Capítulo 10 - Inquietação.

Lá estava ela de novo adentrando a mansão dos Taishou com os olhos baixos, porém atentos, e a boca entreaberta com tamanha admiração. Era muito bom gosto em um só lugar. Para uma amante incorrigível da arte aquele recinto era como uma visão. Estátuas de mármore, tapeçaria impecável, flores das mais variadas, quadros, bancos, toalhas e entre tantas outras coisas que para ela eram como relicários.

Rin olhou de relance para Inuyasha, ainda não acreditava que o amigo pudesse ter sido capaz de dizer aquela asneira no portão da mansão. Ficava com as bochechas coradas só de pensar na forma e na naturalidade com que o recente amigo falara sobre seus sentimentos e sua vontade louca e desenfreada de reencontrar Sesshoumaru.

Ela sentia-se uma adolescente de dezesseis anos, e sentir-se assim, pior, perceber que estava regredindo e que talvez pudesse estar agindo como uma de fato, a aborrecia.

Ela engoliu a seco assim que penetrou novamente na casa. O cheiro de rosas recém-colhidas e da comida se misturou causando uma sensação deliciosa naqueles seres famintos que mal podiam esperar para comerem.

Sentaram-se no sofá Rin e Inuyasha enquanto Sesshoumaru e Shinji sentaram-se na poltrona de frente para aqueles dois.

Inuyasha estava sorrindo como sempre enquanto Rin teimava em se encolher e evitar as olhadelas para Sesshoumaru. Seus olhos teimavam em pairar encima daquele homem o que a deixava completamente constrangida quando o mesmo se voltava para ela sem entender o porque de tanta invasão visual.

-E como tem passado Sesshoumaru? –Inuyasha começou de forma presunçosa e irônica. –Já consegue respirar sem sentir dor?

-Acho que não preciso responder a sua pergunta. –Sesshoumaru o fuzilou.

-Ora, por que não? –ele deu uma risadinha descontraída. –Sou seu meio-irmão, estou preocupado com você.

-Humpf! Não me faça rir, fedelho. Sua ironia amarga chega a ser deselegante.

-Não é ironia! Eu só queria saber como meu irmãozinho está.

-Preocupe-se com você, moleque. Pelo visto também não parece tão melhor do que eu. Acho que por um lado a vida é bem justa, você também teve o que merece.

-Ora, seu! –Inuyasha grunhiu e se postou mais para frente. –Você não sabe de nada mesmo, meus machucados foram por que...

E antes mesmo de Inuyasha falar, Rin pisou forte no pé do amigo que soltou um grunhido de dor e rapidamente entendeu o recado. Ela entrou em pânico só de pensar que Inuyasha revelaria todo o acontecido macabro naquela manhã.

Tanto o empresário como o médico não entenderam aquele movimento. Franziram o cenho quase que em sincronia.

-O que foi isso? –Shinji indagou confuso coçando a nuca.

-Nada! –Rin interceptou. –Não foi nada!

-Rin... –o olhar acusativo de Sesshoumaru pairou por sobre a menina. –O que está havendo?

-Não... Não é... Nada. –ela balbuciou agora completamente indefesa com aquele olhar.

-Inuyasha?

-Não olhe para mim, Sesshoumaru! Você viu o que ela fez...

-Ora, por favor! –Sesshoumaru girou os olhos. –Não vou cansar até descobrir, então poupem meu trabalho, acho melhor me contarem.

-Se eu bem conheço Sesshoumaru, e sei que conheço, ele não vai descansar até saber o que está havendo. –Shinji sorriu calmamente enquanto olhava para aqueles dois que pareciam imóveis como as estátuas de mármore do jardim.

-E então? –o empresário insistiu enquanto cruzava os braços.

-Tudo bem... –Rin suspirou aborrecida. –Eu vou contar...

Rin deu uma última olhadela raivosa para Inuyasha, que se retesou como quem pede desculpas, antes de se inclinar para frente e contar todo o terrível acontecido daquela manhã.

Para ela foi a pior sensação do mundo. Contar para Sesshoumaru enquanto ele a fitava era realmente constrangedor. Os olhos dele a sugavam sem demonstrar qualquer sentimento, e isso a aterrorizava. Não saber o que ele pensava era no mínimo atordoante. Não que soubesse ou tivesse certeza alguma vez do que aquele homem tão misterioso pensava, mas ela queria que, no mínimo, ele esboçasse alguma reação.

