Recomeço

Santuário, Templo de Gêmeos

- Só isso?

Saga se dirigiu a Kanon quando o via trazer uma pequena muda de roupa e a escama de Dragão Marinho para seu quarto. Os templos do Santuário não eram hotéis, não foram construídos para hospedar mais do que duas pessoas – o portador da armadura e em raros casos seu possível sucessor. O segundo quarto do templo de Gêmeos era o de Kanon, era quase tão grande e confortável quanto o primeiro, mas o mais novo quase não o usava.

- Nunca tive muita coisa minha, Saga. – disse dando de ombros e jogando as roupas encima da cama.

Era bem verdade, os gêmeos sempre dividiram tudo o que tinham, Kanon nem tinha o que guardar em seu quarto, usara as mesmas roupas que Saga durante a infância e adolescência, os mesmos sapatos, dormiam na mesma cama no quarto principal. Kanon só usou o segundo quarto depois da morte do irmão, não conseguindo ficar naquele sem ser esmagado pelas lembranças e as poucas coisas que tinha era o que havia sobrado de sua vida como Dragão Marinho. Jogou-se no colchão e sorriu, espreguiçando-se.

- Acha que elas vão se importar de ficar no mesmo quarto? – Saga falava enquanto pegava as roupas de Kanon para guardar, uma vez que tinha visto que o mesmo não o faria.

- Sei lá. Mas não tem muito o que fazer, não vamos os dois dormir na sala, né? – o mais velho sorriu um tanto inseguro. – Saga, - ele virou-se e encarou seu gêmeo, mas tudo o que houve foi silêncio – você ainda não falou com ele, não é? – disse sentando-se.

- Não. – voltou a sua tarefa de antes – Na verdade, não falei com quase ninguém ainda, apenas Shion, Shura, Camus... Você sabe, apenas os que...

- Você devia. Aioros está muito estranho. Vocês costumavam ser amigos antes de... – o mais novo hesitou no que ia dizer, vendo Saga suspirar – tudo.

- Não sei, Kanon. Para ser sincero, eu nem acho...

- Que deveria estar aqui. – completou e sorriu – Eu sei.

Os dois se encararam por um longo momento, trocando confidências silenciosas e por fim o mais velho também sorriu. Terminou de arrumar as coisas de Kanon e deitou-se ao lado dele.

- Você realmente me perdoou? – disse afagando-lhe os cabelos.

- Ainda tem dúvida? – Saga apenas balançou a cabeça para os lados e Kanon perguntou – Quando tempo acha que vai levar para...

- ...voltarmos a brigar como antes? – ele riu – Não muito, espero.

- Bom.

- Acho que terei que enfrentá-los uma hora.

- Vou estar com você.

Saga apenas assentiu e os dois voltaram os olhares para o teto, várias marcas e arranhões, e uma pequena mancha de sangue, lembranças das antigas brigas pelo melhor lado da cama, de muito, muito tempo atrás.

- O lado esquerdo é meu. – disse Kanon sorrindo, o mais velho suspirou e soltou um riso leve e debochado.

- Vai sonhando.

Chegada

Entrada do Santuário, escadarias de Áries

Quando viram a mulher lemuriana descendo as escadas com aquela linda garota mal humorada, alguns dos cavaleiros a acompanharam e se preparavam para receber as novas hóspedes. Não se passou nem um minuto completo do momento em que a mulher de cabelos brancos desapareceu para o momento em que ela voltou.

Akuma colocava a sua bolsa nas costas enquanto terminava seu pequeno sermão sobre atrasos e Emma torcia a boca ouvindo tudo em silêncio. Quando as duas terminaram a oriental sorriu calorosamente e deu-lhe uma tapinha no braço. Aldebaran olhava as duas esperando um momento oportuno de se aproximar e quando enfim separaram-se foi até Akuma e se apresentou.

- Bom dia, sou Aldebaran de Touro. – Estendeu a mão para ela, mas a japonesa não a pegou.

- Sou Akuma. – sorriu e fez uma leve reverência.

