CAPÍTULO 9

Usagi se espreguiçou. Seus cílios louros abriram-se constatando os primeiros raios de sol da manhã, e se fecharam novamente, enquanto ela sorria tomada de uma onda de alegria que deixava seu corpo em brasa. Ela esticou o braço para tocar Mamoru. O espaço ao lado estava vazio.

Imediatamente foi alfinetada por uma assustadora insegurança. Mas não devia seguir esse caminho! Nunca mais ela se deixaria atormentar procurando por motivos escusos, jurou ao recostar nos travessei­ros num deleitoso abandono.

Ele acordara bem cedo, fora até o quarto dele, saí­ra para um passeio, fora pescar... e daí? Não signifi­cava nada. Ela podia ser amante dele e poderia até ser esposa dele em breve, mas não era proprietária dele. Ele não tinha que justificar cada passo a ela antes mesmo de andar.

A noite anterior mudara tudo. Ela precisava dar uma chance e parar de pensar pelo lado negativo. Não apenas pelo bem de Mamo, mas por que ela mes­ma o amava, como poderia ser feliz sem ele? E tam­bém pelo bem de Mamoru. Ele precisava de seu filho, precisava saber que seu filho estava feliz e belamente cuidado e que tinha todas as vantagens que ele pode­ria proporcionar. Eles poderiam se casar e serem felizes. Uma família feliz, os três juntos. Ela precisaria de uma elevada dose de paciência para fazê-lo acre­ditar que ela não era aquilo que ele pensava. A pilha de evidências contra ela era alta, mas conseguiria por todas abaixo por fim.

A última noite garantira a ela que isso poderia ser feito. No início, o ato de amor fora loucamente emo­cional. Não fora apenas sexo, caso contrário, ela teria constatado. E as lembranças seriam tão nojentas que estaria se detestando ao invés de se sentir gloriosa­mente confiante no futuro que eles poderiam cons­truir juntos.

Foi como se duas almas impetuosas tivessem se encontrado depois de estarem por longo tempo perdi­das no limbo. Eles se agarraram com pura paixão. A segunda vez então transcendera o mero êxtase. Fora divinamente especial, uma lenta e terna exploração do prazer, duas almas retornando ao lar, dissolvendo-se uma na outra.

Então, mesmo que a mente dele lhe dissesse que ela era uma ordinária imprestável, o corpo dele e até mesmo o coração dele já contavam uma outra histó­ria. Fisicamente, ele sentia por ela a mesma necessi­dade que ela sentia por ele, e com o amor por parte dela e, por parte dele, o reconhecimento final e ne­cessário de sua inocência, eles poderiam colocar fim a distância que os separava.

Um suspiro de prazer por sua recém-conquistada confiança foi interrompido ao ouvir alguém bater na porta. Em seguida entrou a governanta com uma xí­cara de café sobre uma bandeja de prata.

— Está uma linda manhã — anunciou com um in­glês meticuloso, enquanto Usagi erguia-se na cama puxando o lençol sobre seus seios nus.

— A primavera já chegou. — A governanta colo­cou a bandeja sobre a mesinha-de-cabeceira, delica­damente fingindo não ver a camisola de seda que fi­cara esparramada no chão desde a véspera.

— O signore Chiba partiu há uma hora e me pe­diu para lhe dizer que ele tem encontros de negócios em Florença e irá permanecer lá por um ou dois dias. Como está um dia esplêndido, vou levar o seu café da manhã lá no jardim, pode ser?

— Obrigada.

Foi tudo quanto Usagi conseguiu dizer ao apa­nhar a xícara de café. Apesar de suas boas intenções, as dúvidas a inundavam novamente. Esforçava-se para não ser assim, mas dúvidas se esgueiravam in­sistentemente em sua mente, estragando tudo.