Ao final da história a sala manteve-se silenciosa. Talvez porque eles esperassem que a menina prosseguisse.

Rin olhou mais uma vez para Inuyasha que agora estava mais relaxado recostado totalmente as costas no sofá. Ela soltou um longo suspiro para ele que deu de ombros a tentando acalmar.

-Satisfeito, Sesshoumaru? –Inuyasha indagou.

-Isso é tudo? –Sesshoumaru arqueou as sobrancelhas.

-É... –ela assentiu sinceramente.

-Inacreditável... –Sesshoumaru suspirou incrédulo. –Você está sempre metida nessas histórias, não é?

-Bem, eu... Eu acho que sim.

-Você chamou a polícia? –Shinji indagou curioso.

-Não! –ela quase entrou em pânico novamente ao escutar aquilo. –Polícia não!

-Rin, isso é muito sério. –Shinji interveio novamente. –Esse rapaz pode fazer coisa pior com você.

-Não, por favor! Não quero envolver a polícia nisso... Não consigo imaginar Kohaku sendo interrogado ou pior sendo preso! –sua voz saía engasgada. –Embora ele tenha feito o que fez, nosso passado ainda pesa muito em minhas costas... Não conseguiria fazer isso com ele.

-Vai ficar esperando acontecer uma tragédia? –Sesshoumaru a fitou duramente não gostando nenhum pouco do rumo dos acontecimentos. –Até onde parece esse garoto não está muito preocupado com você da mesma forma que você está com ele.

-Não quero envolver a polícia. –ela falou decidida com os olhos mais controlados e a voz mais firme. –E, além disso, Inuyasha vai ficar lá por um tempo, vai ficar tudo bem.

-Grande ajuda! –Sesshoumaru resmungou. –Inuyasha não consegue cuidar nem dele mesmo o que dirá de outra pessoa.

-Como é? –Inuyasha grunhiu e levantou-se num solavanco, mas antes que pudesse partir para cima do irmão, Rin o segurou calmamente pelo braço o interceptando.

-Rin, perdoe minha intromissão. –Shinji falou de forma branda com o cenho preocupado. –Mas acho que Sesshoumaru tem razão quando diz que precisa de uma proteção maior... Talvez você não esteja notando a gravidade de tudo.

-Eu vou ficar bem...

-Sesshoumaru, por que não contrata alguns seguranças para Rin? –Shinji voltou-se para o amigo que assentiu sem delongas.

-É uma boa ideia.

-Não! –ela balançou a cabeça negativamente. –Eu não quero mesmo! Por favor, não há necessidade disso.

-Por que você é tão teimosa? –Sesshoumaru girou os olhos aborrecido.

-Olha, eu não quero ofender ninguém... Eu agradeço por tentarem me ajudar, mas realmente não precisa. Eu vou ficar bem.

-Não vou insistir mais. –Sesshoumaru por fim falou. –Faça o que achar melhor, mas depois não diga que não avisei.

...

-Não sei como consigo passar tanto tempo sem te visitar! –Inuyasha por fim falou enquanto recostava-se satisfeito na cadeira olhando o prato vazio a sua frente. –A comida daqui é maravilhosa!

-Não seja hipócrita... Você está mais aqui do que eu. –Sesshoumaru cerrou os olhos enquanto passava o guardanapo de pano levemente pelos lábios.

-Que exagero! –ele bufou. –Você fala assim, mas sei que gosta de receber as minhas visitas.

-Não, não gosto.

-Claro que gosta.

-Vocês parecem duas crianças. –Shinji interveio antes que mais uma conversa dos irmãos Taishou virasse uma briga eterna.

-Eu não. –Sesshoumaru interceptou. –Inuyasha que é um moleque que não vai crescer nunca.

-Humpf! Fale isso por você...

-Não vou ficar discutindo com você, embora adore isso. –ele sorriu provocativo e logo voltou-se para Rin de maneira séria. –Quero falar com você.

-Comigo? –ela que ficou muda a maior parte do tempo quase teve um ataque do coração com aquelas palavras.