Aldebaran ficou sem graça um momento e recolheu a mão coçando o topo da cabeça, mas logo abriu um sorriso espontâneo.

- Quer ajuda com a mala? - perguntou pretendendo fazer uma gentileza.

- Não, obrigada, estou bem. – a japonesa sorriu – Mas talvez possa ajudar minha amiga. – com um gesto de cabeça apontou Away que não sabia por onde começar para pegar as malas – Ela não tem muita noção das coisas.

Aldebaran riu de forma gostosa e se dirigiu a pilha de coisas de Away, pegando o que lhe parecia ser mais pesado.

- Ah! – a outra soltou uma expressão de alegria – Obrigada, senhor Grandão! – agradeceu.

Dohko também ia até a loira e pegou mais algumas malas e cumprimentou.

- Sou Dohko de Libra, você ficará em meu templo.

- Certo, certo. Obrigada, senhor Dohko – disse sorrindo de forma encantadora, com seus grandes olhos castanhos se apertando um pouco – Então, vamos, já está quase na hora do almoço!

Dito isso, ela tirou uma gaita de algum lugar e começou a tocar, seguindo em direção as escadas, com passos saltitantes, não se importando com as duas que tinham ficado para trás. Ambas foram recolhidas por Shura, a pedido de Dohko e logo começaram a subir as escadas, sentindo-se subitamente animados por causa da música da loira.

- Ela é sempre assim? – Aldebaran perguntou à japonesa.

- Sempre. – Akuma confirmou.

O espanhol, momentos antes, tinha se oferecido para carregar a bagagem de Mad Max, mas havia recebido um comentário de duplo sentido e muito mau gosto sobre "sua espada que não cortava mais" e foi deixado para trás quando a morena foi de encontro a Ishtar e Robin que já faziam o percurso das escadas. Aparentemente nem os gêmeos nem Aioros haviam descido para recebê-las. Shura apenas estalou a língua e quis ser útil a alguém. Sua ferida da noite anterior ainda doía um pouco, uma dor fantasma de fato, pois já havia sido curado por Athena. Subiu as escadas um pouco menos confortável do que quando desceu.

Camus recolheu a bolsa de Lady Anubis e ofereceu o braço a ela em uma atitude muito cavalheira, e para a loira, muito familiar, mas ela apenas o olhou com seus olhos mortos fazendo-o entender que não pegaria, e Camus, com sua frieza habitual, pôs- se a caminhar como se nada houvesse ocorrido, mas uma cena como essa não seria ignorada pelo olhar afiado de Milo de Escorpião, que passava a seu lado na direção oposta e sussurrou-lhe ao ouvido.

- Difícil essa, não? – o francês quase se sentiu ofendido, mas preferiu ignorar Milo, continuando a passos firmes com uma expressão serena.

O cavaleiro de escorpião continuou andando em busca de sua vítima, digo... Sua hóspede, andou alguns passos avistando-a vindo em sua direção. Pensava na sorte que tivera, era uma linda ruivinha e só Zeus sabia o quando gostava de ruivas. Ange naquele momento tinha uma expressão entediada e o andar folgado e sem pressa. Milo se aproximou dela e começou uma apresentação com seu sorriso mais charmoso.

- Sou Milo de Escorpião e você será muito bem vinda a minha casa.

- Ok. – disse ela sem expressão nenhuma – Sou Ange. – falou e depois continuou a caminhar, não dando muito bola ao escorpiano.

Milo bagunçou um pouco seus cabelos cacheados e olhando mais a frente pode ver Camus a encará-lo com um discretíssimo sorriso nos lábios. Isso fez Milo rir de leve e murmurar um "cretino", sabendo que ele havia visto a cena. A sua também não seria muito fácil.

Black Ageha estava o tempo todo grudada o braço de Zöe, impedido a menina de cabelos róseos de se movimentar direito. A ruiva dava atenção demasiada ao leonino que carregava sua bolsa, enquanto ela carregava as de Kamome. Estava tão embasbacada de conversar daquela maneira com Aiolia que vez ou outra tropeçava nos degraus, trazendo a japonesa junto a cada quase queda. E até mesmo havia se esquecido de como Black Ageha ficava desconfortável em lugares novos.