Por que motivo ele não acordara para se despedir, explicar a ela onde ele estava indo e por que, em vez de deixar um recado com a governanta? Levaria ape­nas um momento de seu dia ocupado. Ela não mere­cia tal consideração? Será que ela estivera fantasian­do sobre a noite passada, em vez de enxergar o que de fato acontecera?

Calma!, resmungou em pensamento quando a governanta deixou o quarto. Pare com isso! Ela estava exigindo muito dele, cedo demais. Eleja se comprome­tera com o filho deles, e com a mãe do filho deles, pois Mamo tinha necessidade dela. Levaria um tempo para que ele se comprometesse com ela como uma pessoa com seus próprios direitos, com ela como esposa, o que era bem mais do que uma peça extra de bagagem arras­tada por ser necessária na vida do filho.

Mas o tempo estava a seu favor. Com esse pensa­mento sensato, terminou o café e se levantou. Estava um lindo dia. Ela daria um banho em Mamo e o vesti­ria. Os três poderiam tomar café da manhã no jardim. Minette iria gostar, a fonte jorrando e flores de narci­so perfumando o ar. E quando Mamo adormecesse, após o almoço, ela continuaria as lições de italiano com a governanta. Uma vez que iria fazer sua vida na Itália, deveria falar fluentemente como os nativos.

Mamoru dirigia partindo de Florença e no peito seu coração pulsava mais rápido. Fora exatamente como ele começara a suspeitar. Posta contra a parede, Béryl contara tudo o que ele precisava saber. Usagi so­frera de fato uma cilada, como ela própria tantas ve­zes protestara.

E ele não a tinha escutado! Confrontado com as "provas" ele ficara abalado. Dera precedência a sua antiga amizade e respeito por Béryl, e não escutara Usagi. Ele fora muito ligado a Béryl. Jamais a ama­ra, mas a respeitara e confiara nela. Nem em um mi­lhão de anos poderia supor que ela fosse capaz de ta­manho fingimento.

Xingando-se por sua mente fechada Mamoru pisou no acelerador. O choque inicial e a profunda mágoa transformaram-se depois em obstinado orgulho que o levaram a pensar o pior de Usagi. Precisava estar com ela, começar a tentar consertar as coisas.

Será que ela lhe daria uma segunda chance? Pro­vavelmente gostara de fazer amor com ele, mas será que se apaixonaria novamente, depois do comporta­mento que ele tivera?

Apesar do ar condicionado eficiente ele começou a suar. E, dando-se conta de que poderia ser parado por policiais, o que prolongaria ainda mais a sua de­mora, reduziu a marcha e procurou levar os pensa­mentos para outros lados que não os de sua fabulosa e amada Usagi.

As suspeitas, que começaram a tomar forma quan­do ficou evidente que alguém não obedecera suas instruções de não denunciar o roubo à agência, ti­nham se transformado em certeza. No entanto ele precisava checar. Trabalhava com fatos, sempre fora assim. Não com suposições. E naquela manhã, ele havia se disposto a encontrá-los.

Solicitando favores especiais conseguiu ter acesso a um relatório confidencial que confirmou suas supo­sições.

No dia da malfadada festa de aniversário de Rei, o pai de Béryl já estava com sérios problemas fi­nanceiros. Quando ele a procurou para educadamen­te romper o noivado, pois já estava apaixonado por Usagi, Béryl refletiu que precisaria tomar uma ati­tude drástica para manter seu futuro casamento nos trilhos. Isso lhe garantiria um pote sem fundo de di­nheiro.

Ela instruíra Filomena a colocar a gargantilha de diamantes na bagagem de Usagi, e depois encenara a "descoberta". Esse fora seu truque. E por pura mal­vadeza, contatou a agência para a qual Usagi traba­lhava. Agora, fazia sentido o jeito como, pela primei­ra vez, Béryl o pressionara pelo casamento. Até aquele momento, tinha sido tão descansada quanto ele para marcar a data.

