Capítulo 9

Inadmissível

— Não, professor. Prefiro ficar em detenção o resto do ano. — O meu tom de voz era firme, decidido.

Dumbledore me radiografou com o olhar.

— Não entendo. Você é uma garota tão bondosa, afetuosa... Por que viraria as costas ao menino Malfoy?

— Por que ele não merece nenhum esforço de minha parte. — Eu me levantei da cadeira, nervosa demais para olhar para Dumbledore. Caminhei até a janela na parede atrás dele e fitei o horizonte com o cenho franzido, como se estive com raiva dele. — Quando eu estava preocupada com ele, tudo o que ele fez foi me menosprezar.

Virei o rosto, lutando contra a raiva. Por que eu tinha de ser tão sensível? Isso às vezes me irrita seriamente.

— O amor pode amolecer até o mais duro dos corações — disse Dumbledore.

— Até mesmo o de lord Voldemort? — retruquei.

Bem, Voldemort não tem coração, isso é incontestável...

Dumbledore não disse nada.

— Mas professor...

— Você já parou para pensar em porque Malfoy é assim? — Continuei de costas para ele, sem olhá-lo. — Já pensou em suas razões para ser do jeito que é?

Encarei o chão.

— Não.

— Mas eu já.

Eu me virei e o encarei, tentando ler aqueles olhos tão enigmáticos que tornavam a tarefa impossível.

— Mas eu quero suas próprias conclusões, Gabriela — continuou. — Veja isso como uma lição.

— Mas...

— Sem mas, por favor, Gabriela. Fique com ele por alguns momentos até que ele se recupere. É só o que peço.

Eu sabia que era inútil discutir. Sabia. Por isso, assenti, com uma carranca no rosto. Eu achava isso inadmissível, inaceitável, mas se era isso que eu devia fazer...

Dumbledore sorriu, satisfeito.

— Acompanhe-me. — Ele se levantou.

Eu o segui até a ala hospitalar. Meu maxilar ficou trincado e eu me recusei a olhar para Malfoy. Já ele me encarava abertamente. Qual era a daquele garoto, afinal? Ele me irritava profundamente.

— Como está, sr. Malfoy? — perguntou Dumbledore, educadamente.

— Muito melhor estaria se eu não tivesse sido atacado. — Sempre arrogante.

Ultrajada, eu abri a boca para protestar, mas mudei de ideia a meio caminho. Não valia a pena gastar saliva com gente como ele.

Virei meu rosto, carrancuda, mas pela visão periférica podia ver Malfoy me encarar. Já estava prestes a perguntar se ele tinha perdido alguma coisa aqui.

Ficamos em silêncio por um instante, até que a porta se abriu e a profª Sprout entrou com uma aluna da Lufa-Lufa, aparentemente do primeiro ano. Não vi o que ela tinha e logo Madame Pomfrey estava ocupada com ela.

— O que aconteceu foi um lamentável acidente — começou Dumbledore, tentando amolecer Malfoy. Será que eu preciso dizer a ele que Malfoy não o respeitava como eu? Que, diferentemente de mim, Malfoy não faria o que Dumbledore quer só por respeito?

Dei alguns passos para me distanciar e não demonstrar minha raiva.

Então, a porta se abriu num rompante, e os gêmeos Weasley entraram por ela.

Eu encarei Fred com sobressalto e seus olhos sorriram para mim. Depois seu olhar disparou para Dumbledore, depois para Malfoy, para finalmente voltar para mim com uma indagação muda.

— Fred? George? — Franzi o cenho. — O que fazem aqui?

— O Fred aqui se machucou — disse George. Olhei para a mão de Fred, que ele segurava com força com a outra mão. Havia um corte sangrento ali.

— Nossa.

Usando o feitiço convocatório, peguei os curativos, álcool e uma toalha limpa. Assim que segurei tudo, caminhei até Fred e segurei sua mão, ainda sangrando. Eu mal pensava no que estava fazendo.

Todos me encaravam, incluindo Dumbledore — ah, mas madame Pomfrey não tinha como olhar; estava ocupada com a menina da Lufa-Lufa.