- Você está bem? – perguntou Aiolia percebendo a leve expressão de incômodo no rosto da menina japonesa, que levava nos braços um delicado vasinho de violetas.

Kamome apenas olhou para ele sem saber se assentia ou não e olhou para Zöe apreensiva.

- Está sim. – disse a ruiva fazendo-lhe um afago nos cabelos lisos.

O cavaleiro apenas encarou os olhos arroxeados a menina e depois voltou à conversa que estava tendo com Zöe, sobre como seu irmão estava estranho e como era bom tê-la por perto.

Shamira pegava suas coisas com certa dificuldade, pois por nada deixaria de agarrar seu livro com toda força, ainda mais estando naquele lugar de novo, olhava vez ou outra para o coliseu tentando aproximar as boas memórias e afastar as ruins, tentando não lembrar que Carmem estava morte e que fazia anos que não ia a sua casa no Brasil. Torceu um pouco a boca e tão logo conseguiu pegar suas malas começou a andar em direção a casa de Câncer. Mas que sorte a dela, de todos os cavaleiros teria que ficar logo com o psicopata carcamano, devia ter dito logo que queria ficar com Shura ou Aioros, os quais já conhecia a boa índole. Mas agora era um pouco tarde.

Scarlet, assim como a mulata, não conseguia evitar as lembranças, dali podia ver algumas casas de Rodório, a vila havia sido reconstruída e quase não havia sinais da última guerra, com certeza havia outro médico atendendo lá no lugar de seu pai. Até ali não havia sentido tanto o peso de seu erro, como desejava ter estado em casa na hora, mas não estava. Balançou a cabeça para os lados lentamente e voltando a postura rija começou a subir os degraus.

As mãos pálidas não paravam quietas torcendo a alça da bolsa na mão. Luna esperava que os cavaleiros viessem e carregassem ao menos uma das malas para ela. Duas grandes malas carregadas de livros dos mais diversos assuntos e uma bolsa menor com suas roupas. Sabia que agora teria que carregar tudo sozinha e odiava admitir, mas trabalho braçal não era bem o seu forte. Fez um enorme esforço para erguer as duas malas já com a bolsa nas costas e quase caiu para trás como uma pedra. Seu rosto naturalmente sem cor começava a avermelhar-se com o esforço.

- Quer uma ajuda aí? – Scarlet perguntou quando percebeu que a norueguesa estava ficando para trás.

- Não, estou bem. – mentiu com pompa. Claro que não estava, mas pedir ajuda nem pensar.

Luna ficou bem mais atrás das outras, mas conseguiu subir, fazendo pequenos intervalos para descansar.

Família

Santuário, Templo de Áries

- Então é verdade? – Mu indagava a seu mestre.

O mais novo estava ansioso, suas mãos até mesmo suavam, ele teve muita paciência em esperar até que todas as mercenárias subissem até que enfim pudesse ter essa conversa tão turbulenta.

- Sim. – Shion respondeu – Miluen de Jamir é sua mãe.

Mu ficou atônito por alguns segundos, pensativo, olhava vez ou outra para a porta, mas não entendia bem o que estava sentindo. Olhou para o mestre com o olhar suplicante, como se perguntasse como deveria agir. Shion respirou fundo e deu de ombros.

- Ela me entregou você quando você tinha pouco mais de um ano. Veio até o Santuário e te entregou nos meus braços dizendo que você era meu sucessor. Ela não te abandonou, se é o que está pensando, apenas te entregou ao seu destino. Miluen também pode ler as estrelas.

- Por que o senhor nunca me disse que ela estava viva? – perguntou um tanto transtornado – Eu nem sequer lembro daquela mulher, eu não faço ideia...