-Sim. E tem que ser agora.

-Claro. –ela assentiu com a garganta engasgada e logo depois levantou-se da mesa.

...

O vento do lado de fora era agradável. A brisa suave que por ali sempre passava era exatamente do que aquela menina, amante do ar puro, precisava.

Estava caminhando ao lado daquele homem de olhos tão duros e semblante misterioso. Ele a confundia imensamente. E essa confusão que tanto lhe aturdia a fazia ficar sem palavras.

Ela odiava aquilo. Odiava a mania que ele tinha de apagar tudo que ela era, tudo o que sentia, tudo o que pensava...

Viu-se mais uma vez diminuta. E perceber o quanto ele era avassaladoramente maior, que sua sombra a cobria inteiramente, a fez suspirar atônita.

-Queria que soubesse que não gostei nenhum pouco de saber daquela história.

-Por favor, esqueça isso, senhor Sesshoumaru. –respirou pesadamente. –Não era nem para o senhor ficar sabendo disso... Inuyasha que acabou contando.

-Não acredito que pretendia esconder isso de mim. –balançou a cabeça negativamente. –Isso é muito sério.

-Não é tão terrível quanto parece. –ela o fitou enquanto os dois pararam embaixo de uma das cerejeiras da mansão. –Kohaku exagerou, mas ele não é uma má pessoa.

-Você repete tanto isso que parece que está tentando se convencer. Você me aborrece com sua teimosia.

-Não quero que se preocupe comigo...

-Como não posso me preocupar? –ele a olhou profundamente e tudo o que restou durante aqueles instantes foi a inércia de ambos e o vento forte que passou.

-Desculpe... –ela engoliu a seco quando finalmente conseguiu desviar seus olhos dos dele. –Mas creio que só eu poderei fazer alguma coisa em relação a isso.

-Se é isso que quer... Não vou mais insistir. Só não quero que nada de mal lhe aconteça.

-Não vai acontecer. –ela voltou a fita-lo. –Mas vamos esquecer esse assunto... Eu não vim aqui para falar de Kohaku.

-Não imaginava que viria.

-Bem, na verdade nem eu. –ela riu de maneira descontraída tentando se desligar completamente do assunto anterior. –Inuyasha que me trouxe. Eu disse a ele que era melhor avisarmos, mas acho que o senhor conhece mais ele do que eu.

-Eu compreendo o que quer dizer.

-Eu queria fazer uma visita ao senhor, mas não queria ter chegado assim de repente e ainda mais trazendo meus problemas...

-Não se aborreça com isso.

-Eu só... Bem, eu só queria ter visto o senhor de novo. –As palavras acabaram saindo de forma tão natural e tão óbvia que a própria se assustou com a tranquilidade que disse aquilo.

-Você é uma pessoa categórica. –Sesshoumaru sorriu levemente. –Tão cheia de mistérios. A palavra que te define realmente é inacreditável.

-É engraçado ouvir o senhor falar assim de mim. Porque pra mim é justamente o contrário... Eu nunca sei bem o que posso fazer ou dizer... Cada passo que dou quando estou ao seu lado faz com que eu me sinta como se estivesse numa corda bamba preste a cair. Eu nunca sei pra que lado seguir ou como me equilibrar.

-Besteira. –ele a interceptou duramente. –Você só tem que ser você... Rin, você é uma das poucas pessoas nesse mundo que não me irritam...

-Me sinto melhor sabendo disso. –ela riu de leve um pouco satisfeita. –Eu sempre acho que o aborreço.

-Se me aborrecesse não estaríamos agora aqui.

-Eu sei... –assentiu levemente e num breve devaneio prosseguiu mesmo sem coragem. –Sabe, eu estava pensando... Bem, se o senhor não se incomodar, e se tiver tempo também, é claro... Se por algum acaso... O que quero dizer mesmo é...

-Por que não diz logo? –indagou confuso cruzando os braços.

-Eu queria saber se o senhor não gostaria de sair comigo de novo, com mais calma, mais tempo... Pra um jantar quem sabe. –ela falou de uma só vez, como sempre fazia quando queria e não queria dizer alguma coisa.

-Jantar...? –ele pensou por um breve momento e em seguida assentiu. –Por que não?

