Edward

Charlie me encara calmamente.

-Sabia que isto podia acontecer quando tomou aquela decisão.

-Eu fiz o que foi melhor para ela.

-Para ela ou pra você?

-Vai bancar meu psicólogo agora, Charlie?

Charlie suspira pesadamente.

-Eu não devia nunca ter concordado com esta história. Se Bella um dia descobrir... Ou lembrar...

-Lembrar é um risco que corremos, mas já se passaram dois anos e ela continua com a memória apagada. Mas ela de volta na cidade...Devia encorajá-la a ir embora. Ir para Phoenix. Ou qualquer outro lugar que não seja aqui.

-Sua preocupação é que alguém fale demais ou é com Bella perto do Jacob?

-Jacob sabe seu lugar.

-Bom, Bella vai atrás dele, você sabe.

-Eu não tenho como impedi-la de fazer o que quer que seja. Quem devia se preocupar é você...

-Jacob nunca foi o problema se me lembro...

-Era com ele que ela estava naquele maldito penhasco.

-Ele a salvou. Devia agradecê-lo.

-Bom, acho que não adianta ficar remoendo o que passou. Tomamos a decisão de deixá-la esquecer tudo justamente para todos podermos esquecer. E eu quero que continue assim.

-O que aconteceu hoje? Como se encontraram?

-Ela me encontrou na clareira. Ela não faz ideia de quem eu seja. – falar isto dói.

Demais.

-Foi você quem quis assim.

-Foi ela quem quis esquecer.

-Foi um acidente.

-Muito conveniente Bella se esquecer justamente os dois anos que passamos juntos.

-Ainda pode contar tudo a ela...

-Nunca. Está melhor assim.

-Eu concordei com você naquela época... Às vezes ainda acho que tudo ficará melhor assim. Não quero mais ver minha filha sofrer.

-Todos nós concordamos neste ponto.

-E o que vai fazer?

-Vou sair da cidade. Vou continuar não existindo.

-Eu vou falar com os amigos dela... Não se preocupe, quase ninguém sabe da história de vocês, quem sabe não vai falar nada. Todos sabem que é melhor assim.

-Até Jacob?

-Ele também a ama.

Eu não comento isto.

Rever Bella... Já é problema suficiente.

-Ela disse... ela disse o que pretende fazer? Se ficará em Forks?

-Eu não sei. Pode estar só de passagem... Veremos.

-Me mantenha informado.

-Achei que não quisesse saber mais nada dela.

-Eu digo isto a mim mesmo há dois anos.

-E todas as vezes que me liga implorando por notícias eu me pergunto se será a última vez. Precisa seguir em frente, Edward. Achei que estivesse seguindo com aquela moça loira.

-Isto não é da sua conta.

-Achou que eu não soubesse? Todo mundo nesta cidade sabe de sua... amiga, Tanya Denali, é este o nome dela, não é?

-Disse certo, Tanya é uma amiga.

-Se é assim que chamam estas coisas hoje em dia... Mas tudo bem, eu não estou te criticando. Devia ficar com esta tal do Alasca e deixar minha filha em paz, como prometeu fazer há dois anos.

-Estou fazendo isto.

-Não está, não. Sabe do que estou falando.

-Eu apenas quero saber se ela ficará bem.

-Ela ficará. Apenas faça como prometeu e se mantenha longe da minha filha.

-Eu prometi. E vou cumprir. Tchau, Charlie.

Bella

Acordo com o barulho da chuva.

Não quero me mexer, mas me movo o suficiente para chegar mais perto de Edward.

No entanto, o lugar na cama ao meu lado está vazio.

Abro os olhos e retiro os fios de cabelo do meu rosto.

-Edward? – o chamo e como não escuto resposta, grito mais alto. – Edward?

-Aqui embaixo. – o sim abafado de sua voz é seguido de uma risada.

Eu suspiro, aliviada.

Por alguns momentos ridículos eu achei que pudesse ter algo errado.

Talvez por causa do que acontecera na madrugada...

Saio da cama e visto uma roupa rapidamente. Quero ver Edward. Quero me certificar que ainda está tudo realmente bem. Quero não me arrepender de ter contado a ele sobre o acidente.

Eu odeio falar sobre isto. Simplesmente odeio não ter controle sobre este assunto.

Saber que dois anos da minha vida foram simplesmente apagados e podem nunca serem recuperados. Todos os fatos, todos os acontecimentos. Todas as pessoas.

É horrível.

Eu passara dois anos em Londres tentando reconstruir minha vida. Tentando não sentir falta de algo que nem sei o que é. Porque não lembro.