- Acalme-se, Mu. Você não tem que fazer nada, se não a quiser como mãe, sei que ela entenderá, se quiser ela vai te acolher, eu a conheço bem.

- Conhece? – o cavaleiro de Áries indagou e observou enquanto o mestre apenas levava uma xícara de chá à boca enquanto assentia.

- É uma longa história. – houve silêncio e Mu compreendeu que não ouviria aquela história tão cedo – Agora devo voltar ao décimo terceiro templo. – disse terminado seu chá e levantando-se – Athena está me esperando.

- Mestre...

- Apenas acalme-se. Não tem que fazer nada que não queira. – disse sorrindo de leve e saindo da casa que um dia lhe pertenceu.

Chegada II

Santuário, Templo de Touro

Aldebaran colocava as várias malas no chão e alongava as costas sob o olhar atento de Dohko.

- Só vou mostrar a Akuma o seu quarto, logo logo subo. – disse e o cavaleiro de Libra assentiu.

- Até logo mais.

A mercenária tinha os olhos fechados no momento, com a alta claridade do sol da Grécia ainda era capaz de distinguir vultos na escuridão, mas ali, à sombra da casa de Touro, tudo voltava a ser treva. Estava apenas parada esperando pela próxima atitude de Aldebaran.

- Venha comigo, por favor.

Ele foi andando pelo corredor e ela seguiu a seu lado, apenas acompanhando o som dos passos largos do maior. Ele falava sobre como se sentia bem estando de volta à vida, agradecia em nome de todos e perguntava se havia algo que podia fazer. Akuma ouviu o leve ranger de uma porta e adentrou o cômodo, o cavaleiro não a acompanhou, então deduziu que havia chegado. Pôs a mala no chão e virou-se para o cavaleiro de Touro fazendo outra reverência e agradecendo a hospitalidade.

Aldebaran coçou a cabeça um tanto sem graça.

- Não é nada. – respondeu e então reparou no quarto – Está um pouco escuro aqui vou abrir a janela para você, disse entrando na ânsia de ser gentil.

- Não faz diferença. – ela respondeu e achou que talvez tivesse sido rude – Mas obrigada. – sorriu.

- Tem uma bela vista lá de fora, vale apenas deixar aberta. – disse enquanto abria e logo saiu.

A oriental riu de leve do cavaleiro, o achando no mínimo desatento, mas não, ela pensou, ele não teria como perceber assim tão fácil. Aldebaran não entendeu o riso, mas sorriu de volta. Ela abriu os olhos lentamente, aproveitando a brisa que adentrava o quarto quente.

- Eu gostaria de um banho, pode me indicar o banheiro?

Ele prontamente apontou uma porta bem próxima, no corredor.

- É ali. – respondeu – Tem toalhas limpas no armário. – ela riu novamente – O que foi? – perguntou confuso.

- Terá que me indicar com um pouco mais de veemência. – ele continuou sem entender a olhando de forma estranha – Sou cega, senhor Aldebaran. – disse sorrindo de novo.

O cavaleiro arregalou os olhos se sentindo a mais estúpida das criaturas.

- Perdão, eu não notei, eu... – falava sem graça.

- Tudo bem.

- Vou levá-la até lá. – disse com uma enorme mão indo em direção a dela.

Ao sentir o calor humano próximo a pele Akuma puxou o braço de forma rápida, impedido que ele a tocasse.

- Não faça isso. – disse de forma um pouco rude e logo se arrependeu – Meu corpo é venenoso, nunca deve me tocar.

Aldebaran se sentiu sem graça de novo e recolheu a mão, andou alguns passos na direção do banheiro, certificando-se que faria muito barulho para que a mercenária pudesse segui-lo, ela quase riu de novo.

- É aqui. – ele falou um pouco menos extrovertido.

- Obrigada. – seguiu adentrando o banheiro como se pudesse enxergar o caminho e com mais uma reverência fechou a porta.