-Ah! Que ótimo! –ela sorriu animada e aliviada pela resposta positiva.

-Se incomoda de ser aqui em casa? Não tenho tido muita paciência para lugares públicos, na verdade eu os tenho evitado e muito nos últimos tempos.

-É claro que não me incomodo, será maravilhoso.

-Eu irei ligar confirmando.

-Eu vou esperar... Mas...

E antes mesmo que ela pudesse continuar com aquela conversa deliciosa o telefone de Sesshoumaru tocou alto em seu bolso. E num movimento rápido ele agarrou o aparelho e já o atendeu quase que imediatamente.

Falou de forma seca e quase monossilábica.

Por fim desligou e a fitou cansado.

-Preciso voltar.

-Tudo bem. –ela assentiu um pouco chateada por não ter mais tempo com aquele ser. –Eu vou chamar Inuyasha.

-Antes de irmos quero lhe falar uma última coisa. –ele a fitou seriamente. –Tome cuidado. E se precisar de alguma coisa, se mudar de ideia referente ao ocorrido, me avise.

-Claro.

-Agora vamos.

...

A porta do apartamento 602 se abriu monotonamente enquanto aqueles dois seres adentravam silenciosamente.

Rin correu para o sofá macio e jogou-se de qualquer jeito enquanto Inuyasha trancava a porta e caminhava em direção a menina que tinha a face mais radiante do mundo.

-Não acredito que vamos jantar juntos!

-Acho que mereço um agradecimento. –Inuyasha sorriu enquanto sentava-se na poltrona em frente a ela. –Se não fosse por mim você nunca iria lá.

-Eu devo agradecer sim, mas antes tenho que te bater! –ela grunhiu ao mesmo tempo em que se sentava. –Quem mandou falar pra ele sobre Kohaku?

-Foi sem querer! Eu não pensei na hora de falar. –ele se retraiu arrependido. –Desculpe, por ter saído falando... Mas eu não tive a intenção de te prejudicar.

-Eu não quero que ele pense que estou sendo oportunista ou coisa do tipo... Não gosto de ficar enchendo ele de problemas, ele já tem problemas suficientes.

-Sesshoumaru não acha nada disso de você. Tem que parar de se preocupar com essas coisas idiotas.

-Eu sei, eu sei... Mas é que... Bem, não sei como explicar.

-Você quer fazer tudo certo, só isso. –deu de ombros. –Quer que as coisas sempre estejam perfeitas.

-É... –suspirou enquanto passava a mão nos cabelos. –Acho que sim.

-Escute, não tente ser tão robótica. Aja naturalmente, como agora.

-Eu vou tentar.

-Não tente, consiga. Sesshoumaru gosta disso.

-Está bem, está bem! –ela assentiu. –Eu vou ser mais natural daqui pra frente.

-Que bom. –ele riu levemente. –Você me assusta quando a vejo perto dele.

-O que quer dizer? –ela quase pulou do sofá ao escutar aquelas palavras.

-Porque não consegue tirar os olhos de cima dele um minuto. Acho que não consegue nem mesmo respirar. É engraçado... Não porque você faz isso, mas por ser com ele. Não sei como conseguiu se apaixonar pelo Sesshoumaru. Acho vocês dois tão diferentes.

-Eu também não sei. O que sei é que não paro de pensar nele um minuto e não consigo evitar olhar pra ele... Queria poder disfarçar, mas é tão mais forte do que eu. É constrangedor saber disso. Será que Shinji percebeu?

-É claro que percebeu. –assentiu sem problemas. –Quem não percebe? Mas não fica pensando nisso.

-Impossível não pensar...

-Rin, se te consola... Sesshoumaru faz a mesma coisa.

-Faz? Você acha mesmo? –seus olhos se encheram de luz quando escutou aquilo dos lábios do amigo a sua frente.

-Claro que sim! Eu o conheço... Nunca tinha visto Sesshoumaru assim. Ele gosta de você, sei que gosta.

-Não sabe o quanto eu fico feliz em ouvir isso!

Inuyasha sorriu ao ver a recente amiga tão alegre, entretanto ao mesmo tempo em que ficava feliz, sentiu-se cansado e melancólico demais. O sorriso não demorou muito a desaparecer de sua face dando lugar a uma morbidez mordaz.