Tentando desesperadamente seguir em frente. Como se os dois anos perdidos na minha memória realmente nunca tivessem existido.
Sempre vai haver aquele vácuo. Como um parêntese vazio numa frase.

Uma lacuna na minha vida.

Mas quando chego na cozinha, paro e fico admirando Edward de costas mexendo algo na frigideira que cheira muito bem e enche o ambiente de um aroma conhecido ao meu olfato.

Como se mexesse com a minha memória olfativa e me trouxesse uma sensação boa. De felicidade quase nostálgica.

-Vai ficar aí parada? – ele pergunta em tom divertido e eu me aproximo e passo o braço em volta de sua cintura. Deposito um beijo em suas costas antes de me afastar e me sentar, esperando obedientemente pela comida.

-Eu adoro ser mimada com toda esta gordura saturada logo de manhã, mas vamos concordar que precisa parar com isto.

Ele ri e coloca os ovos com bacon no meu prato.

-Gosto de fazer isto pra você, lembra nossa lua de mel.

Eu franzo a testa, pegando o garfo.

-Lua de mel? Nem tivemos lua de mel! A não ser que esteja se referindo aos dias que passamos em Seattle como lua de mel!

Ele está de costa pra mim agora, acho que lavando a frigideira.

-Sim, foram como lua de mel, mas antes de casar.

Então ele se vira e senta à minha frente.

-Sim, gosto de pensar assim também. – sussurro me inclinando para beijá-lo.

E nós rimos e voltamos a comer.

-Mas tem direito de reclamar. Realmente não tivemos uma lua de mel.

-Não me importo. – dou de ombros.

E é verdade. Não me importo com nenhuma convenção em se tratando de Edward.

Quero apenas estar com ele. E isto basta.

-Mas eu me importo.

-O que quer dizer?

-Que vamos viajar?

-Ah é?

-Sim, o que acha de Nova York?

-Nova York. – tento ficar empolgada.

Ok, eu disse que não me importava, mas Nova York nunca esteve em meus sonhos românticos.

-Eu ia sugerir uma ilha tropical, mas... Nova York é ótimo.

-Eu imaginaria que diria algo assim, mas é apenas em lua de mel que estou pensando.

Ele fica sério e eu encaro desconfiada.

-O que quer dizer?

-Quero que visite um médico.

-Médico? Isto tem algo a ver com o que te contei ontem?

-Seu acidente? Sim. Quero ter certeza que está tudo bem com você.

-Eu estou bem. – afirmo, pegando o prato e jogando na pia.

Edward também se levanta.

-Não fique na defensiva...

-Eu não gosto disto, sabia que não devia ter te contado! – lavo os pratos furiosamente, minhas mãos tremem e eu temo quebrar alguma louça.

-Devia sim. Estamos juntos agora, Bella.

Eu o encaro.

-Não quero que fique cheio de dedos comigo. Se preocupando... me tratando como se eu fosse de porcelana ou fosse pirar a qualquer momento. Eu já tenho meu pai e Jak... – eu respiro fundo. – Enfim, já tem gente suficiente na minha vida que não me deixa esquecer disto. Eu preciso que isto fique entre nós.

-Eu apenas quero me certificar que está tudo bem com a sua saúde, Bella.

-Mas eu estou bem! Já faz dois anos e tirando esta cicatriz... e o fato óbvio de que minha memória apagou, estou ótima.

Eu estou mentindo, claro.

Pode ser que fisicamente eu esteja bem. Mas emocionalmente estou longe disto.

-Bella, me deixe levá-la a um especialista. Eu prometo que será apenas uma vez. Apenas para termos certeza que está tudo bem mesmo. – ele se encosta em mim. Seus lábios em meus cabelos. Fecho os olhos. – Por favor, me deixe cuidar de você.

-Tudo bem. - concordo por fim.

Apenas por ele. Porque não quero deixá-lo preocupado.

E porque embora não conheça Edward direito ainda, eu desconfio que ele não vai sossegar quanto não me levar a este tal médico.

Melhor me livrar logo do problema.

Ele deposita um beijo em meu rosto, muito satisfeito.

-Acho que deveria ligar para seu pai.

Eu faço uma careta de culpa.

-É verdade. Mas acho que farei melhor, eu vou até lá. Ele deve estar em casa hoje, já que é sábado.

-Quer que eu vá com você?

-Não, quero ir sozinha, se não se importa.

-Tudo bem. Eu vou até a casa dos meus pais. Preciso tratar uns assuntos com meus irmãos. Nos vemos na hora do almoço?

-Acho que almoçarei com Charlie. Pode ser?

-Claro. Passe o dia com seu pai.

Ele beija minha testa e abre a porta. O ar frio arrepia minha pele.

Edward pára de repente.

-Bella?

