. Bruce caminhou em direção ao quarto e Pepper seguiu-o.

— Tony já te mostrou seu quarto? — ela perguntou.

— Hã? Sim, ele... deixei minha mochila lá, mais cedo.

Pepper concordou com a cabeça, mesmo sabendo que Bruce não veria, pois estava de costas para ela. Bruce entrou no quarto e se virou para fechar a porta, mas desistiu, pois Pepper ficou parada na soleira. Bruce olhou para ela, questionando-a com o olhar.

— Se importa se eu ficar um pouco? — ela perguntou.

Bruce tremeu, procurando estabilidade entre os pés. Se eu me importo?, ele pensou. A casa é dela e ela ainda pergunta se eu me importo? Bruce murmurou um claro que não e se afastou da porta. Pepper entrou. Ela ainda estava descalça e percebeu que as coisas não estavam tão ruins quanto ela imaginou, pois o tapete novo era realmente aconchegante. Pepper se sentou na beirada da cama, deixando espaço o bastante para ele se sentar sem que a proximidade o deixasse constrangido. Mas Bruce decidiu ficar em pé. Pepper olhou para ele e percebeu que seria assim mesmo, então resolveu acabar logo com aquilo para que ela pudesse se livrar de um peso.

— Bruce, eu te devo desculpas. Muitas delas.

Ele levantou a cabeça, suas sobrancelhas quase unidas. Bruce espera um sermão, mais ou menos como o de Natasha, porém sem o tapa em seu rosto. Foi pego de surpresa por Pepper e seu pedido de desculpa tanto quanto pela mão de Natasha.

— O quê? Como assim?

Pepper deu algumas respiradas longas e profundas enquanto olhava para as próprias mãos pousadas em seu colo. Ela também olhou para as mãos dele, mexendo nos óculos. Ela não conseguiu exprimir as palavras que queria que ele ouvisse. Pepper não teve noção de quanto tempo ficou calada até ouvir a voz de Bruce logo após um suspiro cansado.

— Pepper, eu sei que você passou por uma situação bem complicada... você e o Tony passaram e eu não quero dar a isso menos atenção do que merece, mas eu estou realmente, de verdade, muito cansado agora. Eu apaguei dois minutos depois que Tony abriu a boca.

Pepper se sentiu culpada. Era como se, novamente, Bruce estivesse sendo manipulado para atender as necessidades de outra pessoa ao invés das dele. Pepper fechou a boca que estava aberta desde que ele começara a falar.

— Claro, você está certo. Você precisa descansar. Temos tempo para essa conversa depois.

Pepper saiu, fechando a porta do quarto e deixando Bruce sozinho. Ela caminhou de volta para sala e não conseguiu parar. Ela caminhava em torno da poltrona em que Tony estava sentado antes.

Tony estava no bar, preparando uma dose. Ela sabia que na verdade ele estava preparando outra dose e se perguntou quantas ele já havia tomado.

— Pepper, você está me deixando tonto. Será que dá pra você se sentar?

— Eu estou te deixando tonto? — ela perguntou, mudando sua orbita para um oito infinito em torno dos dois sofás. — Ou será que é o uísque?

Tony suspirou e colocou as duas mãos sobre a bancada do bar.

— Pepper, por favor, não comece, eu... hoje está sendo um dia bem pesado pra mim. Não sei se você notou, mas o cara que me rejeitou dramaticamente e depois fugiu está aqui e eu não tenho ideia do porque ele ainda... — Tony se indignou ao não encontrar o restante das palavras que precisava e bateu com uma das mãos contra a bancada, fazendo com que os copos balançassem.

— É claro que você não sabe o porquê! O que você fez, hein? Tagarelou o dia inteiro? Você pelo menos deixou que ele falasse alguma coisa? — Pepper disse e percebeu que aquela conversa não os levaria a nenhuma conclusão produtiva. Tony confirmou aquilo ao beber em um só gole o conteúdo do copo e logo enchê-lo novamente.