-O que houve? –Rin indagou ao perceber a tristeza repentina do rapaz. –Eu disse alguma coisa?

-Não. –ele balançou a cabeça negativamente. –Não é nada...

-Como não é nada? Você murchou de repente... Não consigo entender. –franziu o cenho confusa aproximando-se mais do rapaz. Colocou a mão no queixo e levantou de leve o fazendo a fitar novamente. –Hei, o que houve? Confia em mim.

-Eu só estava pensando... –ele trepidou e afastou-se novamente.

-No que?

-Em como é bom estar apaixonado, em como é bom estar sentindo isso por alguém e viver uma história, mesmo que não seja das mais satisfatórias... Isso me lembra Kikyou...

-É difícil perder uma pessoa tão especial... Eu compreendo a sua dor.

-Sinto inveja de você nesse momento, não uma inveja má, não me entenda mal... É só que queria isso de novo. –suspirou cansado. –Às vezes acho que nunca mais vou ter ninguém. Que nunca mais vou sentir a mesma coisa que senti por ela. Tenho a sensação de Kikyou ter levado para dentro do túmulo meu coração e minha alma junto.

-Não fale assim! –ela o interceptou assustada. –Não pode pensar dessa forma!

-Mas é o que eu sinto! –ele agora a fitava e ela pode ver através dos olhos castanhos do rapaz toda dor reprimida e amarga de tanto tempo. –Não consigo e não aguento mais essa situação. Eu não sei mais o que fazer... Eu tenho um buraco imenso no peito que não é preenchido por nada nesse mundo. Uma ferida que parece que nunca mais irá fechar... É uma dor mórbida e inerte...

-Inuyasha...

Rin calou-se diante daquelas palavras. Não podia imaginar que aquele rapaz de riso fácil e atitudes extrovertidas fosse capaz de carregar uma dor tão inóspita e perturbadora. Ficou pensando nas melhores palavras para poder dizer-lhe, contudo até as próprias palavras tinham medo de pairar pelo ar. Engoliu a seco antes de voltar-se para Inuyasha que aquela altura já vagava em seu interior.

-Escute... –ela tentou mesmo que não tivesse certeza do que iria dizer a ele. –Esse buraco, esse vazio... Bem, acho que você vai sentir isso a vida toda. E não adianta procurar, nunca vai sentir a mesma coisa que sentiu por ela. Mas, não é tão terrível assim como parece... Você vai achar alguém, que não vai tapar esse buraco, mas que será capaz de cuidar dele. E também não vai sentir a mesma coisa que sentia pela outra, vai sentir outra coisa. Enquanto tentar procurar a mesma pessoa em outras nunca vai conseguir se livrar dessa dor. As pessoas são diferentes, Inuyasha. Não pode ficar achando que irá encontrar a cópia perfeita ou até mesmo uma pessoa parecida porque você não vai encontrar.

Um silêncio enorme e arrebatador engoliu aqueles dois seres novamente. Inuyasha recebeu aquelas palavras com um baque e não sabia nem por onde começar a refletir. As palavras diziam tudo e também não diziam nada. Era doloroso ter que admitir para si mesmo que procurava em cada canto de sua nova vida o fantasma de Kikyou.

Ele a vivia evocando e evocando e evocando.

Já estava na hora de parar. Ele sabia. Mais do que na hora até.

Mas como fazer isso? Como queimar suas fotos, suas lembranças, o gosto do beijo doce, o cheiro de flores recém-colhidas, o hálito de baunilha?

Ele respirou fundo. Olhou para o lado de fora. O sol estava mais fraco e o vento balançava as folhas das árvores no horizonte.

Pétalas carmim e cor-de-rosa caíam pouco a pouco na varanda de piso branco.

E de repente, como num choque, ele voltou-se para ela com um enorme sorriso. E mesmo que as lágrimas abarrotadas estivessem presas em seus olhos ele não conseguiu segurar as palavras que escorreram dos lábios.

-Obrigado, Rin. Obrigado por ter dito isso.

E como combinado, duas lágrimas cortaram a face bela de Inuyasha, no mesmo instante em que Rin o envolveu em seus braços femininos e afáveis.

...

-Estou atrasada! –Rin gritava enquanto enfiava tudo na bolsa de qualquer jeito.