A família di Metália estava agora em grandes difi­culdades financeiras. Béryl negara o fato defensiva­mente. O último lance do pai dela fora um investi­mento de alto risco, feito com capital emprestado. Isso o arruinara de tal modo que ele estava a ponto de ter a sua falência pública decretada. Apreensiva com a situação, Béryl decidira pressionar pela data do ca­samento.

A conversa que tivera com ele após um almoço no qual nenhum dos dois tocou na comida fora bastante desagradável. Como pudera ele algum dia ter concor­dado com a idéia de um casamento dinástico estéril com tal criatura? Ficou enojado ao constatar isso. Po­dia ter sido algo muito importante em seu passado, mas no momento aquilo lhe dava nojo.

Recusando-se a permanecer no passado quando o futuro era tão mais importante, Mamoru direcionou sua mente para tentar planejar como ele iria persuadir Usagi a perdoá-lo. A tentar amá-lo outra vez, como ela já o amara. E ele também a ela.

0 pôr-do-sol refrescava a chegada da noite cor de ametista. Usagi voltava do passeio, pisando descal­ça sobre o gramado salpicado de florezinhas.

Mamo dormia no quarto vigiado pela babá. Tivera um dia cheio de novos cheiros e sons e a excitante descoberta de que podia ficar em pé, amparado pelas mãos firmes de sua mãe.

Ela ainda teria de trocar a velha calça jeans e a ca­miseta de cambraia por uma roupa mais respeitável. Colocaria um de seus muitos vestidos elegantes, para depois fazer a refeição solitariamente na cabeceira de uma mesa de jantar comprida. Tentaria parar de an­siar pelo retorno de Mamoru ao lar. Queria que ele esti­vesse ali agora, naquela noite. Não queria ter que es­perar por ele até a noite seguinte! Que ele estivesse em casa todo para ela.

Desejava-o tanto que só de pensar nele já se sentia tonta. Estava extasiada com as múltiplas possibilida­des de futuro que teriam, desde que ela tivesse a pa­ciência para mudar a opinião dele sobre seu compor­tamento moral.

Ao alcançar o salão frio na entrada da mansão, ela parou procurando acalmar a respiração e a pulsação. Imaginava se conseguiria essa façanha sentindo seu corpo ainda cantar as impressões da última noite de paixão. A governanta apareceu no corredor que des­cia da ala dos empregados.

— A signorina recebeu um telefonema. Um ho­mem inglês de nome Motoki. É para entrar em contato com ele. Acho que é urgente.

— Sim. Vou ligar do meu quarto. Uma pontada de culpa a fez sentir-se horrível. Ela telefonara, como prometera, na sua chegada a Florença. Mas dissera que ligaria depois e desde então nunca mais retornara. Tivera coisas demais para pen­sar e esquecera sua promessa.

O quarto estava abafado. Ela abriu as janelas e dei­xou aberta a porta para correr um pouco da abençoa­da brisa fresca antes de procurar em sua bolsa o car­tão de Motoki. Sentou-se então na cama de pernas cruza­das com o telefone na mão.

— Você está bem? — perguntou Motoki apreensivo assim que ela o cumprimentou. — Não soube mais nada desde o dia em que você chegou. Você prometeu me ligar novamente depois de alguns dias. Ao que eu saiba, ele poderia ter prendido você e jogado a chave fora. Lita está ficando apavorada. Ela está me culpando por ter permitido que esse homem levasse você e o menino embora. Ele está te tratando bem? Ele me pareceu pavoroso quando veio buscá-la.

— Estamos bem. E Mamoru caiu de amores por Mamo. Ele até mesmo quer se casar comigo! E eu vou aceitar. Diga a Lita que não se preocupe. Eu mesma vou ligar para deixá-la mais tranqüila. Sinto muito. Deveria ter me lembrado de entrar em contato com vocês antes.

— Então você deve se desculpar.

Motoki tentava parece firme e ao mesmo tempo fraternal.