O cavaleiro ficou pensativo um tempo e logo sorriu de forma triste, pensando em como deveria ser a vida de alguém que não podia ser tocado. Já havia ouvido histórias sobre o antigo cavaleiro de Peixes e sua solidão. Encostou a mão na porta sentindo um misto de pena e empatia. Mas logo se retirou, catando novamente as malas no salão principal e subindo para a casa de Libra.

Chegada III

Santuário, Templo de Gêmeos

O cheiro do almoço que uma das criadas preparava já chegara às narinas de Ishtar fazendo seu estomago roncar, não conseguia decidir se sua vontade maior era tomar banho ou comer, subia o último degrau da escadaria de Gêmeos sendo recebida pelos dois. Kanon cumprimentava de forma simpática cada um que passava, se demorando mais em Milo, que fez questão de dar-lhe algumas tapinhas nas costas. Saga estava mais contido, pela primeira vez estava atrás do irmão, o contrário sempre era mais comum. Quando todos terminaram de passar apenas Ishtar ficou parada na entrada.

- E a minha? – Kanon perguntou à morena – Digo, a outra garota, onde está?

- Não sei. – disse de forma rude largando as malas no chão – Não quero saber e tenho raiva de quem sabe. – terminou cruzando os braços com uma expressão irritada.

Saga arquejou uma sobrancelha e impediu a tempo o irmão que estava pronto para responder a altura.

- Ela deve ter se atrasado, você deveria descer, ela pode estar com problemas com as malas. – falou dando tapinhas no ombro do outro de forma até um pouco nervosa.

Kanon percebeu que ele estava tentando evitar um conflito e apenas bufou descendo as escadarias, deixando Saga e Ishtar a sós. O gêmeo mais velho encarou a finlandesa por um momento e isso pareceu irritá-la profundamente, os olhos verdes quase soltavam faíscas.

- Escuta aqui, vamos deixar uma coisa bem clara. – o cavaleiro ficou um tanto surpreso com sua agressividade, ela pôs uma mão no quadril e a outra com o dedo em riste começou a cutucar repetidamente o peitoral de Saga enquanto falava – Eu não estou interessada em você e não estarei, entendeu?

O cavaleiro não entendeu nada e nem poderia, claro. Ele não estava presente enquanto Robin e Mad Max a incitavam com mais e mais provocações e nem conhecia o mau humor que tomava posse dela em dias quentes como aquele, então tudo que ele fez foi assentir e responder seriamente.

- Tudo bem. – por algum motivo que Ishtar não compreendia a expressão dele a fez corar, o que a irritou mais ainda.

- Eu estou falando sério! – exasperou.

- Eu entendi. – disse ele rapidamente parecendo irritado, mas na verdade estava reprimindo o riso – Vou te levar pro quarto agora, certo?

Ele disse tirando delicadamente o dedo acusador de cima de si e indo pegar as malas dela. Ishtar tinha uma expressão de profunda e irada indignação, "Como assim me levar pro quarto?", só quando ele pegou sua bagagem ela entendeu o que realmente quis dizer e nessa hora corou até as orelhas. Não podia acreditar que seus pensamentos tinham tomado um caminho tão pecaminoso, nesse momento bufou e foi andando a frente, tentando evitar que ele percebesse sua situação. O cavaleiro apenas a seguiu pensando se aquela garota louca viria a causar problemas.

Ainda no início das escadarias de Gêmeos, Kanon encontrou Luna esbaforida, fazendo um esforço tremendo para arrastar as malas degraus acima. Apressou o passo até chegar a ela.

- Oi – disse chamando a atenção da garota, cuja franja desfiada escondia os olhos – Desculpe não ter descido, estávamos desocupando o quarto de vocês.

- Tá. – disse sem dar muita atenção ao que ele tinha dito – Você é o Kanon?

- Sim. Saga ficou lá com aquela bruxa. – Falou sorrindo e já pegando uma das bolsas dela – O que tem aqui? Sua coleção de pedras? – disse indo em direção à outra grande bolsa, ela sorriu involuntariamente.

- Livros, são só livros. Estou com pena do seu pobre irmão, Ishtar não é fácil.