-Atrasada pra onde? –Inuyasha deu um salto do sofá com o susto. A televisão a sua frente não era mais tão convidativa.

-Pra minha aula! –ela corria de um lado para o outro pegando coisas espalhadas pelo chão e encima dos móveis. Enfiava tudo dentro da bolsa com uma destreza impressionante.

-Puxa você não consegue nunca chegar cedo aos lugares? –ele indagou enquanto coçava a nuca perplexo.

-Eu juro que eu não era assim! Não sei o que está acontecendo comigo...

-Sei... Acredito.

-É sério!

-Olha, não precisa ficar tão desesperada! –ele levantou do sofá e a segurou pelos braços antes que ela continuasse a correr pelo apartamento de forma destrambelhada. –Eu te levo de carro.

-Jura? –os olhos dela brilharam de emoção.

-Claro.

-Então não estou mais atrasada! –ela sorriu mais calma.

-Não! Então acalme-se! Você estava me dando dor de cabeça de tanto andar pra lá e para cá.

-Combinadíssimo!

...

Kagome olhou o relógio preso confortavelmente em seu pulso. A essa hora já deveria estar em casa. Pensou consigo enquanto segurava-se na barra de ferro do trem. Estava quase chegando, mas o trem parecia não avançar nunca pelas estações do metrô.

Mal podia ver a hora de chegar em casa, tomar um banho, colocar uma roupa confortável, comer uma comida mais do que gostosa de sua prima e dormir finalmente.

Suspirou cansada.

O trem estava cheio de desconhecidos tão ansiosos para chegar em casa como ela.

...

Inuyasha entrou no apartamento novamente. Repousou a chave do carro na escrivaninha, embora tudo estivesse escuro.

Assim que iria acender as luzes acabou desistindo. Por um estranho motivo sentiu-se confortável imerso a escuridão daquele recinto.

Caminhou de vagar, seus olhos começaram a se acostumar com a pouca luminosidade e aos poucos foi reconhecendo a silhueta dos móveis mergulhados nas trevas.

Viu seu violão no canto, repousado na parede como quem descansa.

Sentiu vontade de tocar. Pegou o instrumento e encaminhou-se para a varanda de onde as luzes artificiais dos postes, dos prédios e das casas vinham.

Por fim sentou-se no chão e pôs-se a tocar monotonamente.

O céu era estrelado. O vento era fresco e balançava levemente seus cabelos negros.

Estava tão compenetrado em sua melodia que nem se deu conta de que a porta havia sido destrancada e uma silhueta feminina adentrava o recinto quase que silenciosamente.

No primeiro momento Kagome achou que o som viesse do lado de fora. Depois pensou que pudesse estar ficando louca. Não conseguia compreender da onde vinha aquele som tão gostoso.

Deu seus primeiros passos de maneira receosa quando se deu conta de que as notas musicais bailavam ali dentro de sua casa.

Quase desmaiou quando percebeu quem estava ali tocando no escuro e sozinho.

Acabou prendendo a respiração involuntariamente. O ar ao seu redor pareceu mudar, sentiu-o mais rarefeito, difícil de puxar. Se tivesse que falar naquele instante naturalmente gaguejaria palavras tortas e sem sentido.

Ele continuou a tocar. De costas para ela, no breu que parecia eterno. Num vazio quase que fantasmagórico.

E por fim começou a cantar.

Last Kiss – Pearl Jam.

É claro que ela reconheceu a música. Era uma de suas favoritas.

Kagome franziu o cenho ainda confusa por aquela presença masculina que tanto lhe causava atordoamento.

Deu mais dois passos. Teve medo de estar ensandecida.

E quando deu mais um passo a frente acabou por esbarrar na mesa de centro que denunciou sua presença e fez com que Inuyasha levasse um susto.

O rapaz dos longos cabelos negros parou de tocar e no mesmo momento virou-se para trás onde pode levar mais um susto.

Mas logo relaxou.

Não era Kikyou. Era só Kagome. Uma mulher muito parecida fisicamente com sua amada.

-Ah... É você... –ele disse mais calmo, embora o coração ainda estivesse disparado.

-O que está fazendo aqui? –ela indagou confusa. –Está sozinho?