— Estou contente que as coisas estejam caminhando bem para você, se é isso o que você quer, mas meus pais e Lita ficaram muito preocupados e me responsabilizaram. Disseram que eu deixei você ser raptada por um estranho. Eu deveria ter cuidado de você e do menino.

Usagi engoliu uma risadinha, porque o assunto não era nada engraçado. Era bom sentir que havia pessoas que verdadeiramente se importavam com ela, mas fi­cou constrangida por tê-los deixado aflitos. Falou com tom de arrependimento na voz.

— Não se sinta desse modo, Motoki. Ele é o pai do meu filho, o que mais eu poderia ter feito naquelas circunstâncias? Mas eu vou ajeitar as coisas de modo que tudo fique bem para você. Prometo.

O canto de seu olho captou um leve movimento na porta e ela virou o rosto. Os olhos grandes brilharam subitamente.

Mamoru! Finalmente ele estava em casa! Ela não te­ria de sofrer uma noite inteira esperando-o!

Com um sorriso de êxtase, voltou rápida ao telefo­ne. Terminou a conversa prometendo entrar em con­tato com Lita. Agora sim, estava pronta para encon­trar o homem que fora o primeiro e único amor de sua vida.

Mas um espaço vazio a cumprimentou.

Considerando que seria melhor deixá-la terminar o telefonema, era provável que Mamoru tivesse ido ver seu filho adormecido. Usagi desejou que aquela noi­te fosse muito especial. Ela lhe diria que aceitava a proposta de casamento. Seria talvez após o jantar, no terraço ao luar. Sentia uma felicidade indescritível. Tudo iria dar certo, ela tinha certeza. Teriam uma longa vida em comum, e ela teria muito tempo para convencê-lo de que nunca fora uma ladra! Depois de toda a ternura manifestada por Mamoru na última noite de amor, ela confiava estar no caminho de conseguir isso.

Ela estava justamente decidindo se iria retirar suas roupas desalinhadas e colocar um daqueles vestidos requintados e caprichar no visual, ou se iria correr e procurá-lo daquele jeito mesmo como ela estava quando o telefone tocou.

Após hesitar um momento atendeu o telefone, que acabara de tocar. O ar sumiu quando ela ouviu a voz suavemente venenosa:

— Aqui é Béryl di Metália quem fala. Eu estava me perguntando se você estaria agora se sentindo or­gulhosa. Imagino que esteja. Hoje é um dia que você pode chamar de glorioso, não é? Usando dos mais ve­lhos truques conseguiu destruir um noivado de duas pessoas que foram feitas uma para a outra.

Enojada com o tom malévolo da mulher que já ar­mara uma cilada para ela, Usagi ficou tentada a des­ligar o telefone. Mas a notícia de que Mamoru não era o homem livre que ela pensava ser, que na verdade ele estava comprometido a se casar com outra, e que saí­ra de sua cama naquela manhã para ir até Florença terminar o noivado e confessar que ele havia pedido a mãe de seu filho em casamento a deixou pasma. E ela não conseguiu desgrudar a orelha do telefone en­volta numa espécie de fascinação perversa e doentia.

— Mas não fique muito cheia de si. Ele só vai se casar com você por causa do menino. Ele tem muito mais dignidade do que você pode sonhar. Você pre­parou uma armadilha e ele odeia isso. Ele vai acabar te detestando por esse motivo. Isso já parecia estar acontecendo hoje quando tivemos nossa despedida. Eu nunca tinha visto o meu pobre querido tão desani­mado. Era a mim que ele queria desposar. E ele tem vergonha de você. E quem não teria? Ele não lhe será fiel, não percebeu isso ainda? Ele irá procurar outras para se divertir. Uma coisinha sem graça como você não tem o que é necessário para satisfazer um homem tão sofisticado. As pessoas do nosso círculo de ami­zades não terão pena de você. Elas vão rir na sua cara...

Usagi deixou o telefone escorregar. Seus dedos tremiam. Tudo o que aquela mulher má dissera era odioso.

Porém, era a mais repugnante verdade.