- Não mesmo. – Kanon pegou a outra mala, deixando Luna apenas com a bolsa nas costas – Também livro aqui? – ele perguntou.

- É. – ela respondeu sem muita emoção, desgrudando a franja da testa e retomando o ritmo da subida.

- E só isso de roupa? – ele perguntou apontando a bolsa.

- Ler é mais importante que vestir. – ela respondeu dando de ombros.

Kanon não pode evitar o meio sorriso safado, imaginando aquela garota sentada em uma poltrona com um grande livro vermelho e nenhuma peça de roupa, mas logo afastou o pensamento e torceu para que ela não tivesse percebido. Passados alguns minutos de silêncio, Kanon falou novamente.

- Lamento por você. – disse um tanto nervoso.

- Por que motivo? – pela perguntou ainda friamente.

- Só há dois quartos no templo de Gêmeos, meu irmão e eu ficaremos em um e o outro...

- Vou dividir com Ishtar. – falou em um muxoxo entendendo o que ele queria dizer.

- É, desculpe.

- Não faz mal.

Chegada IV

Santuário, Templo de Câncer

Contrariando todas as suas expectativas, Shamira sentiu-se muito a vontade no templo de Câncer, ainda não havia encontrado o cavaleiro e achava melhor assim. A casa tinha uma aura macabra e mesmo que não houvesse mais cabeças na parede, sempre havia aqueles raros gemidos vestigiais que vinham da constante penumbra. Penumbra, sombra, treva, tudo que precisava para se sentir a vontade, em casa. Não esperou pelo dono para acomodar-se, pelo que sabia dele, achava que nunca viria, soltou a mala por um momento para jogar o cabelo para trás, estalando o pescoço. Logo depois começou a mover-se em direção aos quartos.

Se o templo fosse como o de Sagitário ou Capricórnio não haveria problema algum em encontrar seu dormitório. O caminho ficava cada vez mais escuro e Shamira prosseguia com seu andar sensual, ficando cada vez mais à vontade. Mas toda sua graça ao caminhar foi subitamente interrompida quando tropeçou forte em algo. O seu livro voou longe e ela ficou um tempinho estatelada no chão até enfim ouvir a voz grave.

- Cáspita! Que está fazendo mulher? Não me viu, não? – disse rude.

- Na verdade, não. – disse um tanto sem graça e nervosa – Mas também, que está fazendo aí no chão no escuro? – rebateu.

- Não te devo explicações! – ele respondeu levantando – Estou na minha casa e posso fazer o que eu quiser, onde quiser. – deu um sorriso malicioso que beirava o sádico e Shamira não pode ler as segundas intenções nas entrelinhas.

A verdade mesmo é que Máscara da Morte sentia falta de suas cabeças, quase não pode dormir na noite silenciosa sem os gemidos de dor. Aquelas paredes vazias lhe deixavam com um profundo saudosismo dos seus bons tempos. Dissera a Shion e Athena que não mais colecionaria cabeças e logo depois se arrependeu, mesmo vendo o sorriso da deusa. O canceriano era muito apegado ao seu lar do jeito que era e sentiria falta dos rostos nas paredes para o resto da vida, mesmo que não estivesse parecendo que ia viver muito, ao contrário de outros, não se sentiu em casa depois de chegar. E ficava vagando pela casa, vez ou outra sentando em frente a uma parede que lhe era especial.

Shamira levantou, recolheu o livro e jogou o cabelo para trás num movimento de cabeça, pondo depois uma das mãos na cintura com uma expressão orgulhosa no rosto. O canceriano riu.

- Vamos, vou lhe mostrar seu quarto. – disse passando por ela, mas depois virou o pescoço encarando-a de cima a baixo – Ou o meu, se preferir. – deu um riso rápido e uma piscadela.

A mulata bufou, pegou suas coisas e o seguiu.

- Que sina. – murmurou – Um psicopata tarado.