-Eu vou contar o que aconteceu. –ele a fitou sério. –Não tenho boas notícias.

-Aconteceu alguma coisa com a Rin? –Kagome quase surtou ao pensar nas coisas horríveis que poderiam ter acontecido com a prima.

-Acalme-se. Rin está bem agora. Venha, vamos conversar.

...

Sesshoumaru suspirou dentro do seu escritório.

Largou o computador de lado e pôs-se a fitar o teto abobadado acima de sua cabeça.

Fazia tempo que não estava conseguindo se concentrar. Isso porque certa menina de longos cabelos negros e olhos cor terra invadira sua casa aquela tarde e lhe fizera ficar mais preocupado do que nunca.

Ela havia lhe ajudado uma vez. Queria mais do que ninguém que nada de mal lhe acontecesse. Era uma dívida eterna que ele havia adquirido. E saber que ela estava em mau agouro causava a ele um desconforto infeliz.

Enervava-se toda vez que pensava que ela recusara sua ajuda. Como poderia ser tão teimosa? Não conseguia compreender o porquê de tanta recusa. Não era nada demais. Contratar um segurança ou dois não seria tão terrível. Mas como convencer aquela de vida tão singela?

Ele voltou a olhar o computador. Os números não lhe diziam nada.

Olhou o relógio e por fim deu-se por vencido.

Pegou o celular na mesa e procurou o número.

...

Rin fazia anotações no seu caderno enquanto escutava o professor tagarelar sem parar. Estava concentrada ainda que os problemas do dia a rondavam.

Olhava ora ou outra para o quadro branco, para o professor que não parava um minuto e para os alunos que mesclavam entre apatia e interesse.

Acabou bocejando um pouco cansada.

Sentiu de repente o celular encima da mesa vibrar.

Quase teve um ataque do coração ao ver aquele nome cintilar. Por pouco não atendeu de tamanha perplexidade.

Atendeu ao aparelho no mesmo minuto. Abaixou-se atrás da mesa para poder falar.

-Alô?

-Rin. Sou eu.

-Oi. –ela lhe dizia em sussurro.

-Por que está falando assim? –indagou confuso.

-Estou em aula.

-Ah... Desculpe, eu tinha me esquecido. Mas o que quero falar é breve.

-Estou ouvindo.

-Sexta à noite podemos jantar. Irei tirar uma folga.

-Sexta está perfeito.

-Nos vemos então na sexta. Mandarei um motorista a buscar as oito.

-Mas...

E antes que ela pudesse reivindicar o tal motorista o telefone havia sido desligado. Ela ergueu-se novamente e acabou levando um susto ao ver o professor a fitando raivosamente do centro da sala.

Engoliu a seco.

Estou ferrada.

...

CONTINUA...

Nota da Autora:

Olá!

Vocês devem ter pensando que eu morri! Bem foi quase isso hehe!

Pois bem, queria pedir desculpas a vocês por esse imenso atraso! Eu realmente estou deixando a desejar nas postagens, mas acreditem esse ano tem sido um dos piores da minha vida.

Não só pela faculdade, mas também porque eu entrei em depressão profunda nos últimos tempos.

Tenho vivido desventuras em série e isso não foi nenhum pouco legal pra minha sanidade mental hehe!

Mas eu tenho me recuperado nos últimos tempos =)!

E acho que ficarei bem.

Se eu não postar mais eu morri. Brincadeira =p!

Bem, eu queria poder falar mais. Mas eu realmente não estou com paciência e meu humor tem estado abominável. Espero que pelo menos a mão para escrever os capítulos ainda esteja a mesma.

Não me abandonem !

Queria agradecer pela paciência e pelo carinho.

Agradecer também aos novos leitores que tem me mandado reviews me incentivando cada vez mais a estar aqui.

Obrigada de coração!

Prometo que irei responder aos comentários de vocês pelo site, mas agora preciso realmente ir embora!

Beijos especiais a: Josimar, Barbara Rettore, Bruna-san, Anny-Taishou, Flavia, Becky Gemini, Lappstift, Bulma Buttowski.

E é claro a todos os outros leitores que me acompanham desde sempre.

ATÉ O CAPÍTULO 11! (que se Deus quiser sairá nesse milênio!).