-Sim?

-Sei que não devia estar te perguntando isto, mas eu preciso saber... este seu almoço com Charlie, inclui Jacob Black?

Sinto um aperto no peito.

-Não. - murmuro, mas me sinto levemente culpada. Eu não havia pensado em convidar Jacob. Até Edward lembrar dele, e eu penso que realmente seria uma boa...

Mas não posso fazer isto. Não quero chatear Edward, ou deixá-lo com ciúmes.

Eu não quero nada com Jacob, a não ser amizade.

Mas desconfio que Edward não entende isto.

-Certo. Nos vemos à noite, então.

Ele se vira pra sair, mas eu o chamo.

-Edward?

-Sim? - ele se vira.

Eu sorrio.

-Eu te amo.

Ele sorri de volta.

-Eu também te amo, senhora Cullen.

Dirijo com cuidado pela estrada molhada para a casa de Charlie.

Ele está limpando a espingarda quando chego e me encara.

-Achei que tinha esquecido que tinha casa.

Abro a geladeira e pego uma cerveja pra ele.

-Bom dia pra você também.

-Dois dias de casada e já está de volta em casa? O que isto quer dizer agora?

Reviro os olhos, enquanto continuo com a geladeira aberta pegando os ingredientes para o almoço.

-Quer dizer que quero passar um tempo com meu pai, antes de viajar em lua de mel.

Ele pára de mexer na espingarda e me encara

-Vai viajar?

-Lua de mel. – eu lavo as alfaces. – E Edward quer que eu vá a um médico.

-Médico?

-Eu contei a ele sobre o acidente. – falo casualmente sem encará-lo. – Não sei se deveria ter feito isto.

-Fez certo.

Charlie não diz mais nada. Achei que ele teria algum discurso sobre o assunto.

-Enfim, ele quer ter certeza que estou bem ou algo assim. Sabe que eu não quero ir, mas... vou apenas pra ele não ficar preocupado.

Charlie volta a atenção à espingarda.

-Este seu Edward está ganhando uns pontos comigo.

Eu ri.

-Ele foi bem legal, com esta história do acidente e da amnésia. Fiquei com medo dele não entender...

Charlie volta a me encarar.

-Está feliz então?

-Estou. Muito.

Ele toma sua cerveja.

-Acho que voltarei a comer minha comida ruim então.

Eu gargalho.

-Sobreviveu por dois anos, não reclame!

Nós almoçamos e Charlie fica satisfeito quando eu conto que passarei a tarde com ele.

Nos acomodamos na sala e Charlie assiste um jogo na tv.

Eu me preparo para fazer as indagações que estou querendo fazer desde a hora eu cheguei.

-Pai?

-Sim?

-Toda vez que eu pergunto... sobre vida que eu levava em Boston... Você sempre é evasivo.

Ele não parece satisfeito com o assunto.

-O que quer dizer, Bella?

-Eu quero saber mais.

-Não tem nada que eu não te contei. – resmunga. - Esquece isto.

-Esquecer? Sábias palavras! – exclamo cheia de ironia.

-O que quer saber? Eu te contei o que eu sei!

-Sim, e por sua história, eu fui estudar lá e só! Não posso ter vivido dois anos apenas estudando! Eu devia ter amigos, eu ... talvez eu tivesse até um namorado. – minha voz vai sumindo.

-Se teve eu não sei. Já te disse.

-A mamãe diz a mesma coisa.

-Então, não acha que é verdade? Você conta tudo pra Renée!

-Mas eu tive alguém lá... não sei se for importante, se durou, mas...

Mordo os lábios, sem saber como dizer a Charlie que eu não era virgem.

Era apenas uma suspeita, mas depois de transar com Edward eu tinha certeza: eu já tinha feito aquilo antes.

E eu não me lembrava de ter nenhum namorado na adolescência.

Então fora na faculdade.

Ok, podia não ter sido grande coisa. Na verdade, quem garantira que fora apenas um cara?

Mas eu me conhecia. Não conseguia me imaginar flertando livremente e indo pra cama com qualquer um.

Eu imaginava que devia ter sido apenas um cara.

Alguém que fora importante a ponto de eu querer ir pra cama com ele.

Alguém que eu não me lembrava quem era.

-Bella, me escute. – Charlie fala muito sério. – Esquece isto, me perdoe as palavras. Mas é isto mesmo. Não importa o que aconteceu na faculdade. Você está casada agora, não é? O que importa se teve algum namorado que ficou no passado?

Charlie tem razão. Agora não interessa mais.

Eu tenho Edward.

E eu sei que o amo de corpo e alma.

E que é pra sempre.

Então por que ficar me preocupando com alguém do passado?