Chegada V

Santuário, Templo de Leão

Depois que passaram por Câncer, Black Ageha soltou a ruiva indo um pouco mais atrás do casal de velhos amigos. Zöe reparou o distanciamento, mas nada disse, apenas moveu um pouco o braço livre e continuou a conversar animadamente com Aiolia. Seu coração estava a mil, mal podia acreditar que passaria um tempo hospedada na casa de Leão. O rapaz continuava a conversar, tinha uma forte esperança que a qualquer momento a Melissa do seu passado iria simplesmente aparecer, que aquela garota seria e excessivamente educada iria a qualquer momento dar-lhe um soco no peito e fugir rindo antes que ele pudesse revidar, infelizmente até ali, não parecia que ia acontecer.

- Já volto, vou só deixar as coisas de Black Ageha em Virgem e eu...

Zöe foi interrompida quando a japonesa segurou a alça de sua mala de forma possessiva e a sacudiu, quase tomou um susto ao ver a expressão estranhamente sorridente no rosto de Kamome. Um sorriso nada discreto, muito diferente daqueles que ela costumava dar.

- Você está conversando, eu posso ir sozinha. – disse ela aproveitando-se da surpresa da ruiva para puxar a mala para si.

- Não, eu vou com você. – Zöe insistiu puxando a mala de volta.

- Não precisa. – disse com uma voz doce, realmente muito estranha.

- Precisa sim! – respondeu entre dentes.

A japonesa não se sentia a vontade em lugares novos, muito menos sozinha, Zöe demorou a entender o que ela pretendia com aquela atitude tão repentina. Recusou-se a soltar a mala e as duas ficaram se encarando por um longo tempo, enquanto os outros subiam, alheios ao pequeno conflito que ocorria.

- Posso ir sozinha. Não sou uma criança. – Black Ageha disse puxando a bolsa decididamente.

Zöe ficou apenas parada olhando enquanto ela cambaleava tentando por a bolsa nas costas, aquele corpo franzino não havia sido feito para carregar peso. Quase avançou atrás da mais nova, mas antes que pudesse se mover ouviu a voz de Aiolia.

- Vamos, eu vou mostrar o seu quarto. – Dizia gentilmente tentando quebrar o clima tenso que se instalara.

Foi só um segundo, Zöe olhou para ele e quando procurou de novo por Kamome ela havia sumido de vista. A ruiva suspirou fazendo a franja voar de leve, sim, sim, ela compensava a falta de força com velocidade e não, não era uma criança, independente de como parecesse ou agisse. Olhou de volta para Aiolia e assentiu, seguindo o leonino.

- Vocês parecem ser boas amigas. – ele dizia sorrindo.

- Somos... Eu acho.

- Acha? – ele a olhou meio confuso – Bem, não sei de muita coisa, mas você parece cuidar muito bem dela.

A expressão de Zöe era ainda mais séria, os olhos lilases perdidos em algum ponto à frente, os lábios levemente apertados um contra o outro. Aiolia franziu o celho de leve, desejava adivinhar o que ela estava pensando.

- Eu cuido. – ela concluiu – Mas... – ela começou mais resolveu parar, odiava lembrar daquilo.

- Mas? – ele a incitou.

- Faço isso por mim... Fazia, quero dizer... – tomou fôlego torcendo um pouco a boca – No começo, cuidava dela pelos meus próprios motivos egoístas, porque se não cuidasse ela me provocava uma terrível dor de cabeça.

- Então ela não deve ser tão boa amiga assim... – Aiolia falou pensativo, ponto a mão no queixo e olhando para o alto.

- Não, ela não fazia de propósito. – disse Zöe ainda com o olhar fixo.

- Entendo. Eu acho. – disse ele parando em frente a uma porta – É aqui.

Ela assentiu e lhe deu um sorriso discreto, ele pôs as malas encima da cama e saiu dizendo que a esperaria para o almoço.

- Não demoro. – ela disse enquanto fechava a porta.

- Não acredito nisso. – ele respondeu em um tom brincalhão.