— Madame Pomfrey está ocupada — expliquei, desconfortável com os olhares, limpando o ferimento. Fred reclamou quando o álcool atingiu a ferida e eu só sorri, assoprando o ferimento. Com rapidez (e certa agilidade), terminei o curativo.

— Pronto.

Olhei para Fred. Sua expressão era surpresa.

— Vai se tornar uma curandeira do St. Mungus? — George quis saber.

Dei de ombros.

— Não sei.

Fred não tirava os olhos de mim.

— Poxa, obrigado — disse ele.

— Não há de quê — eu sorri, segurando sua mão machucada. Malfoy me olhava com uma expressão que demonstrava incredulidade, nojo e arrogância.

— Tenho de ir para minha sala — disse Dumbledore. Seus olhos perfuraram os meus por cima dos óculos de meia-lua. — Não se esqueça do que conversamos.

Seus olhos me avaliaram.

— Sim, professor. Eu não vou esquecer-me de nada do que conversamos. — Eu tinha certeza de que ele podia ouvir a ênfase em minha voz.

Dumbledore sorriu para mim e deixou-nos ali.

— Nós também temos que ir, Fred — disse George. — A loja nos espera.

Eu não esperava pela reação de Fred.

— Tchau. — Ele me puxou para um abraço, beijando a minha face. Eu corei.

— Tchau.

Ele me soltou e foi para a porta, onde parou, esperando pelo irmão.

— Tchau, George. — Beijei seu rosto.

— Tchau.

Os meninos desapareceram porta afora e eu me sentei, desatenta, na cadeira ao lado de Malfoy.

— O que você ainda esta fazendo aqui? — Nem me incomodei em olhar para Malfoy.

— Estou esperando Merlim aparecer aqui de saia pra vê-lo dançar La Macarena — eu disse. Quando olhei para ele, sua expressão era confusa. — Vamos fazer o seguinte? Eu finjo que não estou aqui e você finge que um Trasgo montanhês caiu em cima da minha cabeça. Assim, todo mundo fica feliz.

— Imaginar que um trasgo caiu em cima da sua cabeça pode até ser divertido, mas falta muita coisa pra tornar isso real. Por exemplo, eu não estou sentindo o cheiro de sangue ruim exposto. Deveria feder mais que o Trasgo.

Ignorei-o, levantando-me da cadeira, andando pelo lugar, cantando a primeira música que me veio à mente. Que tinha que ser McFLY, é claro.

— I can't believe I've found the girl who turned my life around... She suddenly, came on to me, pinned me down, on the ground... I could have pushed the way but I didn't know what she'd say... And I'm glad I'm not the guy who turned her down...

Malfoy não parava de olhar pra mim. E eu fingia muito bem que estava sozinha em meu quarto, cantando como eu sempre fazia antes de vir pra Hogwarts. Só faltava meu som ligado...

— É tão hilário... Pensei que você fosse ficar com o Potter... Sabe como é, você é a nova "celebridade"...

Eu pude ouvir as aspas na voz.

— E por que eu ficaria com Harry? — me vi perguntando.

— Bem... para vocês dois conseguirem mais atenção, não é? A aluna nova que começou os estudos já no 6º ano... O eleito... casal perfeito!

Balancei minha cabeça, dando pouco crédito, e voltei a cantarolar.

— I cut my social life in two...

— Mas você sai com o weasley! Wow, do eleito ao fracassado.

Numa fúria repentina, eu fui até perto dele e joguei o vaso de flores de sua mesa-de-cabeceira no chão. A porcelana se desfez em mil fragmentos, que se misturaram a água e às margaridas espalhadas pelo chão.

— Ele não é fracassado, Malfoy, muito pelo contrário. O único fracassado aqui é você. Nenhum dos Weasley é.

— Os Malfoy, fracassados? Ha-ha, somente uma trouxa pra dizer isso...

— Já chega, Malfoy. Eu não vou mais aguentar você. Vou ter que pedir desculpas ao Dumbledore, mas não fico nem mais um segundo aqui com você!

Com isso, saí correndo, batendo a porta atrás de mim. Pude ouvir a voz de madame Pomfrey reclamando atrás de mim. Mas não importava. Eu não podia mais admitir que Malfoy pisasse em cima de mim.

Simplesmente não podia.