-Sim, acho que tem razão. – murmuro e olho o relógio. – Acho que vou indo.

-Claro. Pode ir. Me avise quando for viajar.

-Pode deixar.

Antes de sair eu ligo pra Edward.

-Estou indo embora.

-Já? Ainda estou resolvendo algumas coisas de trabalho. Se quiser vir ficar com as minhas irmãs.

-Não, eu vou pra casa e te espero lá.

-Tudo bem.

Ainda está claro quando chego em casa.

Não chove mais, o dia até abriu e um sol pálido está se pondo.

Estaciono no jardim, mas em vez de entrar em casa, eu decido dar uma volta.

Caminho pela grama verde, aspirando o ar puro, adorando ver o céu um pouco azul, apesar das nuvens.

Dou a volta no chalé e continuo andando, até que encontro um jardim que nunca tinha visto.

É lindo e cheio de flores de várias cores. Um cheiro delicioso enche o ar e então eu escuto um choro.

Intrigada, eu vou em direção ao som e encontro Rosalie Cullen sentada no chão.

Ela está de costas pra mim a uns dois metros de distância.

-Rosalie?

Ela se vira. Os olhos estão vermelhos e o rosto molhado.

Eu não tinha imaginado. Ela estava mesmo chorando.

Rosalie se levanta e enxuga o rosto.

-Bella... me desculpe... – ela vem em minha direção.

Está muito bem vestida como sempre está quando a vejo.

-Porque está chorando? Está tudo bem?

-Não é nada.

-Mas você estava chorando.

Ela dá de ombros.

-Eu apenas... tive uma discussão com Emmett. Não queria ficar lá em casa e vim chorar aqui. Coisas de namorados. – ela ri.

-Se você quiser... conversar...

-Não, eu vou voltar...

-Por que não vem comigo até o chalé? Pode lavar o rosto, eu faço um chá...

Ok, eu estou sendo gentil e cordial com a irmã nojenta do Edward, mas o que eu posso fazer?

Ela parece realmente mal.

Ela hesita, mas me acompanha

No chalé, ela vai até o banheiro lavar o rosto e como prometido eu faço um chá.

De volta à cozinha ela está recomposta.

-Obrigada. – agradece a xícara de chá e nós tomamos em silêncio.

Acho que ela não quer falar sobre seja lá o que lhe aflige.

E eu não insisto.

Me pergunto se um dia serei amiga de Rosalie Cullen. Talvez até seja possível.

-Bom, obrigada pelo chá. – ela se levanta. – Vou pra casa.

-Se precisar... conversar... bem...

Ela dá um sorriso.

Parece genuíno.

Eu a vejo se afastar, me perguntando como ele consegue andar com aqueles saltos na grama úmida.

Ainda estou intrigada quando Edward aparece.

Já está escuro e ele parece estranho.

Eu estou na cozinha e me ocupo em fazer o jantar.

-Olá.

-Oi... tudo bem?

-Sim, por que pergunta?

-Minha irmã esteve com você.

-Oh... ela contou? Bem, na verdade eu a encontrei chorando num jardim. Aliás um jardim lindo...

-Ela te disse porque estava chorando?

-Disse que tinha brigado com Emmett.

-Sim, deve ser isto... eles vivem discutindo. – Edward comenta distraído. – Quer ajuda? – pergunta se aproximando.

-Não, estou acabando... porque achou que não estava tudo bem só porque eu conversei com sua irmã? Ela até me pareceu uma boa pessoa.

-Ela é uma boa pessoa, do seu jeito.

-Ninguém é perfeito! Mas eu fiquei com pena dela. Parecia tão... triste.

Ele acaricia meus cabelos.

-Não ligue pra isto. Rose é dramática demais às vezes. Ela já está bem, fazendo as malas pra ir pra Seattle amanhã.

-Eles vão voltar?

-Sim, Jasper e Alice também. Amanhã à tarde.

-E você também não precisaria voltar?

Ele sorri de lado e me puxa pela minha camiseta.

-Nós vamos para Nova York, senhora Cullen.

Seu lábios estão em meu pescoço.

-Mas quando?

-Hoje à noite.

Eu o obrigo a parar e a me encarar.

-Como assim, não podemos viajar hoje!

-Claro que podemos! Alice e Jasper vão nos levar até o aeroporto em Seattle.

-Pra que esta pressa toda?

Ele sorri de lado, seus braços me envolvem.

-Talvez eu queira ficar sozinho com você para uma tal lua de mel o mais rápido possível...

E então está me beijando. Persuasivamente.

E eu já não tenho argumentos.

E nem quero ter.

Quero a tal lua de mel também. Na verdade, eu mal posso esperar.

continua.