Quando a porta fechou ela riu de leve, não podia culpá-lo afinal, foram incontáveis vezes que o deixara esperando nos bons tempos.

Chegada VI

Santuário, Templo de Virgem

Logo depois de sumir das vistas de Zöe Black Ageha voltou a caminhar devagar. Cada degrau daquela escada lhe trazia uma sensação nova, sentimentos que pereceram naquela escadaria e ficariam para sempre gravados ali. A esmagadora maioria era de algo ruim, angústia, ódio, medo. Sim, se sentia desconfortável em lugares novos e ali estava o principal motivo, o Santuário era diferente do que imaginava, não havia plantas ali, não vira um único pássaro ou borboleta, a paisagem estava coberta de rocha, dura e quente.

Apertou mais o vasinho de violetas contra o peito quando chegou à entrada da casa de Virgem, tentou espreitar o interior, mas o campo de visão era bem limitado. Balançou o corpo desconfortavelmente e olhou para a casa de Leão, estava quase voltando para chamar Zöe, pedir para ficar com ela. A mesma aura que Shaka emitira naquela hora estava saindo do templo em ondas ritmadas, era tão maravilhoso, mas tão incômodo. Seu corpo retesou duas ou três vezes antes que pudesse dar o primeiro passo a frente e o primeiro intuito quando o fez foi correr, só não sabia se mais para dentro ou para fora.

Suspirou algumas vezes e tentou lembrar o porquê de estar com aquele grupo. "Elas ficam bem perto de mim". Respondeu a si mesma, tomou ar e coragem e entrou no templo um passo de cada vez, chegou a um salão amplo, onde podia-se ver Shaka meditando sobre um tapete, em frente a uma majestosa tapeçaria indiana. Ela ficou olhando para ele alguns segundos sem saber muito bem o que dizer.

- Ano... Shaka-sama...

Estava tão nervosa que nem percebeu estar falando em sua língua natal. O virginiano despertou de seu transe e moveu a cabeça na direção da japonesa sem abrir os olhos. Black Ageha tinha a expressão séria e não transpassava todo seu desconforto, apenas apertou mais o vasinho contra o peito.

- Bem vinda. – ele disse seriamente, e levantou-se de forma lenta – Você está bem?

- Un. – respondeu com um aceno de cabeça – E quanto a você?

- Athena me curou, acho que vou ficar bem.

Ela assentiu de novo e apenas viu enquanto o loiro passava por ela indo em direção a uma porta lateral.

- Venha por aqui, por favor.

Black Ageha o seguiu a uma distância que considerou segura, ela andava de um jeito engraçado, balançando levemente apesar do peso das malas e isso não passou despercebido a Shaka. O virginiano estava intrigado com aquela garota, havia algo estranho nela, não era difícil sentir se tentasse, prestava bastante atenção nela a cada passo, mas lhe pareceu apenas uma menina tola e distraída demais.

- Este é seu quarto. – indicou uma porta semi-aberta – Se estiver com fome é livre para se servir do almoço, basta falar com um dos criados. Eu voltarei a meditar. Por favor não interrompa novamente.

Ela assentiu ficando um pouco mais nervosa. Fechou a porta e pôs as malas encima da cama de um jeito meio estabanado, depois seguiu para a janela depositando ali o vasinho de violetas.

- Parece que seremos só nós por um tempo. – disse acariciando as folhas e sorrindo de leve – Que bom.

~0~

Olá, minhas flores!

Tá aí, mais um capítulo da nossa história! Eu ia escrever com todas elas e depois postar, mas to chegando em casa morta todos os dias e quase não sai nada (Sim, estou trabalhando no final de semana [Why, god? Why? X.x]) Então vou mandar logo esse com metade e a outra metade posto quando terminar (Na verdade só falta Libra, to com bloqueio xD)

Mas vamos que vamos! Agora acho que dá pra avançar mais rápido, vamos ver, neh? Muito obrigada a quem continua lendo e apoiando! Sua opinião é muito importante para nós... digo, para mim XP

Beijinhos, até loguinho!

V. Lolita