— O que mais eu poderia fazer? Eu quero dizer, ele simplesmente... — Tony repetiu o processo de esvaziar e encher o copo mais uma vez. — Pepper, pelo amor de Deus. Porque a gente o chamou de volta pra cá? Que tipo de idiota eu fui ao pensar... — Tony balançou a cabeça. — Eu nem sei que merda que eu tinha na cabeça.

— Ah, Tony — ela suspirou e amenizou seu tom. — Tony, você pensou que ele estava lá fora sem um amigo. Que ele estava com medo de voltar. Pensou que ele precisava de nós.

— Viu? Eu costumava pensar no que eu precisava e, confesso que, apesar de toda essa bajulação de super herói, ultimamente eu sinto falta de ser aquele egoísta com uma mansão que não é atacada por terroristas e a namorada não vive em perigo constante.

— E quanto à parte em que você vivia em perigo constante?

Ela se aproximou dele e tentou alcançar a garrafa de uísque em suas mãos. Tony afastou-a para o lado até que Pepper lhe deu o olhar — o tipo de olhar que uma mãe dá ao filho e ele sabe que só uma forma de sair ileso daquela situação. Ele suspirou e entregou a garrafa para Pepper. Ela tampou e guardou-a no armário.

— É. Eu estava sempre em perigo — Tony começou. — Eu só não sabia disso porque o cara que eu considerei ser um segundo pai era na verdade um lunático ganancioso de duas caras.

Tony bebeu um longo gole de seu copo, fechou os olhos e respirou profundamente.

— Bem, ele tentou me matar também — ela disse, gentilmente colocando sua mão sobre a dele, em volta do copo. Ela levou a mão dele até a bancada, pousando o copo.

— Eu sei. Eu odeio me lembrar disso — ele disse. — Foi minha culpa. Tudo... toda vez que você se machuca: minha culpa. Seja quando eu te coloco em perigo... ou quando eu te machuco. E eu tento não... Eu tento te manter a salvo de tudo isso e eu... e se o Bruce estivesse com a gente, nada disso teria acontecido...

— Bruce não poderia ter impedido o que aconteceu com Happy, Tony. Ele não é um bruxo. Ele não pode estar em todo o lugar.

— Pepper. Eu tento deixar isso de lado. Eu estava... eu ainda estou tentando, mas... eu não sei mais o que fazer. Essa coisa não para. Eu não suporto mais me sentir assim.

— Eu sei, querido. Eu entendo — ela disse segurando-o por um tempo, massageando o cabelo da nuca dele e permitindo que Tony se acalmasse.

Ela podia ouvir a respiração de Tony se tornando lenta. Pepper ergueu a cabeça, olhou nos olhos dele e disse:

— Eu quero contar para Bruce. Eu vou falar para ele amanhã. Contar que nós... tudo.

Tony transpareceu confusão por um instante e então ele pareceu ter se quebrado.

— Pepper, eu achei que tínhamos desistido depois que eu... que eu estraguei tudo.

— Não importa mais. Eu quero, eu preciso contar a verdade para ele. Eu preciso disso — ela respirou fundo, recuperando o fôlego. Toda vez que ela ficava sem ar, tinha medo de que sua pele esquentasse até ser capaz de derreter o chão onde ela pisava. — Eu preciso me desfazer desses segredos.

— Você não pode. Não pode! Ele vai ir embora, de novo. Você mesmo já disse; ele precisa da gente... não podemos simplesmente...

— Tony — Pepper chamou. Ela colocou a mão no braço dele e Tony parou. — Eu acho que ele tem o direito de saber de tudo. Eu acho que, talvez se ele estivesse ciente de tudo antes, ele não teria fugido daquele jeito.

Tony bufou.

— É. Ele teria fugido bem antes.

— Talvez. Não sabemos, mas... eu não consigo mais. Eu me importo com ele e me importo com você e não consigo mais... — ela estava se controlando muito naquele momento, mas o esforço foi em vão e ela deixou a primeira lágrima escapar.

— Pepper, ele não quer. Ele deixou isso bem claro quando se mandou pra puta que pariu. Ele não quer isso... a gente. Ele não quer, mas ainda precisa da gente... não tire isso dele.

Tony ergueu a voz. Ela não se sentiu capaz de se igualar aquilo. Sua voz tremeu quando ela lutava para continuar falando.

— Eu só quero que eles saibam o quanto eu me importo e como eu me sinto. No caso de... caso aconteça alguma coisa, caso você não seja capaz... caso seja tarde demais na próxima vez.

— Não. Escute, Pepper, não vai ter essa de próxima vez. É isso que eu queria que você entendesse quando eu explodi todas as armaduras. É sobre isso... — Tony balançou o braço ao seu redor. — É onde eu queria chegar. Acabou.

— Nós dois sabemos que não. Nós dois sabemos que isso nunca vai acabar. Estaremos sempre na mira, você e eu. Alvos. E qualquer outra pessoa que seja importante para nós — Pepper chegou ao mesmo tom de Tony. E ela não queria que fosse assim. Pepper respirou fundo.

— Nem fudendo! Isso não vai acontecer mais, é exatamente isso... Eu deveria proteger você e... você tem que ficar segura. Você deve estar segura.

— Eu nunca vou estar segura, Tony! — ela gritou.

Tony recuou. Pepper fechou seus olhos e respirou fundo, de novo. Ela não sabia se estava imaginando um brilho fraco irradiar de sua pele ou se era real. Pepper abriu os olhos, mas não pôde olhar para Tony, por receio de que ele estivesse com medo dela.

— Pepper. Não. Eu vou consertar tudo isso — Tony falou. Ele não demonstrou medo... ele estava implorando, mas não por medo. O coração de Pepper se estilhaçou.

— Tony... você... você não consegue. Não pode — ela engoliu. — Eu sei que você sempre vai tentar. E eu te amo tanto por causa disso... — ela disse e arriscou-se a olhá-lo de relance.

E ele estava olhando para ela sem nenhum tipo de defesa, reafirmando naquele olhar que, se Tony Stark tinha um coração, ele pertencia à Pepper. Ela deslizou para dentro do abraço dele.

— Eu fiz tudo por você. Tudo o que eu estou tentando fazer é por você. Sempre será por você — ele disse. — Você é a minha única razão, Pepper, não posso deixar que nada aconteça com você.

Tony estava definitivamente bêbado, então. Mesmo em seu caminho para se tornar um mendigo com teto, aquilo era um grande feito para ele. O que deixava Pepper preocupada.

— Não. Eu não sou sua única razão, Tony. Você fez por mim, por você mesmo, pelo Happy e pelo Rhodes, pela sua empresa e pelas pessoas aterrorizadas com mundo lá fora... E tudo bem, de verdade. Eu não preciso ser sua única motivação. Eu sei que sou importante sem isso.

— Eu preciso de você — ele disse, partido, apertando-a forte, com medo de que ela pudesse não estar mais ali um dia. Era inevitável perdê-la em algum momento futuro, mas ele se recusava a aceitar o inevitável.

— Vamos pra cama — ela falou baixinho, perto daquele aconchegante lugar onde o pescoço e o maxilar de Tony se unem. Ali era o lugar onde Pepper conseguia ver ao menos uma certeza sobre a vida; o amor de Tony.

— Ainda é cedo pra ir dormir — ele protestou.

— E? Não precisamos dormir, então. Vem.

Tony tinha os braços em volta dela e beijava seu pescoço, atrapalhando o trajeto até o quarto, mas assim que ele se livrou das duas camisas que usava e colocou a cabeça no travesseiro, desmaiou. Pepper se sentou na cama ao lado de Tony, olhando para a própria mão. Ela se perguntou se seria capaz de fazê-la aquecer, aquecer muito, apenas com o pensamento.

Ela tinha medo de tentar.

Pepper deitou-se e abraçou Tony por trás, sentindo as bordas do reator com a ponta dos dedos até que também caiu no sono.